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MODERNA EM 1922

A Semana de Arte Moderna ocorreu em São Paulo entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922. O evento modificaria, em definitivo, os rumos traçados por Oswald de Andrade em sua trajetória157. Atrelado a um discurso pautado pela negação do “passadismo” e, ao mesmo tempo, provedor de novas linguagens artísticas, escritores, pintores, músicos e escultores celebraram, não sem controvérsias, “o engatinhar de uma nova mentalidade”.158 Nunca é demais ressaltar que a realização da Semana de Arte

Moderna coincide com o centenário da Independência do Brasil e, neste sentido, a

157 “A programação, que se estendeu entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, compreendia uma

exposição com cerca de 100 obras, aberta diariamente no saguão do teatro, e sessões literário-musicais noturnas com início previsto para as 20h30. Também vendidos na sede do Automóvel Clube, os ingressos que davam direito às três récitas custavam 186 mil réis para camarotes e frisas e 20 mil réis e 300 nos balcões e galerias, mas era possível adquirir bilhetes separados para cada uma das sessões.” In: CAMARGOS, Márcia. Semana de 22: entre vaias e aplausos. São Paulo: Boitempo, 2002. p.84

158 BOAVENTURA, Maria Eugênia (Org.). 22 por 22: A Semana de Arte Moderna vista pelos seus

metáfora cultural da libertação estética dialoga, em tom provocativo, com a suposta liberdade política.159

É certo que a Semana de Arte Moderna não teve início em 1922. Um olhar mais cuidadoso acerca das discussões que envolveram a concepção do evento revela uma constelação de ideias contrárias e favoráveis à investida cultural, surgidas na imprensa num período anterior à realização da Semana. Coube à imprensa papel fundamental neste processo propiciando, ao menos em relação ao restrito público leitor, um contato relevante com os burburinhos intelectuais envolvendo modernistas e passadistas. Vinte e sete anos após a realização do evento, Oswald de Andrade (1890- 1954) salientaria, numa espécie de reconhecimento tardio, a importância do jornal

Correio Paulistano no tocante à propagação das novas ideias.160 De acordo com Oswald, às vésperas do evento, o periódico foi essencial para a divulgação dos ideais modernistas.161 A partir de uma perspectiva mais abrangente, dentre esses oitos ou dez anos em que o modernismo e suas facetas estiveram presentes em suas páginas com mais evidência, o Correio Paulistano, porta voz do Partido Republicano Paulista (PRP), abriu suas seções às mais variadas correntes estéticas dentro do movimento, gerando debates literários acalorados.162 É mesmo provável que, diante deste panorama, a intelectualidade paulistana estivesse reunida em torno deste jornal e, desta forma, pôde usufruir das páginas do periódico para a divulgação do evento.

Podemos afirmar, também, que a Semana de Arte Moderna se prolonga para além do fechar das cortinas em 18 de fevereiro de 1922, o que pode ser atestado tanto

159 “No ano do Centenário da Independência, em que também se funda no Brasil o Partido Comunista,

uma pequena parcela da elite se levanta em defesa de uma arte nova, celebrando em São Paulo a Semana de Arte Moderna, em fevereiro (13, 15 e 17) de 1922.” FONSECA, Maria Augusta. Por que ler Oswald

de Andrade. São Paulo: Globo, 2008. p.25

160 “O Correio Paulistano teve grande importância para os modernistas, não só durante o período que

antecedeu à Semana de Arte Moderna como depois, no período de agitação literária que se estendeu até 1930.” Depoimento de Oswald de Andrade concedido a Péricles Eugênio da S. Ramos do jornal Correio

Paulistano. 26/06/1949.” O Correio Paulistano e o movimento modernista. Apud: BOAVENTURA, Maria Eugênia. Os dentes do dragão: entrevistas. São Paulo: Globo / Secretaria de Estado da Cultura, 1990. p.145

161“Antes da Semana, e por ocasião das três históricas noitadas no Municipal, o velho órgão exerceu um

papel de primeiro plano de divulgação das nossas idéias (sic) e dos objetivos que pretendíamos: o Correio

Paulistano pôs-se a disposição dos modernistas, não os hostilizando, como faziam outros jornais, e dando notícias das atividades e opiniões do nosso grupo, principalmente por meio das crônicas de Helios, isto é, do Sr. Menotti del Picchia.” Ibid.

