e suas consequências internacionais
2. Pazes com a Holanda e a Espanha
a) Paz com a Holanda (1661)
Embora expulsos do Brasil e da África Portuguesa, não se confor¬ mavam osholandesescom anova situação, pois também tinham tomado
pé no Oriente,com prejuízodePortugal, paísa
que
pretenderam imporsuas reivindicações, depois dc feita a paz com a Inglaterra e depois da
morte de I).
João
IV, durante a regência da Rainha D. Luisa de Guz¬man, na menoridade de D. Afonso VI, mediante declaração de guerra e demonstrações navais, na Europa.
Retomados,afinal,osentendimentosdiplomáticos,chegou-se, em1661,
a um acordo definitivo, na Haia. Por ele convinha Portugal no paga¬
mento, aos Estados Gerais, de uma indenização de 4.000.000 de cruza¬
dos, no
prazo
dc dezesseis anos, além de conceder certas vantagens aos negociantes flamengos, idênticas às usufruídas [elos ingleses. Do paga¬mento anual de 250.000 cruzados, competiriam ao Brasil 120.000. Com isto, era reconhecida a posse portuguesa de seus domínios da América
e África, por mais de um trintênio sèriamente ameaçados pelos fla¬
mengos(J).
b) Paz com a Espanha (1668)
Teve várias fases a guerra separatista de Portugal, empreendida
contra a Espanha depoisda Restauração de 1610. Embora em diversas ocasiões obtivessem osportuguêsesassinaladas vitóriasmilitares,nem por
isso conseguiam confirmar a sua independência, frouxamente apoiada pela França, não reconhecida nos convéniosde Vestfália (1648), na
paz
dos Pireneus (1659), celebrada entre franceses c espanhóis, nem por su¬cessivos papas.
Coube à aliança inglesa proporcionar o entendimento final entre
os dois países peninsulares. Tendo Portugal apoiado, depois da morte
de Carlos I, as pretensões de volta dos Stuartsà Inglaterra, teve, por êsse motivo, sérias dificuldades com o govêrno de Cromwell. Subindo,
porém, Carlos II ao trono, não tardou
que
se ligasse à dinastia portu-guêsa mediante o casamento com a infanta D. Catarina de Bragança,
filha de D.
João
IV,que à Inglaterralevou em dote Tânger, Bombaime 2.000.000 de cruzados, êstes em parte pagos pelo Brasil.
(1) A propósito daspazes com a Holanda, merece consulta o trabalho "História Diplo¬
mática do Brasil Holandês (1640/1661)", do embaixador A. G. de Araújo Jorge, incluído no vol. Ensaios de Históriae Crítica, ed. doInstituto Rio Branco (Rio, 1948),págs. 57/103, com úteis indicações bibliográficas.
Em complemento a essa aliança, comprometeu-se a Inglaterra a de¬ fender os interesses portugueses, e assim realmente fêz, depois de mais uma repelida invasão espanhola em Portugal.Em Madrid e Lisboa con¬ seguiram seus agentes negociar o Tratado de 1668, firmado na última
dessas capitais, pondo termo à Guerra da Restauração. Nêlc, embora
fôsse declarado que todas as
praças
tomadas durante as sucessivas cam¬panhas militares seriam reciprocamente restituídas, nada se estabeleceu sobre os limites dos respectivos domínios ultramarinos. A respeito con¬
tinuavam, portanto, em vigor, as obsoletas disposições do Tratado de
Tordcsilhas e da Capitulaçãode Saragoça.
3.
