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6.3 ANÁLISE DA PARTICIPAÇÃO E FUNCIONAMENTO DO CONSELHO

6.3.2 Meio Ambiente e CONDEMA

6.3.2.3 Papel e atribuições do CONDEMA e dos conselheiros

Para que haja uma participação interativa nos Conselhos é preciso que os participantes

conheçam as suas atribuições e o papel da instituição que se está participando. É necessário

que os conselheiros tenham conhecimento das possibilidades de atuação e como devem agir

nesses espaços, além do conhecimento sobre meio ambiente e entender como ocorre o

processo decisório específico dessa instituição, essas informações devem estar presentes na

legislação de criação do Conselho, no regimento interno e em outros documentos

administrativos emitidos para regulamentarem as atividades desses espaços.

Questionados sobre a existência de um Regimento Interno, 100% afirmaram que o

CONDEMA de Mossoró possuía. Porém é necessário que os conselheiros tenham

conhecimento não só da existência, mas do conteúdo do regimento interno, então ao perguntar

se haviam lido, um afirmou “Não me lembro, eu não cheguei a ver esse regimento interno”

(CONSELHEIRO 3), os demais afirmaram que leram mencionaram ainda que participaram da

elaboração:

Li, inclusive a gente passou por uma... é um processo de reformulação, a

gente outrora, a gente nomeou uma comissão para reformular algumas

disposições do nosso regulamento, principalmente sobre a composição dos

membros. Foi basicamente isso. Nas últimas reuniões as pautas foram essas,

a modificação de algumas disposições do regulamento do regimento do

conselho (CONSELHEIRO 2).

Cheguei... inclusive a participar da sua elaboração (CONSELHEIRO 3).

O CONDEMA passou por mais de uma reformulação no regimento interno, conforme

se pode observar nas análises das atas (item 6.2), estando associadas às mudanças na gestão

municipal e na composição do Conselho. As constantes alterações do regimento interno,

embora sejam necessárias as melhorias dos procedimentos para tomadas de decisões, podem

representar uma ameaça nas atividades e nos conhecimentos dos membros sobre esses

procedimentos, uma vez que suas atribuições são constantemente alteradas e não há uma

sedimentação do papel do Conselho e dos conselheiros.

A legislação municipal atribui o papel do CONDEMA, conforme visto no item 6.1,

como órgão de natureza consultiva, fiscalizadora, orientadora e deliberativa. Na visão dos

conselheiros entrevistados o papel do conselho ambiental centra-se:

Bem, na época nós tínhamos uma participação de regular, de orientar a

gestão municipal, de propor medidas que pudessem fazer com que a

gestão ambiental fosse mais eficiente. Nós julgávamos os processos de

infração no âmbito da gestão municipal, em nível de recurso. Existia uma

aplicação administrativa, uma punição, e em nível de recurso nós que

julgávamos (CONSELHEIRO 1).

O papel do conselho se resume a uma palavrinha é auxiliar. Eu penso

que o conselho ele tem um papel de auxiliar os órgãos ambientais, (...) Eu

acho que resume a auxiliar os órgãos ambientais. Muito... o papel do

conselho é importante. Regulamenta uma lei, é por exemplo a Lei

2.818/2012, a lei de...da poluição sonora, a lei do paredão de som... uma lei

municipal né?... O município ele tem competência para legislar sobre

matéria ambiental, então ter um conselho de pessoas, com membros, é

capacitados e empenhados nessa atividade...é seria possível o próprio

conselho elaborar uma minuta de lei, uma regulamentação de uma lei já

aprovada, então eu acho que o importante é isso ai...o conselho auxilia, pode

auxiliar, pode ser efetivo sim, nesse sentido (CONSELHEIRO 2).

Pelo o que eu vivenciei o papel é a aplicação da legislação do meio

ambiente a nível municipal, então ele termina deliberando algumas

situações em que ocorre o conflito entre a sociedades os empresários e o bem

público (CONSELHEIRO 3).

As entrevistas revelam que a ideia central do papel legal do CONDEMA foi

compreendida pela maior parte dos conselheiros por estarem centralizadas na orientação,

julgamento e auxílio (orientação) da gestão e dos órgãos ambientais, ou seja, um espaço

democrático e aberto à participação social. Outros conselheiros mencionaram que além dessas

formas de atuação o conselho deveria agir mais para manter o equilíbrio ambiental, assim

considerando que o conselho não desempenhava seu papel de forma parcial:

Eu acho que o papel do CONDEMA é tentar manter o equilíbrio do meio

ambiente com a ocupação do solo dentro da cidade. Na hora em que você

tem pro exemplo um rio que cruza a cidade e esse rio está morto

praticamente há muito tempo, você vê que o CONDEMA não tá tendo aí...

não está desempenhando o seu papel. Porque o que é que o gestor dizia:

‘Não nós estamos tentando salvar o rio fazendo a limpeza’, o que que eles

tiravam? Eles tiravam aquela vegetação que nasce lá dentro (...) O problema

é falta de oxigenação na água, devolva o oxigênio a água (...) Eu acho que aí

sim ele estaria solucionando o problema (...) e ai existia a questão política:

‘Não que não vamos provocar gastos pra o município’ que colocar

aspersores aeradores dentro do rio pra devolver oxigênio ia provocar não

apenas a despesa, mas de colocar esses aspersores e fazer a manutenção.

