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Para melhor caracterizar o movimento produzido a partir destas políticas com foco na diversidade, organizamos a análise a partir de uma organização cronológica que toma como referência inicial a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, na gestão de Fernando Henrique Cardoso, 1995, passa pela criação da Secad no 1º mandato do Governo Lula e se encerra com a criação da Secadi, no final da primeira gestão de Dilma Roussef.

Para isso, apresentamos a seguir uma organização deste conjunto de ações que marcam esses períodos, distribuidos em uma linha do tempo que revela estruturas ministeriais, programas, políticas, projetos, legislações e documentos curriculares publicados que podem indicar o modo como a questão da diversidade foi sendo assumida nas ações do governo federal.

Como se pode observar por meio desse mapeamento, a temática da diversidade constitui-se por uma ampla e complexa rede de ações e assuntos, ora específicos, ora transversais, que revela o emaranhado de pautas e reivindicações deste debate ao acolher as categorias de gênero, raça, etnia, diálogos intergeracionais, educação ambiental, educação inclusiva ou educação especial, educação no campo, educação de jovens e adultos, políticas antirracistas, antissexistas e de combate ao preconceito, à discriminação e às injustiças. A produção deste mapeamento não tem como objetivo inventariar e esgotar todas as produções deste período, mas sim indicar marcos no desenvolvimento desta política por meio dos elementos textuais e curriculares que foram emergindo no decorrer de nossas análises, que tomam como referência principal os estudos de Sabrina Moehlecke (2009) e Denise Carreira (2017).

Quadro 2 – Organização Temporal das Políticas da Diversidade e Diferença

1995-1998 FERNANDO HENRIQUE CARDOSO (1º Mandato)

1996 Lei 9.394/1996 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional

Define e regulariza a organização da educação brasileira com base nos princípios presentes na Constituição. Inclui um capítulo específico para tratar da educação especial, artigos direcionados à educação indígena e estabelece o dia 20 de novembro como o dia da Consciência Negra.

1997 Parametros Curriculares Nacionais: Introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1997.

Parametros Curriculares Nacionais: apresentação dos temas transversais. Brasília: MEC/ SEF, 1997.

No conjunto de documentos que compõem as diretrizes que orientam a educação, inclui a Pluralidade Cultural como um dos temas transversais a serem desenvolvidos pelas escolas. Decreto 2.193/1997 cria a Secretaria Nacional de Direitos Humanos

1998 Programa Nacional de Avaliação do Livro Didático Primeiras observações sobre veiculação de estereótipos étnico-raciais e de gênero nos critérios de avaliação dos livros didáticos.

Construindo a democracia racial. Brasília: Presidência da República, 1998.

Cria o Grupo de Trabalho Interministerial para Valorização da População Negra entre outros atos.

Referencial Curricular Nacional para as escolas indígenas integra os Parâmetros Curriculares Nacionais e estabelece oritentações para a diferenciação da escola indígena das demais escolas do sistema a partir do respeito à diversidade cultural e à língua materna, e pela interculturalidade

1999 Superando o Racismo na escola. Kabengele Munanga (org.). Grupo Interministerial para Valorização da População Negra (GTI). Ministério da Educação. 1ª edição.

Coletânea de artigos que propõem reflexões e ações para o combate ao racismo nas escolas.

1999-2002 FERNANDO HENRIQUE CARDOSO (2º mandato)

1999 Decreto 2.923/1999 cria a Sedh Secretaria Especial de Direitos Humanos Substitui à SDH atribuindo a seu titular status de ministro.

2001 Plano Nacional de Educação

Orienta a elaboração dos planos decenais para os estados, Distrito Federal e municípios e destina capítulos específicos para educação de jovens e adultos, educação especial e a educação indígena.

2001/2002 LDB/Artigo 28 Educação no Campo Aborda a Educação no Campo como educação para a população rural e estabelece a promoção de adaptações necessárias à adequação da oferta educacional às peculiaridades da vida rural e de cada região, especialmente por meio de: conteúdos curriculares e metodologias apropriadas; organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas; adequação à natureza do trabalho na zona rural.

Diretrizes Operacionais da Educação Básica nas Escolas do Campo (2002) Definem que a modalidade incorpora os espaços da floresta, da pecuária, das minas, da agricultura e os ultrapassa ao acolher os espaços pesqueiros, caiçaras, ribeirinhos e extrativistas (CNE/CEB n. 36/2001, p. 96).

2002 Programa Educação Inclusiva: Direito à Diversidade Programa de apoio à disseminação da educação inclusiva nos municípios e disponibilização de equipamentos e material pedagógico.