162 “O Correio Paulistano teve (...), larga importância na difusão das idéias (sic) nutridas nos vários

grupos em que se partiu o Modernismo antes de 30, como a Antropofagia (Oswaldo Costa era o redator do Correio), o Grupo da Anta ou o Verde-amarelismo (Cassiano Ricardo e Plínio Salgado eram também redatores do velho órgão), de modo que suas colunas se tornaram um foco de debates literários.” Ibid. p.146.

pela produção artística afeita ao modernismo no período posterior à realização do evento, quanto pela rememoração dos acontecimentos da Semana de Arte Moderna por parte da imprensa, quando de seus “sucessivos aniversários”.

A organização da Semana de Arte Moderna não se deu sem percalços. Os esforços empreendidos pelos modernistas para a realização do evento tiveram como corolário o apoio político e o aporte financeiro de parte da burguesia paulistana.163 Ao avaliar o comportamento dos modernistas na organização e execução da Semana, Márcia Camargos nos remete ao panorama socioeconômico que, politicamente, propiciou a realização do evento:

Destituídos de favorecimento e das verbas federais, concentrados na sede da República, e sem contar com instituições públicas que lhes dessem respaldo, os artistas e escritores dependiam da boa vontade da oligarquia local – da qual, aliás, muitos deles faziam parte(...). De mais a mais, para a classe dominante, a Semana representava uma oportunidade imperdível de reforçar a potência do Estado cuja saga de heroísmo, oriunda dos bandeirantes desbravadores, permeava o imaginário e o discurso do período164.

A aproximação dos modernistas com o literato e diplomata Graça Aranha acabou se tornando primordial no que diz respeito às expectativas de legitimação daquele acontecimento artístico almejadas pelos organizadores, uma vez que Monteiro Lobato recusara o convite que lhe fora feito.165 O contato dos modernistas com Graça

163Na avaliação de Marcos Augusto Gonçalves, “A entrada dos modernistas pela porta da frente, no ano

do Centenário da Independência, com direito à presença do governador e do grand monde paulista, não seria possível sem compromissos. E estes não consistiam simplesmente em abrir mão de escolhas estéticas radicais para facilitar o êxito do espetáculo. Na realidade, com uma ou outra exceção, mal havia escolhas estéticas radicais das quais abrir mão. Naquele momento, estava tudo a meio caminho, em nosso modernismo plantation. O velho tardava em se retirar e o novo ainda não reunia energias para se impor. A Semana, é certo, irradiou um sentimento de rejeição à arte oficial e ao ‘passadismo’, mas o fez por intermédio de obras que, em muitos aspectos, se conectavam à tradição que pretendiam confrontar.” In: GONÇALVES, Marcos Augusto. 1922: a semana que não terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p.270

164 CAMARGOS, Márcia. Semana de 22: entre vaias e aplausos. São Paulo: Boitempo, 2002. p.51 165 “A presença de Graça Aranha na conferência inaugural do evento, outro aspecto polêmico da Semana,

é esclarecida. A fim de granjear adeptos e simpatizantes de forma mais rápida, Monteiro Lobato foi convocado insistentemente por Oswald para ‘continuar a sua atitude inicial’, que, segundo ainda Oswald, fora ‘um estouro nos arraiais bambos da estética paulista’. Com a recusa do criador do Jeca Tatu, Graça Aranha tornou-se o padrinho de um empreendimento que estava fadado a ser adiado por falta de patrocínio. E emprestou às festividades o prestígio da sua personalidade de diplomata e escritor consagrado. O grupo paulista agiu premeditadamente ao convidá-lo: sua presença trouxe, inicialmente, a adesão de figuras importantes, a simpatia de literatos conhecidos, e fundamentalmente colocou a capital da República, que também era o centro cultural do país, no circuito da reforma da nossa arte.” In: BOAVENTURA, Maria Eugênia (Org.). 22 por 22: A Semana de Arte Moderna vista pelos seus

Aranha, mais político do que estético, esvaneceu-se, paulatinamente, depois de sua apresentação na Semana de Arte Moderna.

