CAPÍTULO 4 Análise da gestão das unidades de conservação do
6.6 Plano de manejo e outras ferramentas de planejamento
A intenção de instrumentalizar o planejamento operacional anual com o SIGAP não visa a substituir as ferramentas de planejamento de médio e longo prazo, especialmente os Planos de Manejo. Estes documentos, idealizados para
consolidar informações diagnósticas e de planejamento estratégico das UC, em raras ocasiões atendem às funções para qual foram concebidos, ou mesmo inexistem. Quatro dos entrevistados possuem Plano em suas UC, e três deles efetivamente os usam.
Apesar das dificuldades inerentes a estes instrumentos, que os órgãos gestores ainda tentam elaborar e utilizar, seis entrevistados acreditam nos planos que têm ou virão a ter. Esta credibilidade se dá por motivos diversos. Em UC que já contam com boa capacidade administrativa, de pessoal e infraestrutural, os planos vêm para dar o respaldo jurídico e institucional que muitas vezes faltam para que novos saltos possam ser dados ou conflitos sejam dirimidos.
No nosso caso aqui, a chegada agora, a efetiva implantação do plano de manejo, eu acho que vai ser tudo que a gente necessitava.
Já nas UC mais carentes de condições adequadas de gestão, o plano surge para o gerente como uma oportunidade de receber investimentos que geralmente só são feitos em uma UC após aprovados no plano. Porém, os gerentes que já possuem a ferramenta em sua UC alertam para o risco de gerar muita expectativa sobre a mesma.
Eu gosto muito de frisar uma coisa. O plano de manejo não é a tábua da salvação de uma UC. O plano é uma ferramenta a mais. É um documento que norteia algumas ações dentro da UC.
Um fator que gera enorme diferença na utilidade de um plano é a forma como o mesmo foi elaborado. Os roteiros atualmente utilizados para tal, especialmente os publicados pelo IBAMA, rezam que a participação da equipe da UC e da comunidade é fundamental. As considerações dos entrevistados reforçam esta necessidade.
A equipe do parque participou em muitas coisas do plano. Não só a equipe do parque, o conselho consultivo teve uma participação constante dentro da elaboração
deste plano. Então o ponto principal que tem é este: a participação.
o formato do meu foi feito idealizando uma situação utópica de infra-estrutura e funcionários que não é minha realidade, então eu não posso me ater totalmente às diretrizes e normas que o plano de manejo instituiu. A diferença de efetividade dos planos das UC que possuem estrutura condizente com as pretensões do planejamento presente no documento é gigantesca, especialmente quando o mesmo foi elaborado com a participação da equipe de gestão e da comunidade.
É uma ferramenta que fica em cima da mesa, todo marcado, né, eu acho até que o que a UC deveria ter é um plano de manejo desses pra cada um dos funcionários.
Os planos de manejo se tornaram obrigatórios a partir da lei do SNUC, em 2000. As experiências em anos e décadas anteriores careciam ainda mais de referência, pois o documento tinha importância ainda menos definida. Portanto, planos antigos devem ser totalmente revisados.
Ele foi feito no final da década de 70, e depois passou por uma revisão, pois parece que tinham algumas partes, alguns termos dele, que não condiziam com nem nada, foi mais ou menos uma cópia de um outro plano, uma coisa sem pé nem cabeça, mas passou por uma revisão.
Esta revisão, inclusive, é uma etapa prevista nos roteiros do IBAMA para manter os documentos atualizados e contextualizados com a realidade da UC e seu entorno. Porém, há grande divergência sobre como e com que frequência tal atualização deveria ser feita, e nem mesmo os roteiros são claros, apesar de citarem o prazo de cinco anos para tal. A maioria dos entrevistados acha que menos tempo seria o ideal, ficando a média em torno de 3,5 anos. Porém, pode não ser adequado repetir todo um amplo trabalho de diagnóstico e planejamento em tal período.
