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2. DESENVOLVIMENTO DO WELFARE STATE E O NOVO

3.3 Período de 1946-1964 De volta à democracia

Em 1946, já no governo Dutra (1946-1950), com a reestruturação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, foram criados o Conselho Superior da Previdência Social (CSPS) e o Departamento Nacional da Previdência Social (DNPS), com a função de supervisionar e fiscalizar as instituições previdenciárias. Ressalta-se ainda a criação do Serviço de Estatística da Previdência e Trabalho e A Câmara de Previdência Social (GENTIL, 2005; KERSTENETZKY, 2012).

Havia grande diversificação na prestação de serviços e nos benefícios que cada instituto e cada caixa eram capazes de proporcionar, porque dependia dos recursos que essas instituições dispusessem. Isso criava uma grande disparidade entre os níveis qualitativos e quantitativos de proteção social.

Gentil (2005) observa que a vinculação dos institutos aos setores produtivos fazia com que algumas categorias profissionais de certos segmentos econômicos mais fortes do movimento operário e sindical forçassem pela ampliação dos planos de benefícios, criando uma situação que era aceita pelo governo, que se utilizava de mecanismos de cooptação das lideranças trabalhistas. Essa situação começou a ser contestada em função da desigualdade de tratamento dos riscos sociais num momento em que a política social europeia, universalizante, influenciava os ideais sobre proteção social no mundo.

Ainda de acordo com Gentil (2005, p. 102), “a equalização de direitos e a uniformização da legislação passou a ser as reivindicações para a transformação dos mecanismos de proteção social. O princípio da equidade que se procurava conquistar significava reconhecer igualmente o direito de cada um”.

Algumas categorias profissionais tinham assistência médica diferenciada, com redes próprias de atendimento e planos de benefícios mais generosos, o que aumentava os gastos sem um correspondente crescimento das receitas de contribuições. Criou-se uma tendência ao desequilíbrio financeiro nos IAP’s, visto que os princípios atuariais deixavam de ser respeitados.

Nesse ambiente de diversidade quanto ao atendimento das demandas previdenciárias foi promulgada, em 1960, a Lei n° 3.807, conhecida como Lei Orgânica da Previdência Social (LOPS). Promulgada após 14 anos de tramitação no Congresso Nacional, é considerada um marco na uniformização da legislação previdenciária, seja em termos de benefícios concedidos e de plano de custeio (muito embora este em menor escala), seja pelo restabelecimento da participação dos segurados nos conselhos de administração, fiscalização, orientação e controle da previdência social. Esses conselhos eram constituídos por representantes do governo, dos empregados e dos empregadores, retomando o modelo de gestão colegiada existente nas antigas Caixas, suprimido pelo governo em 1937. O Decreto n° 48.959-A, de 10 de setembro de 1960, aprovou o Regulamento Geral da Previdência Social (RGPS), considerado um importante avanço legislativo rumo ao princípio da equidade (ARAÚJO, 2004, KERSTENETZKY, 2012). A LOPS trazia no seu artigo 1º a seguinte previsão:

Art. 1º A previdência social organizada na forma desta lei, tem por fim assegurar aos seus beneficiários os meios indispensáveis de manutenção, por motivo de idade avançada, incapacidade, tempo de serviço, prisão ou morte daqueles de quem dependiam econômicamente, bem como a prestação de serviços que visem à proteção de sua saúde e concorram para o seu bem-estar (LOPS, 1960).

Rangel et al. (2009) destacam ainda a importância da LOPS na uniformização das contribuições, bem como das prestações de benefícios de dos diferentes institutos. Segundo os autores,

A alíquota de contribuição dos empregados e dos empregadores ficou estabelecida em 8% do salário de benefício. Além disso, os benefícios foram uniformizados entre as várias instituições e o Estado passou a ser encarregado do pagamento de pessoal e dos encargos sociais correspondentes à administração do Sistema Previdenciário e à cobertura de eventuais insuficiências financeiras. Isso significou, em termos de financiamento, o trespasso de regime de capitalização coletiva para regime de repartição simples (p.43)

O custeio, parte importante do sistema previdenciário, ficou assim definido no artigo 69 da LOPS:

Art. 69. O custeio da previdência social será atendido pelas contribuições:

a) dos segurados, em geral, em porcentagem de 6% (seis por cento) a 8% (oito por cento) sôbre o seu salário de contribuição, não podendo incidir sôbre importância cinco vêzes superior ao salário mínimo mensal de maior valor vigente no país;

b) dos segurados de que tratra o § 1º do art. 22, em porcentagem igual à que vigorar no Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado, sôbre o vencimento, remuneração ou salário, acrescido da que fôr fixada no "Plano de Custeio da Previdência Social";

c) das emprêsas, em quantia igual à que fôr devida pelos segurados a seu serviço, inclusive os de que trata o inciso III do art. 5º; d) da União, em quantia igual ao total das contribuições de que trata a alínea a, destinada a custear o pagamento do pessoal e as despesas de administração geral das instituições de previdência social, bem como a cobrir as insuficiências financeiras e os "déficits" técnicos

verificados nas mesmas instituições;

estabelecida na conformidade da alínea a. § 1º O limite estabelecido na alínea a dêste artigo, in fine, será elevado até dez vêzes o salário mínimo de maior valor vigente no país, para os segurados que contribuem sôbre importância superior àquele limite em virtude de disposição legal.

§ 2º Integram o salário de contribuição tôdas as importâncias recebidas, a qualquer título, pelo segurado, em pagamento dos serviços prestados (BRASIL, 1960).

Como podemos ver na estruturação acima das contribuições, a qual contempla contribuições dos segurados, empregados autônomos, das empresas e da união, coube a esta última a cobertura de eventuais insuficiências financeiras, a qual é resultante das receitas previdenciárias subtraídas das despesas com os benefícios previdenciários.

O quadro 2 abaixo apresenta uma sinopse da evolução das políticas voltadas à produção social no Brasil no período 1930-1964.

Quadro 2 - Políticas Sociais no primeiro governo Vargas (1930-1945)

Ano Intervenção Característica

1930 Criação do Ministério do

Trabalho, da Indústria e do Comércio

Criação do Ministério da Educação e Saúde

Com meios materiais e humanos para executar e fiscalizar a legislação trabalhista e previdenciária. Reforma Campos (1930-32): ênfase na criação de universidades dedicadas ao ensino e à pesquisa, e implantação do ensino secundário (posteriormente ministério Capanema 1934- 1945 enfatiza o “ensino industrial”)

1932 Carteira de trabalho obrigatória para os trabalhadores urbanos

Comprova elegibilidade aos direitos trabalhistas

continuação 1933 Criação do IAPM (Instituto de

Assistência e Previdência dos Marítimos)

Primeiro instituto de previdência por categoria profissional, não mais por empresa, com financiamento e governança tripartite (empresa, empregado, governo, com presidente do Conselho indicado pelo Governo). A participação do governo na receita se faz pela “cota de previdência”, taxa cobrada pelos serviços e recolhidas pelas empresas.

1934 Decreto sobre sindicalização

Regularização da jornada de trabalho geral de 8 horas e da jornada de mulheres e menores, as condições de trabalho (segurança e higiene) e férias. Melhorias dos salários nas indústrias insalubres. Constituição de 1934 cria capítulo sobre Ordem Econômica e Social.

Voto facultativo das mulheres (obrigatório apenas para as que exercem função púbica remunerada).

Criação do IAPC (Comerciário) e do IAPB (bancários)

Reconhece aos sindicatos o direito de lutas pelos interesses econômicos e demais demandas dos trabalhadores como órgão colaborador do poder público.

Reconhece a existência de direitos sócias e delega a governo a competência para intervir e regular contratos na esfera da produção; cabe ao estado legislar sobre salário mínimo, indenização ao trabalhador demitido, regular o exercício das profissões. Princípio do ensino primário gratuito e da frequência obrigatória.

