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3. A aprendizagem cooperativa

3.6. Papel do professor

Como afirmam Johnson, Johnson e Holubec (1999), a utilização da aprendizagem cooperativa exige uma ação disciplinada por parte do professor. Os cinco elementos básicos são, não só características próprias dos bons grupos de aprendizagem, mas também representam uma disciplina que deve empregar-se adequadamente para originar condições que orientem a uma ação cooperativa eficaz. Assim, para desenvolver uma aprendizagem cooperativa eficaz e bem estruturada, é necessário que os professores compreendam a natureza da cooperação e os seus elementos caraterizadores. Neste sentido, Lopes e Silva (2009) referem que entender o

que significa a interdependência positiva, a interacção estimuladora, a responsabilidade individual, o desenvolvimento das competências sociais de forma estruturada e a avaliação do grupo permite aos professores uma utilização adequada da aprendizagem cooperativa aos casos, necessidades e alunos com características únicas e fazer ajustamentos relacionados com a sua utilização para resolver problemas que os alunos estão a ter e para o solucionarem em conjunto. (p. 20)

Carvalho e Freitas (2010) referem que são estes elementos caraterizadores que “tornam a aprendizagem cooperativa diferente de muito trabalho em grupo que se realiza nas escolas e ao qual apontam vários inconvenientes” (p. 37).

Contudo, para desenvolver uma aprendizagem cooperativa significativa é necessário que o professor aceite uma alteração profunda do modelo tradicional de aula, na forma como organiza a turma, as atividades que planifica e as condições materiais que possui (Pato, 1995). Estas condições exigem que o professor desempenhe um “papel discreto, mas não secundário”, pois apesar de ser responsável pela organização e animação das aulas, é essencial que possua uma atitude permanente de avaliação (Pato, 1995, p. 10). Assim, os professores têm de ser “engenheiros da aprendizagem cooperativa, e não meros técnicos. Um engenheiro entende conceitualmente aquilo que aplica, é capaz de ajustá-lo à sua realidade e, em caso de necessidade, consegue corrigi-lo ou consertá-lo” (Monereo & Gisbert, 2005, p. 17).

Os professores têm de saber como atuar com os alunos, “porque ninguém nasce ensinado a trabalhar em grupo no sentido de cooperar; e para isso devem ter formação adequada e uma prática orientada” (Freitas & Freitas, 2003, p. 9) Desta forma, Freitas e Freitas (2003) apresentam-nos um conjunto de posições que o professor deve desempenhar na aprendizagem cooperativa e pedagogia, sendo estes apresentados no Quadro 5 – Posições dos professores sobre a aprendizagem cooperativa e pedagogia.

Quadro 5 – Posições dos professores sobre a aprendizagem cooperativa e pedagogia

Dimensões Transmissão Transação Transformação

Conceções da aprendizagem cooperativa A aprendizagem cooperativa é uma técnica-ferramenta para gerir o trabalho de grupo. Pratica-se porque melhora os resultados dos testes e é utilizada no âmbito da aprendizagem para a mestria. A aprendizagem cooperativa leva à resolução de problemas, ao desenvolvimento de níveis elevados de pensamento e comportamentos pró-sociais. A aprendizagem cooperativa é uma filosofia da qual é explícito

um conjunto de valores que dizem respeito a relacionamento pessoal e à aprendizagem, criando uma comunidade de aprendentes que promove um clima investigativo e um diálogo crítico. Sede do controlo e sentido da autoridade Centrada no professor, que é o responsável não

só por todos os aspetos da aprendizagem como pelas condições em que é

adquirida.

Centrada nos alunos, partilhada entre eles. O professor não é autoritário, é

apenas uma “pessoa autorizada”. Ele procura que

exista mais motivação por parte dos alunos.

Centrada em comunidades de aprendizagem – o professor preocupa-se com a criação de

novos conhecimentos pelos próprios alunos, que deverão ser capazes de definir as suas

condições de aprendizagem. Papel do

Professor É o diretor, gestor, “o artista”.

É o facilitador, encorajador, “o maestro”.

É mais um aprendente, que faz parte integrante da comunidade. Conceções no âmbito das decisões tomadas pelos professores Há processos prescritos para a maior parte das

situações. A prática eficiente deve estar ligada

a comportamentos discretos dos professores.

Ensinar é uma tarefa complexa que exige decisões refletidas e

partilhadas conscientemente.

O professor considera todos os fatores contextuais e pedagógicos, mas o diálogo foca sobretudo os problemas do

poder e justiça social.

Natureza do conhecimento e maneira de conhecer O conhecimento é um corpo objetivo de informação transmitida do professor/textos para os estudantes. O conhecer enfatiza paradigmas lógicos, lineares; no processo educativo o currículo é “dar matéria”.

O conhecimento é dinâmico, mutável. O conhecimento está em relação com quem

conhece, um processo relacionado aos vários modos de pesquisa. No currículo valoriza-se mais a

profundidade do que a extensão dos conhecimentos.