Agora plano de manejo de uma forma geral, aquele roteiro do IBAMA fala em 5 anos. Eu acho muito tempo. Eu sinto as coisas um pouco lentas aqui ainda... eu acredito que aquele contexto regional que foi colocado ali, apesar de ter já quatro anos que fez o plano, ele ainda ta bem atual.
As coisas não mudam muito rapidamente aqui não. De cinco em cinco anos seria uma coisa razoável. Agora existe um planejamento da administração física, operacional, este não, este tem que ser avaliado todo ano. Sendo o Plano de Manejo uma ferramenta de planejamento estratégico, seu prazo de validade realmente deveria ser relativamente maior, a partir dos citados “cinco anos”. Porém, o fato dos documentos partirem de uma realidade completamente alheia às UC, considerando uma situação ideal, faz com que os gerentes tenham muito pouco a utilizar dos planos para tratar a situação real, e os planos se tornem inúteis para tratar da realidade das UC. Isto os leva a buscar uma precocidade de revisão dos planos, além de concentrar a valorização no planejamento operacional.
Eu acho que essas ferramentas têm que ser avaliadas sempre, igual o SIGAP que eu falei procê que é dinâmico. Plano de manejo ainda continua muito teórico, ele não define a estratégia que o gerente vai usar pra chegar até aquele determinado objetivo.
...porque ele realmente está bem longe da realidade que eu tenho hoje.
Isto também pode ser evidenciado pelo fato de que oito dos entrevistados darem grande valor a ferramentas de planejamento operacional específico, como planos de prevenção e combate a incêndios florestais e de educação ambiental.
A gente tem um plano de prevenção e combate a incêndios florestais. Eu acho que você não tendo nada na unidade, tendo só isto, já é o suficiente.
Alguns gerentes chegam a cogitar que juntamente com o plano de manejo, os consultores elaborem, “mesmo que em anexo, um plano emergencial
pra o que ser feito enquanto não se chega naquilo ali que é o ideal”. Esta opinião é compreensível, mas esconde uma aberração. Os planos não devem conter “um anexo” que considere a realidade da UC, mas sim partir dela na construção de seu todo, indicando os caminhos para se atingir a “situação ideal”, e não fantasiar a gestão de algo que não existe, sem a indicação de como lá chegar.
Este distanciamento dos planos com a realidade e a aproximação de planejamentos operacionais têm conduzido a uma nova idéia de plano de manejo, construído de forma dinâmica e prática, e revisado continuamente, a partir de seu uso real e cotidiano.
A atualização do plano a gente faz diária. Mesmo que no plano fale que daqui a 2, 5 ou 10 anos ele tem que ser refeito, reavaliado, nós aqui na prática a gente faz uma reavaliação diária... Essas coisas são anotadas, são guardadas, pra quando tiver a revisão oficial do plano, a gente adaptar.
Talvez de 5 em 5 anos possa fazer uma super (revisão do plano), envolvendo recurso financeiro, trabalheira mesmo, pesada, agora, fora isso é o que a tendência dos planos que o IEF tem tentado fazer, que é uma coisa mais dinâmica, usando aquele PCDA, aquela coisa de avaliação.
Um dos mais importantes elementos da gestão de uma UC é a definição de seus objetivos, um dos passos da elaboração de um plano. Oito dos entrevistados têm clareza dos objetivos da UC que gerem, mas apenas quatro disseram estar os mesmos positivados em algum documento, que em apenas um caso era o plano de manejo. Nos demais eram decretos de criação ou o próprio SNUC.
Se você me perguntar o que seriam os objetivos eu iria em cima do SNUC mais do que do plano de manejo. Está uma coisa muito vaga (objetivos), eu costumo dizer que com relação à (nome da UC), eu não sei bem do que eu sou gerente.
Os objetivos mais citados foram a conservação e o turismo (5), a educação ambiental e a relação com a comunidade (4), o fogo e os recursos hídricos (3).