Cria a Sedim, Secretaria de Estado dos Direitos da Mulher

2003-2006 LULA (1º mandato)

2003 Cria a Seea – Secretaria Extraordinária de Erradicação do Analfabetismo, a

Secrie – Secretaria de Inclusão Educacional e a Seppir – Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. A Sedh passa a integrar a estrutura da Presidência da República.

Cria o Comitê Nacional de Eucação em Direitos Humanos e institu o processo de elaboração do PNEDH – Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos.

Decreto Federal 4.887/2003

Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos.

Programa de Apoio à Educação Especial

Apoio e incentivo à pesquisa, em nível stricto sensu, para profissionais que atuam na educação inclusiva. (Seeso/CAPES)

Lei 10.639/03 Altera a Lei n. 9.394/1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

Programa Brasil Alfabetizado.Voltado para a superação do analfabetismo e contribui para a universalização do ensino fundamental no Brasil.

Elaboração do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos MEC/Sedh Sistematização de um conjunto de programas/ ações de educação em direitos humanos que tem como um de seus princípios o respeito à diversidade.

2003 a 2005 Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais (Resolução n.1, de 17/6/2004) Instituídas pelo Conselho Nacional da Educação para

regulamentar lei anterior.

Decreto n. 5.296/04, referente ao atendimento às pessoas portadoras de deficiência e Decreto n. 5.626/05, regulamenta a Língua Brasileira de Sinais – Libras

Plano Nacional de Políticas para as Mulheres Programa Brasil Sem Homofobia

2004 Cria a Secad – Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade e a Seesp – Secretaria de Educação Especial com nove Câmaras Temáticas (Câmara “Educação para a Diversidade”)

Comissões de Assessoramento (Cadara - Comissão Assessora de Diversidade para Assuntos Relacionados aos Afrodescendentes 2003; CNEEI - Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena 2004)

Projeto educar na Diversidade (Seesp) Trata da formação de professores de Ensino Regular para desenvolver práticas de ensino inclusivas

Programa Diversidade na Universidade (Secad) Sistematização de informações sobre demanda e oferta de ensino médio em terras indígenas

Programa Identidade Étnica e Cultural Cultural dos Povos Indígenas/Secad Financiamento de projetos de educação indígena, material pedagógico e formação professores. Programa Ética e Cidadania Parceria (SEB/MEC)/Sedh) Cria Fóruns de Ética e

Cidadania em escolas públicas, abordando temas como inclusão social e discriminação. Programa Brasil Quilombola MEC/Seppir

Ações de formação de professores para áreas de remanescentes de quilombos, fóruns estaduais, melhoria da rede escolar e a produção de material didático.

Parecer sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das

Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana do Conselho Nacional de Educação (CNE/CP n. 3/2004) com destaque para as relações estabelecidas entre raça e etnia.

2005 Programa de Formação Superior e Licenciaturas Indígenas (Sesu /Secad) Apoio a projetos de IES públicas, juntamente com as comunidades indígenas, para a formação superior de docentes indígenas e a permanência de estudantes na graduação.

Programa de Ações Afirmativas para a População Negra (Sesu /Secad) Apoio a projetos dos Núcleos de Estudos Afro-brasileiros para produzir conhecimento sobre a temática étnico-racial e ampliar o acesso dos negros ao ensino superior.

Programa Educação para a Diversidade e Cidadania (Secad) Apoio à qualificação de profissionais da Educação com relação aos temas de orientação sexual e de identidade de gênero.

Reedição do documento Superando o racismo na escola. 2ª edição revisada / Kabengele Munanga (org.)Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversida. Primeira Edição1999. Segunda Impressão 2000. Terceira Impressão 2001Segunda Edição 2005.

2005-2006 Projeto Educando para a Igualdade de Gênero, Raça e Orientação Sexual (Secad) Formação de Professores: Gênero, Orientação Sexual e Diversidade Étnico-Racial em cinco estados.

2006 Documento Orientações e ações para a educação das relações etnico-raciais (Secad)

2007-2010 LULA 2º mandato

2007 Publicação do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Decreto 6.093/07 Reorganiza o Programa Brasil Alfabetizado

no 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”.

2009 Diretrizes Operacionais para o Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica, deine a Educação Especial como modalidade complementar e suplementar a todos os níveis, etapas e modalidades da educação básica que visa garantir o atendimento, preferencialmente na rede regular de Ensino aos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação.

