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3.4 CONTRA O DETERMINISMO SOCIAL E IDEOLÓGICO:

3.4.4 Poder e empoderamento das mulheres

Ana Alice Costa (2000) defende que os problemas ligados à questão do poder46 não se referem exclusivamente à hierarquia funcional ou as esferas de decisão. Eles fazem parte do

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“...o poder não é, o poder se exerce. E se exerce em atos, em linguagem. Não é uma essência. Ninguém pode tomar o poder e guardá-lo em uma caixa forte. Conservar o poder não é mantê-lo escondido, em preservá-lo de elementos estranhos, é exercê-lo continuamente, é transforma-lo em atos repetidos ou simultâneos de fazer, e de fazer com que outros façam ou pensem. Tomar-se o poder é tomar-se a ideia e o ato”. KIRKWOOD, Julieta. Ser política em Chile: las feministas y lós partidos políticos. Santiago: Flasco, Março, 1986.

“... a capacidade de decidir sobre a própria vida: como tal, é um fato que transcende o indivíduo e se plasma nos sujeitos e nos espaços sociais: aí se materializa como afirmação, como satisfação de objetivos (...) Mas o poder consiste também na capacidade de decidir sobre a vida do outro, na intervenção com fatos que obrigam, circunscrevem ou impedem. Quem exerce o pode se arroga o direito ao castigo e a postergar bens materiais e simbólicos. Dessa posição domina, julga, sentencia e perdoa. Ao fazê-lo, acumula e reproduz o poder”. LAGARDE, Marcela. Cautiverios de las mujeres, monjas, putas, presas e locas. México: UNAM, 1993, p. 154.

cotidiano do trabalho, nas relações entre os técnicos, entre técnicos e comunidades, dento da própria comunidade. O poder opera em todos os níveis da sociedade, desde as relações interpessoais até o nível estatal. Nesse sentido, o poder pode ser visto como um aspecto inerente a todas as relações econômicas, sociais e pessoais. “Pode-se afirmar que o poder está presente do leito conjugal de um casal a sala presidencial do Palácio do Planalto” (COSTA, 2000, p.2).

São relações de poder que operam em distintos níveis, nas quais se dão conflitos de interesses. Elas se mantêm, segundo a autora, porque tanto os dominadores quanto os dominados aceitam as versões da realidade social que negam a existência de desigualdades e afirmam que estas são resultantes da desgraça pessoal ou da injustiça social. Trata-se, portanto, de uma aceitação construída através de mecanismos de socialização, da força da ideologia, das crenças religiosas, e outros.

Na perspectiva de gênero, enquanto personificação humana, a prática do poder é tipicamente masculina. Os homens seriam os dominadores e as mulheres as dominadas, por conseguinte, as relações existentes entre masculino e feminino são desiguais, assimétricas advindas do domínio patriarcal.

Esta subalternidade, determinante na condição feminina, é fruto do seu papel de gênero. Sabemos que a sociedade através de suas instituições (aparelhos ideológicos), da cultura, das crenças e tradições, do sistema educacional, das leis civis, da divisão sexual e social do trabalho, constroem mulheres e homens como sujeitos bipolares, opostos e assimétricos: masculino e feminino envolvidos em uma relação de domínio e subjugação. (COSTA, 2000, p. 4)

Ana Alice Costa (2000) apresenta que nestes termos, o poder patriarcal está presente no cotidiano do mundo doméstico e do mundo público. Um poder que assegura privilégios ao masculino, através das desigualdades entre homens e mulheres. Para um processo de transformação que busque mudanças significativas na vida das mulheres, deve haver uma distinção entre “condição” (estado material: pobreza, salário baixo, desnutrição, falta de acesso à saúde pública e a tecnologia moderna, educação e capacitação, sua excessiva carga de trabalho, etc) e “posição” das mulheres (é o status econômico, social e político das mulheres comparado com o dos homens, isto é, a forma como as mulheres têm acesso aos recursos, e ao poder comparado aos homens). Assim, mudanças qualitativas devem ocorrer na divisão sexual do trabalho e na estrutura familiar, diminuindo a distância entre os direitos do homem e os direitos da mulher.

No tocante ao empoderamento das mulheres, o conceito compreende a alteração radical dos processos e estruturas que reduzem a posição subordinada das mulheres e inclui os componentes cognitivos, psicológicos, políticos e econômicos. Representa, portanto, um desafio às relações patriarcais, em especial dentro da família. Trata-se de uma nova concepção de poder que deve assumir formas democráticas, construir novos mecanismos de responsabilidades coletivas, de tomada de decisões e responsabilidades compartilhadas. Em termos dialéticos, o empoderamento da mulher, também, libera e empodera os homens no sentido material e psicológico, causa novas experiências emocionais e os libera de estereótipos ligados ao gênero. Ana Alice Costa (2000, p.8):

1) Componente cognitivo refere-se à compreensão que as mulheres têm da sua subordinação em níveis micro e macrossociais. Envolve a compreensão de ser e a necessidade de fazer escolhas mesmo que possam ir de encontro às expectativas culturais e sociais. Inclui o conhecimento sobre as relações e ideologias de gênero, sobre a sexualidade, os direitos legais, as dinâmicas conjugais etc;

2) Componente psicológico inclui o desenvolvimento de sentimentos que as mulheres podem por em prática em nível pessoal e social para melhorar sua condição, assim como a ênfase na crença de que podem ter êxito nos esforços por mudanças: autoconfiança e autoestima são fundamentais;

3) Componente político supõe a habilidade para analisar o meio circundante em termos políticos e sociais, isto também significa a capacidade para organizar e promover mudanças sociais;

4) Componente econômico supõe a independência econômica das mulheres, esse é um componente fundamental de apoio ao componente psicológico.

Para demarcação dos aspectos característicos da socialização brasileira, apresenta-se a seção que se segue. Para entendimento histórico do processo de socialização no Brasil, esta tese deve considerar a análise histórica sobre o trabalho e a família em suas interconexões com o patriarcalismo, na perspectiva das relações entre os sexos, defendo que a socialização envolve a Igreja, o Estado, a Escola, a cultura de massa, mas demarcando um posicionamento contrário ao determinismo social e cultural, pois o sujeito é construtor de si, em relação consigo, com o outro, com a sociedade e organiza seu modo de vida, o que pode ser conhecido, através das experiências e das representações sociais que os sujeitos emitem.

3.4.5 Como a sociedade brasileira se organizou/organiza: