3 CENÁRIOS DE PRÁTICAS RELATADAS PELOS PROFESSORES
3.1 CONHECENDO OS PROFESSORES E SEU ENSINO: UMA VISÃO GLOBAL
3.1.1 Papel do professor, ensino e aprendizagem (eixo 1)
3.1.1 Papel do professor, ensino e aprendizagem (eixo 1)
Pensar sobre o papel dos professores e suas relações com o ensino e a aprendizagem
pode ser um importante ponto de partida para analisar as práticas pedagógicas desenvolvidas
por esses profissionais em seus contextos de atuação.
A maior parte das respostas dos entrevistados e os autores que referenciam este
trabalho colocam o ensinar como aspecto central do trabalho docente, como vemos a seguir.
Quadro 1: Papel dos professores, segundo os participantes da pesquisa
PAPEL DO PROFESSOR Professor freq. %
Ensinar P1; P3; P6; P7 4 36
Educar (esse educar está ligado à aprendizagem de
conteúdos; implica desenvolver a autonomia dos
educandos) P2; P6 2 18
Ter e buscar conhecimento, saber ensinar, ser leitor, ser
humilde P1 1 9
Ser mediador do conhecimento P3 1 9
É central; organizar a rotina, atuar diretamente com os
alunos vinculando-‐os ao que precisam aprender P5 1 9
Aguçar o interesse, a curiosidade do aluno para a
aprendizagem P8 1 9
É múltiplo, amplo; é ser observador, mãe, psicólogo; é
complexo P4 1 9
TOTAL 11
No quadro 1, notamos que as respostas apontaram predominantemente para as
questões ligadas aos processos de ensino, aprendizagem e construção do conhecimento (8
respostas), exceto as afirmações da professora P4 que enfatizaram aspectos socioafetivos
(mãe e psicólogo) e também a complexidade da docência. Segundo ela,
O papel do professor é múltiplo, amplo; faz o papel de observador, tem que
intervir na hora certa. Faz papel de mãe, de psicólogo, cada criança exige um
nível de atenção. Antigamente o papel do professor era delimitado, mas hoje
é muito complexo. Os alunos do 5º ano são pré-adolescentes, cada dia é de
um jeito numa sala de 5º ano. (P4, 2015).
Destaco também a afirmação de P1 sobre a necessidade de leitura e de humildade, pois
sem estas a busca por novos conhecimentos pode ser dificultada. Em suas palavras,
O papel do professor é ensinar. Ele precisa ter o conhecimento, tem que ser
leitor, tem que ter propriedade do que está ensinando. Tem que ser humilde,
porque está trabalhando com vidas. Tem que ir atrás. Não pode deixar que o
aluno leve dúvidas para casa, a não ser que seja com o propósito de uma
reflexão. Tem que buscar o conhecimento. Os alunos ainda têm a esperança
de que o professor é quem sabe. Tem que saber ensinar, auxiliar, estar
próximo. (P1, 2015).
Vejamos o que alguns autores dizem no que respeita aos papéis dos professores
apresentados pelos entrevistados.
A recolocação do ensino como o principal papel do professor é defendida por autores
como Darling-Hammond (2014), García (2001), Marcelo García (1999) e Shulman (2014),
dentre outros. Isso fica evidente nas falas dos participantes da pesquisa e, mesmo que não
muito claramente, na colocação de P4.
Tratando da formação de professores, Darling-Hammond (2014) afirma que pesquisas
recentes constataram que “os professores que têm mais conhecimento do ensino e do
aprendizado obtêm melhores resultados e são mais eficazes com os alunos, especialmente em
tarefas que requerem pensamento em alta ordem e solução de problemas” (p. 232). A autora
continua dizendo que a principal atividade do professor é ensinar e para isso ele precisa estar
bem preparado. Entretanto, conhecer profundamente o que vai ensinar é fundamental, mas
não é suficiente.
