• Nenhum resultado encontrado

6.3 ANÁLISE DA PARTICIPAÇÃO E FUNCIONAMENTO DO CONSELHO

6.3.2 Meio Ambiente e CONDEMA

6.3.2.5 Representatividade e atuação dos conselheiros

Analisando o processo de participação por segmentos é possível perceber que alguns

membros se destacam mais do que outros, como foi demonstrado nas atas de reuniões, ao

serem questionados sobre quem mais se destacavam propondo ou criticando situações ou

ideias temos os seguintes posicionamentos:

Na realidade a única representatividade que era bastante negligenciada ou

dificilmente participava era a representatividade do legislativo, se eu não me

engano, então os vereadores eles não participavam, não existia um vereador

representante, nem ele nem o suplente dificilmente iam, mas a maior

participação de fato era da gestão municipal, mas nós tínhamos uma

participação bastante interessante da sociedade civil, agora não lembro de

fato, se eu lesse eu conseguia associar (CONSELHEIRO 1).

A maior parte dos conselheiros era do próprio setor público que mais se

destacavam, talvez porque tinham mais tempo de acesso as informações,

facilidadedeacessoas informações (CONSELHEIRO 3).

A prefeitura ela... tem muito projetos, que eu creio que assim (...) vejo mais

decisões que vem parte do poder público, e alí a gente é quem vai

decidindo as coisas. Se dá se...eles botam as propostas, eu acho que era

também assim a parte de organização que... é toda... montasse e quando

chegasse aqui também amostrasse (...) a gente vai discutir isso...vamos

discutir com a comunidade... e também trazer essa proposta. Não poderia

A maioria dos entrevistados destacou que os membros do poder público eram mais

propositivos nas propostas apresentadas dentro do CONDEMA, e tinham influência nas

votações e se destacavam mais nos debates, levantando como possíveis motivações a

facilidade e o acesso às informações e por controlarem as reuniões (TATAGIBA, 2002;

GOHN, 2006; PEREIRA, LIMA & MARTINS, 2013), conforme levantamento nas análises

das atas. A figura do presidente atrelada a gestão municipal refletia no direcionamento das

decisões, nos assuntos colocados em pauta e na legitimação das ações governamentais.

Alguns conselheiros elencaram uma participação de destaque de alguns membros da

sociedade civil, como a atuação dos segmentos de Conselhos de Classe e as Instituições de

Ensino Superior se configuravam como um dos setores da sociedade civil que mais se

destacavam, conforme se vê:

O segmento da OAB, o segmento da sociedade civil geralmente eram

setores que mais se destacavam, era os segmentos das instituições de

nível ensino superior eram as instituições que mais se destacavam com

propostas e oposição a certas propostas que eram inadequadas. Porque

não tinham nenhum compromisso político com ninguém, não eram atreladas

a nenhuma política, eram atreladas a próprio interesse em participar de dá

contribuição. A questão política comprometia na medida em que tinha

que seguir orientações, tinha que seguir padrões que atendessem aos

interesses daquele grupo político (CONSELHEIRO 4).

A não vinculação com a gestão municipal foi a justificativa levantada para uma

participação mais ativa dos membros da sociedade, uma vez que os membros representantes

do poder público tem aparentemente uma participação imposta por estar vinculada por

compromisso político e atuando no interesse de grupos políticos (ABRANCHES &

AZEVEDO, 2004; NUNES, 2010), o que comprometem o processo participativo.

O conselho precisa intervir na esfera do real para que as decisões tomadas pelos

conselheiros possam se tornar realidade nas políticas locais, assim, o controle a posteriori das

decisões tomadas dentro do CONDEMA se constituem elementos necessários para

compreenderem as áreas de atuações dos Conselhos e entenderem como os processos

participativos dentro desses espaços repercutem na defesa ambiental e na conduta social. Para

os conselheiros entrevistados as decisões que mais reproduziam efeitos eram as demandas de

julgamentos e aplicações de multas, assim como aquelas que dependiam da gestão municipal

para executar, como se vê:

Algumas decisões que nós tomávamos, elas eram executadas pela a

pasta de meio ambiente e outras demandas eram executadas, precisavam

de criações de lei, enfim, necessitavam de outros elementos. As que

dependiam da gestão da secretaria eram executadas. Eu imagino que

sim. Nós não tínhamos um acompanhamento de execução de fato

(CONSELHEIRO 1).

Algo que realmente produzia efeito. Algo que tinha efetividade. Que

produzia efeito no mundo jurídico era o julgamento dos Auto de

Infração. Isso aí com certeza produzia bastante efeito. A gente julgava

as infrações, se analisava processos de infração, e a gente julgava. Então

nesse sentido havia muito efeito, né? Muito efeito das decisões do conselho

(CONSELHEIRO 2).

Sim, se torna realidade algumas pagavam até recursos e a própria secretaria

era designada um fundo e ela própria recebia esse recurso

(CONSELHEIRO 3).