Fundação
da
Colónia do
Sacramento
a) Expansão luso-brasileira pela costa Sul (
1513/1737
)Coube a navios portugueses a prioridade no descobrimento do Rio da Prata,em 1513, de acordo com a carta escrita da Ilha da Madeira e transcrita na Nova Gazeta da Terra do Brasil. Em 1515, para desco¬
brir oficialmcnte a região, partiu da Espanha o português
João
Diasde Solis, a serviçodesse país. Depoisdc para ele tomar posse de terras
hoje uruguaias, foi morto pelos indígenas. Outro português, também a serviçode Espanha, por aí
passou
em 1520, Fernão de Magalhães, naprimeira viagem de circunavegação. A seguir, novas expedições explo¬ radorasespanholas, as de Sebastião Caboto e DiogoGarcia, penetraram no Rio Paraná, perto do qual fundou-se o precário forte de Sancti
Spiritus. Em 1531 novamente coube aos portuguêses o formal apossa-
mento do estuário platino para a sua Coroa, na viagem de Martim Afonso de Sousa. Temendo os espanhóis que aos seus vizinhos da pe¬
nínsula viesse competir o definitivo povoamento dessa zona, confiaram a emprêsa de realizá-lo a D. Pedro de Mendoza,
que
em 1536 pelaprimeira vez fundou SantaMaria dc Buenos Aires (2). Estavam lançadas
as bases
para
futuras pendências internacionais, entre portuguêses eespanhóis,
como depois entre seusdescendentes
brasileiros e hispano-americanos, até oséculo passado.
Continuava, entretanto, abandonado o extenso trecho da costa do Atlântico-Sul que ficava entre aquêle porto platino e o último estabe¬ lecimento português, a vila de São Vicente, em 1532 fundada pelo mesmo Martim Afonso. Espanhóis localizados em Iguape, depois de atacados por seus vizinhos, abandonaram a região. Outros, náufragos
por algum tempo abrigados em São Francisco do Sul, aí também não firmaram posição. Falhou, igualmente, a idéia de criar a Espanha um
govêrno emSanta Catarina(3). Com tudo isso,
permaneceu
sem povoa¬mento fixo, até 1580, quando ocorreu a uniãodas monarquiasibéricas,
(2) Cf.carta deLuís Sarmiento de11-VI1-1535,transcrita em Campanadel Brasil
—
An¬ tecedentesCcloniales, publ. do Archivo Generalde la Nación, tomo I (1535-1749), (Buenos Aires, 1931),págs.5/6.(3) Cf. Helio Vianna
—
"Uma Expedição Espanhola aoSul do Brasil (1559)", in Estu¬ dos de HistóiiaColonial (São Paulo, 1948), págs. 170/196.o litoral
que
vai de Cananéia à margem esquerda do Rio da Prata, in¬ clusive o território da atual República Oriental do Uruguai.Lenta mas seguramente
avançaram
nessa direção os luso-brasileiros.Aoentrar oséculo XVII, encontravam-se na Raia de Paranaguá. Alguns decénios depois, alcançavam e povoavam São Francisco, na costa, e
Curitiba, no interior.
Já
na segunda metade da centúria, prosseguia aexpansão litorânea, fixando-se moradores, principalmente vicentinos, na Ilha de Santa Catarina e Laguna.
As más condições físicas do trecho seguinte, o litoral hoje gaúcho e uruguaio, explicam o salto oficialmente dado em 1680, com a fundação
da Colónia doSacramento em pleno estuário platino,em frente a Bue¬
nosAires.Tentaram osnossosantepassadosdiminuir agrande distância, estabelecendo-se primeiramente em Montevidéu, em 1723, e, por falta de recursos falhada essa iniciativa (que os espanhóis logo souberam
repetir), no Rio Grande de São Pedro,em 1737. Após quase umséculo
e meio de lutas (1680/1828), perderama Colónia, masmantiveram, legi- timamente engrandecido, o Rio Grande dc Sul.
b) Fundação da Nova Colónia do Santíssimo Sacramento (1680)
Não estavam definidos, nos séculos XVI e XVII, os limites dos do¬ mínios portugueses e espanhóis da América do Sul. Era corrente, a
respeito, o
que
fixara o cosmógrafo-mor Pedro Nunes, repetido, poste-riormente,
por
frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil, e pelo Padre Simão de Vasconcelos, na Crónica da Companhia deJesus
do Estado do Brasil. Mas, embora afirmasse o franciscano “que a terrado Brasil... começa além da ponta do Rio das Amazonas, da parte do
oeste, no porto de Vicente Pinzón... e corre pelo sertão até além da
Baía de São Matias”, na prática não chegava “mais que até o Rio da Prata” (4). Contrariando-o, ia mais longe o jesuíta, ao salientar que
na referida baía “é constante fama se meteu marco da Coroa de Por-
tugal”(<*).
