3 CENÁRIOS DE PRÁTICAS RELATADAS PELOS PROFESSORES
3.1 CONHECENDO OS PROFESSORES E SEU ENSINO: UMA VISÃO GLOBAL
3.1.2 Preparar aulas e ensinar: completando o cenário
Para verificar os sentidos que os professores atribuíam às práticas pedagógicas
desenvolvidas no dia a dia em sala de aula, pedi aos 8 participantes que completassem as
seguintes frases: “Ensinar é....”; Preparar aulas é como....”. Vejamos primeiramente as frases
relacionadas ao ensinar. Elas foram divididas em dois grupos, de acordo com suas
semelhanças. O primeiro grupo enfatiza aspectos socioafetivos, como vemos a seguir.
“Ensinar é uma missão. O professor não nasce professor, ele escolhe ser professor;
tem que se dedicar.” (P1).
“Para ensinar é preciso gostar muito.” (P4).
“Ensinar é se entregar aos alunos, se dedicar.” (P5).
“Ensinar é um dom.” (P6).
“Ensinar é amar o que faz.” (P8).
Tratando da formação profissional docente no Brasil, Almeida (2006) afirma que a
ideia da educação como salvadora dos males sociais estava enraizada no ideário republicano
no início do século XX. A escola era vista como possibilidade de equalização e de ascensão
social. Assim, os professores eram tidos como os sacerdotes mediadores de tal redenção e
deveriam exercer sua missão de ensinar com abnegação e dedicação.
Ainda segundo Almeida (2006), os atributos de amor, dedicação, missão, vocação ou
sacerdócio estavam intrinsecamente ligados à docência: os professores tinham a missão
sagrada de instruir seus alunos e essa instrução garantiria o desenvolvimento da nação. Tais
visões parecem ainda permanecer no imaginário popular, tanto dos alunos como dos
professores.
A autora ressalta o fenômeno da feminização do magistério que se estendeu e se
fortaleceu no decorrer do século XX. A partir da década de 1960, o processo de
universalização permitiu um amplo acesso dos filhos dos trabalhadores à escola de educação
básica. O ideário educacional se caracterizava como burguês, moderno e laico, em sintonia
com o avanço do capitalismo. Segundo Almeida (2006, p. 91), nessa época “a classe média
passa a considerar a utilidade do trabalho feminino como forma de a família alcançar maior
bem-estar social [...] e a profissão de professora se alicerça como trabalho feminino por
excelência”.
No Brasil, a figura feminina estava historicamente vinculada aos ideais de amor, de
abnegação e de submissão. O fenômeno de feminização do magistério de alguma forma
agregou esses ideais à profissão, mesmo quando exercida por homens, explica Almeida
(2006).
Tratando de questões ligadas aos processos identitários docentes, Silva (2009) nos dá
um panorama das mudanças sociais que, de certa forma, modificaram essas ideias:
A participação do sujeito em ambientes coletivos é fundamental na
construção das identidades profissionais. Algumas mudanças sociais como a
implantação da industrialização e a universalização da educação, provocando
o rebaixamento salarial e a descaracterização do status docente,
transformaram radicalmente a identidade docente pautada tradicionalmente
na imagem de sacerdócio, mudando-a para educadores de ensino e
posteriormente para trabalhadores da educação (SILVA, 2009, p. 51).
Mesmo com as mudanças apontadas acima, a ideia de missão, de vocação (dom), de
amor, de dedicação e de abnegação (entrega) ainda se fazem presentes nas falas dos
professores entrevistados. Embora “gostar do que faz” seja algo desejável em todas as
profissões, os dados fornecidos por esses professores sugerem que é muito difícil exercer a
docência sem esse requisito.
Shulman (1999) utiliza uma analogia religiosa para ilustrar a dedicação que o trabalho
docente exige e a seriedade com que devemos tratar as questões ligadas à aprendizagem dos
alunos:
Quando levamos algo a sério, geralmente dizemos que o professamos. O
mais profundo e antigo significado da palavra ‘professar’ é fazer parte de
uma ordem religiosa e assumi-la publicamente. Professar uma fé implica
numa série de obrigações que servirão de princípios para controlar a vida
daquele que a professa, sem questionamentos. Professar uma fé por meio de
emoções e de comportamentos é um impressionante exemplo de como levar
algo a sério (SHULMAN, 1999, p. 10, tradução livre).
