4 LINGUAGEM VISUAL: PROCESSO EM PRODUÇÃO
4.2 PARADIGMAS DE PRODUÇÃO DE IMAGENS
As técnicas tradicionais de produção de imagem estão ligadas às atividades laborais onde o artista desenvolve uma ação física sobre materialidades. A avaliação de seu produto depende das necessidades, usos e valores a eles atribuídos. A qualidade da consecução deste processo laboral também determina seus usos e valores. Quanto mais diferencial e apurada a técnica do artífice38, mais próximo à exaltação de suas capacidades artísticas o autor estará, podendo ser reconhecido e valorizado socialmente por este trabalho.
Com a evolução das técnicas, outras formas de produção de imagem, que não necessitam do trabalho laboral do artífice diretamente sobre a matéria, mudaram as estruturas e valores da imagem nas sociedades, pois permitem ampla reprodução alterando os valores de uso, troca e culto, alterando as formas de avaliação de custos de trabalho (tempo e material) e lucro sobre a mercadoria.
A história das imagens materializadas, nos três paradigmas propostos por Santaellla e Nöth (2005), está organizada por caracterísicas de seus processos produtivos:
a) O paradigma pré-fotográfico que atende a todas as imagens produzidas artesanalmente, ‘feitas à mão’.
b) O paradigma fotográfico:
[...] todas as imagens que são produzidas por conexão dinâmica e captação física de fragmentos do mundo visível, isto é, imagens que dependem de uma máquina de registro, implicando necessariamente a presença de objetos reais preexistentes. [...] esse paradigma se estende do cinema, TV e vídeo até a holografia (SANTAELLLA; NÖTH, 2005, p. 157).
c) O paradigma pós-fotográfico que trata das imagens sintéticas ou infografias, sistematizadas por computador e seus dados binários, tendo como fim as cores em ‘pixels’39 dos monitores ou impressoras.
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Não existe um termo único para produtor de imagens: artista, artesão, arquiteto, designer, desenhista e gravurista, entre tantos outros.
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O termo ‘pixel’ é derivado do termo ‘picture element’, ou seja, elemento de imagem - é o menor elemento de uma imagem digital matricial, um pequeno retângulo que representará uma cor da matriz, um pedacinho monocromático que, posto lado a lado, compõe e colore a imagem total.
Em comum, ambos processos são produtores de representações materializadas de conteúdos imagéticos. O que as difere são as técnicas utilizadas para a efetivação dos produtos ‘imagem’, fato que afeta diretamente a produção, plasticidade, veiculação, armazenamento e usabilidade.
É possível perceber uma procedência temporal na concepção destes paradigmas, entretanto, eles não se extinguem à medida do surgimento do outro. Walter Benjamin (1994, p. 169) indica que “No interior de grandes períodos históricos, a forma de percepção das coletividades humanas se transforma ao mesmo tempo que seu modo de existência”. Assim também o é com os objetos e instrumentos que cria, o homem inventa a escrita e causa uma mudança na maneira de registrar a história. Com o avanço dos séculos, o ser humano dificilmente percebe como a escrita mudou a forma de transmitir as informações. Após sua inserção, na sociedade, os códigos, as técnicas e as ferramentas passam a fazer parte dos regimentos constituintes de uma sociedade, fazendo parte de sua cultura.
Historicamente, os processos existentes modificam sua presença40 junto à sociedade, podendo perder a relevância como técnica de registro, mas não podendo ser desmerecidos como técnica plástica, plasmadora. Incorporam-se a esses processos produtivos de imagem, valores estéticos referentes à sua técnica das ‘épocas áureas’, suportes e sujeitos.
Santaella e Nöth41 (2005) afirmam que pelo modo de produção é possível encontrar os pressupostos dos papéis desempenhados pelos produtores e as conseqüências sociais relativas aos modos de armazenamento e transmissão da imagem.
O mais antigo e, ainda, atual dos paradigmas propostos por Santaellla e Nöth (2005, p. 163-164) é o pré-fotográfico que se caracteriza pelo modo de produção artesanal e, conseqüentemente, pela forma que a materialidade dos suportes, substâncias e ferramentas se tornam fisicamente proeminentes.
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O conceito de presença será abordado mais à frente no item 5.3 deste trabalho.
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Santaellla e Nöth (2005) têm aporte em Semiótica Pierciana. Afirmam os autores que o critério utilizado para a divisão dos paradigmas imagéticos é materialista. Este critério estabelece-se como modo de determinar a forma de produção material das imagens, ou seja, “com que materiais, instrumentos, técnicas, meios e mídias” (SANTAELLLA; NÖTH, 2005, p 162).
A produção artesanal da imagem, depende, assim, de um suporte, quase sempre uma superfície que possa servir de receptáculo às substâncias, na maior parte das vezes tintas, que um agente produtor, neste caso o artista, utiliza para nela deixar a marca de seu gesto através de um instrumento apto (SANTAELLLA; NÖTH, 2005, p. 164).
Afirmam os autores que este paradigma consiste em compreender que o objeto é fruto de uma produção lenta e artesanal, da inspiração e do criador fundindo-se em um ‘gesto indissociável’. O resultado desta interferência matérica sobre um suporte não é apenas uma imagem, é um objeto único, autêntico, solene, “[...] carregado de uma certa sacralidade’, fruto do privilégio da primeira impressão, originária, daquele instante santo e raro no qual o pintor pousou seu olhar sobre o mundo, dando forma a esse olhar num gesto irrepetível” (SANTAELLLA; NÖTH, 2005, p. 164).
Este paradigma, aqui conceituado, será aprofundado a seguir, pois será posto em contraposição com o paradigma fotográfico e suas contribuições para a compreensão da imagem como linguagem está na estruturação formal (composição) da imagem. Estão inseridos nesse paradigma o desenho, a pintura, a escultura, a arquitetura e a gravura. Esta última por sua possibilidade de reprodução prenuncia o segundo paradigma – o fotográfico. As contribuições do paradigma fotográfico para o estudo da imagem na EAD na atualidade (pós-fotográfica) estão: na concepção das bases de análise estético-materialistas; na aplicação e ampliação de seus valores; na cisão entre os conceitos de Arte e imagem; e, nas formalizações da linguagem pela estratificação de seus elementos formais e sígnicos. O pós- fotográfico será abordado adiante.