O Plano Diretor Municipal de Lisboa (PDML) surge, em 1994, como instrumento de reorganização interna da cidade, estabelecendo princípios de intervenção e estabilização do tecido urbano consolidado, traduzindo os conceitos urbanísticos considerados no âmbito do PEL. O modelo de ordenamento urbanístico subjacente ao PDM assenta na inter-relação das áreas definidas no PEL e, dada a determinação da classe de “Espaço Urbano” ao concelho de Lisboa e a sua abrangência, propôs-se a sua divisão em subclasses de espaço, tendo como prioridade, estabelecer regras para a ocupação, uso e transformação do território municipal de modo a permitir a definição de programas e planos e a atuação a diferentes escalas.
Tendo em conta que no PDML o território assinalado como frente ribeirinha do município de Lisboa vai da margem à crista da primeira linha de colinas que forma o anfiteatro aberto ao Tejo, existem fatores que sustentam uma relação cidade-rio que ultrapassa o limite definido
41. Segundo o artigo 33ª do Regulamento do PDM de 2012.
segundo o PEL como arco ribeirinho, o que permite estabelecer um conjunto de premissas com as quais se defende que Deixar que Lisboa se reveja no Tejo é uma conquista que beneficiará toda a cidade (CML, 1993: 173). Desta forma, o PDML estabelece a melhoria da ligação da cidade com o rio através das “Componentes Ambientais Urbanas”, com as quais se pretende (CML, 2004: 50):
(…) preservar a qualidade do espaço público e do tecido edificado, defender e valorizar características paisagísticas marcantes (…) de forma a criar condições para a melhoria ambiental da cidade, proporcionando uma maior segurança e conforto aos utentes e a valorização da imagem e identidade de Lisboa.
Assim, constituem-se fatores que são determinantes na salvaguarda não só do “subsistema da frente ribeirinha”, mas também dos “sistemas de vistas” e das panorâmicas relacionadas com o estuário. Relativamente ao subsistema da frente ribeirinha, o objetivo primordial trata-se de melhorar a ligação da cidade com o rio e assegurar a fruição da paisagem ribeirinha, daí a atribuição à necessidade de gerar condições favoráveis de acessibilidade pedonal à margem do rio e a importância da desobstrução de vistas entre estes espaços e o rio. Já os sistemas de vistas da frente ribeirinha apoiam-se nas encostas das colinas ribeirinhas e são caracterizados por panorâmicas relacionadas com o rio e o Estuário do Tejo, subdividindo-se em setor ocidental - de Belém à Colina do Castelo-, e o setor oriental - da colina do Castelo aos Olivais -, de onde se vislumbra todo o vale do Tejo.
Além das componentes ambientais urbanas, também se pretende salvaguardar o património arqueológico existente neste espaço, contemplado no PDML como (…) bem cultural imóvel de interesse arqueológico e geológico da estrutura patrimonial municipal (…)41,
42. Segundo o artigo 40ª do Regulamento do PDM de 2012, estes traçados (…) compreendem os espaços centrais que, pela sua singularidade e características de ocupação urbana, devem ser preservadas as características morfológicas, ambientais e paisagísticas e elementos mais relevantes no sentido da sua qualificação (CML, 2012: 77).
assim como preservar os espaços verdes urbanos consolidados e integrados na estrutura ecológica municipal.
Ao nível do planeamento, a intenção de reforçar a relação com o rio é transversal às revisões realizadas ao PDML, permanecendo um dos principas objetivos atuais do PDML de 2012 (CML, 2012). Nesse sentido, mais que uma preocupação em proteger e valorizar o sistema de vistas e os acessos ao arco ribeirinho, conforme definido no PEL, existem fatores que sustentam uma relação cidade-rio vinculada principalmente ao nível das áreas e atividades associadas ao arco ribeirinho. Nessa medida, realizando-se uma análise aos condicionamentos urbanísticos do território do arco ribeirinho, estipulados pelo PDML, constata-se que este incorpora toda a área do porto de Lisboa bem como a rede rodo e ferroviária marginal, definindo uma estreita faixa contida entre a malha urbana consolidada e o rio. Segundo o PDM, este integra o tecido urbano que se pretende preservar e valorizar conforme as morfologias e tipologias urbanos, o património edificado e a paisagem, regendo-se no tipo de traçado urbano, sendo, neste caso, a frente ribeirinha integrada na categoria de traçados urbanos A42, corresponde aos traçados orgânicos (CML, 2012).
