2. COMUNICAÇÃO PÚBLICA: NAVEGANDO NUM MAR ABERTO DE ÁGUAS
2.1 PÚBLICO, ESFERA PÚBLICA E INTERESSE PÚBLICO
Uma vez que as expressões “público”, “esfera pública” e “interesse público” estão arraigadas às pesquisas de comunicação pública, pedimos licença ao leitor para suspendermos temporariamente a discussão sobre o tema principal deste capítulo, para voltar nossos esforços à compreensão dos significados das três primeiras palavras. Para isto, buscaremos
embasamento principalmente nas explicações de Habermas e McQuail no tocante à “público” e “esfera pública”. Já sobre “interesse público”, tomaremos o conceito apregoado pelo jornalista e professor do departamento de Jornalismo da Universidade de Brasília (UnB), Luiz Martins da Silva.
Para Habermas a definições sobre “público” são demasiadamente polissêmicas e alternam de lugar com a palavra “privado”, ao longo da história. Ele denomina “públicos” os acontecimentos que são acessíveis a todos, em oposição às sociedades fechadas, ou privadas. Como exemplo dessa variação (“público-privado”), Habermas observa os salões da idade média que antes eram considerados lugares públicos e na atualidade são lugares privados.
Público, explica, também se refere aos espaços de livre circulação como as praças públicas ou casas públicas, ou seja, onde o acesso seja público. O mesmo encontra significado diferente com relação às instituições públicas, como prédios públicos. Neste caso, aponta Habermas, a interpretação de público não corresponde, necessariamente, que os prédios estejam abertos à visitação; “eles abrigam simplesmente as instalações do Estado, e, como tais, são públicos” (HABERMAS, [1929] 2014, p. 94). Mas o mais importante entendimento de público, na teoria habermasiana, adere intimamente à ideia de esfera pública, conceito que será abordado nas próximas linhas.
Na sombra da premissa habermasiana, o pesquisador britânico Denis McQuail (2012, p.17)39 entende que enquanto adjetivo a palavra “público” representa aquilo que está aberto, contrapondo-se ao que está fechado; é o que está disponível, de fácil acesso, ao contrário da censura; refere-se ainda ao que é coletivo, o contrário do que é pessoal ou individual. Tomada como substantivo – em conformidade com a teoria social – público refere-se é de um grupo informal, de voluntariado, autônomo, formado por agentes sociais que partilham e batalham por objetivos de interesses comuns, sobretudo no que compete à política de formação de opinião (BLUMER, 1939 apud McQUAIL, 2012, p.17).
Voltando à busca do entendimento sobre “esfera pública”, faz-se mencionar que a reformulação deste conceito advém de um modelo consolidado, pelo próprio Habermas, de esfera pública política formada por pessoas privadas que detêm autonomia crítica. O conceito de esfera pública burguesa, observa, tem sua gênese ainda no século XVIII em sua mudança é
39 McQuail é considerado um dos principais nomes sobre estudos de comunicação de massa. É ele quem assina
um dos mais importantes manuais de Ciência da Comunicação, intitulado Teorias da Comunicação de Massa. 4ª. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.
influenciada, principalmente, pelos meios de comunicação – que passam a ter mais representatividade como porta-voz da sociedade; e o aumento de intervenção do Estado com relação ao bem-estar social40.
Para Habermas, a esfera pública representa uma dimensão do social que atua como mediadora entre o Estado e a sociedade, na qual os indivíduos se organizam como portadores da opinião pública. Para que a opinião pública seja constituída, deve estar assegurada de liberdade de expressão, de reunião e de associação.
O modelo de esfera pública burguesa, revistado pelo filósofo e sociólogo alemão é definido em uma de suas principais obras Mudança Estrutural da Esfera Pública41:
A esfera pública burguesa pode ser entendida, antes de mais nada, como uma esfera de pessoas privadas que se reúnem em um público. Elas reivindicam imediatamente a esfera pública, regulamentada pela autoridade, contra o próprio poder público, de modo a debater com ele as regras universais das relações vigentes na esfera da circulação de mercadorias e do trabalho social – essencialmente privatizada, mas publicamente relevante. O médium desse debate político é peculiar e sem precedente histórico: a discussão pública mediante razões (HABERMAS, [1929] 2014, p. 135 –
grifo do autor).
Entendida com um significado mais abrangente e moderno, McQuail conceitua esfera pública como:
[...] espaço se refere principalmente aos canais e redes de comunicação de massa e ao tempo e espaço reservado na mídia para dar atenção aos assuntos de interesse geral, cuja comunicação aberta e livre seja relevante e válida. Quando os tópicos supostamente pertencem a esse “domínio público”, existe uma exigência justificada do direito de receber informações e publicá-las (McQUAIL, 2012, p. 17).
Por fim, mas não menos importante, passemos ao detalhamento do termo “interesse público”. Na definição de Banfield (1955 apud McQUAIL, 2012, p. 42) “alguma coisa pertence ao interesse público se serve aos objetivos de todo o público em vez de apenas alguns setores do público”.
Para o professor Luiz Martins da Silva (2006, p. 50), o termo está intimamente ligado à lógica do jornalismo, ou seja, do que pode ser entendido como notícia jornalística voltada ao interesse público. Silva pontua três categorias distintas de interesse público do cidadão, atendido pelo jornalismo. Curiosamente uma dessas categorias se respalda no artigo 37 da Constituição Federal, sobre o Princípio da Publicidade.
40 HABERMAS, 2014, passim.
41 HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública: investigações sobre uma categoria da sociedade
Segundo o autor, pressupõe-se que basicamente os assuntos de interesse público estejam relacionados ao dinheiro público, mas nem só deste assunto vive a vida pública. A publicidade acerca das ações que incidem na vida pública também deve ser considerada como interesse público, pois corresponde ao princípio da visibilidade da coisa pública, qualidade intrínseca ao regime republicano.
No caso do Princípio da Publicidade, Silva afirma que o Estado se comunica com a sociedade em três situações: 1) para prestação de contas do dinheiro público (publicidade legal); 2) como Estado-tutor no intuito de informar, formar e conclamar a colaboração dos cidadãos no compromisso da construção do bem-comum (publicidade institucional); e 3) para proclamação de valores ao cidadão: sentimento de patriotismo, nacionalidade etc. No que se refere ao Princípio da Publicidade, entendemos que há uma consonância entre os pontos levantados por Silva (2006), Bucci (2015) e as funções da Comunicação Pública no pensamento do francês Pierre Zémor.