Assim sendo, nada mais natural que planejassem os portugueses o
apossamento de algum ponto â margem doRio da Prata, comoem 1673
constou ao governador de Buenos Aires, levando-o a determinar mais uma das posses simbólicas então habituais,esta na Ilha de Maldonado,
o local segundo as suas informações visado por
João
da Silva eSousa,governador do Rio de
Janeiro
(G).Revelando melhor essa intenção, em 1676 doou o príncipe-regente
D. Pedro trinta léguas de costa, a partir di boca do Rio da Prata, no
Cabo de Santa Maria, para o norte, em direção ao Rio de Janeiro, ao 2.° Visconde de Asseca, reservando para a Coroa as terras
fronteiriças
(4) Frei Vicente do Salvador
—
Históriado Brasil—
1500-1627(SãoPaulo, 1918), págs.18/19.
(5) P.e Simão de Vasconcelos
—
Crónica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil(Lisboa, 1662),págs. 15 e 16, apud J. Capistrano de Abreu
—
"Sobre a Colónia do Sacra¬mento", prólogo à História Topográfica e Bélica da Nova Colónia do Sacramento do Rio da Prata, de Simão Pereira de Sá (Rio, 1900), pág. XXVI.
(6) Campana del Brasil, cit., págs. 30/55.
w
que ficassem “da boca do rio para dentro”, isto é, a futura Colónia
do Sacramento(7).
Dando a Portugal maiores títulos para a posse da região, ao criar o
papa Inocêncio XI, pela bula Romani Pontificis,domesmo ano, o bis¬
pado do Rio de
Janeiro,
estendeu sua jurisdição “até o Rio da Prata,pela costa marítima e terra a dentro”.
Decidindo, afinal,o assunto, por instruções doPrincipe D. Pedro, de 1678, determinou êste que o novo governador do Rio de Janeiro, D. Manuel Lobo, de acordo com o que haviam proposto dois de seus
antecessores no cargo, depois de nele empossado passasse ao Rio da
Prata,e aí estabelecesse uma “nova colónia”,fortificando-adevidamente.
Dando cumprimento a essa ordem, obteve auxílios do capitão-mor de São Vicente e do substituto do administrador das Minas, e, com os
recursos recolhidos na própria capitania, partiu para o Sul no ano se¬
guinte. A 20 de janeiro de 1680 desembarcou na costa hoje uruguaia,
no ponto prèviamente fixado como o mais conveniente, próximo à
Ilha de São Gabriel, e deu início à fundação desejada.
Conhecido o fato pelos espanhóis de Buenos Aires, no mesmo mes,
não tardaram a protestar junto àquele governador contra a iniciativa
portuguesa, recebendo em resposta a declaração dc
que
aquelas terrasestavam dentro dos limites da Coroa de Portugal, cram do domíniodo príncipe-regente, e, assim sendo, sem sua ordem expressa não voltaria atrás um
passo.
Não surtindo efeito, nem a intimação para que os luso-brasileiros
abandonassem a região, nem a discussão, por pilotos das duas naciona¬
lidades, sobre a verdadeira situação do meridiano prefixado no Tra¬ tado de Tordesilhas, passaram os espanhóis à preparação de hostili¬
dades, aprisionando os náufragos do socorro levado pelo tenente de
mestre de campo-general Jorge Soares de Macedo, e reunindo ele¬
mentos, notadamente indígenas, de vários pontos, para a efetivação de um primeiro ataque à Nova Colónia. Realizadoeste, com superioridade
de fôrçase cerco
que
durou vinte e trêsdias,conseguiram a 7 dc agóstoentrar na praça, heròicamente defendida por seus fundadores, mortos
e feridos em grande número, sendo
presos
os poucos sobreviventes, in¬ clusive ogovernador.c) Primeira ocupação espanhola da Colónia
do Sacramento e Tratado deLisboa (1680/1683)
Antes de chegar à Europa a notícia da concuista da Colónia do
Sacramento, já se reexaminava, na Espanha, a questão da legitimidade
da posse da região platina, com resultados contraditórios. Para eviden¬
ciarque os erros a respeito nãoeram exclusivamente portuguêses, basta
lembrar que um dos cosmógrafos espanhóis concluía que a Ilha de Maldonado tinha metade de sua superfície na jurisdição dc Castela e outra metade na de Portugal (8).
