5. Sociedade
6.3 Outros vínculos de propriedade de menor escala
Numa escala menor, surgem na documentação alguns vínculos de morgadios e capelas com peso ainda significativo na concentração fundiária. Através das confrontações de terras, ficamos a entrever como seriam as dimensões de algumas propriedades, bem como pormenores dos contornos de contratos celebrados entre senhorio e rendeiro ou foreiro. A título de exemplo, serão explanados casos com base nas escrituras de arredamento e aforamentos de alguns livros de tabelionato entre os anos de 1743 a 1822.
Na escritura de arredamento de 12 de outubro de 1748, vemos que uma parte do morgadio de José Bettencourt de Vasconcelos, residente na cidade Angra da ilha Terceira, era composta por terras de pão, pastos e rochas na ilha de São Jorge, lugar de Santo António, da freguesia do Norte Grande. Segundo a confrontação dada pelo tabelião, tratar-se-ia de uma propriedade extensa, pois a Norte confinava com os barrancos do mar e do Sul com o escalvado público, estendia-se portanto do mar à serra. Pelo seu procurador Manoel de Sousa Machado, fazia o arrendamento ao rendeiro Manoel Bettencourt Pereira, morador na Urzelina, pelo tempo de 9 anos, sendo pagos 78.000 reis anualmente, postos por sua conta e risco na cidade de Angra. Aliás, caso não pagasse a tempo em cada ano, o senhorio mandaria alguém para arrecadar a renda e pagaria o rendeiro a essa pessoa por cada dia 200 reis.
As benfeitorias nas terras passavam pela melhoria de águas (regos, valas e poços); evitar atalhos e caminhos desnecessários, apenas consentindo a servidão que é obrigado; reparar tapumes e paredes que mandar fazer o procurador, bem como calçar as rochas nas zonas que costumam despenhar. No fim do arrendamento seriam pagos os melhoramentos realizados nas propriedades41.
Para além destas propriedades, o morgadio de José Bettencourt de Vasconcelos, estendia-se a outros domínios na ilha de São Jorge, conforme consta da escritura de arredamento de 20 de junho de 1754. Um seu novo procurador, o Reverendo Padre Francisco
55 de Bettencourt, fazia o contrato com o capitão António Machado Teixeira e seu filho José Inácio da Silveira, ambos moradores na vila das Velas, que durante 9 anos pagarem 100.000 reis anuais de umas propriedades de pão e pastos, onde se diz o “tanque”. Os pagamentos seriam efetuados em três prestações, a primeira em agosto, a segunda em janeiro e a terceira em maio de cada ano agrícola. De igual modo, também tinham que pagar anualmente 1 moio de trigo à Santa Casa da Misericórdia42.
Pela escritura de arredamento de 21 de agosto de 1749, o senhorio Mathias de Sousa Pacheco, morador na Beira, era possuidor de bens pertencentes à terça que instituiu em morgado o Reverendo Padre Vigário António Alves Pereira localizados na ilha Terceira. O seu procurador, António José de Vasconcelos, fez o contrato de arrendamento com Manoel Machado Coelho, morador na freguesia de São Bento, na ilha Terceira pelo período de 4 anos no valor anual de 7 moios de trigo. Os bens arrendados são um conjunto de cerrados localizados nas freguesias da Ribeirinha, Fontinhas e São Bento.
Na descrição deste contrato parece ter havido um desentendimento com o último rendeiro, José Lopes, tendo por isso o senhorio exercido a cláusula de revogação, cabendo ao novo rendeiro Manoel Machado Coelho expulsar o “intruso” José Lopes dos seus domínios43.
Esta quebra de contrato, certamente, estaria relacionada com incumprimentos do pagamento ou descuido nos amanhos da propriedade. Pois, na escritura de reformulação de arredamento dos mesmos bens, em 2 de março de 1752, o senhorio pretende renovar com o rendeiro Manoel Machado Coelho porque “lhe havia feito bons pagamentos e cuidado bem de suas
fazendas arrendadas, novamente lhe arrendava as ditas terras reformava o dito arrendamento por mais seis anos que findam no ano de mil setecentos e cinquenta e nove”44.
Pela escritura de arredamento de parte do morgadio de José do Canto Castro Pacheco e Sampaio, residente na cidade de Angra, feita a 14 de janeiro de 1818, ficamos a conhecer alguns aspetos importantes. Este senhorio passa uma procuração dos bens que detêm na ilha de S. Jorge ao capitão-mor Joaquim José Pereira da Silveira e Sousa, sendo que na escritura de procuração intitula-se “moço e fidalgo da Casa Real”. Possuía um corpo de terras, pastos, rochas e inhames no lugar de Santo António, freguesia do Norte Grande. Os novos rendeiros Bernarda Rosa, viúva de Domingos António, e seu filho Domingos António de Sousa durante 6 anos tinham que pagar anualmente em dinheiro 140.000 reis e em géneros 18 queijos de 4 libras cada um, 3 de 10 libras, e 8 canadas de manteiga de vaca.
42 Ibidem, fls.191-191v.
43 Ibidem, fls. 134-135.
56 No domínio de terras do dito senhorio residiam outros colonos, cabendo aos novos rendeiros a tarefa de arrecadarem e cobrarem as rendas dos outros rendeiros. De igual modo, os novos rendeiros estavam proibidos de “consentirem qualquer transpasso de posses sem
expressa licença do senhorio ou de seu procurador entre sub-rendeiros para evitar confusões e dúvidas futuras”45. Na falta de pagamento da renda por parte de outros rendeiros, Bernarda
Rosa seria obrigada a repor o que faltava na sua totalidade. Esta também tinha que ficar encarregue de 31 ações que moveu contra o sargento António de Sousa Soares, oriundas de uma escritura antiga de 24 de julho de 180946.
No que concerne a vínculos de capelas, na documentação analisada apenas surgiu um caso, a capela de São Francisco Xavier, com escritura de arrendamento de 11 de dezembro de 1752. Tinha como administrador o Reverendo Padre Jorge Cardoso da Silveira, morador na vila das Velas, que arrendava umas terras de pasto e pão e mais alguns pedaços de terras de vinhas e de inhames situadas na Fajã do Porto, conhecida também por Fajã do Ouvidor, na freguesia do Norte Grande. Pela descrição das confrontações, seria uma propriedade de relativa dimensão, a Norte entestava com os barrancos do mar e do Sul com o escalvado público, sendo somente interrompida pelo caminho público.
Os rendeiros José de Sousa Machado e João Silveira de Azevedo, moradores no Norte Grande, durante 9 anos tinham que pagar 27.280 reis em cada ano e fazer as benfeitorias necessárias, de modo que as águas não causem dados, senão seriam obrigados a pagar os estragos causados47. Outros bens que pertenciam à Capela de São Francisco Xavier era um
cerrado de terra de pão aonde se diz o “Cabouco”, na Vila de Velas, que fora arrendado a 13 de março de 1753 a Manoel Gonçalves de Lemos, morador na mesma vila, durante 9 anos, pelo preço de 1 quarteiro de trigo48.
Certamente haveria outros vínculos de capelas e de morgadios com uma superfície igual ou até superior, muitos deles compostos por vários domínios espalhados pelas ilhas, fruto de uniões matrimoniais.