O conhecimento é dinâmico, mutável e construído. Conhecer

é multidimensional, contextual ou situacional. O diálogo é

central para a criação da comunidade. Estudantes e professores são coautores, co

aprendentes. O papel do conhecimento é transformar a

sociedade através da ação comunitária. Fonte: (Freitas & Freitas, 2003) (adaptado)

Neste sentido, Johnson, Johnson e Smith (1991, citado por Lopes & Silva, 2009), referem que para implementar a aprendizagem cooperativa na sala de aula, é necessário que o professor tenha em conta três fases essenciais.

Primeiramente, a fase de pré-implementação corresponde ao período anterior à implementação da aprendizagem cooperativa, em que o professor estabelece os objetivos de ensino académico e social e explica porque utiliza a aprendizagem cooperativa, descrevendo quais são os seus benefícios e quais são os resultados da sua utilização (Lopes & Silva, 2009). Nesta fase, o professor deve formar os grupos de aprendizagem cooperativa segundo as atividades que pretende

desenvolver, tendo em conta as caraterísticas da turma e deve também “assegurar-se que todos os elementos do grupo desempenham um determinado papel” (Lopes & Silva, 2009, p. 54). A disposição da sala deve ser também um aspeto a ter em conta, pois é importante que os alunos tenham espaço para interagir e movimentar-se facilmente durante o trabalho de grupo, bem como estarem sentados de forma a conseguirem estabelecer a interação face a face com todos os membros do grupo (Lopes & Silva, 2009). Na sala devem estar visíveis as regras para o trabalho de grupo para que professor e alunos possam consultá-la sempre que seja necessário rever estas regras. Posteriormente, os materiais e métodos de ensino utilizados numa determinada atividade devem também proporcionar ao aluno o conhecimento de que podem contribuir individualmente para o sucesso do trabalho de grupo, de uma forma única e significativa, sendo que o sucesso do grupo pode estar em causa se não corresponderem às suas responsabilidades perante o grupo. Assim, as “tarefas dos grupos cooperativos devem ser interessantes, variadas, motivadoras e significativas” (Lopes & Silva, 2009, p. 55) e o professor deve especificar os procedimentos a seguir e verificar se os alunos compreenderam a tarefa. Como forma de motivar os alunos para a aprendizagem cooperativa, o professor deve também estabelecer os critérios de sucesso e informar os alunos sobre as competências que serão avaliadas, solicitando a participação dos alunos no processo de avaliação do trabalho de grupo. De seguida, é importante que o professor estruture a interdependência positiva e a responsabilidade, sendo que os grupos devem ser pequenos para que todos os elementos participem e contribuam para o trabalho de grupo. O professor deve verificar o funcionamento do grupo realizando questões sobre os resultados obtidos e promovendo um ambiente de discussão em que é proposto aos alunos que justifiquem as suas opções, individuais e de grupo. Por fim, é também importante que o professor estabeleça os comportamentos desejados, mais especificamente o desenvolvimento de competências necessárias ao trabalho de grupo (por exemplo: elogiar, esperar pela sua vez de falar, participar nas decisões), sendo também importante treinar os alunos para a resolução de conflitos que possam surgir no trabalho de grupo (Lopes & Silva, 2009).

Relativamente à fase de implementação, o professor deve ter em conta que “os alunos assumem o papel mais importante” (Lopes & Silva, 2009, p. 64). Existe um conjunto de responsabilidades que o professor deve ter em conta, tais como controlar o comportamento dos alunos durante a implementação da aprendizagem cooperativa, ou seja, deve circular pela sala e observar a forma como os grupos trabalham. Caso seja necessário, o professor pode intervir para resolver conflitos ou distrações durante a tarefa, utilizando estas intervenções para ensinar aos alunos como prevenir conflitos que possam surgir futuramente e prestar ajuda, fornecendo recursos ou

pontos de vista adicionais (Lopes & Silva, 2009). É importante que os alunos saibam se tiveram sucesso no trabalho de grupo, para isso, o professor deve elogiar os alunos e o grupo quando cumprem as suas responsabilidades e trabalham de forma adequada.

Por fim, relativamente à fase de pós-implementação, Johnson, Johnson e Smith (1991, citado por Lopes & Silva, 2009) indicam três tarefas que o professor deve desempenhar após os alunos terminarem as atividades. O professor pode optar por fazer um sumário sobre os pontos mais importantes da aula ou pedir a cada grupo que indiquem os aspetos que consideraram mais importantes durante a aula. Este processo permite ao professor “verificar a que nível de conhecimento os grupos estão a trabalhar” (Lopes & Silva, 2009, p. 65). A avaliação da aprendizagem constitui um aspeto também muito importante para o desenvolvimento de competências de aprendizagem cooperativa, sendo que o professor deve informar os alunos sobre o seu desempenho e sobre a qualidade do trabalho realizado.