(7) J. Capistrano de Abreu
—-
op. cif., pág. XXVII; Carlo* Correa Luna—
"Introduc- ción'' àcit. Campanadel Brasil, pág. XLII; Instruções a D. Manuel Lôbo, idem, pág. 67.(8) "Introducción" à cit. Campana del Brasil, pág. LVII.
Ao chegar a Lisboa a notícia da tomada da Colónia,
indignou-se
opríncipe-regente D. Pedro, dispondo-se a começar
imediatamente
novaguerra com a
Espanha,
caso não lhe fosse restituída aquela povoaçãoe tudo quanto nela antes se continha, reconstruída sua fortaleza, liber¬ tados os prisioneiros. Para apresentar amplas satisfações, mandou-lhe
o tímidogoverno de Carlos II da Espanha oDuque de
Jovenazzo
comoembaixador extraordinário, autorizado a evitar a todo o custo um conflito.
Interpondo-se no caso, com os seus bons ofícios, outras cortes euro- péias, chegaram as duas partes ao acordo provisório consubstanciado no tratado assinado em Lisboa justamente nove meses depois da fácil
vitória militarespanhola, a 7 de maio de 1681. De acordo com as suas cláusulas, foram aceitas tôdas aquelas condições impostas pelos por¬
tugueses, acrescentando-se a próxima renovação de conferências sobre a demarcação de limites, eventualmente submetidas ao decisivo arbi¬ tramento do Sumo Pontífice.
Dando cumprimento à penúltima disposição, niais uma vez reuni¬
ram-se comissários das duas nacionalidadesna respectiva fronteira euro¬ peia. Novamente resultaram inúteis os trabalhos desses técnicos, como
diríamos hoje, geógrafos que inicialmente discutiram sobre qual das
ilhas de CaboVerde deveria partir a contagem dasléguasdo meridiano de Tordesilhas,cm seguidadivergiram quanto aos mapas a serem utili¬
zados,eafinal diferentemente localizaramo meridianodivisório, aquém
ou além do pontodisputado no Rio da Prata.
Apesar de terminadas em menos de dois meses essas conferências,
ainda em fins de 1681, transcorreu todo o ano seguinte sem que a Espanha desse cumprimento à parte principal do Tratado de Lisboa,
isto é, a restituição da Colónia do Sacramento. Afinal, no início de
1683 ali se apresentou Duarte Teixeira Chaves, governador do Rio de
Janeiro, conseguindo reempossar Portugal de seu longínquo domínio platino (9).
(9) Cf. Helio Viana
—
História das Fronteiras do Brasil (Rio, 1948), págs. 73/78.—
Amelhor fonte brasileira para o estudo da agitada história da Colónia do Sacramentoé a obra do C.el Jônatasda Costa Rego Monteiro
—
AColónia doSacramento (1680-1777), 2 vols.*)
(
V
PRIMEIRA FIXAÇÃO DE LIMITES AO NORTE. TRATADOS DE LISBOA,DE 1700 E 1701 A GUERRA DE SUCESSÃO DA
ESPANHA ESUAS CONSEQUÊNCIAS NO BRASIL. TRATADOS DE UTRECHT,DE1713E 1715
1.