No que respeita à qualificação operativa e funcional do solo, constata- se que o território abrangente ao arco ribeirinho não se encontra homogeneamente definida, sendo possível diferenciar zonas classificadas como áreas verdes de recreio, áreas de equipamentos e de serviços públicos e, maioritariamente, como espaços de uso especial ribeirinho. Considerando a utilização dominante, estes espaços são divididos e definidos como espaços consolidados e a consolidar, sendo
43. Como por exemplo, redes de saneamento básico, abastecimento e fornecimento de gás, eletricidade, água e telecomunicações.
44. Segundo o artigo 81ª do Regulamento do PDM de 2012, as UOPG(…) correspondem à aglutinação de áreas territoriais com identidade urbana e geográfica, apresentando um nível significativo de autonomia funcional, e constituem as unidades territoriais de base para efeitos de gestão municipal (CML, 2012: 123).
que no caso dos espaços consolidados de uso especial ribeirinho são admitidas construções e ampliações de infraestruturas no sentido de valorizar o património cultural. Em áreas de uso especial de infraestruturas de transporte e uso ferroviário, rodoviário, portuário, entre outros43, e estando localizados na frente de água sob jurisdição da
APL, admite-se a criação de espaços públicos e de equipamentos, bem como a reconversão de espaços e edifícios existentes em funções de apoio ao turismo e lazer, contribuindo para a valorização arquitetónica, urbanística e ambiental do local (CML, 2012). Já no caso dos espaços a consolidar de uso especial ribeirinho, uma vez integrando zonas desafetadas do uso portuário, pretende-se uma reconversão urbana através do desenvolvimento de atividades ligadas ao lazer, cultura e desporto que tirem partido do seu posicionamento geográfico. Nestes espaços são admitidos os usos terciário, de turismo, equipamento e atividades culturais, investigação, desporto, pesca, não sendo permitidos os usos industriais não associados a atividades náuticas como náutico-turísticas e náutica de recreio.
Neste âmbito programático e projetual de execução do PDML, surgem as Unidades Operativas de Planeamento e Gestão (UOPG)44 com as
quais se traça um conjunto de objetivos, programas e projetos que possuem um caráter estruturante para o ordenamento do território, que permitem a valorização ecológica municipal, a disponibilização do solo para equipamentos de utilização coletiva, espaços verdes e infraestruturas necessários à satisfação das carências detetadas, a colmatação e qualificação do espaço consolidado, entre outros.
45. UOPG 1 – Coroa Norte; UOPG 2 – Oriental; UOPG 3 – Almirante Reis/Roma; UOPG 4 – Avenidas Novas; UOPG 5 – Benfica; UOPG 6 – Graça/Beato; UOPG 7 – Centro Histórico; UOPG 8 – Campo de Ourique/Santos e UOPG 9 – Ocidental (CML, 2012: 123).
46. Programas que (…) apesar de serem particulares a uma área específica, assumem um caráter estruturante para a concretização do modelo territorial preconizado pelo plano (…), e projetos que, numa mesma área territorial, enquadram (...) ações com responsabilidades e âmbitos setoriais distintos que, em conjunto, apresentam sinergias para a concretização da estratégia territorial (CML, 2012: 123).
