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Os verbos auxiliares ser, estar e ter/haver

g 4 preocupou a Maria

5. Sistematização formal das estruturas de predicação

5.1. Os verbos auxiliares ser, estar e ter/haver

Os auxiliares ter/haver e estar aparecem nas construções de voz ativa, na presença, respectivamente, de um particípio e de um gerúndio (no caso es-pecífi co do português brasileiro, visto que o português europeu privilegia a estrutura com infi nitivo precedido da preposição a como estar a falar):

(127) a) A criança tem chorado.

b) A criança está chorando.

Nos dois casos, a relação de predicação se dá entre o argumento a criança e o predicador chorado (127a) ou chorando (127b). Os auxiliares ter e estar codifi cam tão somente as noções de tempo e número, portanto são gerados na posição nuclear de Flexão:

(128) SFlex

3

4 Flex

a criançai

3

Flex MO

g

3

tem/está SN SV

4 g

[ _ ]i chorado/chorando

Na relação especifi cador–núcleo de Flexão, ocorre a concordância verbal e a atribuição de Caso Nominativo ao SN “a criança” pelo auxiliar.

O auxiliar ser aparece comumente nas passivas analíticas. A estrutura passi va com a ordem Sujeito-Verbo segue de perto o percurso dos demais auxiliares, no sentido de que o verbo pleno (que tem grade temática) fi ca in situ (em SV) e a inserção de ser, um auxiliar, se dá diretamente na posição nuclear da Flexão, pois não é predicador. Sua função é puramente gramati-cal: carrega as marcas de tempo, número e pessoa. Como os demais auxilia-res, estabelece re lação de concordância com o sujeito e lhe atribui Caso Nominativo. A di ferença está em que a posição de sujeito, que, neste capí-tulo, identifi camos como especifi cador de Flexão, é ocupada pelo argumen-to interno do verbo:

GRAMATICA 3.indb 166

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167 (129) A Maria foi ameaçada.

(129a) SFlex

4

3

Flex

A Mariai

3

Flex SV

g g

foi V’

3

V SN

g 4

ameaçada [ __ ]i

Esses exemplos permitem visualizar a diferença entre estrutura argumen-tal, tratada extensivamente no capítulo anterior, e estrutura gramatical, em que se realiza a relação de concordância e a atribuição de Caso Nominativo ao sujeito da oração, expediente que se realiza no nódulo Flexão. De fato, os auxiliares codifi cam tão-somente as noções de tempo e pessoa responsáveis pela relação de concordância e atribuição de Caso Nominativo. Por esse mo-tivo, esses elementos aparecem na posição sintática que lhes é mais peculiar:

o núcleo do nódulo Flexão.

Nem sempre, porém, a língua apresenta um morfema independente de fl exão, como no caso dos verbos que acabamos de tratar. Antes, na maior parte dos casos, a fl exão é um morfema preso ao verbo. Nesses casos, como se verá na seção seguinte, o verbo não é inserido diretamente em Flexão, mas movido da posição mais baixa, a partir de Sv. Nos casos em que a fl exão é uma forma independente (caso dos auxiliares), o verbo que a explicita não pode ser gerado em V, mas diretamente na posição nuclear Flex.

5.2. Os verbos transitivos e inergativos (intransitivos)

Considerando as discussões a partir dos dados analisados ao longo deste capítulo e partindo do esquema geral da estrutura do Sv, apresentado no ca-pítulo 2, passemos à representação da sentença que tem o verbo como predi-cador. Observe as sentenças em (130-131):

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168

(130) A Maria abraçou o José.

(131) A Maria deu um abraço no José.

No capítulo anterior, vimos que, por paralelismo sintático e semântico, o SN Maria, argumento externo do verbo leve dar (131) e do verbo leve abstrato (130), aparece na posição em que recebe papel temático de agente12. Analogamente ao que ocorre com o esquema geral da estrutura Sv, o nódulo Flexão pode alocar um elemento abstrato. Nesse caso, o verbo sai do núcleo de Sv e sobe para Flex. A confi guração abaixo mostra a operação de subida do verbo para o nódulo Flexão:

(130a) SFlex

4

3

Flex

A Mariai

3

Flex Sv

g

3

abraço-uk [ _ ]i v’

3

v SV

g g

[ _ ]k V’

3

V SN

g 4

[ _ ]k o José

GRAMATICA 3.indb 168

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169

(131a) SFlex

4

3

Flex

A Mariai

3

Flex Sv

g

3

deu-uk [ _ ]i v’

3

v SN

g g

[ _ ]k N’

3

N SPrep

g 4

abraços no José

Na relação especifi cador–núcleo do nódulo Flexão, ocorre a relação de concordância entre os elementos que ocupam essas posições; o verbo, munido de afi xo fl exional, na posição nuclear de Flexão atribui o Caso Nominativo do SN na posição de especifi cador desse mesmo nódulo.

O verbo inergativo segue o mesmo percurso. O verbo se move para a po-sição nuclear de Flexão, onde serão lidas as informações relativas ao tempo e pessoa, e o argumento do verbo se move para a posição de especifi cador de Flexão. Lembre-se de que a diferença entre esses dois tipos de verbos está na estrutura argumental, o verbo inergativo seleciona apenas o argumento externo:

(132) A Maria trabalhou.

GRAMATICA 3.indb 169

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170

(132a) SFlex

4

3

Flex

A Mariai

3

Flex SV

g

3

trabalho-uk [ _ ]i v’

3

v SV

g g

[ _ ]k V’

g

Vg

[ _ ]k

5.3. Os verbos de ligação “ser” e “estar”

Observe as sentenças:

(133) a) A Maria é atriz.

b) A Maria está grávida.

As sentenças acima exibem um verbo que a tradição gramatical chama de ligação, casos em que temos um predicativo do sujeito. Nessas sentenças, os verbos ser e estar selecionam um complemento, uma minioração (MO), no sentido de que temos um argumento (Maria) e um predicador (atriz, grávida):

(134) [MO [argumento ] [predicado]]

Tendo em vista que o predicador atribui papel temático ao seu argumento, estão cumpridas as exigências relativas à posição mais baixa da árvore. Temos, portanto, uma minioração (MO), composta de argumento de predicador não-verbal, em que o SN atriz e o SA grávida atuam como predicadores do argumento, o SN Maria.

GRAMATICA 3.indb 170

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171

(135) MO

3

A Maria atriz

grávida

Para receber o estatuto de uma estrutura oracional, o verbo ser (e estar), que explicita marcas de tempo e pessoa, sobe para o núcleo de Flex. O SN [Maria] sobe para o especifi cador do nódulo Flexão e entra em relação de concordância com o verbo em Flex, do qual recebe Caso Nominativo:

(136) SFlex

4

3

Flex

A Mariai

3

Flex SV

g

3

é/esták V’

3

V MO

g

3

[ _ ]k SN Predicado (SN/SA) [ _ ]i atriz

grávida

Essa representação capta a intuição por trás da ideia de verbo de ligação da GT, ou seja, esse tipo de verbo não é um predicador. Tem uma função puramente sintática, na medida em que codifi ca noções morfológicas de tempo e pessoa, as quais são cruciais para a confi guração de uma oração absoluta.