Primeirafixação de limites
aoNorte
a) Conquista luso-brasileira da
foz
do AmazonasEstabelecidos no Grão-Pará os luso-brasileiros, em 1616, com a fun¬
daçãoda então denominada FelizLusitâniae do forte do Presépio, em
Belém, não tardou que recolhessem notícias relativas à
frequência
epermanência de estrangeiros, notadamente holandeses, ingleses e irlan¬
deses, na regiãoamazônica. Tomando Pedro Teixeira, no mesmo ano,
um navio holandês, cresceram a certeza da perigosa vizinhança e a con¬ vicção da necessidade de eliminá-la.
Emvários pontos do atualEstado do Pará e doTerritóriodo Amapá
haviam-se estabelecido aquêles estrangeiros.No Xingu, a
princípio,
pro¬ grediram por algum tempoos flamengos, inutilizando-se, no Oiapoque,alguns esforços de anglo-saxões. Firmaram-se, depois, aquêles entre o
Gorupatuba e o Jenipapo, hoje Rio Paru, os últimos mais próximos da foz do Amazonas. Pequenas feitorias fortificadas aí criaram, uns e outros, destinadas ao resgate com os indígenas.
Para destruir todos êsses entrepostos, em 1623 veio da Europa o Ca¬ pitão LuísAranha deVasconcelos,queemPernambuco,no Rio Grande
do Norte, Maranhão e Belém recolheu reforços para a empresa. Ata¬ cando e vencendo aos holandeses e inglêses, recebeu,
para
isso, decisivo auxílio do Capitão-mor Bento Maciel Parente.Apesar do rigor do escarmento, não desistiram os estrangeiros de criar posições no Pará e Cabo do Norte, hoje Amapá. Assim, em 1625
novamente apareceram holandeses e irlandeses na Amazônia. Contra
êles mandou Bento Maciel o Capitão Pedro Teixeira. Vencendo-os no
Xingu, perseguiu-os até a região dos tucujus, onde ainda existiam in¬ glêses. Dominados também aí, nem por isso desistiram, uns e outros,
do intento de assenhorear-se da embocadura do maior dos rios.
Em 1628de novo aíseencontravam inglêses, noano seguintecomba¬
tidos por ordem do Capitão-mor Manuel de Sousa d’Eça. Recebendo
reforços o inimigo, coube ao novo governador do Pará,
Jácome
Rai-mundo de Noronha, vencê-los em 1631, completando sua obra Feli¬ cianoCoelho.
Suspensas então, pelas sucessivas derrotas, as tentativas de ingleses,
outras procuraram renovar os holandeses, em 1639 e 1646, falhando os seus desejos de fixação, pela última vez já na região do Cabo do
Norte(x).
b) A capitania do Cabo do Norte
Bento Maciel Parente,soldado, sertanista e administrador, dos mais notáveis que possuiu o Brasil colonial, propôs em 1630 a criação de váriascapitaniashereditárias nos territórios ainda despovoados doentão Estado do Maranhão. Ddas, uma deveria ser localizada à margem es¬
querda do Amazonas, a fim de evitar que ali de novo se estabeleces¬ sem holandeses e ingleses.
Concordando com a sugestão e galardoando o propositor, em 1637
doou-lhe o Rei Filipe IV a capitania hereditária do Cabo do Norte.
Estendia-se essa concessãD por trinta ou quarenta léguas de costa, até
o Rio de Vicente Pinzón ou Oiapoque, já reconhecido como extremo
limite do Brasil.
“Não parece impossível
—
escreveu Varnhagen a respeito—
que,
na preferência dêsse território em favor de um guerreirodistinto, entrasseem conta a notícia de cue na
França
se havia antes (27 de junho de1633) estabelecido uma companhia para colonizar a própria Guiana,
com idênticadenominaçãode terrasdeCabo do Norte
,
econviria opor-sc-lheoutra do lado do Brasil;conjeturaesta que muito sereforça com o fato de haversido, pelo mesmo tempo, odito Bento Maciel nomeado
governador de todo o Estado do Maranhão. De posse do governo, não se descuidou Maciel de acudir, como até estava em seus interêsses, a essa fronteira do Estado maranhense. Pretendeu até mudar para a
margem setentrional doAmazonas a povoação de Gurupá; mas resisti¬ ram a isso os moradores,pelasfebres experimentadas na outra margem,
pelo que teve de contentar-se com o conservar uma guarnição no forte do Desterro, fundado à foz do Rio Jenipapo"(2).