No segundo período de análise (2013-2015), a atuação do CONDEMA no processo de

tomada de decisão foi estratégica, porém uma particularidade foi o grande número de pautas

de apreciações, julgamentos e recolhimentos de taxas e multas ambientais. A limitação da

atuação do Conselho a ser um órgão julgador foi questionada pelos membros do conselho e se

tornou um fator de descontentamento de alguns, por se restringir atuação do CONDEMA nas

atribuições técnicas e burocráticas, como se vê na fala do conselheiro:

Bom nessa linha de proposta, assim... foi muito pouco né?... com relação a

produção legislativa, isso aí foi quase inexistente de fato, realmente. A gente

meio que se limitava muito ao debate, né?... e a... discussão das infrações,

certo?... era mais nesse sentido. Com relação a produção legislativa, ah sei

lá... projeto de lei... há de se reconhecer que era muito pouco. Os encontros

eles eram mensais e a pauta era muito grande, principalmente com

relação a julgamento de auto de infração. O que de alguma forma, em

algum momento gerou questionamento de algum dos membros, que

achavam que a gente estava basicamente se limitando a sermos

julgadores de auto de infração, levantou-se essa discussão em outra

oportunidade. Se questionou isso que estávamos mais sendo julgadores de

auto de infração do que propriamente, vamos dizer assim é... mais...

atuante no sentido de resolução, de legiferação em si. Realmente houve

esse descontentamento por parte de alguns, não seria de as pautas se

voltaram muito a julgamento de auto de infração (CONSELHEIRO 2).

Essa situação, conforme Acselrad (1996), Cohn (2009) e Fonseca, Bursztyn & Moura

(2012), se caracteriza como a presença da tecnificação, burocratização e linguagem

especializada nas deliberações que desvia o debate estratégico das políticas ambientais,

esvaziando o cunho político dos Conselhos ao ponto de dominar o que se decide, tornando os

Conselhos instâncias secundárias do cenário democrático participativo.

A participação não se limita em apreciar e votar. O controle das decisões é necessário

para tornar as decisões do CONDEMA aplicável nas esferas jurídica, política e social local.

Assim o acompanhamento das propostas aceitas e acatadas nas reuniões e a sua

implementação pela gestão é uma atribuição dos conselheiros. Diante disso apenas um

entrevistado afirmou: “Nós não tínhamos controle de acompanhamento (CONSELHEIRO 1),

os demais afirmaram que o acompanhamento se dava pelo repasse nas reuniões, na

observação de ocorrências de situações de proibições deliberadas e pelo questionamento aos

demais membros do Conselho, conforme as falas dos conselheiros abaixo:

Esse acompanhamento era através das reuniões, quando havia alguma

reunião que não participava na próxima era repassado o que havia

acontecido na anterior, portanto o acompanhamento era dado através desse

repasse (CONSELHEIRO 3).

Na época que eu era conselheiro eu acompanhava. Na medida em que a

gente via qual era o problema que a gente tava tentando solucionar, a

gente procurava observar aquele problema dentro da... do município se

continuava, se não continuava, e se aquela solução que a gente tinha

proposto se estava sendo implementada, no caso dos paredões, por exemplo

eu várias vezes liguei para polícia ambiental denunciando que existia

paredão tocando em tal lugar, pra que a lei fosse cumprida (CONSELHEIRO

4).

Eu acompanho, que eu pergunto quando eu chego. Eu chego querendo

saber... eu falo lá com o presidente, assim outra coisa que eu achava, eu não

só contra, mas do ponto de vista eu achava que não era pra ser assim não

poderia ser um secretário o presidente do conselho, no meu ponto de vista,

eu não sou nada contra. Porque fica muito assim ‘ah porque fulano é dali,

sabe como é essa história de política...fulando tem um cargo de confiança e é

presidente do CONDEMA, eu acho assim...pra mim essa história mais

política, que poderia sim ser uma pessoa funcionária pública, mas cargo

indicado, ‘ah fulando é secretário’...que já era secretário de uma coisa e do

CONDEMA, tudo tá ligado ao município, que você sabe com é que fica a

história, enfim termina uma questão política, assim e... eu acho que o

conselho CONDEMA era pra ser uma entidade, um órgão que é de

responsabilidade, um órgão que não poderia ter política, entendeu?

Envolvida. [...] (CONSELHEIRO 5).

O acompanhamento da implementação das decisões do CONDEMA é necessário para

o conhecimento dos conselheiros em relação às atividades e atuações do conselho, a sua

capacitação para atuar na demandas surgidas, pois o acompanhamento e o controle

proporciona aos conselheiros meio de fundamentações, informações e orientações para o

desenvolvimento do seu papel nas discussões.

As entrevistas revelam que os membros representantes do poder público tinham uma

participação mais propositiva nas apresentações e discussões de propostas apresentadas,

portanto, tinham maior influência no processo decisório pela questão do tempo e facilidade no

acesso às informações. As pautas se restringiram a atuações técnicas e burocráticas

especializadas pelo julgamento dos autos de infrações ambientais, limitando a participação e

contribuindo para o esvaziamento do Conselho.