2. CONTEXTO AXIOLÓGICO: A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA E OS
2.5. Perspectivas futuras para uma sociedade do presente?
O confronto está posto. Nossa geração caminha em consonância, estranheza ou rebeldia diante do mundo como ele se apresenta hoje. E assim,
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alguns se lançam na busca de propor alguns caminhos. Pourtois e Desmet (1999, p. 29) defendem que o “mundo pós-moderno” almeja um equilíbrio entre o racional e o subjetivo, sem sobrepujar um sobre o outro. Perguntamo-nos então que (ou quem) “mundo” é esse o qual se referem? O crescente individualismo não parece mostrar-se tão amigável a tal equivalência.
Vattimo (2006, p. 41) propõe que a alternativa mais sensata seja construirmos a “civilização do declínio”, colocando em planos inferiores o enaltecer dos valores para sugerir uma negociação com “as sociedades do Terceiro Mundo” – que, para o autor, são “nossos adversários” ou “uma ameaça para nós25” – num dissociar do mundo em Ocidente cético e Oriente fundamentalista. Também no viés da negociação, porém numa outra perspectiva, o olhar de Appadurai (2006, p. 43) enxerga o problema não como um choque de civilizações, contudo uma “crise de nomes”, uma vez que “o mundo muçulmano não está unificado, a Al-Qaida tanto se opõe a determinados regimes árabes como aos Estados Unidos e o Corão não inclui qualquer justificação em relação a uma violência generalizada contra civis”, exemplificando apenas uma das diferenças intra-grupos presentes no planeta. Tal postulado reporta para a discussão centrada no âmbito da tão falada crise de identidade, o que nos parece um viés interessante.
Todavia, embora sejam visões distintas do fenômeno, propõe um mesmo método: um processo infindável de negociação. Nas palavras de Appadurai (2006, p. 48), “num mundo assim, temos de deixar de considerar o universal como uma garantia, para podermos construir referências em função das urgências do momento”. Surgem então diversas indagações. Qual será a base para tal negociação? O que haverá de consensual? O acordo não estabeleceria algo universal para as partes concordantes? A hibridação dos valores não seria uma fuga paradoxal do relativismo axiológico, ou uma versão eufemista deste? Finalmente, e ainda mais além, de quais valores estamos falando?
Dissociaremos então o mundo em vários sacos, classificando-os pela etnia, padrão socioeconômico e/ou credos religiosos, ou nossa análise passará pelo crivo dos distintos comportamentos oriundos da maneira como cada ser
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humano exerce a “sua crença” ou “seus “valores”? Relembramos que a conduta pode ser bem distinta dos ideais postulados na essência nominal abraçada. Em outras palavras, autodenominar-se detentor de certos valores e princípios, implica viver de maneira coerente com o discurso? Alguém que se associa a determinada ideologia, necessariamente a representa a altura de suas prerrogativas? Recordamos o que, ilustrado no plano dos valores éticos, Patrício (1993, p.155) chama de “conduta moral efetiva”, não sendo o mesmo que “ideias morais ou ideias éticas”, ou muito menos “ordem moral ou ordem ética”, mas sim o realizar prático efetivo da concepção moral e ética assumida26. Não confundamos, portanto, o valor propriamente dito com a vivência que o ser humano dá a este, ou tenta dar.
Pode o medo instalado pelo terrorismo de homens-bomba dar “liberdade” a alguns, ou qualquer de nós, para a criação de uma estratégia suicida de ataque às torres bases dos valores, numa ofensiva para deitá-los abaixo, sem se lembrar que nossa vida – em sua essência – sucumbirá junto? Bem, a lógica referencial da pós-modernidade não reconhece qualquer validade neste discurso pois, para o relativismo, nem sequer existe uma base de valores. Cada um define a sua estrutura axiológica. Em prol da igualdade já não temos mais qualquer semelhança uns com os outros. O perigo é que ainda partilhamos o mesmo território, ainda convivemos, ainda – querendo ou não – temos algo em comum. “É preciso resistir a esta violência viral da mundialização, violência contra todas as singularidades através do universal, violência contra o universal através do mundial” – defende Baudrillard (2006, p. 52) – quando o relativismo massificador, equivale o que é supremo a tudo que é mais degradante, pondo por igual o que é distinto, destruindo tanto o singular quanto o universal, numa redutividade alienadora.
Queirós (2002, p. 31) – pensando contextualizadamente, enquadrando a sociedade portuguesa dentro da comunidade europeia, e esta, por sua vez, no mundo ocidental – nos diz da necessidade de uma complementaridade, que concebe o “pluralismo como valor” e o “respeito pela diversidade” como premissa, e de uma convergência, confluindo o que há de axiologicamente
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A discussão sobre a moral e a ética é ressaltada com maior detalhamento no capítulo anterior, quando abordamos sobre os Valores Éticos.
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homogêneo entre os que aqui se inserem. Contudo, a questão em causa não é apenas ao nível da tolerância e do respeito pelo outro, mas uma questão sobre a verdade. Discursos pós-modernos resultantes na negociação e no eufemismo das diferenças descredibilizam a noção da própria realidade e utilizam-se da razão para difamá-la e rejeitá-la. Ora se não há qualquer verdade credível, tudo torna-se uma mentira, fazendo com que cada teoria, inclusive a pós-moderna, seja consequentemente falsa. Dizer que não há qualquer verdade, na lógica relativista, é já uma inverdade. E este é só o princípio dos paradoxos. Como disse o filósofo Antony Flew: “se fazemos uma afirmação, essa afirmação tem sentido somente se ela exclui algumas coisas” (Flew, 2010, p. 50). O relativismo, na sua mais pura forma, é essencialmente autodestruidor.
Para Pourtois e Desmet (1999, p. 46) “torna-se urgente encontrar um princípio integrador para este mundo fragmentado, este mundo que se assemelha cada vez mais a um caleidoscópio”. E mesmo Frondizi (1958, p. 20), defensor da linha subjetivista dos valores, advoga ser tarefa irrenunciável submeter-nos a um exame crítico de nossas tábuas de valores, de nossa hierarquia axiológica, pois é inevitável que nossas condutas e nossas preferências estejam sendo regidas pela estruturação dos valores que adotamos.
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