ao compromisso arbitrai de
2. Tratado de La Paz, de
Ao terminar, para a Bolívia, o período colonial, um curioso episódio fronteiriço ocorreu,semconsequências, graças àleal atitudedo govêrno
de D. Pedro I.Derrotados os espanhóisem Ayacucho, a 9 de dezembro
de 1824, pelos hispano-americanos comandados por Antônio
José
deSucre, viram-se perdidos, depois da mortedoGeneral Olaneta, emabril seguinte, os remanescentes do poder castelhano no centro da América do Sul. Umdêles, ogovernador de
Chiquitos,
D.Sebastian Ramos, teveentão a bizarra idéia de solicitar dogovêrno de Mato Grosso a transi¬ tória incorporaçãoao Brasil de sua província, até que fossem vencidos
os “sediciosos” Bolívare Sucre. Imprudentemente aceita a proposta em Vila Bela, por uma maioria ocasionaleque aliás não tinha autoridade
para
fazê-lo, tropas brasileiras entraram por algumas semanas em Chi¬quitos, retirando-se logo, antes mesmo de receber a junta mato-gros- sense a cabal reprovação do govêrno do Rio de
Janeiro
ao impen¬sado ato(2).
t
(1) V. Correia Filho
—
As Raias de Mato Grosso, vol. IV—
Fronteira Ocidental (São Paulo, 1926), págs. 38/115.(2) CastilhosGoycochêa
—
Fronteiras e Fronteiros (São Paulo, 1943), págs.88/92. IConstituído o novo paíssul-americano, a Bolívia, com ela iniciamos
relações diplomáticas em 1831.
Pouco depois, em 1834, coube ao seu encarregado de negócios
Brasil,General MarianoArmaza, tentar,sem resultado, os primeiros en¬
tendimentos relativos à fixação de limites com o Império. Falharam,
igualmente, na Bolívia, outrastentativas nossas, nomesmo sentido, fiadas aos diplomatas Duarte da Ponte Ribeiro, em
1851/1852;
João
da Costa Rego Monteiro, em 1860; Antônio da Costa Rêgo Monteiro, em 1863, e seu sucessor Antônio Pedro de Carvalho Borges, depoisBarão de Carvalho Borges.
De acordo com uma informação do primeiro, a divisa então preten¬
dida pelosbolivianos passaria,depoisdo Rio Paraguai, pela Lagoa Ube¬
raba, Corixa Grande, Serra Aguapeí, Lagoa Rabeca e Rio Verde. A Antônio da Costa Rêgo Monteiro foi pedida a
dimidiação
das LagoasMandioré, Gaíba e Uberaba, mas nada lhe foi reclamado a partirdaí,
até o Guaporé e o Madeira, zonas de nossa posse.
Divulgando-se, em 1865, o texto secreto do Tratado da Tríplice
Aliança contra o governo do Paraguai, no ano seguinte reclamou a
Bolívia contra a projetada e errónea divisa argentina que prejudicaria osseusdireitos a uma partedo Chaco. Foi-lhe, porém, respondido, pelo nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, Martim Francisco Ribeiro de Andrada,
que
“esses ajustes não só respeitam os direitos que a Bolíviapossa ter a qualquer parte do território da margem direita do Paraguai,
mas até expressamente os ressalvam". No mesmo sentido argumentou
o ministro residente, Carvalho Borges (8).
Afinal, em 1867, obteve bom êxito, em La Paz, o deputado Filipe
Lopes Neto, depois Barão de Lopes Neto, plenipotenciário em missão
especial. O Tratado de Amizade, Limites, Navegação, Comércio e Ex¬
tradição,
que
assinou com oministro das Relações Exteriores, MarianoDonatode Munoz, embora ratificado no mesmo ano, foi ainda subme¬ tido ao Congresso Constituinte da Bolívia e por êle aprovado no ano
seguinte, para
que
fosse promulgado como lei da República.Quanto aos limites, estabelecia o tratado, em seu artigo 2.°: “Sua Majestade o Imperador do Brasil e a República da Bolívia
concordaramem reconhecer,como base para ademarcação da fronteira
entre os respectivosterritórios,o uti possidetis,e, de conformidade êste princípio,declarame definema mesma fronteira do modo seguinte:
“A fronteira entreo Impériodo Brasil e a República da Bolívia par¬
tirádo Rio Paraguai,nalatitude do 20°10' ondedeságuaa Baía Negra, seguirá pelo meio desta até oseu fundo, e daí em linha reta à Lagoa
de Cáceres,cortando-a peloseu meio, irá daquià Lagoa Mandioré
cortará pelo seu meio, bem como as Lagoas Gaíba e Uberaba, em
tantas retas quantas forem necessárias, de modo que fiquem do lado
do Brasil as terrasaltas das Pedras de Amolar e da Insua.
“Do extremo norte da Lagoa Uberaba irá em linha reta ao extremo sul da Corixa Grande, salvando as povoações brasileiras e bolivianas,
(3) V.Correia Filho
—
op. cif., págs.128/129.no
con-
com
e a
~
que ficarão respectivamente do lado do Brasil ou da Bolívia; do ex¬
tremosul da Corixa Grande irá em linhas retasao morro da Boa Vista e aos Quatro Irmãos; destes, também em linha reta, até as nascentes doRioVerde; baixaráporêsterio até asua confluência com oGuaporé
e pelo meio dêste e do Mamoré até o Beni, onde principia o Rio Ma¬ deira. Deste rio para oeste seguirá a fronteira por uma paralela, tirada
da sua margem esquerda na latitude sul 10° 20* até encontrar o Rio
Javari.
