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Paradigma de associados convergentes (DRM)

Em contraste com os paradigmas anteriormente referidos, este paradigma analisa erros de memória que ocorrem devido à forma como a memória fun- ciona, ou seja, originados pela sua natureza associativa.

Este paradigma de associados convergentes foi inicialmente desenvolvido por Deese (1959) e posteriormente adaptado por Roediger e McDermott (1995) e, por esse motivo, tem sido denominado de DRM (Deese, Roediger e McDermot). Deese (1959) analisou os erros de memória com o objectivo de demonstrar o efeito que a relação associativa das palavras tinha na evoca- ção, ou seja, como meio para confirmar a natureza associativa da memória. Em contraste, para Roediger e McDermott (1995) o estudo dos erros de me- mória foi o alvo das suas investigações. Estes autores demonstraram experi- mentalmente o fenómeno das memórias falsas, induzindo em adultos memó- rias de palavras que não tinham sido apresentadas. Enquanto Deese (1959) estudou apenas a evocação falsa através de listas compostas por palavras to- das elas associadas a uma palavra crítica não apresentada, Roediger e McDermott (1995) analisaram também o reconhecimento falso. Ao encontrar elevadas evocações falsas das palavras críticas não apresentadas, Deese (1959) concluiu que a estrutura associativa das listas era responsável pelos er- ros e que a média do grau de associação das palavras críticas aos seus asso- ciados predizia a frequência desses erros. Similarmente, Roediger e McDer- mott (1995) encontraram percentagens de evocação e de reconhecimento das palavras críticas não apresentadas semelhantes (experiência 1) ou até supe- riores (experiência 2) às percentagens relativas a palavras apresentadas no meio das listas. Também o grau de confiança reportado pelos participantes de que a palavra tinha sido apresentada não diferiu consideravelmente para es- tes dois tipos de palavras (experiência 1), da mesma forma que não diferiu a experiência fenomenológica (procedimento remember/know de Tulving, 1985) associada à recordação destas palavras (experiência 2). A quantidade de respostas que indicaram uma memória nítida de ocorrência da palavra com detalhes específicos da sua apresentação (respostas remember) foi seme- lhante para as palavras apresentadas e críticas.

Vários estudos posteriores têm replicado esta investigação, obtendo tam- bém, em diferentes línguas, efeitos evidentes de memórias falsas (e.g., Albu-

querque, 2005; Alonso, Fernández, Diez, e Beato, 2004; Gaspar e Pinto, 2000), o que indica que este paradigma representa uma poderosa técnica para produzir e estudar a existência de memórias falsas em laboratório. Esta metodologia, para além de proporcionar um maior controle experimental não conseguido com outro tipo de metodologias, tem demonstrado um efeito ro- busto do fenómeno das memórias falsas. Por este motivo tem sido por diversas vezes utilizada para estudar aspectos relacionados com a natureza das me- mórias falsas, com o intuito de analisar possíveis variáveis que possam expli- car ou ter influência neste fenómeno. Apesar de poder ser considerado um paradigma artificial não relacionado com acontecimentos da vida real, os au- tores deste paradigma sublinham que este tipo de memórias falsas, provenien- te de processos associativos, pode ocorrer diariamente em tarefas de rotina, tal como ler um artigo ou ver um programa de televisão (Roediger e McDer- mott, 2000). A informação transmitida por estes meios pode desencadear pensamentos associados, baseados na experiência passada do sujeito ou na activação das suas estruturas de conhecimento e, mais tarde, esses pensamen- tos podem ser recordados como tendo sido explicitamente referidos no artigo ou no programa de televisão. Para além disso, este paradigma permite conhe- cer não apenas o quanto as pessoas se recordam, mas também a fidelidade ou exactidão das suas memórias (Payne, Ellie, Blackwell e Neuschatz, 1996).

Apesar de ter inspirado muitos outros trabalhos, são muito recentes e es- cassos os estudos que, utilizando este paradigma, se têm interessado por co- nhecer o padrão desenvolvimental na produção de memórias falsas. Dado o rigor e a diferente metodologia empregue comparativamente aos estudos de desinformação, o paradigma DRM fornece um outro meio de conhecer a for- mação de memórias falsas em crianças para informação agregada semanti- camente.

Dois estudos sobre este tema foram publicados quase em simultâneo, for- necendo, no entanto, resultados contraditórios (Brainerd, Reyna, e Forrest, 2002; Ghetti, Qin, e Goodman, 2002).

O estudo de Brainerd e colaboradores (2002) apresenta três experiências em que na totalidade testa crianças de 5, 7, 11 anos e adultos numa tarefa de evocação, realizando na 3ª experiência também uma tarefa de reconhecimen- to. Os resultados nestas 3 experiências são muito claros ao evidenciarem a quase ausência de evocação falsa para o grupo das crianças pré-escolares (proporções desde .05 a .11), e um aumento das memórias falsas ao longo do desenvolvimento, especificamente entre o período pré-escolar e o início da adolescência e desta para a idade adulta. Para além deste resultado, os auto- res observaram que as listas que normalmente produzem valores mais eleva-

dos de evocações falsas nos adultos não produziram este tipo de efeito nas crianças.