1935 Estabilidade do emprego É vinculada ao contrato de trabalho (ao invés de assegurada pelo seguro previdenciário, como ocorria nas CAPs e IAPs)

1936 Lei do salário mínimo

continuação 1937 Instituído o sindicato único

integrado ao aparelho estatal

Fim do pluralismo e autonomia sindicais, proibição das greves. 1938 Criação do IAPI (industriários) e

IAPETEC (transporte de carga) e IPASE (servidores do estado)

Decreto-Lei que regulamenta a lei do salário mínimo

Criação do DASP (Departamento Administrativo do serviço púbico)

Remuneração mínima devida a todo trabalhador adulto, sem distinção de sexo, por dia normal de serviço, e capaz de satisfazer, em determinada época e região do país as suas necessidades normais de alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte”. Mais tarde incorporado à CLT e aprimorado ela constituição de 1946, que incluiria as necessidades do trabalhador e de sua família (Cardoso, 2011)

Objetivo era a criação de uma elite burocrática moderna 1939 Criação da justiça do trabalho Origem nas juntas de

conciliação e julgamento 1940 Primeira tabela efetiva do

salário mínimo

Criação do imposto sindical

Regulamentação e implementação da lei do salário mínimo

Pago por todo empregado, sindicalizado ou não; 20% se destinavam ao Fundo Social Sindical que secretamente financiava ministérios e campanhas eleitorais

1943 Consolidação das Leis do

Trabalho (CLT)

1945 Decreto propondo a criação do Instituto de Serviços Sociais do Brasil (ISSB)

Prevê a uniformização, universalização e expansão da seguridade social. Em gestação, alcança o governo Dutra, quando não é aplicado (apesar de não revogado) 1946 Constituição: inclusão do voto

obrigatório das mulheres (alfabetizadas);

reconhecimento do direito de greve, à exceção das atividades essenciais (segundo a legislação ordinária, este era o caso de praticamente todas)

1953 Criação das CAPFESP

Fim as CAPs

Unificação das caixas de aposentadoria dos ferroviários 1954 Reajuste de 100% do salário

mínimo

conclusão 1960 Lei Orgânica da Previdência

Social

Uniformização dos benefícios e serviços prestados pelos diversos IAPS (menos em termos de benefícios monetários do que de qualidade dos serviços médicos)

1962 Criação da SUPRA

(Superintendência da política agrária)

Criada para executar a reforma agrária

1963 Instituído o salário família para trabalhador urbano CLT Criado o Conselho Nacional de Política Salarial (que mais tarde passará a regular também os salários profissionais).

Estatuto do Trabalhador Rural

Financiado pelo aumento da carga fiscal das empresas, repassáveis aos preços finais. O salário família é uma fração do salário mínimo.

Instituição da carteira profissional, regulação da duração do trabalho, salário mínimo, repouso semanal e férias remuneradas

1964 Decreto prevendo

desapropriações para a reforma agrária

Não chegou a ser aplicado

Fonte: Brasil, 2009; Kerstenetzky, 2012

Quadro 3 – Benefícios oferecidos pelos IAPS – Brasil - anos 1940

Benefícios IAPM – 1933 IAPB – 1934 IAPI – 1938 IAPTEC - 1938 IPASE – 1938 IAPC – 1940 Aposentadoria por idade X X X X Aposentadoria por invalidez X X X X X X Pensão X X X X X X Assist. médica hosp.. X X X X Ass. Farm. X X Aux. funeral X X X Pecúlio X Aux. Doença X X X X Aux. maternidade X X Aux. Detenção X Contr. segurado 3% 4 - 7% 3 – 8% 3 – 8% 4 – 7% 3 – 8% Fonte: Kerstenetzky, 2012

Como podemos perceber no quadro 3 acima, os benefícios concedidos pelos institutos na década de 1930 continuam contribuição dos segurados, as quais variavam de 3% a 8%. O instituto de previdência dos bancários de destacava, oferecendo uma cobertura mais ampla que os demais.