Segundo García (2001), o papel dos professores é assegurar que os estudantes
aprendam a aprender. Para a autora, o professor é um agente cujas ações devem
intencionalmente levar os alunos à aprendizagem. Considerando a complexidade da tarefa de
ensinar, ela resume os diversos papéis dos professores: promover aprendizagens sociais e
acadêmicas; ser modelo intelectual e comportamental; estimular os alunos à reflexão de seus
próprios processos de aprendizagem; ser facilitador, educador e treinador.
Marcelo García (1999), por sua vez, afirma que os cursos de formação devem ser
eficazes a ponto de propiciar que “os professores se tornem peritos na tarefa de ensinar” (p.
80). Para o autor, refletir sobre o próprio ensino é uma atitude indispensável para que o
profissional alcance esse objetivo, que é o âmago do seu papel.
Discutindo sobre a base de conhecimento para o ensino, Shulman (2014) destaca que
ensinar não deve ser considerada uma atividade corriqueira, simples ou meramente intuitiva.
Ao contrário, é um processo complexo que exige compreensão, transformação e reflexão
(PUENTES, AQUINO e QUILLICI NETO, 2009).
Diante das colocações desses autores enfatizando a centralidade do ensino na profissão
docente e a importância do conhecimento para ensinar, conhecimento este que deve levar os
alunos à apropriação do conhecimento, podemos fazer algumas considerações sobre os cursos
brasileiros de formação docente, grandemente responsáveis por essas questões.
As ideias dos professores estão apresentadas no Quadro 2, a seguir.
Quadro 2: Contribuições do curso superior de formação
CONTRIBUIÇÕES DO CURSO SUPERIOR (APRENDIZAGENS) Professor freq. %
Teoria (novos autores, aprofundamento) e pontuação
(classificação dos docentes para atribuição de aulas) P1; P3; P4; P5; P8 5 55,5
Ajudou a compreender melhor o aluno e o processo de
aprendizagem P6; P7 2 22,2
Na parte pedagógica, estudar autores como Paulo Freire e
outros; na parte prática, apresentar os seminários P2 1 11,1
Ficou faltando a didática: como dar aula P5 1 11,1
TOTAL 9
Observamos que a maioria dos participantes (6) afirmou a predominância, na
licenciatura, da aprendizagem de teorias, fosse como revisão ou aprofundamento do que
haviam visto no curso de Magistério (Ensino Médio) ou em outros contextos.
Percebemos assim, pelas respostas, que os cursos de formação docente frequentados
priorizaram os conhecimentos teóricos, mas não aqueles relacionados ao que os professores
deveriam ensinar quando em atuação. Não houve qualquer referência ao conhecimento das
disciplinas do currículo (como Português, Matemática, Geografia etc.) nem suas
metodologias.
Os próprios participantes não pareciam perceber a importância da formação
profissional para a atuação, pois além da ênfase teórica, duas professoras (P1 e P4) afirmaram
que cursaram Pedagogia para obter melhor colocação para o ingresso na carreira e a escolha
de classes. De acordo com o artigo 4º da Resolução SE 75, de 28 de novembro de 2013, que
dispõe sobre o processo anual de atribuição de classes e aulas ao pessoal docente do Quadro
do Magistério, “para fins de atribuição de classes e aulas, os docentes serão classificados na
Unidade Escolar e/ou na Diretoria de Ensino observando-se o campo de atuação, a situação
funcional e a habilitação”.
Vejamos alguns excertos de opiniões dos professores sobre os cursos de formação.
Para mim, a principal contribuição da Pedagogia foi reforçar o que eu já
tinha aprendido no Magistério. Na Pedagogia, eu me apaixonei por autores
como Paulo Freire, Rubem Alves, Mario Sérgio Cortella, Freinet, Vygotsky.
Eu fiz CEFAM, eles comentavam desses autores. (P3, 2015).
A licenciatura foi mais para fechar a parte teórica. Na época que eu cursei o
Magistério, eles ensinavam mais coisas práticas. Na Pedagogia, você não
tem ideia de como organizar a turma, o espaço escolar... eu gosto de usar
coisas mais visuais. (P4, 2015).
