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1. PROCESSO CRIATIVO DE ALENTO

1.5. PERSONAGENS

Na Antiguidade, Aristóteles fez uma análise das narrativas gregas contadas e encenadas nos anfiteatros, considerando os gêneros comédia, epopeia e tragédia. O primeiro ensaio sobre estrutura narrativa, intitulado A Poética, proposto pelo filósofo, traz à luz o grau de importância que um personagem tem para a composição e desenvolvimento da trama; para Aristóteles, se fôssemos dar dois pesos, à trama e ao personagem, a narrativa seria primária e o personagem, secundário. Contudo, à medida que os estudos narrativos foram se refinando e se atualizando, não se pode mais falar de estrutura em detrimento do personagem, uma vez que estrutura é personagem e personagem é estrutura (MCKEE, 2006).

Um personagem e uma história são complementares; o personagem demanda uma narrativa porque tem uma “falha” para corrigir durante o arco dramático. A trajetória da história, dessa forma, gira em torno da personagem e da resolução da “falha”, da questão. A narrativa funciona devido à força-motriz que o personagem carrega, de forma intrínseca à sua construção, durante os estágios da história. De acordo com Robert McKee, pressão é essencial para que escolhas sejam feitas com risco, afinal “o verdadeiro personagem é revelado nas escolhas que um ser humano faz sob pressão – quanto maior a pressão, maior a revelação [..].” (MCKEE, 2006, p. 106).

Anna Muylaert pontua que quanto mais complexo o protagonista consegue ser, mais interessante a trama se torna: se é apresentado um personagem de conduta admirável, ele deve ter ou terá de cometer algum deslize para que a sua caracterização e quem ele realmente é sejam diferentes e a narrativa se torne crível. McKee suscita que pessoas superficiais e não dimensionais existe, mas para a narrativa não são úteis. Três elementos que devem ser levados em conta para o desenho do perfil de um personagem: veracidade, verossimilhança e realidade (COMPARATO, 2016), além da sinceridade, pois, é através desses elementos e características que o personagem expõe suas verdades para o público e aprende com elas, transformando-se ao longo dos três atos.

A função do personagem é trazer para a narrativa qualidades de caracterização necessárias para escolher e traçar caminhos convincentes (MCKEE, 2006). A combinação de qualidades permite que o público tenha empatia pelo personagem e acredite nas suas ações, colocando-se no lugar dele, como poderia agir da maneira que o protagonista age dentro da

misé-èn-scene8. Cada personagem, na sua posição dentro da narrativa, desempenha uma

função específica para o desenvolvimento da história e, para o estruturalista russo Vladimir Propp (1984), são necessários sete personagens básicos: o antagonista; o doador; o auxiliar; o mandante; o herói; o falso herói; e a princesa. O teórico se baseava nos contos russos quando propôs a estrutura e esquematização dos personagens. Contudo, a contribuição de Propp na compreensão das funcionalidades dos personagens auxiliou outras teorias e construção de arquétipos.

Antes mesmo de me aprofundar nos estudos dos arquétipos, a base dos personagens de

Alento tem quase as mesmas características da proposta de Christopher Vogler. Assim como

Propp, Vogler não enxerga os arquétipos como papéis rígidos de personagens, mas “funções desempenhadas temporariamente pelos personagens para alcançar certos efeitos numa história” (p. 62). Em outras palavras, um personagem pode atuar como mais de um arquétipo, possibilitando a fluidez e a manifestação das qualidades de vários arquétipos. Este termo é uma ferramenta utilizada para entender o objetivo e a função dos personagens de uma narrativa, uma vez que os arquétipos são parte da linguagem universal da narrativa.

Os arquétipos mais frequentes nas histórias são: • Herói;

O arquétipo do Herói representa o aprender e o amadurecer; é aquele que aprende ou cresce mais no curso da narrativa. O objetivo dramático deste arquétipo é apresentar a trama ao público e se tornar passível de identificação a fim de alcançar empatia, fundindo seu olhar e forma de enxergar o mundo com o da audiência. Os heróis são estimulados à ação por impulsos universais e as vontades deles movem a narrativa adiante; sua função também é realizar a decisão da trama. Com certa frequência, este arquétipo traz um personagem que precisa fazer sacrifícios, que é a principal característica dele; o sacrifício, nesse caso, é o abrir mão do que ele valoriza em prol de um ideal, um objetivo maior. Por isso, os protagonistas precisam ter um “querer” para poderem agir na história. Os defeitos, entretanto, humanizam o arquétipo e o aproximam da realidade porque é possível reconhecer os erros, a culpa e os traumas do passado inerentes ao ser humano.

• Mentor

A figura do Mentor representa as maiores aspirações do Herói; simboliza o que o herói pode se tornar ao final da jornada. Não coincidentemente, este arquétipo possui uma relação

estreita com a imagem do pai ou da mãe, simbolizando a sabedoria necessária para os caminhos tortuosos que o Herói terá de tomar. A função dramática do Mentor é ajudar temporariamente o Herói na fase de preparação para a Travessia do Primeiro Limiar, porém, não é necessário haver um personagem desempenhando este arquétipo porque ele é interpretado mais como uma energia, podendo estar presente em objetos, por exemplo.

