3 Logística, Estratégia e Competitividade
3.4 O Papel do Acaso, da Oportunidade («Chance») e do Estado no Determinante
3.4.2 O Papel do Estado
Vivem-se tempos, hoje-em-dia, em que os movimentos transnacionais põem em causa os «estados-nação», sobretudo como pretenso regulador da troca comercial tornando a hipotética privacidade individual num conjunto de experiências locais com características cada vez mais globais55 e iguais, tal como refere Carvalho, Crespo (1996). Acerca deste tema, Porter (1985), chama mesmo a atenção para o importante papel que os governos dos estados podem assumir no determinante da competitividade não só entre as empresas como também entre os países, no plano internacional.
Tal como o acaso ou a oportunidade, o governo de um estado, não é um factor que tenha sido considerado por aquele autor como sendo uma força do determinante da competitividade, mas antes um importante influenciador desse mesmo determinante. Para além de reconhecer a importância do papel dos governos, Porter (1985), vai mais longe e conclui, de acordo com os estudos que levou a cabo que, ele, o Estado, é também ”inevitavelmente parcial”. Por outro lado se o governo pode influenciar cada uma das quatro forças é, no entanto, também influenciável por elas e/ou por cada um delas. Porter (1985), conclui assim que é, geralmente, mais elucidativo considerar a forma como o Estado afecta a concorrência através das cinco forças competitivas do que considerá-lo, em si mesmo, como mais uma das forças.
Da mesma forma e segundo Barata (1995), o nível de rivalidade é também influenciado através da capacidade do poder público para directa ou indirectamente, actuar sobre o crescimento dos sectores e a respectiva estrutura de custos. Efectivamente, em muitos domínios o Estado actua como comprador ou como fornecedor. Por outro lado a legislação emanada impõe limites ao comportamento das empresas que actuem quer como clientes quer como fornecedoras. O Estado afecta igualmente a concorrência através da referida legislação ou da atribuição de subsídios; além disso pode ser mais ou menos regulamentador, e, portanto, mais ou menos interventor de acordo com a vontade política do governo que em cada momento exerça o respectivo mandato.
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Muitos autores utilizam o termo «glocal» para caracterizar um fenómeno ou uma estratégia, com as referidas características simultaneamente globais e locais (vidé 4.4).
Ilustração 34 – O Determinante da Competitividade Completo. Fonte: Porter, 1990, p.-127.
Na ilustração acima, baseada em Porter (1990), é possível verificar a acção do Estado e do acaso ou oportunidade estratégica como factores influenciadores das restantes forças do determinante da vantagem competitiva. Por via dos fenómenos da globalização da economia da informação e dos capitais, assiste-se hoje á fuga de pessoas, capital e sedes das empresas para os locais onde os governos dos Estados respectivos atribuem mais subsídios, ou onde cobram menos impostos, ou onde proporcionam vantagens adicionais específicas às empresas, grupos económicos, etc.
Pode portanto concluir-se que os sistemas logísticos ao configurem-se adequadamente de maneira a serem cada vez mais competitivos, e poderem criar mais valor, devem ter em conta não só os territórios de maior eficácia logística e os mercados, mas também, o papel do respectivo estado local no apoio à vantagem competitiva.
Não se estranhará pois que os estados entrem também em confronto, entre si, rivalizando pela vantagem competitiva.56
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Não é por acaso que um dos trabalhos mais emblemáticos de Michael Porter se intitule, precisamente, “A Vantagem Competitiva das Nações”.
Estratégia, Estrutura e Rivalidade das Empresas Indústrias Relacionadas e de Suporte Condições de Factores Condições da Procura Acaso ou Oportunidade Estado
3.5
Nota Final
Do passado, sabia-se que logística e estratégia caminhavam a par. Verifica-se agora que a logística se transformou nalguns casos no suporte fundamental da estratégia das empresas e, em muitos casos, no seu verdadeiro motor estratégico.
Temos assim a emergência da empresa orientada pela logística, o que se pode considerar como sendo uma visão estratégica de valor acrescentado, destinada a satisfazer clientes (por natureza infiéis) e a fidelizá-los.
De facto as tendências actuais, em logística, levam a empresa a centrar a sua atenção na vontade do cliente/consumidor, transportando-se assim este paradigma para a estratégia central da organização, onde funciona como determinante fundamental.
Como consequência, as cadeias de valor tal como as cadeias logísticas de abastecimento, passaram, necessariamente, a ser puxadas («pull») pelo cliente/consumidor, ao invés do que tradicionalmente acontecia no passado em que aquelas cadeias eram empurradas («push») na sua direcção.
Estamos hoje perante a evidência de que a logística, enquanto motor ou ferramenta da estratégica, está profundamente associada ao valor, à vantagem competitiva e, concomitantemente, ao futuro.
Neste novo quadro de mudança constata-se que têm mais possibilidades de êxito as empresas e organizações que melhor saibam transformar os as ameaças e ocorrências ocasionais em oportunidades estratégicas e estas, em vantagens competitivas.
Também se constata do carácter aleatório e inovador de que se reveste a oportunidade estratégica, isto porque sendo gerada por desequilíbrios, promove, ela-própria, os desequilíbrios (requisitos) necessários ao aparecimento da vantagem competitiva no processo logístico da criação do valor.
Apesar do tempo actual configurar, simultaneamente, tendências estratégicas aparentemente contraditórias de globalização e afirmação local, verifica-se que a sua utilização, se generaliza com o esbatimento das fronteiras físicas do passado.
Constata-se portanto, que os sistemas logísticos se configuram de acordo com modelos que os tornem cada vez mais competitivos de maneira a poderem criar mais valor tendo em conta não só os territórios de maior eficácia logística e os respectivos mercados como, também, o papel do respectivo estado local no apoio à vantagem competitiva. Verifica-se ainda que os estados entram também em confronto, entre si, rivalizando, eles próprios pela vantagem competitiva em prol da fidelização das empresas e organizações que se estabelecem no seu território e/ou na tentativa de aliciar outras.
Finalmente tornou-se evidente a conclusão da coincidência ou sobreposição entre os conceitos da cadeia de abastecimento e a cadeia de valor. A cadeia logística é também ela «a cadeia» de valor acrescentado.