Os participantes da pesquisa correspondem a oito adolescentes acolhidos na instituição e seis educadores que nela trabalham, considerando alguns critérios conforme a seguir.
5.4.1 Seleção dos Adolescentes
Como sujeitos da pesquisa, foram entrevistados oito adolescentes com idades superiores a 14 anos, divididos em quatro duplas, considerando perfis compostos pela combinação de três critérios: motivo do acolhimento (vulnerabilidade ou rua), local de acolhida na instituição (1ª ou 5ª Casa) e tempo de permanência na instituição (inferior ou superior um ano de acolhimento institucional). É importante salientar que, após observações preliminares realizadas junto as crianças e pré-adolescentes abrigados na instituição, foi confirmada como critério para participação a idade mínima de 14 anos em virtude das dificuldades de conceituação e abstração do termo conflito. A codificação que define os adolescentes pode ser visualizada no quadro a seguir:
QUADRO 2 - CODIFICAÇÃO DOS ADOLESCENTES
CODIFICAÇÃO DOS ADOLESCENTES
CÓDIGO SIGNIFICADO
AD Adolescente;
C1 ou C5 Se reside atualmente na 1ª ou 5ª Casa;
+ ou - Se reside há mais ou menos de 1 ano na instituição;
V ou R Se vivia em situação de Vulnerabilidade ou Rua antes do acolhimento;
(xx, xx) Idade, considerando (anos, meses).
FONTE: O autor
A divisão em duplas ocorreu apenas para facilitar o entendimento acerca do perfil destes participantes, porém não configuraram como critério ou indicador para a análise dos dados. As duplas selecionadas para o estudo foram as seguintes:
- DAD1 – Dupla de adolescentes vindos da situação de rua (R) e que residem na 1ª Casa (1) - Um abrigado há mais de um ano (+) na instituição, denominado para este estudo como ADC1+R e outro adolescente abrigado há menos de um ano (-), denominado como ADC1-R ;
- DAD2 – Dupla com adolescentes que vieram da situação de rua (R) e residem na 5ª Casa (5) – Um adolescente abrigado há mais de um ano (+), denominado como ADC5+R e outro adolescente abrigado há menos de um ano (-), denominado como ADC5-R ;
- DAD3 – Dupla com adolescentes que vieram de situação vulnerável (V) e residem na 1ª Casa (1) – Um adolescente com mais de um ano de instituição (+), denominado como ADC1+V e outro adolescente com menos de um ano (-), denominado como ADC1-V ;
- DAD4 – Dupla com adolescentes que vieram de situação vulnerável (V) e moram na 5ª Casa (5) – Um adolescente abrigado com mais de um ano (+), denominado como ADC5+V e outro adolescente abrigado há menos de um ano (-), denominado como ADC5-V.
A seleção dos adolescentes para cada perfil ocorreu após o levantamento de todos os abrigados na instituição, com faixa etária entre 14 e 18 anos. Os adolescentes que estão vinculados à instituição, mas permanecem em período de tratamento terapêutico ao uso de substâncias psicoativas ou em visita à família por períodos prolongados não foram incluídos nos sorteios. Aos perfis que mantiveram mais de um adolescente em conformidade com os critérios, foi aplicado um sorteio que definiu o participante da pesquisa.
5.4.2 Critérios de Seleção e Divisão dos Adolescentes
O primeiro critério para definir adolescência está fundamentado no artigo 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente, que considera “criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade”. (ECA, pg. 3). Neste sentido, a delimitação dos participantes aos adolescentes, direciona o foco da pesquisa para as casas 1 e 5, que abrigam meninos entre 12 e 18 anos.
Outro fator que justifica a escolha pelo público adolescente é a possibilidade de sua inclusão do ambiente trabalho como fator de desenvolvimento, expectativa, insegurança e crise. O trabalho, vinculado às expectativas de futuro será objeto de observações e estudos posteriores. Por esse motivo é necessário considerar a legislação que define a idade mínima e os critérios de inclusão no mercado de trabalho, tendo como parâmetro as diretrizes adotadas Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Organização das Nações Unidas (ONU).
A OIT é a agência multilateral especializada em trabalho infantil vinculada à ONU, que definiu a idade mínima para o trabalho na Convenção nº 138 realizada em Genebra em 06/06/1973. Em seu artigo 2º, parágrafo 3, a
138ª Convenção fixou como idade mínima recomendada para o trabalho a idade de 15 anos e, no quarto parágrafo do mesmo artigo, determina que “o estado membro cuja economia e condições de ensino não estiverem suficientemente desenvolvidas, poderá, após consulta com as organizações de trabalhadores e empregadores interessadas, se as houver, definir, inicialmente, uma idade mínima de 14 anos”.
O tempo de abrigamento de um ano foi o critério para a divisão dos participantes, na composição das duplas. Diante da proposta para observações presentes e futuras, este critério caracterizou-se como uma tentativa de perceber diferenças entre os adolescentes que estão há mais ou menos de um ano na instituição e que, consequentemente, tenham vivido ou não as atividades mais relevantes vinculadas à rotina da instituição. Tais experiências são relevantes em função de crises observadas nos adolescentes em períodos prolongados ou específicos, tais como: saída e retorno das férias; encontros e desencontros com familiares; tentativa de retorno familiar; presença ou ausência dos familiares na instituição; período de provas escolares;
participação em passeios e eventos; comemoração de datas como natal, ano novo, dia das crianças, dia dos pais, dia das mães e outros.