• Guardião

Este arquétipo representa os obstáculos que normalmente são enfrentados, desde sentimentos particulares até intempéries e pessoas hostis. O Guardião pode ser simbólico ao retratar os demônios internos humanos: as crises emocionais, dependências, neuroses e vícios que impedem que cresçamos e possamos alcançar objetivos. A função dramatúrgica deste arquétipo é testar os limites do herói: como lidar com os obstáculos? É possível vencê-los?

• Arauto

A função deste arquétipo é anunciar que mudanças são necessárias. O Arauto é passível de simbolização através de chamados, a princípio, básicos: assistir a um filme ou a leitura de um livro; até mesmo pode ser um chamado íntimo, um acontecimento externo ou um personagem trazendo mudanças. A funcionalidade dentro da narrativa é motivar e oferecer ao herói um desafio e colocar a história em movimento.

• Camaleão

O arquétipo funciona para retratar personagens cuja aparência ou comportamento mudam para se moldar à narrativa.

• Sombra

A Sombra é compreendida como o antagonista da trama, contudo, a sua função psicológica representa os sentimentos reprimidos, tais como traumas profundos e culpa que se agravam devido às emoções. Na trama, a Sombra atua no desafiar o herói e lhe dar um adversário a ser combatido, criando conflito e revelando quem o herói é ao coloca-lo em uma posição de risco.

• Aliado

Os heróis precisam de aliados para cruzar a jornada de uma ponta a outra, e este arquétipo desempenha várias funções necessárias, como companheirismo, consciência e alívio cômico. São partes não expressas da personalidade do herói que deverão ser adicionadas para que haja um equilíbrio no relacionamento do protagonista e aquele que o acompanha.

• Pícaro

Dentro da narrativa, esse arquétipo funciona como o alívio cômico e pode ser um Aliado trabalhando para o herói. O Pícaro exerce também a funcionalidade de colocar os pés do herói no chão e dizer o que, de fato, está acontecendo.

Estruturado em uma narrativa clássica, os personagens de Alento estão inseridos nos arquétipos universalmente conhecidos, de forma personificada ou não. A construção dos personagens ocorreu antes dos estudos dos arquétipos, como dito anteriormente, todavia, é importante entender quais são as funções que um personagem desempenha em um determinado ponto da narrativa. Enquanto Isadora cumpre o arquétipo do Herói, Gustavo desempenha tanto o Aliado quanto o Pícaro, mas isso não impede que todos os personagens exerçam outros tipos de arquétipos. A Sombra, por sua vez, é desempenhada pela falta de amor; é por causa da ausência desse sentimento que Isadora enfrenta seus traumas com a mãe e coloca sua vida em risco iminente ao realizar o aborto. A protagonista muda de comportamento a partir do momento em que objetiva colocar em prática o procedimento do aborto e assume o arquétipo do Camaleão. O Arauto pode ser interpretado como sendo o HIV, pois é a partir deste momento que as mudanças começam a ocorrer na vida de Isadora. A personagem Martha, embora apareça a partir do segundo ato, é quem aconselha e orienta a heroína em sua jornada assim que se conhecem no grupo de Whatsapp. O Guardião tem um papel decisivo no final do primeiro ato, que, na narrativa, é desencadeado pela psicóloga Tereza, que começa a acompanhar Isadora e, em seguida, oferece a ela um meio de entrar no

chat para comprar medicamentos clandestinos.

Para construir a protagonista Isadora, não encontrei tanta dificuldade quanto pensei que iria, por ser a primeira protagonista feminina que criei. Entretanto, me preocupei com a representação da mulher sob a visão masculina de roteirista; me preocupei se a forma como eu a estava idealizando e traçando o arco narrativo dela, mediante às suas escolhas e atitudes, eram críveis e verossímeis. Não queria, de maneira alguma, construir uma personagem egoísta e fria, calculista. Representação importa e cinema é um meio de comunicação e artístico massivo; a problemática, enquanto criador, não era meramente colocar uma mulher na história, mas saber como narrar a sua história.

Dessa forma, busquei traços dos entrevistados e das mulheres com as quais convivo para compor a personagem Isadora, no tocante às ações e seu comportamento. A narrativa não poderia ser apenas sobre uma jovem mulher tentando abortar, tampouco utilizar o HIV como

justificativa para o aborto. Foi necessário, durante o processo criativo e a construção da personagem, compreender o que Isadora queria, além do que estava explícito.

Isadora quer abortar o bebê não apenas porque foi abandonada ou infectada com HIV pelo namorado, mas justamente porque não consegue amar o feto em desenvolvimento. Uma vez concebida de uma gravidez indesejada, Isadora sabe o preço de não ser amada pela mãe e ter de procurar esse afeto fora de casa – aquele a quem ela transferiu todo o amor a abandonou e a contaminou. Como ela pode dar à luz um bebê que não ama? Isadora, dessa maneira, busca transferir esse sentimento para algo ou alguém durante a narrativa, sem perceber que é ela a quem precisa amar.

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