6 DIREITO PENAL DO INIMIGO
6.6 Periculosidade e Culpabilidade
lugar em que se encontrava, também havia sido vítima de vandalismo e furto, pouco tempo depois.
De igual sorte, George sustentava que se uma janela de algum imóvel estivesse quebrada e não fosse concertada imediatamente, as pessoas daquela localidade que ali passavam, percebiam o vidro estilhaçado, entendendo que naquela região não havia alguém responsável pela manutenção e nem mesmo pela vigilância do ambiente.
O que acontecia era um apedrejamento compassado, mas contínuo do lugar, sendo destruídas as janelas remanescentes.
Isso faz com que a ideia de observação do ambiente seja diminuída de forma drástica, e com o passar do tempo, o mesmo sentimento se alastrasse para as regiões próximas, onde as pessoas de má índole, desocupados, imprudentes ou criminosas em potencial, tenha a preferência por se manterem em localidades do gênero, ou seja, desprovidos de fiscalização segundo Eduardo Luiz Santos Cabette.
Como consequências, as pessoas de boa índole, que não se comprazem com as atitudes de desequilíbrio, e ainda, não suportem a ideia de ausência de vigilância ou da ausência de supervisionamento, buscam outras localidades para residirem, abandonando completamente as localidades anteriores.
Como bem aponta Alexandre Rocha Almeida de Moraes (2011, p. 212) afirmando que a desordem leva a grandes desordens e problemas e por consequencia aos crimes mais graves e ainda, aos de grande monta.
Admitido o princípio da punição de um crime mediante um castigo proporcionado – “pois que o mal merece o mal” – é necessidade lógica concentrar a atenção e o exame sobre a entidade objetiva do mesmo crime.
Admitindo o princípio da defesa social, é necessidade lógica atender sobretudo, e antes de tudo, ao autor do crime, para lhe deduzir a potência ofensiva, isto é, avaliar, além do dano produzido, o perigo que ele representa, quanto à probabilidade de repetir outras ações criminosas. A intuição empírica da “capacidade de delinquir” que ficou e é ainda um critério teórico e um guia prático, quer na avaliação dos indícios, quer na medida das penas, refere-se tanto ao momento que precede como àquele que sucede à consumação de um crime; é, por conseguinte, critério não só de defesa preventiva como de defesa repressiva.
Contudo, Garofalo (1908, p. 180) afirma que a melhor maneira de se educar é através do exemplo, incumbindo ao Estado essa tarefa fazendo por meio de uma “distribuição severa, imparcial, prompta e iniludível da justiça”
Assim, José Frederico Marques (1997, p. 203), acaba por conceituar a periculosidade como sendo a probabilidade da perpetração de uma lesão ao bem jurídico tutelado pela norma penal ao futuro.
Podemos então perceber que ao conceituarmos a periculosidade moderna, está se falando em verdade de um direito penal do inimigo com novo aspecto, porém, com o mesmo íntimo.
Então, na visão de Aníbal Bruno (1967, p. 187) a periculosidade é o mesmo que se falar em probabilidade de perpetração criminosa, vejamos.
Esse juízo de probabilidade assenta, como vimos, no conhecimento de que o indivíduo reúne condições de desajustamento social, de tal natureza e tamanho grau, que fazem prever que ele venha a cometer um fato punível.
O juízo consiste no diagnóstico de um estado atual do sujeito, que permite, o prognóstico da prática provável de um crime.
Ainda no sentido de um perigo iminente, prossegue Aníbal Bruno (1967, p. 195-196).
Encaminha-se para um aproveitamento cada vez mais largo da noção do estado de perigo. Por um lado, já incluem os Códigos, para justificar a aplicação de medidas de segurança, atitudes que não chegam a configurar crimes nem sequer na fase de tentativas e apenas revelam o ânimo criminalmente perigoso do agente. Por outro lado, várias legislações com caráter de Direito Penal e conduzindo a uma decisão judiciária, já disciplinam casos de simples periculosidade ante delictum.