As palavras de P8 parecem sintetizar essas ideias: “O curso superior contribuiu para
aperfeiçoar o que eu tinha aprendido e para conhecimento de novos autores.”
A fala de P1 também aborda essa realidade: “O curso de Pedagogia contribuiu pouco
para o meu trabalho em sala de aula, é um curso muito conteudista”. Ao perguntar-lhe o que
tinha em mente ao falar de conteudismo, ela explicou que se referia às teorias estudadas na
Faculdade e às cobranças da Secretaria da Educação (projetos que os professores têm que
desenvolver com os alunos), relatórios e demais atividades burocráticas. Em sua resposta, a
impressão que se tem é que ela misturou a formação inicial (curso voltado para o
conhecimento teórico, talvez) com o que provavelmente ocorre durante a atuação (projetos,
relatórios, burocracia...).
O professor de Educação Física (P5) era o único do grupo com diploma de mestrado
em sua área. Sua afirmação de que sentiu falta de aprender sobre como dar aula, da didática
em si, nos leva a algumas reflexões sobre as licenciaturas e demais cursos de formação de
professores. Em suas palavras,
O curso superior contribuiu para instrumentalizar as questões sobre o corpo,
o esporte, os aspectos socioculturais, noções gerais de didática, metodologia
do ensino. Só achei que ficou defasado o específico da Educação Física. A
didática em si, como dar aula de Educação Física no Ensino Fundamental.
(P5, 2015).
As situações formativas vividas por esses professores podem remeter ao pensamento
equivocado de que a prática é a única fonte de aprendizagem da docência, mas reafirmam o
que Gatti (CENPEC, 2014) disse sobre os cursos de formação inicial: além de oferecerem
uma boa base de formação “teórica”, esses cursos precisam ajudar os licenciandos a se
inserirem na prática.
Há que destacar que as opiniões dos professores podem ser um retrato dos cursos de
formação que frequentaram: se a formação ocorreu, por exemplo, no período noturno ou se os
professores já trabalhavam (dados não coletados) na época, as disciplinas ligadas às práticas
de ensino e aos estágios supervisionados podem ter ficado em segundo plano.
Tratando dos problemas e desafios dos cursos de formação em nosso país, Gatti
(CENPEC, 2014), traz algumas informações importantes:
No Brasil, abandonamos os estudos de didática; abandonamos
completamente os estudos relacionados às práticas de ensino por
confundirmos as questões metodológicas com tecnicismo. Houve uma
confusão que eu reputo de ideologismo, em que se confundiu essa gama de
conhecimentos com tecnicismo mecânico. Não podemos confundir métodos
de trabalho, perspectivas pedagógicas e práticas de ensino com
mecanicismos! O mecanismo, a perspectiva tecnicista forma um professor
robô, que decora fórmulas, roteiros, para serem aplicados com os alunos.
Tratar de métodos implica uma formação que deve ser fundamentada em
conhecimentos integrados baseados na psicologia educacional, no
desenvolvimento cognitivo-social, na Antropologia Cultural, nas Teorias de
Comunicação e outros conhecimentos que dão sustentabilidade a esse tipo de
formação. Dessa forma, você oferece para o professor um cabedal de
conhecimentos que lhe permite ser criativo – ou seja, construir a sua própria
metodologia, lógica de método, fazer escolhas fundamentadas - no trabalho
com seus alunos (GATTI in: CENPEC, 2014, p. 255).
O Quadro 3, apresentado a seguir, mostra as respostas dos professores ao serem
questionados sobre os autores que contribuíam para sua ação docente.
Quadro 3: Autores citados pelos professores entrevistados
AUTORES QUE CONTRIBUÍRAM PARA A AÇÃO DOCENTE Professores freq. %
Paulo Freire – social/ coletivo P2; P3; P7; P8 4 28,5
Vygotsky – trabalho coletivo P1; P6 2 14,2
Magda Soares, por causa da sua didática P1 1 7,1
Rubem Alves – reflexões sobre educação P3 1 7,1
Skinner P6 1 7,1
Cely Taffarel; Lino Castellani; Valter Bracht; Suraya Darido;
Dermeval Saviani P5 1 7,1
Piaget P7 1 7,1
Mario Sérgio Cortella P8 1 7,1
Não me lembro de nenhum autor/ não ajudam na prática P4; P6 2 14,2
TOTAL 14
Observamos no Quadro 3 que Paulo Freire (1921-1997) foi o autor mais citado (4
professores). Segundo P2: “Paulo Freire me ajuda na parte prática, me lembro dos seminários
que a gente fez na faculdade.”
