3. O TURISMO EM RESORTS E O CLUB MED NO NOVO MILÊNIO
3.4. Perspectivas críticas sobre lazer e consumo
A partir dos anos 60, observa-se a acentuação das críticas ao lazer vinculado ao consumo. Um dos destaques é o ensaio Tempo Livre242, publicado em 1969, pelo filósofo Theodor Adorno. Para o autor marxista, tanto o trabalho quanto o tempo livre foram “coisificados” na sociedade burguesa. O tempo em que se está livre do trabalho é unicamente destinado a restaurar as forças de produção. Nessa linha, a “imbecilidade de muitas ocupações do tempo livre” 243 reforça a divisão racional da existência como esquema de conduta do caráter burguês, que separando “tempo livre” e “trabalho”.
Por um lado, deve-se estar concentrado no trabalho, não se distrair, não cometer disparates; sobre essa base, repousou outrora o trabalho assalariado, e suas normas foram interiorizadas. Por outro lado, deve o tempo livre, provavelmente para que depois se possa trabalhar melhor, não lembrar em nada o trabalho. (...) Por baixo do pano, porém são introduzidas, de contrabando, formas de comportamento próprias do trabalho, o qual não dá folga as pessoas244.
Adorno afirma que a liberdade organizada é coercitiva. Um dos exemplos citados é a fórmula proposta pelos campings onde as pessoas não percebem o quanto não são livres
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ADORNO, Theodor. Indústria Cultural e Sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002
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no lugar em que mais sentem essa sensação. Isso aconteceria, explica Adorno, porque a “regra de tal ausência de liberdade foi abstraída dela”.
Outro reflexo da falta de consciência do verdadeiro “tempo livre” seria o tédio. Segundo o filósofo, o tédio é resultado da vida sob coação do trabalho que não permite que as pessoas possam decidir sobre si mesmas e suas vidas “encerradas no sempre igual”. O modelo proposto pelo sistema capitalista teria destruído a capacidade criativa das pessoas, sendo a escolha de um hobby considera a ferramenta capaz de suprir esse vácuo. Apesar do cenário pessimista, Adorno ainda vislumbra no ensaio uma chance de emancipação para a sociedade a partir do momento em que houver uma integração entre as pessoas para transformar o tempo livre em liberdade.
Em 1962, Edgar Morin publica L´espirit du temps245 no qual defende que a cultura de massas é a responsável pela produção de mitos condicionadores da integração do público consumidor à realidade social, sendo o lazer um dos principais setores da sociedade em que esse poder se manifesta. Nas palavras de Morin, o lazer moderno “saiu da própria organização do trabalho burocrático e industrial” 246 na medida em que, ao se enquadrar na lógica da economia, englobou lentamente os trabalhadores em seu mercado. A indústria de lazer não oferece apenas um tempo de repouso e recuperação, mas, sobretudo, um canal de acesso ao consumo. E, assim, o lazer moderno surge como “o tecido da vida social, o centro onde o homem procura se afirmar enquanto indivíduo privado”247. Essa tendência seria expressa nas férias modernas que se contrapõem ao tempo dedicado ao trabalho. A vida de férias pode ser lida como “uma grande brincadeira: brinca-se de ser camponês, montanhês, pescador, lenhador, de lutar, correr, nadar...”248. O turismo torna-se, nessa perspectiva, uma grande viagem-espetáculo ao interior de um universo de paisagens.
A cultura de massas funcionaria como uma força mobilizadora para a ética do lazer, orientando a busca da saúde individual durante as atividades de recreação e cultuando o lazer como um estilo de vida. A experiência do turismo no Club Med é descrita por Morin. Segundo o autor, as férias organizadas pela rede oferecem “uma vivência
245 O livro foi publicado no Brasil em dois volumes intitulados “Cultura de Massas no Século XX”. MORIN,
Edgar. Cultura de massas no século XX: neurose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.