Os resultados deste estudo relativos às diferenças etárias na quantidade de memórias falsas produzidas são opostos aos resultados dos estudos de de- sinformação. Considerando a metodologia utilizada nestes diferentes tipos de estudo, verifica-se que o paradigma DRM reporta para um tipo de memória consideravelmente distinto. Brainerd, Reyna e Forrest (2002) interpretaram es- tes resultados à luz da teoria do traço difuso. De acordo com esta teoria, as pessoas armazenam em memória duas representações separadas de aconteci- mentos, os traços gist e os traços verbatim. Os traços gist referem-se ao signi- ficado do item e são normalmente responsáveis pelas memórias falsas, neste caso, pela evocação ou reconhecimento dos itens críticos. Por sua vez, os tra- ços verbatim transmitem informação específica e contextualizada do item e são responsáveis pela evocação ou reconhecimento correctos dos itens estuda- dos e pela rejeição correcta dos itens distractores. Ambos os traços desenvol- vem-se com a idade, embora, com o desenvolvimento, as crianças formem so- bretudo representações gist. Estes autores defendem que quando as condições favorecem a recuperação verbatim as crianças mais novas apresentam mais memórias falsas relativamente às mais velhas, mas quando as condições favo- recem a recuperação gist as crianças mais velhas produzem mais memórias falsas que as mais novas (Brainerd, Reyna, e Poole, 2000). Devido ao facto deste paradigma implicar a apresentação de listas de palavras, em que todas as palavras convergem para uma outra, a extracção da agregação semântica das palavras (gist) é um elemento crucial para a produção de memórias fal- sas. Brainerd, Reyna e Forrest (2002) atribuíram às crianças pré-escolares di- ficuldades ao nível da memória gist, explicando deste modo as baixas evoca- ções falsas encontradas neste grupo etário.

No entanto, o estudo de Ghetti, Qin e Goodman (2002) não corrobora esta conclusão. Nesta experiência foram testadas crianças de 5 e 7 anos e adultos em ambas as tarefas de evocação e reconhecimento, em que a meta- de dos participantes foram apresentadas apenas palavras e à outra metade foram apresentadas palavras acompanhadas das respectivas figuras. No ge- ral, os níveis de evocação falsa mantiveram-se estáveis desde os 5 anos até à idade adulta. Porém, quando o nível de evocação falsa foi medido em relação ao número total de palavras evocadas (evocação falsa relativa), os resultados demonstraram diferenças proporcionais significativas da idade, obtendo as crianças de 5 anos mais evocações falsas do que as de 7 anos e adultos. Para além disso, em todos os grupos etários a informação distintiva proveniente

estes resultados encontra-se o enquadramento teórico da monitorização da fonte, o qual defende que as memórias falsas advêm de uma incapacidade em atribuir correctamente a fonte da informação activada (Johnson, Hashtrou- di, e Lindsay, 1993). De acordo com esta teoria, a memória falsa surge no paradigma DRM, quando a informação que foi gerada internamente durante a fase de estudo, através da activação associativa da rede semântica, é erra- damente atribuída durante a fase de teste a uma fonte externa, como por exemplo, a ter estudado o item na lista de palavras. Assim, as crianças mais novas como apresentam normalmente mais dificuldades de monitorização da fonte (Foley e Johnson, 1985; Foley, Johnson, e Raye, 1983; Lindsay, Johnson, e Kwon, 1991) têm maior tendência para atribuírem a fontes externas a ori- gem dos itens críticos e, consequentemente, a classificá-los como itens estuda- dos.

Mas três estudos mais recentes (Dewhurst e Robinson, 2004; Howe, 2005; Howe, Cicchetti, Toth, e Cerrito, 2004) têm apoiado o mesmo padrão de de- senvolvimento do estudo de Brainerd, Reyna e Forrest (2002). Dewhurst e Ro- binson (2004) utilizaram uma variação da tarefa DRM com crianças ao adap- tarem as listas de Roediger e McDermott (1995) de forma a poderem gerar associações do tipo semântico e fonológico. Cada lista estava associada a um tema semântico e todas as palavras que compunham cada lista tinham pelo menos uma rima. Ao analisarem as palavras não apresentadas que foram ge- radas na tarefa de evocação (intrusões), os investigadores classificaram-nas em intrusões do tipo semântico, fonológico ou intrusões não relacionadas com a lista apresentada. Verificaram que nas crianças mais novas (5 anos e 8 anos) predominaram as intrusões do tipo fonológico, ou seja, que rimavam com as palavras apresentadas, enquanto que as mais velhas (11 anos) produ- ziram sobretudo intrusões semânticas, isto é, relacionadas pelo seu significado com palavras estudadas. No geral, estes resultados sugerem que as crianças mais novas utilizam em menos estratégias de agregação semântica dos itens em tarefas de memória e dão mais importância a um processamento do tipo fonológico. Apesar de neste estudo se terem analisado as evocações falsas através do tipo de intrusões, em vez de serem medidas por palavras críticas de acordo com o procedimento original do estudo de Roediger e McDermott (1995), o resultado de que a evocação de intrusões semânticas aumentou com a idade cronológica apoia a explicação teórica formulada por Brainerd, Rey- na e Forrest (2002). Também o estudo de Howe (2005), em que o paradigma DRM é aplicado a crianças maltratadas, corrobora a conclusão de que as crianças mais novas produzem menos ilusões de memória para os associados convergentes.

Em suma, os estudos realizados até ao momento sobre o desenvolvimento das memórias falsas estudadas através do paradigma DRM, revelaram de iní- cio resultados inconsistentes, mas mais recentemente têm apoiado as conclu- sões do estudo de Brainerd e colaboradores (2002), as quais indicam um au- mento das memórias falsas com o desenvolvimento.