O clima tenso que se formou às vésperas da Semana era alimentado, a cada instante, por artigos de Oswald de Andrade na imprensa que, ao atacar a tradição em nome do “novo”, acirrou os ânimos e deflagrou uma série de críticas às investidas modernistas. As condições que proporcionaram a realização do evento encontram-se atreladas às iniciativas pessoais de alguns modernistas, é certo, mas não seriam possíveis, em grande medida, se não contassem com a benevolência de alguns mecenas.

O ponto de origem das ideias que propiciaram o advento da Semana de Arte

Moderna evoca interesses afins, tanto de parte da burguesia paulistana quanto da chamada “nova classe artística”.166 O famoso “discurso do Trianon”167, proferido por Oswald de Andrade em janeiro de 1921 serviu para arregimentar colaboradores em relação às ideias de renovação estético-literárias. Neste sentido, não causa surpresa a sugestão de Dona Marinette, esposa de Paulo Prado, no que se refere à realização de uma exposição em São Paulo que, tomando por modelo as exposições de pintura ocorridas na França, pudesse mexer com a cultura artística da cidade.168

Entretanto, a realização da Semana parece não se ater a esses aspectos exclusivamente. Em entrevista à Rede Globo, na década de 1970, Di Cavalcanti toma para si a ideia da realização da Semana de Arte Moderna, propondo mais uma perspectiva no que se refere ao ponto de partida do evento.169 À época, a ancoragem

166 Todavia, de acordo com Márcia Camargos, há quem acredite que a Semana de Arte Moderna foi obra

do acaso, na medida em que reuniu, em um mesmo contexto histórico figuras tão díspares, do ponto de vista intelectual, como Mário e Oswald de Andrade: “(...) há quem diga que a Semana de 22 só aconteceu devido a um simples acaso do destino, a um feliz encontro entre dois opostos que se atraem e que se completam. Sem guardar o menor parentesco, os dois Andrades, Mário e Oswald, numa fusão química de impacto, teriam funcionado como catalisadores de uma tendência que se esboçava no cenário do pós- guerra”. In: CAMARGOS, Márcia. Semana de 22: entre vaias e aplausos. São Paulo: Boitempo, 2002. p.68

167 “Situado na área hoje ocupada pelo MASP, em frente ao então parque Villon, o Trianon era uma

espécie de restaurante-pavilhão, com belvedere, prédio de dois andares, salão de chá e de festas. Inaugurado em 1916, tornara-se um dos centros da vida social paulistana, com seus bailes, concertos, aniversários, casamentos e banquetes.” In: GONÇALVES, Marcos Augusto. 1922: a semana que não

terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p.218

168 “Nas conversas de salão surgiu a ideia de uma série de conferências, exposições e concertos para

divulgar as novas posturas estéticas que eles (os modernistas) vinham discutindo em cafés, nas livrarias e na garçonnière de Oswald de Andrade onde, comporiam o diário coletivo O perfeito cozinheiro das

almas deste mundo. Dona Marinette, esposa de Paulo Prado, sugeriu que se fizesse uma semana de arte nos moldes dos festivais que se realizavam anualmente num balneário francês da costa normanda”. In: CAMARGOS, Márcia. Semana de 22: entre vaias e aplausos. São Paulo: Boitempo, 2002, p.75-76

169 Disponível em: < http://globotv.globo.com/globo-news/gnews-documento/v/semana-de-arte-moderna-

de-1922-completa-90-anos/1809217/>; Acessado em 16 de fev. 2012. Em entrevista ao Diário de

modernista nas refregas do Futurismo de Marinetti trouxe mais dissabores que prazeres aos modernistas. A crítica jornalística tratou de mesclar uma coisa com a outra e, em meio à confusão de conceitos e noções, satirizou com desdém os participantes do evento. De Di Cavalcanti a Villa-Lobos, passando por Anita Malfatti, poucos foram os artistas poupados pela crítica, refletidas em vaias e apupos durante o transcorrer

Semana.