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racionalizada, planificada e quase cronometrada”249 na qual tudo está previsto: comodidades, festas, distrações, ritos, emoções e alegrias. Ao se referir ao village de Palinuro, na Itália, afirma:
A técnica moderna recria um universo taitiano e lhe acrescenta o conforto dos bujões de gás, duchas, transistores. Essa organização cria uma espantosa sociedade temporária, inteiramente fundada no jogo- espetáculo: passeios, excursões, esportes náuticos, festas, bailes. Essa vida de jogo-espetáculo é ao mesmo tempo a acentuação de uma vida privada onde se travam, de modo mais intenso que na vida quotidiana, relações, amizades, flertes, amores. É feita à imagem da vida cinematográfica, das férias que conduzem os olímpicos a Miami, Taiti... Palinuro é um microcosmo vivido da cultura de massas.250
Dentro desse microcosmo, o autor aponta a existência de dois grupos: os “olimpianos” ativos, que seriam os GOs, e aqueles que os contemplam, os GMs. Esses olimpianos251 “propõem o modelo ideal da vida do lazer, sua suprema aspiração. Vivem segundo a ética da felicidade e do prazer, do jogo e do espetáculo” 252.O que se destaca no caso do Club Med, para Morin, é a separação tênue entre essas duas classes. Na medida em que os contatos são fáceis e estreitos, a passagem para o Olimpo se torna possível. E, assim, se realizaria no resorts o ideal da cultura de lazer cujo objetivo seria a vida dos olimpianos modernos marcados por heróis do espetáculo, do jogo e do esporte. Mesmo que de forma fragmentária e temporária, cria-se uma utopia concreta. Neste sentido, os hotéis poderiam ser considerados templos de entretenimento e relaxamento vez que a “filosofia” vendida propõe pôr fim às angústias do sujeito contemporâneo.
Outra perspectiva crítica em relação ao lazer é apresentada na obra A Sociedade de
Consumo253, de Jean Baudrillard, publicada em 1975. Para o autor, o tempo ocupa um lugar privilegiado na sociedade de consumo na medida em que conserva
especial valor mítico de igualização das condições humanas, valor intensamente retomado e tematizado hoje em dia pelo tempo de lazer. O velho adágio em que concentrava outrora toda a reivindicação de justiça social e que rezava – ‘Todos os homens são iguais diante do tempo e da morte’ – sobrevive agora no mito, cuidadosamente alimentado, de que todos se descobrem iguais no lazer254.
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251 Os olimpianos, para o autor, são pessoas famosas e célebres que encarnam papéis de protagonistas
na cultura de massa. Na definição de Morin, esses olimpianos “são, simultaneamente, magnetizados no imaginário e no real, simultaneamente, ideais inimitáveis e modelos imitáveis; sua dupla natureza é análoga à dupla natureza teológica do herói-deus da religião cristã: olimpianos e olimpianas são sobre- humanos no papel que eles encarnam, humanos na existência privada que eles levam”.
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253 BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 2003. 254 IBID: 160
Para ilustrar esse mito, o autor relata uma breve história que teria se passado no Club Méditerranée e que refletiria a ideologia da rede hoteleira. Dois homens em um dos hotéis da rede sentiram uma profunda camaradagem durante a estadia e ao trocarem endereços e informações pessoais, descobriram que trabalhavam na mesma fábrica, sendo um como diretor e outro como guarda noturno. Para Baudrillard, entre os postulados metafísicos dessa narrativa estariam: (1) o lazer constitui o reino da liberdade; (2) os homens são livres e iguais uns aos outros. No estado da natureza, eles recuperam o espírito de liberdade, igualdade e fraternidade; (3) o tempo encontra-se necessariamente submetido ao mesmo estatuto que todos os bens produzidos ou disponíveis no sistema de produção.
Segundo o autor, não existe igualdade das possibilidades e democracia nos usos do tempo livre. Nas sociedades modernas, o tempo seccionável, abstrato e cronometrado se transformou em uma mercadoria preciosa e submetida às leis do valor de troca que pode ser vendido ou comprado. O lazer é definido pelo autor como o consumo do tempo e, sobretudo, pela liberdade de perdê-lo. As férias, por exemplo, constituem, para Baudrillard, a busca de um tempo em que o indivíduo possa se perder no pleno sentido da palavra.
Repouso, descanso, evasão e distração seriam necessidades dos seres humanos, mas o “verdadeiro valor do uso do tempo, que o lazer procura desesperadamente restituir, consiste em perder-se”255. Segundo Baudrillard, a alienação do lazer é muito profunda. Não basta apontá-lo apenas como tempo necessário para reconstituição da força de trabalho, pois a alienação se encontra na própria impossibilidade de perder tempo, exemplificada na máxima “time is money”. No sistema de produção capitalista, o tempo livre das férias é uma propriedade privada que se ganha após um ano de trabalho. No entanto, o autor afirma “vivemos numa época em que os homens jamais conseguirão perder tempo suficiente para conjurar a fatalidade de passarem a vida a ganhá-lo” 256. Segundo Baudrillard, o lazer reproduz os constrangimentos mentais e práticos do tempo produtivo e da cotidianidade escravizada.
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