8.2 Controle cultural
8.2.3 Poda de ramos secos
Na cultura dos citros existem diferentes tipos de poda, tais como: poda de limpeza, de redução de copa e de condução e formação. A poda mais importante no manejo da pinta preta é a de limpeza, que visa a retirada de ramos secos (Figura 8.9), ramos atacados por doen- ças e pragas, e também ramos verdes internos na copa que não tenham condição de produzir frutos (“ramo la- drão”). Essa poda de limpeza melhora a aeração interna da planta, reduz o período de molhamento dos tecidos, dificulta novas infecções pelo patógeno, e facilita os tra- tos fitossanitários, principalmente por favorecer a pene- tração de fungicidas na parte interna da copa. A poda de limpeza está relacionada com dois dos princípios gerais de controle de doenças de plantas: a erradicação (eliminando os ramos que são fontes de inóculo) e a re- gulação (alterando o microclima da planta), que estão associados não só ao controle da pinta preta, mas tam- bém de outras doenças dos citros, tais como a melanose (Diaporthe citri), a rubelose (Erythricium salmonicolor) e a mancha marrom de alternaria (Alternaria alternata).
Fotos: Geraldo J. Silva Jr . (A) e William A. Ferreira (B-D)
Figura 8.9 Frutos severamente afetados pela pinta preta abaixo de ramos secos (A) e poda de ramos secos em laranjeiras doces (B-D).
A
B
C
D
A poda de ramos secos apresenta alto custo, uma vez que seu rendimen- to é baixo e dependente da capacidade do podador. Para a realização dessa operação são necessárias de 70 a 110 horas/homem/ha, dependendo da quantidade de ramos secos e da altura das árvores, com um custo estimado de US$ 2,80 a hora/homem e custo total de US$ 200,00 a 300,00/ha (taxa de conversão de US$ 1,00 = R$ 2,30). Esse custo é similar ao custo do con- trole químico e, portanto, a operação deve ser realizada no momento correto para que a doença seja reduzida de maneira eficiente. Em pomares cuja produção será destinada ao comércio de frutas frescas, no qual o valor da fruta é depreciado pela doença, a poda pode ser uma estratégia com bom custo -benefício.
Custo da poda de ramos secos
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8 Manejo da pinta preta
Os ramos secos, assim como os frutos com lesões dos tipos mancha dura, sardenta e virulenta, são importantes fontes de produção de conídios nas condições de clima do Brasil, e particularmente do estado de São Paulo. Entretanto, diferentemente dos frutos que são co- lhidos em cada safra, reduzindo a fonte de inóculo, nos ramos a produção de conídios parece não ser interrompida. Não há relatos de produção de conídios em ramos verdes da planta.
Diferentes trabalhos já foram realizados no Brasil com o objetivo de comprovar o efei- to da poda de limpeza no controle da pinta preta. Contudo, os resultados dessa estratégia, em geral, não são observados logo no primeiro ano, pois ao realizá-la, alguns frutos já po- dem ter sido infectados, os quais terão a expressão de sintomas acelerada pelo fato de a poda permitir maior entrada da radiação solar na copa das plantas. Portanto, se a remoção dos ramos for realizada em uma safra, o seu efeito poderá ser mais bem visualizado apenas nos frutos a serem colhidos na safra seguinte. É recomendável que a poda seja feita no pe- ríodo que antecede o florescimento ou no início da frutificação, que normalmente coincide com o início do período chuvoso nas condições do sudeste do Brasil.
A poda de ramos secos reduz principalmente as lesões de falsa melanose nos frutos, sugerindo que esses sintomas estejam asso- ciados às infecções provocadas por conídios do fungo. As plantas com ramos secos podados em ju- nho apresentaram, em novembro do ano seguinte, incidência de 44% de frutos com falsa melano- se. Por outro lado, as não podadas apresentaram, na mesma época, 100% dos frutos com esse sintoma (Figura 8.10A). Onde houve poda mais da metade dos frutos doen- tes apresentaram severidade de até 15%, enquanto que nas plantas não podadas a severidade de todos os frutos doentes foi igual ou su- perior a 15% de área lesionada da casca. A queda de frutos de agosto a novembro nas plantas podadas foi de 8,4%, inferior aos 18,6% de queda de frutos em plantas não podadas (Figura 8.10B).
Em diferentes pomares, a poda de ramos secos associada à remoção das folhas caí- das no solo e ao controle químico reduzem a incidência e severidade da pinta preta nos
Figura 8.10 Incidência (%) de frutos com sintomas de falsa melanose (A) e queda prematura de frutos (%) de agosto a novembro (B) em laran- jeiras ‘Natal’ com ou sem poda de ramos secos em Tambaú -SP. Médias significativamente diferentes (Teste t; p≤0,05). Fonte: Nozaki, 2007.
Incidência (%) Queda de frutos (%) 0 0 20 5 40 10 60 15 80 20 100 Sem poda Com poda a a b b
A
B
frutos em uma intensidade maior do que os tratamentos sem a poda. Entretanto, a época de realização dessa estratégia é essencial para o controle eficiente da doença, devendo ser executada antes ou durante o início de frutificação das plantas.
8.2.4 Irrigação
O uso da irrigação no manejo da pinta preta apresenta três finalidades: diminuir a queda acentuada de folhas no período seco que precede a florada, reduzindo assim a produção de ascósporos nas folhas caídas no solo; uniformizar a florada, possibilitando a adoção de um cronograma de pulverização concentrado em apenas um período e dimi- nuindo as chances de sobreposição de frutos oriundos de floradas diferentes; e reduzir a queda prematura de frutos. No estado de São Paulo, em variedades de maturação tardia, quedas acentuadas de frutos, em geral, ocorrem a partir do mês de agosto após períodos de estiagem. A irrigação poderia reduzir o estresse hídrico durante esse período, e conse- quentemente, a queda de frutos.
O método de irrigação mais apropriado para manejo da pinta preta é o por gote- jamento, uma vez que, por esse método, apenas o solo é umedecido, ao contrário da microaspersão ou aspersão via canhão autopropelido em que as folhas caídas são tam- bém molhadas durante a irrigação. As alternâncias entre o molhamento e a secagem das folhas infectadas caídas favorecem a formação de pseudotécios e de ascósporos do fungo. Como a irrigação por aspersão ou microaspersão favorece essas alternâncias, ela também vai contribuir para o aumento
dessa fonte de inóculo na área (Tabela 8.3). A irrigação por aspersão via canhão au- topropelido é pouco utilizada em pomares paulistas e não há estudos de sua influência sobre a disseminação da doença. Porém, acredita -se que ela pode aumentar o perío- do de molhamento nas folhas, ramos e fru- tos, favorecendo a produção de ascósporos do fungo nas folhas em decomposição no solo, e aumentando a germinação de es- poros e a infecção de tecidos de órgãos suscetíveis da planta, além de promover a dispersão dos conídios dos ramos secos e frutos com picnídios.