BISPA SNYDER :
5. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS
Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lock- out!” “Desencadeiem a Greve Geral”.
Em frente a um galpão, dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. Chegada de Joana.
JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados?
Eu posso ajudá-los. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios, mesmo nos grandes. Se alguém vier perturbar a reunião, eu não tenho medo, e acho que sou capaz de defender bem uma causa, se ela for justa. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. Além disso, eu tenho propostas a fazer.
UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da
carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. Nós, os operários, sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne, uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar, no mais tardar depois de amanhã, a greve geral. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que
tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. Essas cartas anunciam que a usina de gás, as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. Elas devem ser entregues às dez horas, essa noite, em diversos pontos dos matadouros, aos responsáveis que esperam nossa orientação... Esconda essa em seu casaco, Jack, e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens.
Um operário apanha a carta e sai.
UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham, eu
conheço o pessoal.
O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis, na esquina do Parque
Michigan.
O operário apanha a carta e sai.
O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três, em frente ao edifício da
Westinghouse! (À Joana) Quem é você?
JOANA – Fui mandada embora do emprego. ODIRIGENTEOPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal.
ODIRIGENTEOPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante.
UMOPERÁRIO – Pode ser uma espiã.
O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não, eu sei quem ela é. É do Exército da
Salvação e os policiais a conhecem bem. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. Isso é bom, pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela.
O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a
carta que lhe entregarmos?
ODIRIGENTEOPERÁRIO – Ninguém.
À Joana:
Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada.
Por este buraco fogem todos os peixes. Como se rede já não houvesse:
De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada.
JOANA – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. Eu não sou uma
espiã. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês.
O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é
também a sua?
JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam, dessa
maneira, tanta gente na rua. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano.
O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. Você pode
tranqüilamente entregar-lhe a carta. Ela é sua conhecida, dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). Ela é honesta, não é?
DONALUCKERNIDDLE – Honesta ela é.
O DIRIGENTE OPERÁRIO, dando a carta à Joana – Vá até a fábrica
Graham, galpão número cinco. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém, pergunte-lhes se são das usinas Cridle. A carta é para eles.
6. BOLSA DE CARNES
Durante toda esta cena, ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos, Meyers e Cia., etc.”
OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar, os preços estão
a mais de setenta!
OSCORRETORES – Os cabeçudos não compram, pau neles! OSFABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. SLIFT, a Mauler, encostado em uma coluna – Faça subir. MAULER:
Os senhores não respeitaram, estou vendo, O contrato assinado há pouco entre nós:
Aos operários e agora me dizem
Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. Mas os senhores se lamentarão por isso.
As conservas que comprei, entreguem-me!
GRAHAM:
Nada poderíamos ter feito,
A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco!
MAULER:
Não seria conveniente, Slift, subir muito mais, Eles já não agüentam,
Que sangrem, sim, mas que não rebentem, Pois a queda deles
Será a nossa.
SLIFT:
Faça subir. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete.
OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas, nós não
podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado.
MAULER, a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os
matadouros?
SLIFT – Ali está um.
MAULER – Então, desembucha!
O primeiro segurança faz seu relatório.
O SEGURANÇA – As multidões, senhor, são incontáveis. Se
perguntasse por uma Joana, se apresentariam dez ou talvez cem. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá, esperando. Além disso, é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados, à procura de um parente que não encontram. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência!
MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar
os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. Fala em meu nome. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. Ponha os pingos nos “is”.
O primeiro segurança sai.
GRAHAM:
Que seja, Mauler, perdido por perdido, Mil a setenta e sete. Mas para nós, é o fim!
SLIFT:
Quinhentos a setenta e sete para Graham. Acima disso, tudo a oitenta.
MAULER, voltando ao grupo:
Este negócio, Slift, não me diverte mais. Ele pode ir longe demais.
Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. Vou soltar a carne e deixá-los partir. Isso basta. É preciso que a cidade
Possa voltar a respirar. E tenho outras preocupações! Veja bem, Slift, eu me pego esgoelando-os
E não tenho tanto prazer quanto esperava. Ele repara no segundo segurança.
A encontraste?
OSEGURANÇA – Não, eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus
Negros. São centenas de milhares nos matadouros. Ainda por cima está escuro. Quando se grita qualquer coisa, o vento abafa as palavras. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar.
MAULER:
Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem, é claro. O estranho é que aqui não se ouve nada. Impossível, dizes, de achá-la?
E atiram? Encontra o Jim, por telefone. Diga-lhe para que não me procure. Senão pensarão ainda
Que fomos nós que exigimos que atirassem. O segundo segurança sai.
MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. SLIFT – A oitenta, só quinhentos.
MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino!
MAULER, que voltou para perto da coluna – Slift, eu não me sinto
SLIFT – Nem pensar. Eles ainda agüentam. E se quiseres abrandar,
serei eu quem fará subir.
MAULER
Eu preciso de ar fresco.
Continue então com o negócio, Slift,
Eu não posso mais. Aja conforme o meu espírito; Prefiro abandonar tudo
Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco, não mais.
Aja conforme o meu espírito, Tu me conheces.
Saindo ele encontra jornalistas.
JORNALISTAS – O que há de novo, Mauler?
MAULER, afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários
que eu acabo de ceder gado às fábricas. Então agora existe gado. De outra forma isso terminaria em violência.
SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OSFABRICANTES:
Mauler, nós ouvimos,
Queria vender a oitenta e cinco. Slift não tem ordem para isso.
SLIFT:
Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada
Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros.