Esta categoria descreve as características dos idosos usuários da US, do ponto de vista dos profissionais de saúde da instituição, envolvendo aspectos físicos, cognitivos, emocionais e sociais e analisa como essas características estão implicadas na relação do profissional com o idoso.
A subcategoria percepção das características dos idosos (1.1) considerou os aspectos físicos, cognitivos, emocionais e sociais dos idosos que, na percepção dos profissionais, se diferenciam dos usuários das demais faixas etárias. Seis profissionais detectaram perdas decorrentes do envelhecimento (1.1.1) relacionando as cognitivas, como dificuldade de compreensão e lentificação do raciocínio, declínio dos sentidos e um ainda enfatizou o aspecto regressivo da velhice comparando os idosos às crianças. Entre os aspectos físicos citaram perdas motoras, de mobilidade física e estética e quanto aos papéis
familiares e sociais, a viuvez e a aposentadoria, como nos relatos que seguem.
Eles têm dificuldade, não adianta a gente querer que eles não tenham, porque eles não têm uma independência total, eles
têm dificuldade de compreensão, às vezes pegam seis ou sete medicações diferentes e não conseguem distinguir, trocam os remédios, têm dificuldades de visão.(P1)
Acho que a aposentadoria é um problema, principalmente para o homem, a maioria não se prepara para isso, acham
que vão ganhar um prêmio e acaba sendo um problema na maioria das vezes. Ele tinha um cargo, tinha que ir lá todo dia bater o ponto, depois não se tem mais nada disso. (P9)
A dificuldade em aceitar mudanças (1.1.2) foi apontada por cinco profissionais, que deram ênfase à rigidez ou cristalização da personalidade na velhice; quatro profissionais notaram a carência afetiva (1.1.3) e outros três, consideraram a tendência à solidão (1.1.4), como resultado da diminuição da rede social após a aposentadoria, da viuvez e do declínio físico e por ser a velhice uma fase de maior introspecção e revisão de vida.
Tudo que você quer colocar de novo eles não aceitam de maneira fácil, são difíceis pra mudança, então são um público bem diferenciado. (...)(P1)
São muito carentes, percebo isso demais, pegam na mão da gente, às vezes tenho que entrar, sentar, comer bolo. (...)(P2)
Eles se sentem muito isolados, geralmente pergunto o que fizeram nos outros dias e eles dizem que ficaram assistindo novela em casa, ‘vale a pena ver de novo’(...) Isolamento e
perdas, aposentar já envolvem as perdas, os amigos do
trabalho, os filhos que saem de casa, ficam sem chão e o medo de ficar isolado o que leva a depressão também. Alguns me relatam solidão. Alguns vivem sozinhos, as vezes não tem mesmo parente nenhum (...)(P8)
Quatro profissionais apontaram os idosos como sujeitos à maior vulnerabilidade a maus tratos na comunidade (1.1.5) em que vivem, exemplificados com exploração em serviços de saúde, desrespeito no transporte coletivo e assaltos nas ruas.
Primeiro o desrespeito, até colegas que você vê que porque é idoso trata de qualquer jeito. (P5)
(...) É um lugar que é violento, alguns já passaram por isso,
assalto de bolsa, tanta coisa, então eles sabendo disso já tem consciência de que sozinho muito não podem sair, fora os acidentes, né. (P4)
Os aspectos até aqui descritos se associam às noções de ruptura em função das perdas que marcam o último estágio do ciclo de vida, de acordo com Carter e McGoldrick (1995) e J. L. Silva et al. (1997). Esses profissionais consideram as perdas uma questão central da velhice. Esse ponto de vista coincide com os resultados das pesquisas realizadas com os profissionais da área da saúde quanto aos significados atribuídos ao envelhecimento e à velhice estarem notadamente, associados à maior dependência física e emocional e as queixas e condições mais relatadas nas consultas, à solidão e isolamento familiar (Bezerra et al., 2005; Comerlato et al., 2007; Fonseca et al., 2008).
Por outro lado, quatro participantes reconheceram os idosos como ativos (1.1.6) por buscarem informações, atualidades, lazer e por desejarem participar e serem ouvidos nas atividades propostas pelos profissionais na US. As narrativas a seguir, ilustram a surpresa de duas profissionais ao iniciarem o trabalho com idosos na US. Imaginavam encontrar pessoas acomodadas e voltadas às questões do passado, entretanto, relacionando-se com os usuários, perceberam que se tratava de pessoas dinâmicas à procura de uma forma ativa de participação.
Porque a gente imagina idoso como uma pessoa que está parando e quando entrei aqui [na US] a minha visão foi outra, são pessoas que fazem caminhada, coisa que a gente não faz, eles dançam, coisa que você não dança, eles montam coisas que você não monta, então são pessoas totalmente
diferentes. Eles são, não digo todos, mas aqui a maioria deles tem um incentivo enorme, vão passear, se têm hipertensão pra eles não importa, estão indo para os bailes, visitar indústrias, como a Coca-Cola, estão sempre indo viajar. Vejo muita diferença, vejo muita animação neles, mais do que na gente, a gente vai parando antes, já vai se achando velho desde agora. (P7)
Características que denotam maior maturidade (1.1.7) foram apontadas por três profissionais que compararam diferenças entre usuários de outras faixas etárias e os idosos, que valorizam as oportunidades o que facilita a relação interpessoal.
Mas também o jovem tem menos paciência, é mais ansioso e
o idoso tem mais tempo. O idoso já pensa para dar uma resposta e o adolescente é mais apressado, ele não pensa
muito, ele age, ele diz. (P6)
O fato da US desenvolver atividades de promoção e prevenção em saúde, recebendo não só pessoas dependentes ou que vão buscar tratamento para doenças, auxiliou alguns participantes a ressignificar essa etapa do desenvolvimento por meio do contato com idosos ativos e participativos. Mas, apesar de algumas narrativas ilustrarem os ganhos e continuidade na velhice (Carter & McGoldrick, 1995 e J. L. Silva et al.,1997), como a maturidade e o envelhecimento com participação social, as circunstâncias associadas às perdas e declínio predominaram entre os profissionais.
A subcategoria percepção da relação profissional/usuário idoso (1.2) detectou como os profissionais percebem as implicações das características dos idosos nos serviços a eles prestados. Sete participantes disseram que os idosos exigem mais atenção e paciência (1.2.1) dos profissionais. A atenção se refere ao relacionamento afetivo, pois o idoso tenta suprir na relação com o profissional, a falta de outras possibilidades ou o isolamento que vivencia nas relações familiares. Essa atenção é demandada também pela confiança que o idoso deposita nos profissionais e busca, nesse vínculo, elementos para se sentir seguro face às inúmeras fragilidades que surgem em decorrência do envelhecimento. Nesse sentido, o profissional precisa se dispor a dar a
atenção que o paciente solicita e gerir o fator tempo, já que o atendimento exige mais envolvimento por questões afetivas ou declínio orgânico, como dificuldade de compreensão, ocasionada por perda auditiva, ou dificuldade de deslocamento.
(...) O idoso é carente de uma atenção maior, o que você oferece ele quer saber mais, ele aprofunda mais. Tem consulta que dura meia hora, você fica conversando, fala da alimentação, do cuidado com os pés, do rodízio da aplicação da insulina. Eles querem realmente atenção, querem ser
mais ouvidos. (P3)
É o meu jeito de trabalhar com o idoso, não que eles exijam, mas a gente já sabe que precisa de um cuidado maior, uma atenção maior com eles, ter paciência de repetir olhando no
olhinho dele, para ver se ele está prestando atenção no que você está falando, se ele é surdo tem que estar prestando atenção na tua boca para ver, tenho muita dó que às vezes a pessoa vem e fala rápido e não vê que ele fica perdidinho.
As vezes eu acabo o meu procedimento e vou lá e pergunto se ele entendeu o que a pessoa [um outro profissional] falou e repito. As vezes a pessoa não tem paciência de falar na linguagem deles que é mais humilde. É delicadinho assim,
tenho dó quando as pessoas não percebem que tem que
tratar eles de um jeito assim diferente. Tem que ter a delicadeza de prestar atenção e ver a dificuldade que o outro tem. (P5)
Esses casos compactuam com o discutido por Vianna, Vianna e Bezerra (2010) quando defendem que na relação médico-paciente idoso, a escuta autêntica exige paciência, atenção e interesse para que desenvolvam um relacionamento construtivo. Assim, ao incorporar cuidados com o sofrimento do paciente, além do conhecimento técnico e diagnóstico, inclui a sensibilidade para conhecer a realidade da pessoa, ouvir suas queixas e encontrar com ela, estratégias para lidar com o envelhecimento, doenças e decrepitude. Além disso, essa postura profissional ancora-se nos princípios da clínica ampliada, conforme a Política Nacional de Humanização (Ministério da Saúde, 2004), que
extrapola os indicadores biológicos e precisa necessariamente, incluir aspectos psicossociais.
Se por um lado, as narrativas dos profissionais indicaram a preocupação em possibilitar um espaço de escuta e atenção ao idoso, o uso de expressões no diminutivo, como empregado no segundo exemplo, denota certo estereótipo de fragilidade generalizada para todos os idosos. Nesse viés, Golub e Langer (2007) apontaram que a utilização desse tipo de expressão pode ser uma das manifestações de ageismo, já que contribui para a infantilização da pessoa idosa.
Quatro profissionais relataram que os idosos são mais agradecidos (1.2.2) porque expressam mais abertamente a sua gratidão ao atendimento recebido.