Piaget e Paulo Freire foram mencionados por P7: “Piaget, sobre a parte funcional do
corpo, como se forma o pensamento, como a criança aprende. E Paulo Freire, que incentiva o
trabalho coletivo, a importância da comunidade. Ambos são bem flexíveis, eu uso um pouco
da teoria de cada um.”
Vemos que P8 também se referiu a dois autores. Segundo suas palavras: “Os autores
que me ajudam são Mario Sérgio Cortella e Paulo Freire. Gosto do Cortella porque ele
direciona para o que você quer alcançar. O Paulo Freire nem precisa comentar, né?”
Observamos, no Quadro 3, que Freinet, Cortella e Vygotsky não foram citados por P3
apesar de, em excerto anterior, ter afirmado interesse por seus posicionamentos.
Notamos, ainda, que P6 parece ter se contradito, pois afirmou que nenhum autor ajuda
na prática, mas citou Vygotsky (juntamente com P1) e foi a única a citar Skinner (quando
perguntada sobre autores que auxiliam na prática). No entanto, esclarece: “Já usei ideias de
muitos autores há anos, mas hoje vou no Google, mais para pegar atividades. A minha
experiência é que me ajuda. Dou aula há 12 anos. Gosto do Vygotsky e do Skinner.” (P6,
2015).
P4, que não mencionou nenhum autor, justificou seu posicionamento: “Não me lembro
de nenhum autor agora. Na prática mesmo eles não ajudam, mas eles contribuíram para minha
formação. É difícil você se apegar a uma teoria.” (P4, 2015).
A seguir, passo a comentar brevemente algumas das principais ideias desses autores,
considerando sua importância para a formação docente.
Dentre os autores mencionados pelos professores entrevistados estão Vygotsky, Paulo
Freire, Skinner e Piaget, os quais, conforme aponta Mizukami (1986), representam algumas
das principais abordagens do ensino.
Segundo Mizukami (1986), Freire é um dos principais representantes da abordagem
sociocultural. Com ênfase nos aspectos sociais, políticos e culturais, propôs uma educação
problematizadora (em oposição à concepção “bancária” de educação, caracterizada pelo ato
de “depositar” na mente dos alunos os conteúdos que deveriam ser reproduzidos), objetivando
o desenvolvimento da consciência crítica como uma forma de libertação das estruturas
opressivas da sociedade. Em seu livro Pedagogia do Oprimido (2005) descreveu sua teoria da
ação dialógica como embasamento de suas ideias da educação como prática da liberdade.
De modo geral, as ideias de Paulo Freire, supostamente bastante difundidas nos cursos
de formação dos entrevistados, valorizam o aluno como sujeito de sua aprendizagem, aquele
que deve fazer a sua “leitura de mundo” e “aprender a dizer a sua palavra” (FREIRE, 2005, p.
21). A tarefa do professor é, pois, despertar a curiosidade do aluno, promover o diálogo e a
humanização da educação.
O segundo autor mais citado (2 professores) foi Lev Semenovitch Vygotsky (1896 -
1934), considerado um dos principais representantes da abordagem sociointeracionista
(ZANOLLA, 2012). Suas ideias e, mais especificamente, o conceito de zona de
desenvolvimento proximal (que se refere à distância entre o que um aluno pode fazer sozinho
e o que pode fazer com a ajuda de outros) foram divulgadas no Brasil a partir de 1984, quando
sua primeira obra na língua portuguesa, A formação social da mente, foi publicada (SILVA e
DAVIS, 2004).