“Se o
Javari
tiver as suasnascentes ao norte daquela linha leste-oeste,seguirá a fronteira desde a mesma latitude, por uma reta, a buscar a origem principal do
Javari”.
Na última parte dêste artigo estavacontido um grave mas involun¬
tário êrro, que muito contribuiu para a posterior questão do Acre. É
que o Rio Javari, como verificou em 1874 o demarcador Capitão-de-
fragata Antônio Luís von Hoonholtz,clepois almirante Barão de Tefé. não nasce a “Oeste” da confluência do Beni com o Mamoré, ou seja,
onde êste toma o nome de Madeira, a 10° 20' de latitude sul, porém
muito a noroeste do referido ponto, de modo a tornar impossível a referida “paralela”, como aliás prevenia o parágrafo seguinte do tra¬ tado, que a transformou simplesmente numa “reta”, para o caso,
que
severificou mais verdadeiro,deter oJavari
as suas nascentes “ao nortedaquela linha leste-oeste”. A origem da dúvida estava em uma carta
geográfica manuscrita de 1860, o célebre “mapa da linha verde”, que,
traçado por Duarte da Ponte Ribeiro e pelo Major Isaltino
José
Men¬ donça de Carvalho, servira para acompanhar as negociações de queentão estêve encarregado
João
da Costa Rêgo Monteiro, ministro resi¬ dente em La Paz, como posteriormente, as de Filipe Lopes Neto. Nêle eram apresentadas três hipóteses para a localizaçãoda referida nascente,daí partindo a dúvida incluída no mencionado texto(4).
3.
Povoamento
do Acre
A falta dedemarcação, depois dos Tratados de Madrid e Santo Ilde-
fonso, da imensa região situada entre os Rios
Jauru
eJavari,
fêz com que permanecesse desconhecido o trecho entre êste e o Madeira. Zona de florestas ainda dominadas pelos indígenas, figurava nos mapas como verdadeiros desertos, imprecisamente cortados pelos cursos de grandesrios,como o Purus e o
Juruá.
Documentando-o, basta lembrar que noAtlas do Império do Brasil,o melhor de seu tempo, de Cândido Men¬
des de Almeida, publicado em 1868, não figuravam o Rio Acre e seus
principais afluentes e vizinhos. Entretanto, desde 1852 havia sido des¬
coberto pelo prático brasileiro Manuel Urbano da Encarnação,
que
saindo de Manaus subiu o Purus e dêle passou ao seu maior afluente. O mesmo fizeram, em 1875 e 1861, outros brasileiros,João
Rodrigues(4) Castilhos Goycochêa
—
op. cit., págs. 104/123; Obras do Barão do Rio Branco—
V—
Questõesde Limites—
Exposições de Motivos. Publicação do Ministério das Relações Exteriores (Rio de Janeiro, 1947), págs. 12/16, nota.Cametá e
João
da Cunha Correia, certamentesem que suas penetraçõeschegassem aoconhecimento do notável geõgrafo. Fazendo-as, em
regiões
exclusivamentehabitadas pelos selvagens, não podiam saber se explora¬
vam terras pertencentes ao Brasil, ao Peru ou à Bolívia, alheios
que
eram às questões de limites, então ainda envolvidas nas imprecisões deixadas pelo período colonial.
A esse tempo, em consequência do Tratado de 1851, celebrado com
o Peru,
começava
a nossa Secretaria dos Negócios Estrangeiros a cuidarda demarcação dos limites com esse país,
que
interessariam também àdivisória com a Bolívia, visto que não era possível determinar onde acabava o território de uma e começava o de outra dessas repúblicas.
Assim,em 1861 foi nomeadoo Capitão-Tenente
José
da Costa Azevedo,depois Almirante Barão de Ladário, para estabelecê-los no terreno, a
começar
pela exploração do RioJavari.
Mas não pôde realizá-lo, pordiversos motivos, até 1864. Novamente designado comissário para a
mesma fronteira, no ano seguinte, conseguiu, afinal, que em 1866 su¬
bissem
aquêle
rioas partidas peruana e brasileira, chefiadas, respectiva-mente, por Manuel Rouad y Paz Soldán e pelo Capitão-Tenente
João
Soares Pinto. Teve, porém, desastrado fim essa expedição,
que apenas
atingiu a altura de 6o50' de latitude Sul, ainda muito longe da nas¬cente do
Javari,
sendo aíatacada pelos índios maiorunas,que
mataramochefe brasileiroe feriram gravementeo
peruano,
forçando-a à retirada.Retomada a exploração, em 1874, por novos comissários, do Brasil
o
Capitão-de-fragata
Antônio Luís von Hoonholtz, depois Almirante Barão de Tefé,achou-se a fonte principal doJavari
a 7o1'17" de lati¬ tudeSule74°8'27"de longitudeOeste de Greenwich, oque
teria pro¬fundasignificação
para
oslimites do Brasil com o Peru,segundooTra¬tadode1851,oucom a Bolívia,de acordocom otratado de 1867.
Pouco
depois
daquela verificação, e naturalmente desconhecendo-a em suas consequências políticas, em 1877 começaram a chegar às mar¬gens doRioAcre os povoadores espontâneosda nova região, brasileiros de tôdas as procedências, mas principalmente nortistas, inclusive cea¬
renses acossados pela grande sêca dêsse ano,
que
aí se estabeleceram semencontrardificuldadesque
não fossem asda própriafloresta, dando inícioàextraçãoda borracha de seringueira, cujo valorcomeçavaa serapreciado nos mercados internacionais. Nenhuma intervenção oficial foi registrada nessa localização, que logo se estendeu para oeste, atin¬ gindo os Rios Yaco, Purus,Tarauacá e