3 CENÁRIOS DE PRÁTICAS RELATADAS PELOS PROFESSORES
3.1 CONHECENDO OS PROFESSORES E SEU ENSINO: UMA VISÃO GLOBAL
3.1.4 Processos de aprendizagem da docência (eixo 3 )
Aprender a ser professor é um processo que começa muitas vezes na infância. As
primeiras visões do que é a docência podem ser configuradas sob o olhar infantil e boa parte
delas pode permanecer até a vida adulta.
Pessoas conhecidas ou da família que são professores podem transmitir às crianças
uma espécie de legado das imagens da profissão. Aquilo que fazem (corrigir provas e
cadernos nos finais de semana, por exemplo) e o que dizem sobre os alunos, a escola e o
trabalho podem servir de fundamento para a construção de crenças sobre o ensino que muitas
vezes persistem mesmo diante de teorias e/ou ideias novas (e às vezes até contrárias)
estudadas nos cursos de formação. Assim, a história pessoal dos professores pode influenciar
não só na escolha da profissão, mas também nos modos de exercê-la.
Brincar de escolinha, assistir a programas televisivos que representam a escola e os
professores, e a vivência nos contextos escolares são fatores que podem influir na escolha
profissional e no processo de formação. Desconsiderando os professores leigos, que não
frequentaram cursos específicos para a formação docente, atualmente um professor costuma
ser aluno por pelo menos 12 anos, 9 deles no Ensino Fundamental e ao menos 3 no Ensino
Médio. Se considerarmos uma graduação de 3 ou 4 anos, um professor iniciante tem uma
experiência de 15 ou 16 anos como aluno. Assim, quando entra em sala de aula para exercer a
docência, sua experiência como estudante é grande e certamente aprendeu com ela muita
coisa sobre ser professor.
Segundo Mizukami et al., 2010), aquilo que os professores acreditam que funciona ou
que não funciona no trabalho em sala de aula, seus valores e o que pensam sobre os processos
de ensino e aprendizagem, sobre os conteúdos que ensinam e o currículo servem de
embasamento para suas práticas.
Em virtude do que foi exposto, a questão 24 colocada aos entrevistados - “Fale-me de
um professor ou professora que te marcou em qualquer época de sua vida. Por que te marcou?
O que ele(a) fazia? Como ensinava?” - foi formulada tendo em mente que se aprende a ser
professor desde a infância, quando modelos podem ser introjetados e influir parte das práticas
docentes posteriores, a despeito das mudanças que ocorrem nas pessoas e nos contextos de
atuação dos professores.
O depoimento de P1 sobre professores marcantes ilustra essas ideias sobre a influência
dos antigos professores nas práticas docentes atuais:
Tive uma professora do primário, ela trabalhava com teatro. Ensaiava a
turma e depois a gente apresentava para a escola inteira. Uma vez a gente se
apresentou no Paço Municipal. Ela conseguia “lidar” com os alunos e todos
gostavam dela. Eu era muito novinha, não lembro mais detalhes. E tinha
também o professor Gabriel, de Educação Física. Ele nunca chegou atrasado
à escola. Ele ensinava o que se ensina em academia de ginástica hoje, a
gente corria, fazia polichinelo, alongamento. Ele ensinava regras de jogos.
Ele mantinha a boa ordem e a disciplina da turma, através da fala e
respeitando os alunos. Nunca o vi “perder a linha”. Da professora eu trago o
jeito de falar com os alunos... e dele, a disciplina. É mais fácil lembrar dos
professores que eu não gostei. Por exemplo, eu tinha uma professora que
expunha os alunos, humilhava, falava para toda a sala quando algum aluno
tirava nota baixa. E uma professora de Psicologia no Magistério que só
mandava a gente ler e não dava aula. (P1, 2015).
Um aspecto que parece ter sido significativo para P1 em relação à atuação de seu
professor de Educação Física foi a questão da disciplina. De modo geral, esse é um ponto de
tensão que os professores parecem enfrentar todos os dias: o desafio de manter a turma atenta
aos conteúdos estudados, evitando conversas paralelas que não estejam relacionadas à aula,
especialmente durante as explicações sobre a matéria, desenvolvendo um clima de respeito e
cooperação na escola. Noutra ocasião, P1 comentou: “A indisciplina atrapalha muito o
desenvolvimento da aula”.