Para o autor, a ideia de professar está ligada ao compromisso moral e intelectual que a
docência impõe. Levar a sério a profissão docente implica codificar os conhecimentos
construídos pelos professores e examiná-los, testá-los e aperfeiçoá-los por meio de discussões
em comunidades de aprendizagem, antes de internalizá-los e praticá-los em outros contextos.
Ele defende o ensino como uma profissão dotada de um corpo de conhecimentos que devem
nortear suas práticas. Estas, por sua vez, precisam ser codificadas, analisadas e aprimoradas
para que sejam inseridas nesse corpo de conhecimentos (SHULMAN, 1999).
Antes de tratar do segundo grupo de respostas, vale ressaltar alguns aspectos
relacionados à fala de P1: “O professor não nasce professor, ele escolhe ser professor; tem
que se dedicar”. Sua fala destaca que é preciso aprender a ensinar. Segundo Mizukami (2013,
p. 23): “A docência é uma profissão complexa e, tal como as demais profissões, é aprendida”.
Dedicar-se à profissão pode significar levar a sério a preparação inicial, a aprendizagem em
serviço e o exercício da profissão no dia a dia.
O segundo grupo das falas dos professores ligadas à questão do ensinar enfatiza os
aspectos cognitivos e nos remete a alguns temas ligados à aprendizagem da docência, como
vemos a seguir.
“Ensinar é aprender, a gente ensina aprendendo.” (P2).
“Ensinar é mediar o conhecimento, é aprender junto.” (P3).
“Ensinar é aprender.” (P7).
Como já vimos, a prática em sala de aula, no dia a dia é uma das principais fontes de
aprendizagem da docência. Mizukami et al. (2010) apontam a necessidade de se “recuperar a
prática como espaço privilegiado de formação e de reflexão” (p. 40). Para as autoras, refletir
sobre a prática é essencial para que se aprenda a aprender e a ensinar. Analisar criticamente
suas próprias práticas e as de seus pares pode ser uma das bases do desenvolvimento
profissional docente.
Em relação ao preparo das aulas, duas das professoras entrevistadas utilizaram a
conhecida analogia entre saber e sabor (TIBA, 1998), ou seja, as semelhanças entre
conhecimento e alimentação:
“Preparar aula é como preparar um almoço do dia a dia; precisa alimentar de
conhecimento.” (P1).
“Preparar aula é como comer. Todo dia você tem que fazer comida, se você não comer
não tem energia, não tem forças, não tem nada.” (P4).
Há dois aspectos que podemos destacar nas falas descritas acima. O primeiro se refere
à questão da rotina. Não se pode conceber o trabalho docente sem levar em conta o
estabelecimento de rotinas que permitem o funcionamento da sala de aula como um local de
aprendizagem. Entretanto, a fala de um dos professores entrevistados sugere que a rotina
escolar é caracterizada por excesso de atividades e desafios constantes, sejam eles
pedagógicos, relacionais ou burocráticos. Segundo P5, “preparar aulas é como enfrentar uma
grande dificuldade... pela questão do tempo... a rotina não deixa sobrar tempo pra você
pensar, refletir.”. Assim, pode ser que alguns professores preparem suas aulas
automaticamente, sem uma reflexão mais aprofundada, ou talvez repetindo experiências
anteriores.
Embora os professores tenham muitas atividades a cumprir, a rotina ajuda a organizar
o que acontece em sala de aula, permitindo muitas vezes que o professor desenvolva o seu
trabalho de acordo com seu estilo pessoal. Tancredi (2009) ressalta a importância da rotina
como condição para que o professor processe as informações coletadas durante as aulas,
organizando as atividades dos alunos de modo coerente e produtivo em termos de
aprendizagem. A autora afirma que o professor aprende com as rotinas, bem como com as
mudanças e improvisações. Sem a rotina não haveria trabalho possível, mas o excesso de
rotina pode matar o prazer.
O segundo aspecto que podemos observar nas falas das professoras que relacionaram o
preparo das aulas com questões ligadas à alimentação se refere à ideia de que o conhecimento
é tão importante quanto o alimento.