2010 Publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica Incluindo as modalidades da Educação de Jovens e Adultos, da educação especial, da educação escolar indígena, da educação escolar quilombola e da educação do campo, estabelecidas na legislação educacional brasileira e nas normativas elaboradas pelo Conselho Nacional de Educação, com destaque para as Diretrizes Nacionais, que definem a Educação de Jovens e Adultos como um direito de todos os jovens e adultos que não tiveram acesso ou continuidade de estudos nos ensinos fundamental e médio, na idade própria. Inclui como parte da Educação de Jovens e Adultos, a educação de pessoas encarceradas, que é objeto das Diretrizes Nacionais para a oferta de educação para jovens e adultos em situação de privação de liberdade nos estabelecimentos penais.

Estatuto da Igualdade Racial

2011-2014 DILMA ROUSSEF 1º mandato

2011 Decreto 7.480/2011, cria a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão Secadi pela fusão da Secad com a Seesp MEC.

2012 Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola. Definem a educação escolar quilombola como modalidade de ensino da educação nacional que compreende escolas localizadas em territórios quilombolas e escolas que atendem estudantes oriundos de comunidades quilombolas.

Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental define que a educação ambiental deve ser uma política transversal de todos os níveis, etapas e modalidades da educação nacional.

Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos Estabelece que a Educação em Direitos Humanos visa à formação ética, crítica e política, comprometida com a promoção de uma educação para a mudança e a transformação social, fundamentada nos princípios de dignidade humana, igualdade de direitos, no reconhecimento e na valorização das diferenças e das diversidades, na laicidade do Estado, na democracia na educação, na transversalidade, na vivência, na globabilidade e na sustentabilidade socioambiental.

Diretrizes Nacionais para educação escolar de adolescentes e jovens em atendimento socioeducativo Destina-se a adolescentes e jovens que tenham cometido ato infracional, conforme o previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, 1990), na Lei Federal n. 12.594/2012, que institui o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) e em outras normativas nacionais e internacionais de garantia dos direitos de crianças e adolescentes. As Diretrizes precisam as condições do atendimento educacional destinado a garantir a esses adolescentes o direito ao acesso escolar qualificado, à permanência, ao acompanhamento e à progressão, ao atendimento socioeducativo adequado nos sistemas de ensino e à ação pedagógica curricular adequada ao atendimento socioeducativo.

2013 Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica DCNGEB. Integram a obra as diretrizes e respectivas resoluções para a Educação no Campo, a Educação Indígena, a Quilombola, para a Educação Especial, para Jovens e Adultos em Situação de Privação de Liberdade nos estabelecimentos penais e para a Educação Profissional Técnica de Nível Médio. Além disso, incluiem as diretrizes curriculares nacionais para a Educação de Jovens e Adultos, a Educação Ambiental, a Educação em Direitos Humanos e para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro- Brasileira e Africana.

Publicação do documento Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica: diversidade e inclusão. Clélia Brandão Alvarenga Craveiro e Simone Medeiros (orgs).

(Secadi)

Documento que contém as DCNGEB e suas modalidades de ensino: Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica, Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo, Diretrizes complementares, normas e princípios para o desenvolvimento de políticas públicas de atendimento da Educação Básica do Campo, Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, Diretrizes Operacionais para o Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica, modalidade Educação Especial, Diretrizes Operacionais para a Educação de Jovens e Adultos nos aspectos relativos à duração dos cursos e idade mínima para ingresso nos cursos de EJA; idade mínima e certificação nos exames de EJA; e Educação de Jovens e Adultos desenvolvida por meio da Educação a Distância, Diretrizes Nacionais para a oferta de educação para jovens e adultos em situação de privação de liberdade nos estabelecimentos penais, Diretrizes para o atendimento de Educação Escolar para populações em situação de Itinerância, Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena na Educação Básica, Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos, Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental, Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola na Educação Básica

Do panorama aqui apresentado, pela cronologia dos documentos, diretrizes e legislações em função do tempo e das estruturas governamentais que as produziram, classificamos os movimentos e processos de produção dessas políticas curriculares em três ciclos temporais: 1. O reconhecimento da pluralidade cultural, marcado pela publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais; 2. O tratamento das diferenças, que emerge com a produção de políticas educacionais específicas e a criação da Secad (2004); e 3. O combate à

multidiscriminação, dado pelo fortalecimento das políticas do ciclo anterior em prol da

construção de uma política nacional de atendimento à diversidade humana de modo articulado aos sistemas públicos de ensino, a partir do momento de fusão da Secad com a Seed, criando assim a Secadi (2011). Embora tenhamos estabelecido marcos temporais para definir estes três ciclos temporais, é necessários ressaltar que estes não se configuram como pontos fixos de transição, uma vez que é possível notar a cada ciclo produções e ações do Estado brasileiro na construção das políticas que revelam iniciativas inovadoras e precursoras de questões que movimentos ciclos posteriores. O capítulo a seguir detalha elementos que caracterizaram nossa análise em termos dos avanços e as lacunas em cada ciclo.