5.4.3 Seleção dos Educadores
Como participantes da pesquisa foram entrevistados seis educadores cujos nomes estão codificados conforme o quadro a seguir:
QUADRO 3 - CODIFICAÇÃO DOS EDUCADORES
CODIFICAÇÃO DOS EDUCADORES CÓDIGO SIGNIFICADO
ED Educador
C1 ou C5 Se trabalha prioritariamente na 1ª ou 5ª Casa D ou N Se trabalha no turno do dia, turno da noite
CM ou CC Se atua em todas as casas e turno, como Motorista ou Coordenador
+ ou - Se trabalha há mais ou menos de 1 ano na instituição M ou F Se é do sexo masculino ou feminino
FONTE: O autor
Respeitando o mesmo padrão estabelecido para os adolescentes, a divisão em duplas entre os educadores ocorreu apenas para facilitar o entendimento acerca do perfil destes participantes, porém não se tratou de critério ou indicador para a análise dos dados.
Os educadores foram divididos em três duplas conforme a combinação de três critérios: local de trabalho na instituição (1ª ou 5ª Casa), turno de trabalho na instituição (diurno ou noturno) e convivência com os adolescentes em diversos ambientes e horários.
As duplas selecionadas para o estudo foram as seguintes:
- DE1 – Dupla formada por um educador que trabalha prioritariamente na 1ª Casa, no período diurno, denominado para este estudo como EDC1D+M e outro educador que trabalha prioritariamente na 1ª Casa, no período noturno, denominado como EDC1N-M;
- DE2 – Dupla formada por um educador que trabalha prioritariamente na 5ª Casa, durante o período diurno, denominado como EDC5D+F e outro educador que trabalha prioritariamente na 5ª Casa, durante o período noturno, denominado como EDC5N-M ;
- DE3 – Dupla formada por um educador que acumula a função de motorista, denominado para este estudo como EDCM+M e outro educador que acumula a função de coordenação do projeto, convivendo em período integral com os adolescentes, denominado para este estudo como EDCC+M.
5.4.4 Critérios de Seleção dos Educadores
A rotina de organização, semelhante ao funcionamento de um lar e a convivência entre educadores e adolescentes próxima da configuração de uma família, são aspectos que contribuem tanto para o desenvolvimento humano quanto para o surgimento de situações potenciais de conflitos. Em termos gerais, a equipe de educadores tem a incumbência de acompanhar e orientar todos os meninos.
A exceção está nas atividades de limpeza e conservação, horário de acordar e dormir, acompanhamento da higiene e cuidados com o vestuário, para as quais existem educadores de referência em cada uma das casas que compõem a instituição.
Portanto, a maior parte dos adolescentes acima de 14 e abaixo dos 18 anos está acolhida nas 1ª e 5ª Casas e os educadores selecionados como sujeitos da pesquisa, necessariamente compuseram as equipes de referência destas casas e foram selecionados por sorteio.
Um dos principais fatores que caracterizam um abrigo é o funcionamento ininterrupto. Para suprir essa demanda, a instituição mantém equipes de educadores responsáveis pelos três turnos, perfazendo as 24 horas do dia.
Uma equipe maior atende o horário entre 08:00 e 17:00h e duas equipes menores atendem os horários entre 17:00 e 24:00h, correspondente ao turno da noite e entre 00:00 e 08:00h, correspondente ao turno da madrugada.
Este é um fator importante à medida que os conflitos podem manifestar-se de forma diferente conforme o período do dia ou da noite ou de acordo com o número de educadores responsáveis por turno. Por este motivo, o estudo contou com a participação de educadores que atendem em três turnos de trabalho.
Atualmente a instituição conta com a colaboração de educadores que acompanham os adolescentes em diversas atividades internas e externas à instituição, bem como, em horários que ultrapassam os limites estabelecidos pelos turnos de trabalho.
Neste sentido, dois educadores acumulam a função de motorista e realizam frequentemente, com os adolescentes, visitas às famílias. Dentre suas atribuições também estão a participação e o cuidado dos adolescentes em passeios e eventos, o encaminhamento e o acompanhamento a médicos,
psicológicos, cursos, locais de trabalho, entre outros. A seleção de um, entre esses dois educadores, ocorreu por meio de sorteio.
Outros dois educadores assumem paralelamente a função de coordenação, acompanhando atividades e projetos pontuais da instituição em conjunto com os adolescentes e buscando respostas para a equipe diante de situações de conflitos. Um dos coordenadores é o pesquisador responsável por este estudo, logo, o outro coordenador foi automaticamente selecionado como participante da pesquisa.
A equipe de educadores sociais da instituição é formada predominantemente por homens. Por este motivo uma, dentre as duas educadoras que se enquadram nos critérios mencionados anteriormente, foi selecionada por meio de um sorteio para compor o grupo de entrevistados.
5.4.5 Público Não Participante da Pesquisa
Após a seleção dos participantes potenciais e a realização do sorteio, foi definida a lista dos quatorze participantes para este estudo, porém é importante registrar a ausência de um público que também traria contribuições para a pesquisa, mas que por falta de condições adequadas de comparação metodológica, não participaram dos critérios de seleção.
Neste grupo estão incluídos os adolescentes entre doze e quatorze anos incompletos, que por meio de acompanhamento preliminar realizado pelo pesquisador, demonstraram pouco ou nenhum domínio do conceito de conflito, comprometendo a realização da entrevista episódica.
Também não foram incluídos os membros da equipe técnica da instituição, composta pela pedagoga, assistente social e psicólogos voluntários, bem como professores auxiliares para acompanhamento escolar, professores de oficinas específicas como capoeira, futebol e informática, além de outros profissionais que prestam atendimento voluntário e da equipe de apoio, composta pelas cozinheiras e auxiliares de serviços gerais. Este público participa ativamente do cotidiano da instituição, porém, não está exposto às situações de conflitos com a mesma intensidade e freqüência como ocorre com a equipe de educadores.