O depoimento de P2, quando perguntado sobre algum dilema vivido em sala de aula
que gostaria de resolver, também abordou a questão disciplinar:
A questão da disciplina não é só uma ação da escola ou do professor.
Deveria ser trabalhada no HTPC e nas demais reuniões. Deviam colocar a
questão não só do aprendizado, mas também da indisciplina, pois ela impede
o aprendizado. Um aluno indisciplinado interfere na aprendizagem dos
outros. Outra coisa, eu acho que se devia incentivar a presença dos pais em
sala de aula. A ausência da comunidade na escola implica na questão
disciplinar. A comunidade tem que entender que ela também educa. (P2,
2015).
P3, por sua vez, comentou sobre uma aluna que jogava os livros no chão quando não
queria fazer alguma atividade. Por diversas vezes, P3 mencionou a importância de manter o
controle do trabalho desenvolvido em sala de aula e das situações vividas no dia a dia. Em
suas palavras: “O professor não pode perder o foco da aula, tem que ficar firme, ter controle
da classe para atingir os objetivos; se deixar correr solto, se não tiver um controle da sala, a
conversa toma outro rumo e você se perde”. (P3).
Discorrendo sobre problemas de indisciplina dos alunos nas escolas de Educação
Básica, Aquino (1996) afirma que se trata de uma questão interdisciplinar, que ultrapassa o
âmbito didático-pedagógico. Segundo ele, é necessário considerar os aspectos sócio-históricos
e psicológicos que interferem nesse fenômeno. Os primeiros revelam os “condicionantes
culturais”; o último se refere à influência das relações familiares que se refletem na escola (p.
41). Ele afirma que é preciso situar os nossos alunos reais (e não ideais) no seu contexto
sócio-histórico.
Esses aspectos colocados pelo autor ressaltam a importância do conhecimento sobre os
alunos, tendo como objetivos motivá-los a aprender e despertar sua curiosidade, criando
estratégias de ensino que os incentivem a estudar, pesquisar e participar das aulas. No entanto,
como P2 ressaltou, esses alunos também precisam da orientação e do apoio da família e da
comunidade para que possam se comprometer com seu aprendizado de maneira mais efetiva.
Lembrando seus professores, os entrevistados puderam rever sua escolha profissional,
muitas vezes relacionada às suas experiências como alunos, ao incentivo dos professores ou
familiares e à valorização da profissão por esses agentes. No entanto, repetir (ou não) modelos
não basta para ensinar. Aprender a docência também passa pela escolha da carreira, pois
quem opta por ela, por se identificar com a profissão, pode ter mais chances de
comprometer-se com a atividade e exercer um bom trabalho.
Os motivos das escolhas pela docência expostos nas respostas da questão 25:
“Conte-me sua história: como se tornou professor(a)?”, são apresentados no Quadro 9 a seguir.
Quadro 9: Narrativas pessoais sobre como se tornaram professores
COMO SE TORNOU PROFESSOR Professor
Eu não queria ser professora, queria fazer faculdade de
Propaganda e Marketing; fui influenciada por minha mãe e
irmã mais velha; fui aprovada em concurso público; comecei
a trabalhar, casei, tive 2 filhas, ficou difícil mudar de
profissão; [como professora] pude conciliar trabalho e
tempo com as filhas). P1
Pelo exemplo e influência dos meus pais: meu pai era
professor de japonês e minha mãe professora do MOBRAL;
substitui minha mãe quando ela ficou doente e nunca mais
saí da profissão. P2
Durante o curso de Magistério dei aula pelo período de um
ano; depois mudei de Estado, trabalhei como balconista e
depois em empresas; fiz Pedagogia, tive 1 filho e resolvi
voltar para a área da Educação, pois precisava trabalhar e
sempre gostei da área; fui aprovada em concurso público
para professor eventual; fiz Psicopedagogia porque senti
Podemos notar que a docência continua a ser, para as mulheres, uma profissão que
permite associar o cuidado com o lar e o trabalho remunerado. Como apontado por Almeida
(2006), no contexto brasileiro, a possibilidade de conciliar maternidade e atividade
profissional se apresenta historicamente como fator importante para a escolha e permanência
de mulheres na docência. Mesmo não querendo ser ou permanecer sendo professora, P1 e P3,
em momentos que parecem ter sido cruciais em suas vidas, optaram pelo magistério. Por
outro lado, P1 e P2 tiveram influência da família, principalmente da figura da mãe, mas no
caso de P1 havia outras questões envolvidas na escolha, como a aprovação no concurso
público (possibilitando estabilidade no emprego) e o cuidado com as filhas. Portanto, dos três
apenas P2 parece ter optado efetivamente pelo magistério.
