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6.1 DOMÍNIO CONCEITUAL

6.1.3 Semelhanças e Diferenças Entre Adolescentes e Educadores

As definições relatadas pelos adolescentes apresentam conceitos baseados nos mesmos elementos periféricos negativos que predominaram nas afirmações dos educadores. Não houve subsídios suficientes para revelar discrepâncias entre os educadores que compõem os turnos diurnos, noturnos e aqueles que permanecem em constante presença com os adolescentes, nem tampouco, diferenças com base nos critérios das casas ou tempo de trabalho na instituição.

Entre os adolescentes, as diferenças correspondentes às casas, tempo de acolhimento, idade e motivo do abrigamento também não apresentam elementos discrepantes.

O quadro a seguir sugere uma breve comparação e aponta para a uniformidade no que diz respeito ao domínio parcial do termo conflito, em seu sentido tradicional:

QUADRO 7 - DOMÍNIO CONCEITUAL PARCIAL - EDUCADORES

DOMÍNIO CONCEITUAL PARCIAL - EDUCADORES EDC1D+M EDC1N-M EDC5D+F EDC5N-M EDCM+M EDCC+M Brigas Briga Brigas Xingamento Confusão Incapacidade

de diálogo Palavrões Falta de

entendimento Discussão Grosseria Agressão verbal entrevistados apresentarem mais de uma resposta ou respostas que

contivessem mais de um elemento que indicasse o domínio do termo. Portanto, entre os educadores houve respostas apresentaram de um a cinco elementos.

O quadro a seguir apresenta o mesmo perfil de avaliação, com relatos que apontam entre um e seis elementos.

QUADRO 8 - DOMÍNIO CONCEITUAL PARCIAL - ADOLESCENTES

DOMÍNIO CONCEITUAL PARCIAL - ADOLESCENTES educadores e em seis dentre os oito relatos dos adolescentes.

Por esse motivo é possível concluir que: os educadores e os adolescentes tendem a pensar e conceituar o conflito de maneira uniforme e vinculada à violência quando se trata do paradigma tradicional.

Como forma de aprofundar a análise e quantificar os elementos apresentados pelos relatos, no próximo quadro foram considerados os quatorze depoimentos divididos em cinco categorias que reúnem as unidades

conceituais associadas a violência física; incapacidade de comunicação; ato errado; violência verbal e ficar na rua. É importante destacar que essas categorias foram definidas com base na incidência das próprias unidades conceituais.

QUADRO 9 - CATEGORIAS E UNIDADES CONCEITUAIS ADOLESCENTES E EDUCADORES – CONCEITO DE CONFLITO conceituais, entre educadores e adolescentes, associando a palavra conflito a diversos elementos periféricos agrupados nas referidas categorias.

A categoria Violência física representa o elemento mais associado à palavra conflito, mantendo uma proporcionalidade média entre as citações dos educadores e dos adolescentes. Dos quatorze participantes do estudo, nove associam o conflito à violência física.

Um dos fatores de destaque entre os adolescentes é a predominância de três [ADC5-R (16,3), ADC5+R (16;8) e ADC5+V (17;4)] dentre os quatro moradores da 5ª Casa não terem realizado uma associação direta do conflito à violência física. Uma das hipóteses que pode explicar esse padrão está vinculada aos momentos de alguns adolescentes no cotidiano da instituição.

Outro fator discrepante foi a presença de apenas um relato que associa o conflito à condição de estar na rua. Este aspecto da análise indica que, entre educadores e adolescentes, a razão de ser da instituição não configura como elemento conflitivo. A predominância de situações que remetem ao cotidiano dentro da instituição indica um baixo nível de abstração e reflexão acerca de causas e fatores externos, porém de central importância.

Com base em outros trechos da entrevista episódica, foi possível acessar algumas informações acerca da relação entre os elementos empregados para definir o conceito e o seu cotidiano:

"Não vi muito (conflito), por que não fico muito aqui dentro (da instituição), a tarde estou fazendo curso de inglês, mas agora deu uma acalmada (na rotina) por que o curso acabou [...]”.

[ADC5+R (16;8)]

"Acho que, eu fico mais no quarto né (treinando para gravar um CD). Eu não vejo muito (conflito) por isso que eu só coloquei (relatou) mais a parte de discussão, porque eu só ouço mais, eu não vejo muito mais".

[ADC5+V (17;4)]

Entre os educadores, apenas aquele que assume conjuntamente a função de motorista apresentou o conceito livre da associação à violência, seja ela física ou verbal:

"É claro que quando eu não estou aqui (é educador e motorista) têm conflitos maiores que eu não estou presenciando né".

(EDCM+M)

Estes aspectos apontam para a influência que a rotina e o ambiente podem exercer sobre a forma de pensar e conceber os conflitos. Mesmo após a conclusão do curso de inglês e a permanência por mais tempo na instituição,

a primeira resposta proferida pelo adolescente ADC5+R (16;8) foi que os momentos de ausência da rotina o afastam diretamente do contexto dos conflitos violentos.

Isso confirma que os adolescentes da 5ª Casa são influenciados por outro tipo de rotina, com a presença constante de fatores externos, como o trabalho, expectativas acerca do futuro, insegurança pela possibilidade de perder sua vaga em função de comportamentos violentos, além do contato mais freqüente com pessoas de fora, incluindo colegas de curso e trabalho. Um conjunto de fatores psicológicos e ambientais relacionados a este pode contribuir para a formação de adolescentes menos vulneráveis ou permeáveis à violência física.

Portanto, é possível inferir que a rotina influencia a concepção do conflito e a sua associação à violência física. Uma rotina violenta tende a influenciar o conceito de conflito vinculando-o à violência física. Uma rotina composta de elementos externos positivos e fatores psicológicos/ambientais menos violentos reduz a associação do conceito à violência física.

Nas categorias que representam os elementos Incapacidade de comunicação, Violência verbal e Atos errados ou injustos os educadores predominaram com o maior número de citações e o maior número de pessoas citando, se comparados com os adolescentes. Isso significa que o leque de significados apresentados pelos educadores é mais rico, mantendo porém, a predominância da violência em termos gerais.

As principais constatações apresentadas nesta análise são corroboradas por Jares (2004, p.11) quando menciona que atualmente “[...] não podemos deixar de assinalar, com especial preocupação, a persistência do uso e da divulgação da violência como forma de resolver conflitos [...]".

Ao considerar as categorias Violência física e Violência verbal, juntas, foi possível identificar que onze participantes persistem em associar o termo conflito a algum tipo de violência, indicando uma predominância sólida do emprego tradicional da palavra na prática educativa da instituição.