47. Sintetizado no quadro da página 240 do anexo ii.
Respeitando a divisão do respetivo território em diversas UOPGs45,
apenas a UOPG 2, a UOPG 6, UOPG 7, UOPG8 e UOPG 9 abrangem áreas pertencentes ao arco ribeirinho, nas quais constam programas e projetos46 transversais a todas e específicos de cada uma47,cujo impacte
ultrapassa as respetivas UOPG, podendo até, em alguns casos, ser desagregados posteriormente em subprogramas com caráter setorial mais específico. No caso das UOPG abrangentes ao centro histórico, à área de Belém e às áreas adjacentes, respetivamente, Santos e Alcântara, são definidos programas e projetos urbanos específicos relativos à frente ribeirinha desde a zona de Santa Apolónia até à zona do Cais do Sodré, abrangendo a zona da Av. 24 de Julho até Alcântara, assim como a zona Monumental de Belém. Todavia, em determinadas áreas como Santos, a presença de infraestruturas portuárias e de transportes rodoferroviários dificulta este processo de transformação assim como a acessibilidade e a facilidade de circulação na frente de água, constituindo a minimização do efeito de seccionamento das infraestruturas portuárias existentes um outro objetivo (CML, 2012).
Atualmente, o PDML constitui um instrumento para concretizar uma nova visão estratégica sobre Lisboa, que se traduz em sete grandes objetivos (CML, 2012):
i) atrair mais habitantes;
ii) captar mais empresas e emprego; iii) impulsionar a reabilitação urbana; iv) requalificar o espaço público;
48. Como realizado no Parque das Nações.
v) devolver a frente ribeirinha às pessoas; vi) promover a mobilidade sustentável; vii) incentivar a eficiência ambiental.
Analisando o território sobre o qual se pretende intervir, segundo o PDML, constata-se que a frente ribeirinha da cidade representa um exemplo global de intervenção, constituindo um conjunto de áreas destinadas à realização de soluções que contribuam para a concretização destes objetivos anteriormente mencionados. A devolução da frente ribeirinha à população trata-se de um objetivo que se encontra articulado intimamente com a requalificação de espaços públicos presentes em algumas zonas ribeirinhas, tarefa que, por sinal, se conjuga com o impulso à reabilitação urbana e a promoção da mobilidade sustentável no sentido de captar mais empresas e emprego e potenciar a capacidade de atrair pessoas. De um modo geral, segundo estas intenção do PDML, a devolução da frente ribeirinha de Lisboa à população passa por processos de intervenção centrados ao nível do arco ribeirinho, conjunto de áreas onde se pretende (CML, 2012):
i) reconverter as zonas ribeirinhas com uso predominantemente de recreio, lazer e desporto náutico em parceria com a APL, por substituição do antigo uso portuário (Pedrouços, Alcântara, Santos e Poço do Bispo);
ii) criar novos polos de emprego em (Alcântara, Aterro da Boavista e Marvila48);
iii) reduzir a importância do eixo viário principal do arco ribeirinho, criando zonas de moderação de tráfego e diminuindo o impacto automóvel nas vivências urbanas (Poço do Bispo e Cabo Ruivo), reduzindo as áreas reservadas à circulação automóvel e permitindo requalificá-lo com características de alameda urbana (de Belém a Alcântara);
49.http://www.portodelisboa.pt/portal/page/portal/PORTAL_PORTO_LISBOA/ AUTORIDADE_PORTUARIA/MEMORIA_INSTITUCIONAL.
iv) qualificar o espaço público aumentando as suas áreas permeáveis e o espaço para a circulação pedonal, também no sentido de colmatar a falta de espaços verdes em todo o arco ribeirinho, tirando proveito de novas intervenções (desde a zona da Ribeira das Naus à zona do projeto do novo Terminal de Cruzeiros Santa Apolónia);
v) aumentar as situações de transposição da via-férrea e das rodovias, criando uma maior permeabilidade urbana entre a margem do Tejo e as colinas sobranceiras;
vi) estender a rede de ciclovias para todo a arco ribeirinho.
Desta forma, prevêem-se para o arco ribeirinho, enquanto espaço diversificado a nível funcional e vocacional, operações urbanísticas coordenadas entre as diversas entidades envolvidas no processo de transformação. Considera-se não só a valorização e criação de espaços públicos ribeirinhos, como também a integração urbanística de áreas do porto de Lisboa, de áreas urbanas de equipamentos e serviços complementares das atividades portuárias, e dos interfaces de transportes urbanos com o transporte fluvial, com um reordenamento do sistema de circulação rodoviário principal.