Analisando resultados de uma pesquisa com alunos de um curso de Pedagogia, Silva et
al. (2007) afirmam que a valorização da profissão docente pela família pode ser um fator
decisivo para a escolha da carreira, em grande parte dos casos. As autoras colocam que as
dimensões pessoal, afetiva e sociopolítica contribuem para a construção da identidade
docente. Afirmam também que além da influência de antigos professores, algumas
expectativas sobre a profissão, especialmente as que se relacionam à relação afetiva que
possivelmente poderão estabelecer com os alunos, também podem influir na decisão pela
profissão. Destacam a importância das histórias de vida dos entrevistados tanto em relação à
escolha profissional como aos aspectos afetivos que permeiam a atividade docente. Em suas
palavras,
As entrevistas demonstram que a relação com a escola já se encontrava
firmemente estruturada no professor iniciante ao começar o curso de
formação docente e que a socialização profissional nunca se dá num terreno
neutro, pois os entrevistados, ainda enquanto alunos, puderam observar
diversas posturas de seus professores, avaliar seus métodos de ensino, o
modo como se referiam a eles, e todas essas vivências de certa forma lhes
propiciaram as primeiras ideias sobre o que é ser professor e os
influenciaram em relação à escolha pela carreira docente. (SILVA et al.,
2007, p. 257).
O depoimento de P3, a seguir, é interessante porque chama a atenção para diversos
aspectos da profissão docente, entre eles a iniciação na carreira, a necessidade que alguns
professores sentem de aprimorar seus conhecimentos para ensinar, características dos cursos
de formação e de aperfeiçoamento profissional, a relação da vida pessoal com o trabalho, a
escola como contexto de atuação e alguns dilemas vividos pelos professores.
Quando eu estava no último ano do Magistério trabalhei dando aula durante
um ano, mas depois eu me afastei, mudei de Estado, trabalhei como
balconista, depois numa empresa de vídeo cassete. Comecei a fazer Pedagogia
e saí daquela empresa. Durante o curso de Pedagogia eu trabalhei em outra
empresa por mais 2 anos, aí eu saí, me formei, nasceu o meu filho, eu resolvi
voltar para a Educação. Passei num concurso para professores eventuais de
Ensino Fundamental I, em Santana do Parnaíba (SP). Eu trabalhava com
alunos do 1º ano do Fundamental até o EJA. Meu trabalho era cobrir o
professor que faltasse. Eu gostei de trabalhar com adultos, eles são mais
motivados, as aulas eram à noite. Cursei Psicopedagogia porque senti
necessidade de ter mais conhecimentos, mas acho que a Psicopedagogia me
ajudou pouco. Às vezes ajuda um pouco, mas a gente não tem como aplicar os
conhecimentos porque não dá tempo. Se eu for ajudar um aluno com
dificuldade, se eu quiser fazer um trabalho mais acurado com ele, os outros 30
vão ficar de lado! Este mesmo aluno com dificuldade, se eu parar para fazer
um reforço com ele, ele mesmo vai ficar atrasado. Sabe, eu decidi cursar
Psicopedagogia porque na graduação eles diziam que esse curso ia ajudar a
gente a ver as coisas com mais clareza. (P3, 2015).
A questão 26: “Como você se descreve como professor(a)?” complementa as
anteriores e aborda outros aspectos da aprendizagem docente, além de mostrar como
valorizam seu trabalho e como se veem como profissionais. Juntos, esses conhecimentos
revelam como eles aprenderam a ser os professores que são.
Quadro 10: Autodescrição dos entrevistados como professores
COMO SE DESCREVE COMO PROFESSOR Professor
Sou exigente; dou prioridade aos conteúdos; fico frustrada
quando os alunos não alcançam os resultados que eu
esperava; sou dedicada; tento fazer o melhor, poderia ser
mais esforçada. P1
Sou aplicado, assíduo, pontual; preparo os alunos para viver
no mundo capitalista; tenho desejo de aprender para ajudar
meus alunos; tenho dificuldade para preencher relatórios e
diários. P2
Busco melhorar a cada dia; busco conhecimentos através da
leitura; busco entender melhor o ser humano. P3
As indicações dos professores quanto a dar prioridade aos conteúdos, procurar
entender e ajudar os alunos, ter o desejo de aprender, de buscar conhecimentos através da
leitura e de melhorar a cada dia nos levam a refletir sobre a incompletude do conhecimento
profissional, a preocupação com os alunos e suas aprendizagens, a análise das práticas pelos
próprios professores e os diferentes tipos de conhecimento necessários para ensinar.