A despeito do incipiente diálogo com o Futurismo, Oswald de Andrade (e mesmo Menotti Del Picchia) buscavam, com o advento da Semana de Arte Moderna, trazer ao público aspectos artísticos presentes nas vanguardas170 europeias, ainda desconhecidos em terras brasileiras.171 Entretanto, tal panorama vanguardista europeu se imiscuía numa outra proposta ensejada pelos modernistas brasileiros, pautada numa renovação que procurava se alicerçar na recusa à cópia, na negação à imitação.172

Às vésperas da realização do evento que marcaria em definitivo a história cultural da cidade de São Paulo, os apelos por uma nova arte eram incensados a todo momento por meio dos jornais. Intelectuais e artistas de todos os credos e áreas opinavam acerca da realização de uma semana dedicada à arte moderna e, dentro de uma conjuntura particular, anunciavam seus pontos de vista de forma nem sempre amistosa. Em todo caso, a emergência da Semana de Arte Moderna colocou na ordem do dia discussões que passavam tanto pela “liberdade de criação do artista moderno” quanto pelo descontentamento em relação às formas artísticas vigentes àquela altura dos acontecimentos. Em artigo publicado no jornal A Garoa, Sérgio Buarque de Holanda conclamava pela emergência desta inovação173 transmutada, a meu ver, em invenção.

Moderna tenha partido de Di Cavalcanti: “Um dia surgiu a idéia (sic) da Semana. A idéia (sic), parece, foi do Di Cavalcanti. Minha não foi, nem do Mário. Nem do Menotti.” Entrevista concedida a Heráclito Dias.

Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 1954. Apud: BOAVENTURA, Maria Eugênia. Os

dentes do dragão: entrevistas. São Paulo: Globo / Secretaria de Estado da Cultura, 1990. p.221

170 “Costuma-se estudar a vanguarda como um aspecto da modernidade (entendida como um impulso

inovador dominante na arte das primeiras décadas do século). Por esse prisma, ela compreende movimentos, ações, geralmente coletivas, reunindo artistas/escritores, sobressaindo-se por um antagonismo radical face à ordem estabelecida no domínio artístico (formas e temas) e no plano geral (político-social).” In: BOAVENTURA, Maria Eugênia. A vanguarda antropofágica. São Paulo: Ática, 1985. p.09

171 BOAVENTURA, Maria Eugênia (Org.). 22 por 22: A Semana de Arte Moderna vista pelos seus

contemporâneos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2000. p.25

172 “Os brasileiros estavam dispostos a não mais imitar uma certa literatura francesa, uma certa literatura

italiana e da mesma forma uma determinada literatura portuguesa. Em resumo, havia um sentimento de cópia e inadequação causado no Brasil pela manipulação da cultura ocidental, naquele momento estagnada sem traços de novidade e invenção, distante do presente.” Ibid. p.30

173 “Tudo faz supor que o nosso século romperá com a rotina costumeira e inaugurará uma formidável

Suas palavras indicam o “clima” que cercava o mote artístico que comporia a sinfonia da Semana de Arte Moderna.

Também Mário de Andrade chega a afirmar a proeminência da novidade artística, traçando um olhar paralelo entre a renascença italiana e a incipiente “renascença paulista”.174 A junção entre os chamados “futuristas de São Paulo”175 à “aristocracia” paulistana indica, antes de qualquer juízo de valor, o diálogo estabelecido entre parte da elite econômica de São Paulo, a iminência dos novos artistas e os interesses distintos que apraziam a ambos os grupos. Com certo pedantismo e ironia, Menotti Del Picchia anunciava a realização da Semana de Arte Moderna deixando evidente o interesse desta “aristocracia” pelas coisas novas da arte.176 De acordo com Del Picchia:

A Semana de Arte Moderna que constará de três noitadas literárias e musicais e de uma grande e complexa exposição de escultura, pintura e arquitetura, revelará o que São Paulo possui de mais culto, de mais sensacional em arte; realizar-se-á no teatro máximo da cidade, como disse, sob os auspícios da elite paulistana, devendo a ela comparecer nosso mundo oficial.177

A euforia de Menotti Del Picchia é compartilhada por quase todos os modernistas. Era preciso criar um campo de atuação propício à aceitação das novas ideias e, neste sentido, a Semana de Arte Moderna, ainda que não possa ser vista como o ponto alto do modernismo, traria à cena artística da cidade (e também do país), um novo corpus literário-artístico.

Na esteira discursiva fomentada por Mário de Andrade e Menotti del Picchia, Oswald de Andrade vê na realização da Semana de Arte Moderna um momento revolucionário. No artigo “O triunfo de uma revolução”, Oswald de Andrade revê seus combates jornalísticos em prol do modernismo, faz o elogio à cidade de São Paulo,

Surjam novos evangelhos, novas doutrinas, novas teorias, novas idéias, novas opiniões, novos artistas, novos profetas! É o que se deve esperar.” HOLANDA, Sérgio Buarque de. ...Il faut dês barbares. Jornal

A Garoa, São Paulo, 3 jan. 1922.