Então tudo que fazia, que provocava despesas para o município era

começado a ser barrado. E o próprio conselho era um arrecadador de

recursos, porque as multas que estavam sendo aplicadas tava levando

recurso para o município, então eu acho que o conselho tava cumprindo

em parte a sua obrigação, mas não estava cumprindo no todo. Que era

tentar lutar para preservar o que existia de recurso hídrico e de preservação

do meio ambiente (CONSELHEIRO 4).

A fala do conselheiro ao apresentar a forma como o CONDEMA vinha operando suas

ações e decisões, retoma o problema da questão partidária (ABRANCHES & AZEVEDO,

2004; TATAGIBA, 2005; GIARETTA, FERNANDES & PHILIPPI JR., 2012; CARDOSO &

NUNES, 2015) dentro desses espaços, uma vez que a limitação da participação de alguns

membros na proposição de pautas de interesse ambiental se justificaria no poder de influência

da gestão nas decisões, pois para a:

A questão política partidária... o que não é de obra faraônica que, obra

de maquiagem, mostra pra população como uma grande obra, começar

a ser barrado. Porque fazer praça era uma coisa muito melhor porque você

ia inaugurar, mostrava pra população e a população ia utilizar a praça

diretamente. Mas um aspersor para devolver o oxigênio ao Rio Mossoró não

era uma coisa que a população ia usar diretamente, ia usar indiretamente. E a

população as vezes nem ia perceber que estava sendo beneficiada

diretamente. Quer dizer, não era uma grande obra pra ser inaugurada com

festa, com fogos, é... descerrando uma fita pra mostrar pra população que

estava fazendo uma grande obra, na realidade seria uma obra até maior que

muitas praças que foram feitas aí (...) (CONSELHEIRO 4).

Além do conhecimento do papel do CONDEMA, é necessário que os conselheiros

saibam suas competências, comentados no subitem 6.1.2, para o desenvolvimento de suas

atividades e atribuições. Para maioria dos conselheiros entrevistados as suas atribuições se

restringiam na participação, estudo, discussão, avaliação e votação dos assuntos que eram

levados ao conselho, havendo assim uma diferença de opiniões e visões desses conselheiros

sobre esse ponto:

Lá o que a gente fazia era fazer as leituras dos documentos que nos eram

enviados dos problemas, situações que nos era mandada a gente fazia

Olhe nós no conselho nós não tinha uma atribuição específica, procurava

atuar de forma universal. A gente não tinha câmaras de estudo, câmaras de

pesquisa dentro do conselho. Que eu achava que deveria ter, poderíamos nos

dividir em grupos e estudar cada um uma área específica, mas não tinha

(CONSELHEIRO 4).

Não só é participar das reunião, discutir algumas coisas se eu achar que

não tá de acordo, entendeu? Só é isso (CONSELHEIRO 5).

Em contrapartida a esse entendimento o Conselheiro 2 identificou que além da

participação das demandas por meio apenas das pautas das reuniões, idealizou que seria

preciso buscar parcerias e estabelecer contato com outros órgãos e organizações para defesa

ambiental, estabelecendo, dessa forma, o que Pretty (1995) identificou como participação por

Auto-mobilização (ou participação pela mobilização da comunidade).

Na prática...vou explicar do ponto de vista de sentimento, o que eu sinto o

que é um conselheiro... meu papel... eu fico de olho... no que acontece no

trabalho, na sociedade, eu fico antenado com essas questões ambientais. Um

assunto relevante, um assunto pertinente, eu absorvo, eu trabalho na minha

mente, e no momento oportuno eu trago a discussão no conselho. Eu penso

que esse é um papel do conselheiro, e não somente votar o que está na

pauta que alguém botou lá pra definir como sendo é... a função do

conselheiro, do membro do conselho, só votar o que alguém já botou em

pauta. Eu penso que além disso é você trazer ao conselho discussões. É

por exemplo ‘Ah é a possibilidade de uma polícia ambiental lavrar os autos

de infração’, é... nos somos órgãos ambientais que trabalhamos com crime, a

gente já faz o procedimento criminal, de repente a possibilidade de lavrar um

auto de infração administrativo, um auto de infração ambiental, essa

discussão é interessante levar ao conselho, discutir, debater no conselho

no sentido de que se firmar um convênio, regulamentar essa prática,

esse é um exemplo de como eu acho que o membro do conselho ele tem

que agir, ele tem que vê uma demanda, vê o que acontece e levar para o

conselho discutir, eu penso que é esse o papel do membro do conselho

(CONSELHEIRO 2).

O conhecimento dos membros do conselho sobre suas atribuições é um dos fatores

centrais no processo participativo, pois o entendimento da importância de como participar

direciona os membros a busca de soluções dos problemas locais, posto que a participação

ativa tende a ser benéfica para o meio ambiente.

Nesse subitem, as entrevistas revelam que a maioria dos conselheiros entrevistados

tinham conhecimento da existência e leram o Regimento Interno, que constituiu um fator

essencial para o reconhecimento de suas atribuições e do papel do Conselho. A participação

da maioria dos conselheiros se restringiu a presença nas reuniões, estudo, discussão, avaliação

e votação dos assuntos que colocado em pauta pelo poder público ou presidente do Conselho.

Nesse ponto a questão partidária foi levantada como um ponto que pode dificultar o

processo participativo, uma vez que a condução do processo e as principais discussões

centralizam nos assuntos do governo, o que revela uma possível influência da gestão no

Conselho.