1 CONCEITO DE INDIVÍDUO
1.1 LÓGICA
1.1.3 Introdução às Questões de Porfírio
1.1.3.2 Pars construens: o universal concebido como vox
Frente à impossibilidade de o universal ser compreendido como uma coisa, cabe sua investigação no âmbito da linguagem. De acordo com Leite Junior (2001, p. 49), as palavras assumem na lógica de Abelardo duas funções semânticas, a saber: “a) uma função significativa (significare), com sentido intencional, isto é, a palavra
24 “Alii vero sunt qui non solum collectos homines speciem dicunt, verum etiam singulos in eo quod
homines sunt, et cum dicunt rem illam quae Socrates est praedicari de pluribus, figurative accipiunt, ac si dicerent: plura cum eo idem esse, id est convenire, vel ipsum cum pluribus. Qui tot species quot individua quantum ad rerum numerum ponunt et totidem genera, quantum vero ad similitudinem naturarum (...) Quippe omnes homines et in se multi sunt per personalem discretionem et unum per humanitatis similitudinem” (ABELARDO, 1919, p. 14).
enquanto gera um conceito na mente [intelecto]; b) uma função referencial (nominare), com sentido extencional, ou seja, a palavra enquanto nomeia (designa, refere) um objeto”.
Abelardo inicia a parte considerada construtiva da LI analisando duas possíveis construções das palavras, no âmbito da gramática e no âmbito da dialética.
Na construção gramatical, a investigação se dá a partir das palavras ou nomes apelativos e próprios. As palavras apelativas fazem referência a um nome comum que não designa nada singular e as palavras próprias designam um singular. A construção gramatical leva em conta a sintaxe, ou seja, a disposição das palavras em uma frase ou oração. Não há, portanto, nenhum problema com a sentença “o homem é pedra”, pois o sujeito “homem” liga-se ao predicado “pedra” por um verbo de ligação. Contudo, em nível semântico, essa sentença não exprime um significado real entre sujeito e predicado, pois a natureza de “homem” não é ser “pedra”.
Antes de conceber a construção das palavras no âmbito dialético, Abelardo retoma a definição aristotélica de universal, já com a ideia de que devem ser singularizados, sendo os universais aptos a serem predicados de muitos, mas agora “tomados um a um”:
Um vocábulo universal, entretanto, é aquele que, por sua descoberta, é apto para ser predicado de muitos tomados um a um, tal como este nome homem, que pode ser ligado com os nomes particulares dos homens segundo a natureza das coisas subordinadas às quais foi imposto. Já o singular é aquele que é predicável de um só, como Sócrates, tomado como nome único25 (ABELARDO, 2005, p. 67).
No âmbito dialético, ele mostra como a palavra “homem” pode ser construída de modo que a relação entre sujeito e predicado tenha uma significação e se construa, portanto, no nível semântico. A ligação entre sujeito e predicado deve ser real: “O lógico se preocupa, a fim de uma exata “praedicatio”, não só destes elementos, mas
25 “Est autem universale vocabulum quod de pluribus singillatim habile est ex inventione sua praedicari,
ut hoc nomen 'homo', quod particularibus nominibus hominum coniungibile est secundum subiectarum rerum naturam quibus est impositum. Singulare vero est quod de uno solo praedicabile est, ut Socrates, cum unius tantum nomen accipitur” (ABELARDO, 1919, p. 16).
também da verdade da enunciação, a qual é indicada por Abelardo, neste lugar, pela
“demonstratio” de um estado ou natureza real”26 (FUMAGALLI, 1964, p. 22).
Na obra Dialectica, Abelardo desenvolve o conceito de dictum, ou seja, “o que a proposição diz”. As palavras resultantes do dictum mantém uma relação entre sujeito e predicado; daí se deriva que o significado pode ser verdadeiro ou falso. Segundo Fumagalli, (1964, p. 68), “Abelardo atribui, portanto, o “significans verum vel falsum” de uma proposição a sua “significatio rerum”: um enunciado é verdadeiro quando
propõe o que é de fato (quod in re est), e falso em caso contrário” 27.
Utilizando-se da gramática, Abelardo diz que os pronomes demonstrativos como “este” e “aquele” referem-se ao indivíduo, por exemplo, Sócrates. A ligação entre sujeito e predicado se dá normalmente por um verbo de ligação, como salientamos nas construções das palavras em nível gramatical. O sujeito refere-se ao indivíduo e o predicado à diversidade do que foi nomeado, como, por exemplo, dizer que “Sócrates é” “animal”, “branco”, “filósofo”, etc. Esses predicados podem estar subordinados a outros homens, mas não a todos. Essa subordinação, por sua vez, não é uma essência, mas um “estado” (status):
Ora, ser homem não é homem ou coisa alguma. (...) Chamamos de estado de homem o próprio ser homem, que não é uma coisa e que também denominamos causa comum da imposição do nome a cada um, conforme eles próprios se reúnem uns com os outros. (...) Assim, também podemos chamar de estado de homem as próprias coisas estabelecidas na natureza do homem, das quais aquele que lhe impôs a denominação concebeu a semelhança comum28 (ABELARDO, 2005, p. 72-73).
Além da noção de status, que Abelardo desenvolve na lógica, Nascimento (2005, nota 5, p. 31) lembra que no século XII se desenvolveu uma “moral dos
26 “Il logico si preoccupa, al fine di una esatta « praedicatio », non solo di questi elementi, ma anche della verità della enunciazione. La quale è indicata da Abelardo, in questo luogo, nella « demonstratio » di uno stato o natura reale”.
27 “Abelardo attribuisce dunque il « significans verum vel falsum » di una proposizione alla sua « significatio rerum »: un enunciato è vero quando propone « quod in re est », falso in caso contrario”. 28 “Esse autem hominem non est homo nec res aliqua (...) Statum autem hominis ipsum esse hominem,
quod non est res, vocamus, quod etiam diximus communem causam impositionis nominis ad singulos, secundum quod ipsi ad invicem conveniunt. (...) Statum quoque hominis res ipsas nunc natura hominis statutas possumus appellare, quarum communem similitudinem ille concepit qui vocabulum imposuit”
estados” que não deve ser confundida com a definição de Abelardo: “categorias de pessoas definidas em função de sua situação sócio profissional. Já não bastava uma moral geral do ser humano nem a consideração das três ordens (oratores, bellatores, laboratores)”. No que se refere ao status na lógica de Abelardo, o que existe é, portanto, a realidade individual, contudo o “estado” faz alusão à natureza de ser homem ou coisa: cada “homem” é diferente em si mesmo. O que os aproxima são os “estados” em que se encontram, suas naturezas. Vimos que autoridades buscavam compreender os universais na indiferença, sendo a “humanidade”, por exemplo, a identidade que uniria os homens entre si. Mas essa identidade não está na essência e nem na indiferença, mas no “estado”. Contudo, como conceber o universal, ou seja, aquilo que é apto a ser predicado de muitos, se o que existe, de fato, é a realidade individual, ou seja, tomados um a um? Aparentemente temos uma ambiguidade na lógica abelardiana. O universal não se refere à coisa em si, mas ao seu “estado de ser”. Sócrates, por exemplo, é um indivíduo, mas também é um animal. O universal “animal” designa, portanto, o seu “estado”, a sua natureza de ser “animal”, como a “humanidade”, um estado de ser “humano”.