Como indicado pelos entrevistados, os estudos sobre Vygotsky parecem ter
incentivado os professores a valorizar o trabalho coletivo em sala de aula, estimulando os
alunos a se ajudarem nas tarefas e nas atividades avaliativas.
Burrhus Frederic Skinner (1904 - 1990) foi mencionado por P6. Segundo Mizukami
(1986), Skinner é um dos principais representantes da abordagem comportamentalista, que
considera a experiência como a base do conhecimento. Nessa visão, o ser humano é produto
do meio e a realidade é um fenômeno objetivo. O comportamento pode ser modificado por
meio de estímulos e é dada uma forte ênfase à direção técnica e programada da aprendizagem.
Citado por P7, Jean Piaget (1896 – 1980) representa a abordagem cognitivista, na qual
“o conhecimento é considerado uma construção contínua” (MIZUKAMI, 1986, p. 63). A
aprendizagem ativa, baseada no ensaio e no erro, na descoberta e na proposição de problemas
caracteriza essa abordagem.
Estudos sobre as ideias de Piaget deram origem ao que se conhece como
construtivismo, amplamente divulgado no Brasil a partir dos anos 1980, especialmente pelo
trabalho da pesquisadora e psicóloga Emília Ferreiro que estudou os processos de aquisição
da linguagem escrita pela criança. Segundo Sanchis e Mahfoud (2010),
A obra de Piaget trata de temas diversos, embora todos eles estejam
conectados por uma preocupação que ultrapassa cada um isoladamente:
como se dá a construção do conhecimento, o que acontece com o sujeito
nessa construção, como ele se constitui ao construir esse conhecimento?
Muitos pesquisadores desenvolveram seus trabalhos em temas mais
específicos, partindo de algum ponto da sua teoria, mas com o mesmo
objetivo de grande alcance. Seria possível citar um grande número de
autores que tiveram como referência a teoria de Piaget para enfocar algum
aspecto determinado [...].(p. 22).
Vale lembrar, neste ponto, que Piaget não era pedagogo e que “o construtivismo é uma
teoria do conhecimento e não do ensino” (DARLING-HAMMOND et al., 2005, p.53,
tradução livre). Ainda assim, de modo geral, o discurso “construtivista” foi adotado pelos
educadores brasileiros como uma forma mais moderna e eficiente de ensinar, em oposição ao
ensino dito tradicional.
Magda Soares, citada por P1, é autora de diversos livros sobre o ensino da Língua
Portuguesa na Educação Básica. Suas obras tratam de temas como alfabetização e letramento,
dentre muitos outros. O excerto a seguir elucida alguns de seus pressupostos:
Em síntese, o que se propõe é, em primeiro lugar, a necessidade de
reconhecimento da especificidade da alfabetização, entendida como processo
de aquisição e apropriação do sistema da escrita, alfabético e ortográfico; em
segundo lugar, e como decorrência, a importância de que a alfabetização se
desenvolva num contexto de letramento – entendido este, no que se refere à
etapa inicial da aprendizagem da escrita, como a participação em eventos
variados de leitura e de escrita, e o consequente desenvolvimento de
habilidades de uso da leitura e da escrita nas práticas sociais que envolvem a
língua escrita, e de atitudes positivas em relação a essas práticas [...].
(SOARES, 2004, p. 16).
As obras de Magda Soares contribuem para que os professores compreendam como se
desenvolvem os processos de leitura e escrita e a importância da contextualização e adaptação
desses processos à realidade dos aprendizes. Segundo P1, “Magda Soares trabalha com
Língua Portuguesa, gosto da sua didática, ela diz que o aprendizado é um momento.”
Ao citar o escritor, teólogo, psicanalista e educador Rubem Alves (1933 – 2014), P3
comentou que a principal contribuição desse autor para o seu trabalho em sala de aula foi a
leitura de seus textos que tratam da alegria de ensinar. Em muitas de suas obras, Rubem Alves
criticou o sistema educacional, considerando-o burocrático, antiquado e descontextualizado.