Percebe-se com isso, a linha tênue sobre a cisão do tema em inspeção e sobre o tema, aborda Basileu Garcia (1952, p. 605), asseverando que na
periculosidade, “se deve identificar – não a mera possibilidade, mas a probabilidade de que o indivíduo tornará a delinquir”.
Garcia (1952, p. 605) ainda afirma que diante de tais criminalidades, se fez necessário irromper métodos e tratamentos aos criminosos passando então a ser utilizada a medida de segurança como uma maneira válida e legal sendo ainda considerada recomendável sua aplicação quando das penas indeterminadas.
Giuseppe Bettiol, apud Alexandre Rocha Almeida de Moraes (2011, p.
225-226) leciona sobre a culpa e a periculosidade.
A valorização dos elementos subjetivos da antijuridicidade, o seu enfoque
‘personalista’, a intensificação de uma culpa pela conduta de vida, a afirmação do critério da capacidade de delinquir, a irrupção do conceito de periculosidade embora para fins preventivos são, sem dúvida, sinais determinado que nossa disciplina está adotando. Em lugar de uma fria e abstrata apreciação do fato em sua tipicidade imóvel, pretende-se a apreciação mais concreta, mais vital e dinâmica do homem delinquente.
Ressalva de mérito faz Gunter Jakobs (2009, p. 23) demonstrando a aplicação da sanção ao considerado inimigo.
No lugar de uma pessoa que de per si é capaz, e a que se contradiz através da pena, aparece o indivíduo perigoso, contra o qual se procede – neste âmbito: através de uma medida de segurança, não mediante uma pena – de modo fisicamente efetivo: luta contra um perigo em lugar de comunicação, Direito Penal do Inimigo (neste contexto, Direito Penal ao menos em um sentido amplo: a medida de segurança tem como pressuposto a comissão de um delito) em vez de um Direito Penal do cidadão.
Nelson Hungria, (1955, p. 209-210), percebendo a ineficácia diante da situação que se versa sobre o Direito Penal do inimigo, declara a que o modelo de repressão ao meio criminoso se demonstra ineficiente, conforme podemos constatar.
É notório que as medidas puramente repressivas e propriamente penais se revelaram insuficientes na luta contra a criminalidade, em particular contra as suas forças habituais. Ao lado disto existe a criminalidade dos doentes mentais perigosos. Estes, isentos de pena, não eram submetidos a nenhumas medidas de segurança ou de custodia, senão nos casos de imediata periculosidade. Para corrigir a anomalia, foram instituídas, ao lado das penas, que têm finalidade repressiva e intimidade, as medidas de segurança. Estas, embora aplicáveis em regras post delitctum, são essencialmente preventivas, destinadas à segregação, vigilância, reeducação e tratamentos dos indivíduos perigosos, ainda que moralmente irresponsáveis.
Não obstante, Aníbal Bruno (1967, p. 13-14) aborda sobre a necessidade de uma luta mais eficaz contra uma criminalidade avançada, conforme segue.
As ideias modernas sobre a natureza do crime e as suas causas e a exigência prática de uma luta eficaz contra a criminalidade foram desenvolvendo, ao lado da velha reação punitiva, uma série de medidas que se dirigem, não a punir os criminosos, mas promover a sua recuperação social ou a segregá-lo do meio nos casos de desajustamento irredutível. São as chamadas medidas de segurança. Medidas que pertencem também ao Direito Penal. Com isso, alarga esse ramo do Direito a sua capacidade como instrumento da luta da ordem jurídica contra a criminalidade no sentido de tornar mais efetiva a prevenção geral e especial dos fatos puníveis.
Constata-se pois o motivo de tantos argumentos e críticas, tendo em vista a utilização de dois modelos distintos, quais sejam a escola clássica e a escola positiva, pena e medida de segurança respectivamente.
As maiores críticas a tal situação é a mistura de duas escolhas penais misturando-se a periculosidade e a culpabilidade em um Direito Penal do inimigo.