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Os sentidos do ter e os Movimentos Sociais

Chegamos ao ponto da discussão sobre os significados da propriedade privada, das contingências populares e agência de Movimentos Sociais como MTST e o Movimento do Trabalhadores Sem-Teto de Rondônia.

A maior parte das famílias que se inseriram na luta por reforma urbana junto a esses Movimentos Sociais apresenta necessidades prementes, dentre elas a de residir em moradia adequada. Dado a urgência dessa necessidade e as dificuldades financeiras para supri-la por conta própria, uma alternativa é o diálogo com o Poder Municipal e o Estado, a fim de pressionar a criação de políticas públicas para esse fim, de legalização das áreas ocupadas e instalação de infra-estrutura. Ao ter essa demanda satisfeita (ou parcialmente satisfeita), o que resta da antiga identidade e o que significa a nova, de “morador”, de “proprietário”? Como dissemos, procuraremos ver esse problema por dois ângulos: o dos que “conseguem esse bem”, que lutaram por ele, e o dos Movimentos Sociais que os representam ou representavam.

No que reporta ao prisma dos que lutaram para conquistar uma casa para morar (e não para vender), essa significa a possibilidade de uma vida estável, fixa, e não mais transitória, insegura e incerta. Significa também a possibilidade de ser tratado com respeito, de ser chamado de “senhor”, de “senhora”, de ser visto como alguém integrado à sociedade, e não alguém que “força” essa integração, “invadindo o que é dos outros”. Entendo que assim como para as famílias de meninos de rua com as quais Ataíde trabalhou, o “ter uma moradia”, para os nossos colaboradores significa ocupar socialmente um espaço, exercendo direitos de cidadania. Significa ter um endereço e, a partir desse referencial, apresentar-se como cidadão, consumidor, chefe de família e habilitar-se a pleitear a admissão a um emprego, escola para os filhos, auxílio- desemprego ou auxílio humanitário de alguma instituição ou igreja 81. A conquista da casa corresponderia ao marco inicial de uma nova vida.

A casa tem o sentido de abrigo, traz a idéia de aconchego e intimidade, de “lugar da família”, que se opõe ao espaço da rua 82. Mas não podemos nos esquecer de sua outra conotação, a de propriedade e o que significa. Em uma sociedade capitalista como a nossa - em que a lógica do ter se sobrepõe a todas as outras - o não ter uma “propriedade”, um emprego ou ser despossuído de determinados bens materiais, como uma casa ou mesmo um aparelho celular “moderno” são motivos de exclusão, ou na “melhor” das hipóteses: de preconceito e tratamento desrespeitoso. O que pode ser fatal em situações de emergência, como as de doença em que se depende dos serviços públicos de saúde. Um exemplo trágico disso foi narrado por Laura em uma de nossas conversas, quando ela chegou ao posto de saúde passando mal, e por não ter comprovante de residência, por ser sem-teto, demorou a ser atendida e acabou perdendo seu bebê na sala de espera. Laura estava grávida de três meses e fazia o enxoval da criança com alegria, apesar da insegurança de ser “mãe de primeira viagem”.

Tendo como campo de interesse a relação dos Movimentos Sociais com a questão da propriedade e com seus integrantes Rodrigues e Brito assinalam que:

Ao assumiram a necessidade de ‘ser igual’ dentro do espaço urbano, os assentados na verdade continuam ajudando a compor as diferenças sociais contra as quais o MTST se coloca contra. Ser igual acaba se reduzindo a ter também água, luz e esgoto. As diferenças silenciadas nessa igualdade tendem a aumentar. Ao formularem o desejo de sair da condição de ‘invasor’ para a de ‘cidadão’, o sentido de ‘morador’, daquele que pode vir a ter voz, fica diluído. Os assentados distanciam-se da adesão política que o fazer parte do MTST exige e aproximan-no da possibilidade de ser reduzido a um veículo de alcance da ‘esfera privada.83

Tornar-se apenas um “veículo de alcance da esfera privada” é uma possibilidade gerada pelo diálogo desses Movimentos Sociais com o Estado. Diálogo que em suma, não consegue estabelecer um consenso sobre o que é cidadania, visto que as ações direcionadas a ela revelam inúmeros equívocos. O primeiro deles diz respeito às intervenções do Estado no espaço das ocupações (instalação de energia elétrica, água, coleta de lixo) e a reivindicação desses serviços pelos Movimentos Sociais, como sendo “cidadania”. É fato que a intervenção estatal nesses territórios “desviantes” do ponto de vista do planejamento urbano

[...] é fundamental para que seus moradores tenham condições de vida aceitas como mínimas em nossa organização social. No entanto, reivindicar essa intervenção como um exercício de cidadania é justamente ficar no equívoco, produzindo um achatamento do político com uma

82 DAMATTA, Roberto. A CASA E A RUA. Guanabara: Rocco, 1991.

83 RODRIGUES, Suzy Lagazzi; BRITO, Priscila Salvato. AS OCUPAÇÕES DOS SEM-TETO NA

DISCURSIVIDADE DA CIDADE. In: ORLANDI, Eni P. CIDADE ATRAVESSADA: OS SENTIDOS PÚBLICOS NO ESPAÇO URBANO. Campinas: Ed. Pontes, 2001, p.57.

concepção domesticada de cidadania. Sem dúvida, cidadania é também ter boas condições de vida e, fundamentalmente, conseguir reconhecer na ordem da cidade possibilidades de mudança. Em nosso imaginário social, cidadania e infra-estrutura têm muitas coisas se equiparando e esse é um dos equívocos que sustentam a ordem urbana. A reivindicação de infra-estrutura como cidadania tem levado ao apagamento do político e da contradição como possibilidade de desestabilizar a organização social.

A questão tem seu grau de complexidade ampliado quando pensamos que as intervenções no território das ocupações, a construção de algumas dezenas ou centenas de casas populares, bem como o cadastro para conseguir um apartamento da CDHU pode ser apenas uma forma de cooptação dos Movimentos Sociais pelo Estado, de neutralização de suas forças. No caso do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto de Rondônia, organizador da ocupação Chico Mendes, em Porto Velho, que se metamorfoseou em uma associação de moradores “Amigos de Roberto Sobrinho”, o atual prefeito da cidade, é visível a neutralização desse Movimento pelo poder administrativo local, ou o que é ainda mais sério, da corrupção dos princípios desse Movimento por um pragmatismo duvidoso. Ao perguntar a um integrante daquela ocupação o porquê do Movimento ter se transformado em uma associação de “moradores amigos” do prefeito, ele me disse que aquele era o caminho mais prático para se conseguir a legalização do terreno e a verba para o mutirão construir as casas. Não podemos negligenciar também um fator importante nesse processo de “cooptação” daquele Movimento pela Prefeitura ou de seu “deslocamento voluntário” para aquele lado: o fator carisma. Roberto Sobrinho, com seu discurso petista, bem articulado e sua aparência sóbria de professor, ganhou logo no primeiro turno as duas eleições que disputou para prefeito em Porto Velho, com ampla vantagem de votos.

Diante do exposto, podemos nos perguntar: qual é o espaço dado ao político na cidade? As ocupações parecem consumir boa parte de seu tempo em sua própria organização e reivindicação de suprimento de suas necessidades básicas, muitas vezes realizando uma metonímia do “conceito” de cidadania por seu “objeto”, ou melhor, por seus objetos: casa, escola, telefone público, luz elétrica, água tratada – o que não quer dizer que esses “objetos” não devam ser reivindicados. O poder público, por sua vez, apresenta uma “tendência” a legalizar as ocupações e enquadrá-las ao cenário urbano, tentando demonstrar, com isso, que tem controle sobre o caos que impera na cidade. Que espaços restam para o debate sobre a cidade e suas dicotomias?

Reconhecemos de todo modo, a importância dos Movimentos Sociais, que nos interstícios da cidade e dos sistemas produtivos edificam sua crítica à ordem vigente e tornam mais explícitas suas contradições.