Segundo Castro (2006),
A situação descrita por Rubem Alves sobre o nosso sistema educacional
parece ser uma das razões para a existência de crianças consideradas
"fracassadas" na escola: a postura de treinamento da educação escolar na
qual apenas a repetição, a cópia e as soluções prontas parecem ser
incentivadas em sala de aula. Tal postura da escola faz com que as crianças,
muitas vezes, percam um universo todo de possibilidades - a possibilidade
do uso da imaginação e da criatividade, a possibilidade de agir no mundo, de
perguntar e de buscar respostas. Essa mesma postura também deixa de lado
os pressupostos básicos para que tais indivíduos se desenvolvam de maneira
autônoma, na medida em que não participam plenamente da construção dos
conhecimentos que os rodeiam ou do entendimento das regras que lhes são
impostas. (p. 50).
Rubem Alves destacava-se pelo uso de analogias, especialmente em seus textos sobre
educação. Em sua opinião, “um bom professor tem que ser um mestre de analogias; uma boa
analogia é como um flash de luz” (ALVES, 2008, p. 39).
Citado por P8, Mario Sérgio Cortella (1954 - ) é filósofo, educador e autor de diversas
obras que tratam de temas educacionais sob um viés filosófico. De modo geral, suas
produções (livros, textos, frases, vídeos disponíveis no You Tube etc.) têm sido amplamente
aceitas nos cursos de formação e nos contextos escolares, utilizadas como disparadores de
reflexões em reuniões pedagógicas e cursos de capacitação de professores, dentre outros. Em
seu livro Educação, escola e docência: novos tempos, novas atitudes (2014), o autor esclarece
a diferença entre escolarização e educação, afirmando que a primeira é parte da segunda e que
educar é primeiramente papel da família. Ressalta a necessidade de fortalecer os laços entre
famílias e escolas e alerta para a necessidade da escola apropriar-se dos avanços tecnológicos
para tornar as aulas mais atrativas para os alunos.
Segundo Almeida (2014),
O autor [Cortella] nos faz refletir sobre ser educador no século XXI. Para
alguns é uma atividade frenética e cansativa que tem o seu fim ao longo de
anos de correria, sem a remuneração suficiente; para outros, é a oportunidade
de repartir com o aprendiz o que sabe e ganhar com essa interação aquilo
que não tem. Citando Beda (673-735), um santo da igreja anglicana, que
disse haver três caminhos para o fracasso: a) não ensinar o que sabe; b) não
praticar o que ensina; c) não perguntar o que não sabe, o autor propõe a
inversão desses três caminhos: a) generosidade mental; b) coerência ética; c)
humildade intelectual, a fim de apontar o que seria a meta da educação hoje
pelos docentes (p. 176).
Dermeval Saviani (1943 - ), educador e filósofo, é adepto da teoria histórico-crítica da
Educação. Em suas palavras,
A pedagogia histórico-crítica surgiu no início dos anos de 1980 como uma
resposta à necessidade amplamente sentida entre os educadores brasileiros
de superação dos limites tanto das pedagogias não-críticas, representadas
pelas concepções tradicional, escolanovista e tecnicista, como das visões
crítico-reprodutivistas, expressas na teoria da escola como aparelho
ideológico do Estado, na teoria da reprodução e na teoria da escola dualista.
Durante a década de 1980, essa proposta pedagógica conseguiu razoável
difusão, tendo sido tentada, até mesmo, a sua adoção em sistemas oficiais de
ensino, como foi o caso, em especial, dos estados do Paraná e Santa Catarina
(SAVIANI, 2005, p. XI, XII, prefácio à 7ª edição).
Saviani (2005) explora as relações entre a Educação e as questões sociais numa
perspectiva progressista
17com ênfase na inclusão social. Assim como Freire (2005), considera
o educar como um ato essencialmente político.
Com exceção de Dermeval Saviani, os demais autores citados por P5 são da área de
Ciências e Saúde e tratam mais especificamente da Educação Física, por isso os abordaremos
No documento
CENÁRIOS DE PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NO 5º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL: professores, alunos e pesquisadora
(páginas 77-104)