Shulman (2014) afirma que o conteúdo lecionado, o contexto da sala de aula e as
características físicas e psicológicas dos alunos são aspectos fundamentais que devem ser
levados em conta para se definir a base de conhecimento para o ensino. Como vimos no
capítulo que trata dos referenciais teóricos, para o autor, as quatro grandes fontes para a
construção dessa base são: a) formação acadêmica; b) os materiais didáticos, os currículos e a
estruturação da profissão docente de modo geral; c) as pesquisas educacionais e aspectos
socioculturais que influem nas atividades docentes e, finalmente, d) a sabedoria da prática.
Como mostra o Quadro 10, embora tenham mencionado a leitura e os conteúdos, os
professores parecem focados no que fazem no dia a dia em sala de aula e nos efeitos de suas
ações sobre os alunos, buscando aperfeiçoar seu saber-fazer. Isso nos leva a refletir sobre um
aspecto importante que permeia as práticas pedagógicas, ou seja, a sabedoria da prática, esta
última fonte que está diretamente ligada aos processos de aprendizagem da docência.
Os estudos de Cochran-Smith e Lytle (1999) mostram três concepções referentes à
aprendizagem da docência que tratam da relação entre conhecimento e prática: o
conhecimento para a prática; o conhecimento na prática e o conhecimento da prática.
Segundo as autoras, o conhecimento para a prática se refere ao conhecimento sobre os
conteúdos, sobre as teorias educacionais (teorias de aprendizagem e de desenvolvimento
humano) e as estratégias de ensino que tornam a prática docente mais efetiva. Nesta linha, o
conhecimento para ensinar consiste principalmente em conhecimento formal, conhecimento
de currículo e dos fins e metas da educação. Para melhorar o ensino, os professores precisam
implementar, traduzir ou colocar em prática o conhecimento gerado fora da sala de aula,
elaborado e definido por especialistas. Os três entrevistados mostraram em suas falas que
procuravam conhecer mais profundamente os conteúdos e as estratégias para melhor ensinar
seus alunos. Nesse sentido, desenvolviam seu conhecimento para a prática.
O conhecimento na prática enfatiza o conhecimento em ação. O ensino é considerado
um ofício incerto e relativamente espontâneo, situado e construído em resposta às
particularidades do dia a dia vivido nas salas de aula e nas escolas. Esta segunda ideia de
aprendizagem da docência supõe que os professores aprendem quando têm oportunidade de
refletir sobre a prática, relacionando-a às aprendizagens dos alunos. O bom ensino é visto por
essas autoras como o desenvolvimento de ações sábias em contextos e situações cambiantes e
incertos. O conhecimento necessário para ensinar bem pode ser encontrado na prática de
professores experientes que tenham sido considerados bem-sucedidos em seus contextos,
contanto que esses conhecimentos sejam compartilhados e discutidos com outros professores.
No entanto, vale ressaltar aqui que nem sempre a experiência garante bons resultados. Além
disso, mesmo em situações em que as escolhas metodológicas tenham sido consideradas ruins
por não atingirem os objetivos esperados pelos professores, elas podem proporcionar
aprendizagens, muitas vezes até mais amplas do que quando “tudo dá certo” e a prática se
perpetua...
A terceira ideia de aprendizagem da docência, que pressupõe o conhecimento da
prática, ressalta a importância do conhecimento que é produzido e trabalhado coletivamente
pelos próprios professores em exercício, em diálogo com outras fontes e com os alunos. Não
admite separação entre conhecimento formal e conhecimento prático e nem faz distinção entre
professores novatos e experientes. Nesta abordagem, o conhecimento que os professores
precisam para ensinar bem emana das pesquisas sobre ensino e aprendizagem, sobre
currículos e conteúdos e sobre os processos de escolarização; é produzido de maneira
colaborativa nos grupos de professores que analisam e partilham suas práticas, quando os
docentes tratam suas próprias salas de aula e escolas como lugares de investigação
intencional, de partilha e de colaboração, considerando as práticas e as teorias produzidas por
outros como material de reflexão e discussão.
