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O conteúdo deste item decorre da necessidade de compreender o objeto de pesquisa dentro do seu contexto. Nosso objetivo é, agora, expor os primeiros estudos oficiais sobre o currículo, apresentando-o através da Teoria Tradicional. Para tanto, recorremos aos autores e aos fatos históricos que contribuem para a compreensão do desenvolvimento do currículo até o surgimento das Teorias Críticas.

Nessa direção se justifica a presença dos próximos itens, pois, de acordo com Moreira e Candau (2008), Silva (2009) e Costa (2003), que tratam o currículo a partir de perspectivas e não de conceituações ou definições, ele não pode ser considerado objeto estático, mas dinâmico, pois se apresenta em constantes transformações.

Partimos, então, do pressuposto de que analisar os currículos significa estudá-los no contexto em que se configuram e no qual se expressam em práticas educativas. Sobre a origem do termo , encontramo-lo na Antiguidade Clássica, é certo que a realidade escolar sempre coexistiu com a realidade curricular.

Além de diversas teorias e vertentes encontramos, como já dito, diferentes definições de currículo. O que temos hoje, a versão moderna, consolidou-se do século XIX para o XX e foi constituído por saberes ditos coerentes, assim como por uma estrutura didática para sua transmissão. Essa estrutura manteve-se fixa e estável por um determinado período, mesmo com surgimento de algumas propostas de reformas e mudanças.

Sobre a perspectiva moderna do currículo, foram os americanos que a teceram, dando-lhe características de um artefato comprometido com os ideários científicos e administrativos que existiam no início do século XX. É nessa época que Bobbit escreve The Curriculum (1918), obra publicada num momento decisivo da história da educação estadunidense, quando diversas forças econômicas, políticas e culturais, a partir de diferentes visões, procuravam moldar os objetivos e as formas educacionais, buscando responder quais seriam as metas da educação escolarizada. Essa obra passa, então, a ser considerada como um marco, porque

pode dizer-se que foi a partir dela que o currículo passou a ser considerado como um objeto de estudo específico. Dentro da perspectiva bobbitiana, orientada pela Teoria Taylorista15, a escola e o currículo deveriam ser concebidos e postos em prática da forma como se organizava a empresa e a fábrica.

Para Bobbit, o sistema educacional deveria estabelecer objetivo e resultado pretendido, assim como a metodologia para atingir esses resultados. Deveria também determinar e utilizar os padrões adotados nas empresas e fábricas. Ele propunha que as escolas funcionassem como uma empresa, especificando que resultados pretendiam obter, quais métodos usariam para alcançá-los e a que formas de mensuração recorreriam para saberem se realmente tinham chegado às metas. Em outras palavras, Bobbit concebia o currículo como um processo de racionalização de resultados educacionais semelhante ao industrial, cuja administração seguia os padrões de Taylor. Nessa perspectiva, a finalidade da educação limitava-se a atender às exigências profissionais impostas pela vida adulta, passando a ser simplesmente uma questão de desenvolvimento. As influências desses princípios refletiram diretamente no currículo, constituído como campo de estudo na educação.

Em 1949, com a publicação do livro de Ralph Tyler , intitulado ―Princípios Básicos de Currículo e Ensino‖, o modelo de currículo firmado por Bobbit é consolidado, pois, com os estudos de Tyler, a ideia de organização e desenvolvimento tornam-se referências na concepção do currículo. Para Tyler, essa ideia deveria responder a quatro questões: que objetivos educacionais deve atender; como selecionar os conteúdos; como organizar o método de ensino e de instrução para alcance dos objetivos; e, por último, como avaliar para confirmar, ou não, o alcance desses objetivos. Como Bobbit, ele também postula que os objetivos devem ser definidos e estabelecidos. Defende, ainda, que deveriam ser feitos estudos sobre os próprios estudantes, sobre a vida contemporânea fora da escola e adotarem-se sugestões dos especialistas das diversas áreas. No entanto, o levantamento dessas sugestões deveria ser feito a partir da filosofia social e educacional com a qual a escola estivesse comprometida, e também através da psicologia da aprendizagem.

Nesse período, Jonh Dewey apresenta também uma concepção de currículo, porém dentro de uma perspectiva mais progressista. Para ele, era importante levar

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Teoria desenvolvida a partir da observação de trabalhadores das indústrias, pelo americano Frederick W. Taylor (1856-1915).

em consideração, no planejamento curricular, os interesses e experiências das crianças e jovens. Seu ponto de vista estava mais direcionado à prática de princípios democráticos, sendo a escola um local para essas vivências. Dewey não demonstrava, porém, preocupação com a preparação para o trabalho e para a vida adulta do homem. Não sendo essa perspectiva tão difundida quanto a de Bobbit.

Nessa época, o currículo predominante nas escolas era o clássico, humanista, oriundo da Antiguidade Clássica; apresentava-se, pois, de forma monocultural. Esse modelo de currículo é encontrado inicialmente na educação universitária medieval e renascentista, e ordenava assim as disciplinas: Trivium (gramática, retórica, dialética) e Quadrivium (astronomia, geometria, música, aritmética). De maneira geral, esses assuntos tinham como objetivo levar os estudantes a dominarem o repertório das grandes obras literárias e artísticas gregas e latinas. O conhecimento dessas obras e dessas línguas era considerado a melhor e maior realização de um ser humano culto, principalmente se ele desse corporificasse os ideais propostos.

Na perspectiva de ensino do Trivium e do Quadrivium, o currículo era concebido como uma forma de organizar a aprendizagem num contexto organizacional, previamente planejado a partir de finalidades e com determinação de condutas formais precisas, e a partir da formulação de objetivos. Atribuem-se a essa perspectiva, também, as definições que apontam o currículo como o conjunto de conteúdos a serem ensinados, organizados por disciplina, temas, áreas de estudo e com um plano de ação pedagógica, fundamentado e implementado num sistema tecnológico. De acordo com Pacheco,

Na tradição técnica, currículo significa o conjunto de todas as experiências planificadas no âmbito da escolarização dos alunos, vinculando-se a aprendizagem a planos de instrução que predeterminam os resultados, valorizam os fundamentos de uma psicologia de natureza comportamentalista. (2005, p. 33)

No entanto, tanto o modelo tecnocrático quanto o progressista, dentro da perspectiva tradicional, faziam críticas ao currículo clássico. O primeiro destacava a inutilidade dos conhecimentos inseridos no currículo clássico para a vida moderna e para o trabalho. O segundo, o progressista, possibilitava que tal currículo não considerava os interesses e experiências para aqueles aos quais era direcionado.

Esse é um panorama em nível global sobre o currículo, porque no Brasil essa temática ampliou-se consideravelmente somente depois dos anos 1980. Hoje

avaliamos que a produção científica brasileira, publicada em livros e periódicos, já não se faz dependente da literatura dos Estados Unidos e da Inglaterra. Essa produção, ao longo dos últimos 20 anos, aponta que a reflexão e as críticas dos estudiosos sobre o assunto é hoje bastante superior a que era realizada nos anos 1980.

Ressalta-se que o advento dessas reflexões mais aprofundadas e das críticas deve-se, sobretudo, ao início do movimento da democratização da escolarização secundária, pois o modelo clássico predominava devido, principalmente, ao acesso à escolarização, que era privilégio da classe dominante.