Outras providências em favor de sua capitania determinou o ilustre administrador. Prêso, porém, pelos holandeses, quando êstes em 1641
traiçoeiramente invadiram o Maranhão, pouco depois morreu o do¬ natário (3).
Em 1645, pelo Rei D.
João
IV foi confirmada a doaçãoda capitaniaaofilho e homónimo do primeiro titular. Outro filhoseu, Vital Maciel
Parente, também notável sertanista, foi terceiro senhor da donataria,
mas, falecendo sem descendentes, reverteu à Coroa o Cabo do Norte. CD Cf. Artur C. F. Reis
—
Limites e Demarcações na Amazônia Brasileira. l.° tomo: "A Fronteira Colonial com a Guiana Francesa". Publ. da Comissão Brasileira Demarcadora do Limites—
Primeira Divisão (Rio, 1947), págs. 27/45.(2) Visconde de Porto Segaro
—
História Geral do Brasil,3.a ed.integral (São Paulo,s.d), tomo II, págs.185/186.
(3) Cf. Helio Vianna
—
"Bento Maciel Parente—
Soldado, Sertanista e Administrador", nos Estudos de História Colon.al (São Paulo, 1948), págs. 252/291.A
c) Primeiras divergências com os
franceses
no Amapá Expulsos da entrada da Amazônia os holandeses e inglêses, novoaspecto apresentou a história de sua formação com a fixação de fran¬ ceses na Guiana, embora nos primeiros tempos mais de uma vez íôssem
êles daliexpelidos pelos mesmos holandeses e inglêses. Com o seu defi¬ nitivo estabelecimento na região surgiu a questão da demarcação de
limites entre os seus domínios e o Brasil, pois vagamente pretendiam estendê-los às terras pertencentes à anterior capitania portuguesa do
Cabo do Norte. Explorando-as oficialmente, aí foi ter, em 1660, Pedro da Costa Favela, fundando uma fortificação no Araguari.
Como, porém,
começassem
os franceses a transpor a fronteira doOiapoque,
a fim de traficar com osindígenas, inclusive comprando-lhesescravos, foram presos alguns dêles, resolvendo o govêrno português
tomar
providências que
evitassem a repetição dessas incursões. Deter¬minou então o Rei D. PedroII
que
o governador do Maranhão man¬dasse construir uma fortaleza na região dos tucujus, logo ampliando
essaordem para
que
fôssemlevantadas quantas setornassem necessárias. Em cumprimento da decisão, esteve pessoalmente no Cabo do Norteo
insigne
capitão-mor do Grão-Pará, Antônio de Albuquerque Coelhode Carvalho, em 1687,aí construindo novo pôstofortificado, e também
dando início a outros, em Macapá e no Paru. Ao mesmo tempo, esta¬
beleciam-se no Araguari os missionários jesuítas,aldeando os indígenas.
Foi então que oficialmente manifestaram os franceses, pela primeira vez, suas pretensões à posse do atual Território do Amapá. Em 1688 aí se apresentou o Senhor De Ferrolles, por ordem do Governador De
LaBarre,deCaiena,intimandoos luso-brasileiros a abandonar os fortes construídos acima da margem esquerda do Amazonas, até onde dizia ir o domínio do rei de França. Respondendo se-lhe que essas terras
pertenciama Portugal pelo menos desde a criaçãoda capitaniado Cabo do Norte, retirou-se o emissário francês, limitando-se a entregar uma cartadeseusuperior hierárquico, dirigidaaocitadocapitão-mordoPará. Dando cumprimento às ameaças então feitas, em 1697 novamente
foi à região o mesmo Ferrolles, já então Marquês e Governador de
Caiena. Acompanhado de fôrça, pôde sem dificuldade apossar-se dos