É o conhecimento que faz a diferença entre uma ocupação, um ofício ou uma
profissão. Um curandeiro, por exemplo, pode curar uma pessoa, mas de modo geral não tem o
reconhecimento acadêmico da comunidade médica; além disso, normalmente, um hospital
contratará um médico devidamente diplomado.
Assim como o alimento é vital para um organismo, o corpo de conhecimentos próprio
da docência – incluindo aspectos relacionados à pesquisa e planejamento - é vital para sua
profissionalização e reconhecimento social. Com base em autores como Shulman (2014),
Gatti (CENPEC, 2014) e Darling-Hammond (2007) podemos dizer que o conhecimento está
para a profissão docente como a comida está para o corpo, ou seja, sua necessidade é
primordial. Assim como a comida tem que ser preparada, o planejamento é essencial no
exercício da profissão.
Tendo em mente outra analogia, uma das professoras afirmou que “preparar aula é
como seguir a bula de um remédio, tem que fazer direitinho.” (P7). Sua fala pode sugerir que
na docência existem conhecimentos e práticas reconhecidos no meio profissional que devem
ser seguidos com rigor. Por outro lado, uma bula é sempre igual, o que pode nos remeter à
ideia de que o professor precisa ser treinado para seguir à risca determinadas prescrições.
Ainda nessa linha de pensamento, Shulman (2014) nos alerta para o perigo de “um princípio
geral do ensino ser distorcido e transformado em prescrição” (p. 210), sem avaliação do
contexto ou das necessidades específicas dos alunos antes de sua aplicação.
As demais afirmações dos professores se referem a questões de planejamento, preparo
para situações diversas, organização e aprendizagem por meio da prática, como vemos a
seguir.
“Preparar aula é como adquirir conhecimento, se prevenir, se preparar para situações
diversas.” (P2).
“Preparar aulas é como planejar a vida no dia a dia, tudo o que você planeja tem maior
probabilidade de dar certo.” (P3).
“Preparar aulas é como se organizar, planejar para um evento importante.” (P6).
“Preparar aulas é um momento especial para aprender mais.” (P8).
Em síntese, as frases dos professores parecem mostrar que na opinião deles ensinar e
preparar as aulas eram atividades essenciais para que seus alunos aprendessem. Segundo seus
relatos, seguiam o planejamento anual, bimestral e semanal preparados por eles e pela equipe
gestora no início do ano letivo. Os livros didáticos também facilitavam o trabalho nesse
sentido, pois traziam os conteúdos prontos para serem ensinados. No entanto, devemos levar
em conta que, de modo geral, os professores tinham pouco tempo para planejar e refletir sobre
seu trabalho.
Segundo Nóvoa (2011), os conceitos de professor reflexivo, desenvolvimento
profissional docente e professor como pesquisador contribuíram para redefinir o campo de
formação de professores. No entanto, o autor nos alerta para o perigo dessas mudanças
acontecerem apenas no discurso e não na prática.
Dentre as sugestões propostas pelo autor para superar esse dilema, está a valorização
do conhecimento docente. Ele propõe que o ensino seja entendido “como uma atividade de
criação, que tem o conhecimento preexistente como matéria-prima, mas que elabora um
conhecimento novo no próprio ato pedagógico” (p. 203).
As afirmações dos professores entrevistados quanto ao ensino e ao preparo das aulas
mostram que essas atividades, longe de serem naturais e simples, são complexas, trabalhosas
e exigem conhecimentos e habilidades específicos da docência para serem executadas com
êxito.
Nóvoa (2011) propõe que os professores valorizem seus conhecimentos, refletindo
sobre suas práticas e teorizando suas experiências. Desenvolver essas ações não é fácil, pois,
de modo geral, os professores têm muito trabalho para fazer e poucas oportunidades para
refletir e discutir sobre seus conhecimentos e práticas junto a seus pares.
Passo agora a mostrar os quadros referentes ao eixo 2 (questões 18 a 23). Como já foi
colocado, a partir deste eixo, os dados se referem aos 3 professores que foram selecionados
para a continuidade da pesquisa e observação das aulas: a professora Débora (P1); o professor
Pedro (P2) e a professora Selma (P3). O eixo 2 está focado no conhecimento profissional
docente, como vemos a seguir.
No documento
CENÁRIOS DE PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NO 5º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL: professores, alunos e pesquisadora
(páginas 104-110)