(...) Eu também em contrapartida, eu tenho muitas coisas agradáveis para te contar, porque eles me trazem
lanchinhos, bordados, cachecol... trazem tantas coisas porque eles querem me agradar (risos). Eles próprios fazem
e sempre me presenteiam, são muito carinhosos. (P10)
Quatro profissionais indicaram que os idosos aceitam melhor as orientações (1.2.3) em relação ao tratamento e ao funcionamento da US. Essa atitude se associa à maior preocupação com a saúde e pela maturidade que lhes possibilita entender a intenção dos profissionais e reconhecer as suas limitações e as da US, como também pela questão afetiva.
Eu acho que o idoso valoriza mais a informação que você
dá. Isso a gente percebe claramente dentro do consultório
quando [fala procedimento que realiza]. Ele valoriza o que você oferece para ele, o jovem já não. (P3)
Os idosos aceitam, fazem questão, porque eles têm aquele vício, eles se viciam até [no atendimento]. Eles gostam mais,
aceitam mais, não sei se por causa da idade e da solidão também. (...) Eu acho mais fácil do que trabalhar com o
adulto, acho que eles são mais educados e conseguem entender mais. (P4)
A percepção de que os idosos fazem parte de um grupo heterogêneo (1.2.4), é aceita por dois profissionais.
(...) Mas eu vejo assim, que eles são mais maduros, alguns
não cresceram, continuam com manha de criança, você tem que ter essa capacidade de entender isso. Mas eu acredito
que os idosos aprendem sim, as pessoas se enganam pensando que eles não aprendem mais, às vezes a pessoa acredita que está velha e não vai mais mudar, acho que precisa uma disposição interior para tudo, se você disser que não vai mais mudar, daí não muda mesmo. (P6)
Mas os idosos, como eu te falei são uma população muito
heterogênea, cada um tem um perfil, um jeito, então não dá
para estabelecer regras, protocolos. Se for usar protocolos vai ter problemas, tem que abrir vários adendos. (P9)
Trabalhar com usuários idosos também leva o profissional a pensar no próprio envelhecimento (1.2.5). Dois participantes da pesquisa identificaram essa característica na relação profissional/idoso, como ilustra a seguinte narrativa.
Acho que tem muitas coisas, muitos sentimentos passam por nós. Primeiro nós temos que trabalhar como eu, por exemplo, que já tenho [fala idade], trabalhar o meu próprio
envelhecimento, a aceitação desse envelhecimento. (P6)
Vianna et. al. (2010) discutem que os profissionais de saúde que atuam com idosos passam pelo mesmo processo de envelhecimento. Eles salientam que os problemas dos pacientes emocionam os profissionais, direta ou indiretamente, na medida em que se identificam com as situações vivenciadas pelos idosos que cuidam. Essa circunstância permite aos profissionais refletir sobre o envelhecimento de seus familiares e nas suas relações com eles, pois em vários momentos das entrevistas, recorriam às experiências familiares para exemplificar seus pensamentos.
A presente categoria ilustrou que os profissionais da saúde que atuam na US percebem mais as características associadas ao processo de declínio nos idosos atendidos. Apesar de fazerem algumas considerações sobre a possibilidade de um envelhecimento ativo, salientaram as associadas à perda, dependência e carência.
Essas particularidades também despontaram na relação do profissional com o idoso quando este exige envolvimento acentuado de afeto e de tempo necessário para as consultas, em função das limitações da idade. A opinião dos profissionais indicou que ao suprirem as necessidades dos idosos, estes se mostravam envolvidos no tratamento ou atividades propostas e agradecidos, recompensando o trabalho do profissional.
O fato de os profissionais salientarem o declínio na velhice em detrimento dos ganhos e continuidade nessa etapa, relaciona-se possivelmente, com as condições da clientela atendida, já que os idosos mais fragilizados demandam mais dos profissionais. Por outro lado, todos os profissionais têm acesso a informações sobre as diversas condições e maneiras de envelhecer, já que a US é um centro de referência na atenção aos idosos, da cidade. Por esse motivo, justifica-se a necessidade de formação específica para o trabalho com idosos, como indicam por Motta e Aguiar, (2008) e Souza et. al. (2008), para possibilitar espaço de reflexão sobre o envelhecimento humano. Nesse contexto, entre os dez participantes desta pesquisa, apenas três tinham cursos de especialização em Geriatria ou Gerontologia, outros três haviam participado de cursos curtos e quatro aprenderam, na prática, a trabalhar com idosos.
O predomínio da visão sobre declínios da velhice se ancora na concepção organicista e para a saúde do corpo, o que se constitui um dificultador na abordagem de situações de violência familiar, como será discutido adiante.
Categoria II – Significados Atribuídos à Violência e à Violência