As questões 27, 28 e 29 do eixo 3 se referiam às aprendizagens dos entrevistados com
seus alunos, colegas e outras pessoas do contexto escolar, durante o ano de 2015. Vejamos
algumas respostas (grifos meus).
Com os alunos aprendi que não adianta querer ensinar quando o aluno não
tem interesse em aprender; gosto de rotina, mas aprendi a improvisar, pois
ao planejar algo com a turma nem sempre fazem o que foi combinado; com
os colegas eu aprendi a falar menos e ouvir mais. (P1, 2015).
O trabalho em sala de aula é um aprendizado diário. Aprendi que cada um
tem seu ritmo, cada um aprende de um jeito diferente. Aprendi que quando
uma criança tem Síndrome de Down a gente tem que ter muita paciência,
muita flexibilidade. Os alunos nos ensinam através das perguntas; quando
perguntam eles já têm em mente parte da resposta. Com colegas aprendi a
preencher relatórios, etc. Aprendi muito com os gestores. (P2, 2015).
A cada dia a gente aprende. Uma coisa que eu já sabia, mas que reforçou, é
que o professor não pode perder o foco da aula, tem que ficar firme, tem que
ter controle da classe para atingir os objetivos. Nessa idade os alunos
assumem postura de adolescentes, mas se comportam como crianças.
Aprendi com alguns colegas por meio de troca de experiências, mas nem
todos estão dispostos a ajudar, muitos não querem passar suas experiências
para os outros. (P3).
As respostas dos professores apontam para aspectos importantes ligados às práticas
docentes. A colocação de P1 de que “não adianta ensinar quando o aluno não tem interesse
em aprender” levanta algumas questões como o que fazer para despertar o interesse dos
alunos, quais são suas motivações e por que nem sempre demonstram interesse em aprender
os conteúdos escolares.
Considerando o processo de raciocínio pedagógico, Shulman (2014) afirma que, de
acordo com os pressupostos da etapa da transformação, é responsabilidade do professor
despertar o interesse dos alunos e motivá-los a aprender. O autor utiliza a analogia da
confecção de uma roupa para elucidar suas ideias nesse sentido. Segundo ele, uma roupa
precisa ser adaptada e adequada ao corpo de uma pessoa para vestir apropriadamente. A
adaptação se refere ao ajuste do conteúdo a ser ensinado às características gerais dos alunos.
A adequação relaciona esse ajuste a alunos específicos. Trazendo as ideias do autor para o
contexto da pesquisa, tratar-se-ia de ajustar os conteúdos a alunos pré-adolescentes
matriculados no 5º ano (adaptação) e adequá-los aos alunos do 5º ano J em 2015, sob a
regência de P1 (adequação). Transformar os conteúdos escolares de maneira a torná-los
atraentes aos alunos, levando em conta suas motivações, interesses, habilidades e
peculiaridades certamente não é uma tarefa fácil, mas necessária.
A improvisação também parece fazer parte da rotina docente, conforme apontado por
P1. Embora todos os entrevistados tenham afirmado que preparam suas aulas, é possível que
essa preparação nem sempre corresponda às necessidades ou à realidade da turma. Além
disso, as incertezas do cotidiano, as flutuações de humor dos alunos, a falta de tempo para
planejar e a escassez de recursos para desenvolver o trabalho em sala de aula podem levar a
situações em que a improvisação se torna inevitável e até mesmo bem-vinda.
A afirmação de P2 de que “o trabalho em sala de aula é um aprendizado diário” aponta
para uma das mais desejáveis características da atividade docente, defendida por diversos
autores que afirmam que o professor deve estar sempre pronto a aprender (MARCELO
GARCÍA, 1999; SHÖN, 1987; SHULMAN, 2004; PÉREZ-GOMES, 1992). Segundo
Marcelo García (1999, p. 131), os programas de formação propõem uma concepção de
professor como “um sujeito que aprende” com seus alunos, com seus colegas, com os gestores
e por meio da reflexão sobre a sua própria prática.
No entanto, tanto P1 quanto P3 sinalizaram algumas dificuldades em relação a
No documento
CENÁRIOS DE PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NO 5º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL: professores, alunos e pesquisadora
(páginas 115-126)