174 ANDRADE, Mário. Arte Moderna II: iluminações inúteis. Jornal A Gazeta, São Paulo, 4 fev. 1922,

p.1 (coluna “Notas de Arte”).

175 HÉLIOS. Semana de Arte Moderna. Jornal Correio Paulistano, São Paulo, 7 fev. 1922, p.1 (coluna

“Notas de Arte Moderna”).

176 “Pelo lado social – que a Semana de Arte Moderna será – depois do baile dos Campos Elísios – o

maior acontecimento mundano da temporada – amparam-na, puxando a fila, as fidalgas e tradicionais figuras dos doutores Paulo Prado, Oscar Rodrigues Alves, René Thiollier: e outros tantos patrícios do mais lídimo estofo da velha aristocracia bandeirante”. Ibid.

ironiza a postura de Monteiro Lobato em relação a Anita Malfatti e destaca a aproximação de Graça Aranha aos “futuristas de São Paulo”. Entretanto, é com a arte de Victor Brecheret que o escritor do Manifesto Antropófago procura estabelecer um diálogo mais fecundo. Oswald de Andrade faz referência ao “Monumento das Bandeiras”, de Brecheret, e invoca, por meio da construção escultural, uma imagem de Brasil.178

Mário de Andrade, citado como poeta-maior do modernismo, é comparado a Bilac e colocado ao lado das transformações dos novos tempos: o cinema, o telégrafo sem fio, as travessias aéreas intercontinentais.179 A preparação do evento artístico ocorre em meio à exaltação da arte moderna, principalmente por intermédio da obra de pintores. É notório o esforço oswaldiano em referendar o epíteto moderno através de jornais e, neste sentido, a literatura nem sempre é o “carro-chefe” das manifestações opinativas. Picasso, Van Gogh, Matisse desfilam na escrita de Oswald de Andrade enquanto sinônimos de qualidade artística atrelados ao que de mais auspicioso se produzia em termos de arte moderna. São “apresentados” ao público leitor como ícones da pintura e, ao mesmo tempo, reforçam a posição ideológica dos modernistas enquanto balizas estéticas que se contrapõem a determinado segmento da crítica, que não via com bons olhos a emergência desta nova arte. Oswald de Andrade critica o “provincianismo” da crítica e sua consequente recusa em dialogar com a arte realizada em outros países.180 Tracejando uma linha teórica entre arte pictórica e a literatura, Oswald de Andrade pondera: “Cubismo é a reação construtiva de toda pintura moderna. Assim, futurismo não é marinetismo e, sim, toda a reação, construtiva da literatura.”181

178

“Brecheret como Anita Malfatti, como Di Cavalcanti, causou estupefação. Ante a sua maravilhosa maquete do “Movimento das Bandeiras”, hoje recolhida à Pinacoteca do Estado, perguntavam-se bobices sensacionais (...). E poucos foram os que perceberam no movimento fecundo, a marcha heroica, a robustez galharda dos desprezos imortais, daqueles semideuses bárbaros e modernos que iam à porfia invencida dos eldorados brasílicos.” ANDRADE, Oswald. O triunfo da vontade. Jornal do Commercio, São Paulo, 8 fev. 1922. p.2.

179 “O século contemporâneo do cinema, do telégrafo sem fio, das travessias aéreas intercontinentais,

exige uma maneira nova de expressão estética – talvez ainda eivada de absurdos aparentes, chocantes, rascante, brutal portadora de germes esplêndidos para uma primavera.” Ibid.

180 A fria recepção da crítica ao Cubismo causa em Oswald de Andrade certa indignação: “(...) o Cubismo

já vai tendo quase três lustros de vitórias sérias e conta, se não com a adesão, pelo menos com a simpatia de todos os intelectuais do mundo civilizado. Aqui, porém, que se dá para a manutenção desse profundo desgosto por todas as iniciativas superiores”. ANDRADE, Oswald. O vagabundo borra-telas. Jornal do

Commercio, São Paulo, 9 fev. 1922, p.5-6

É interessante perceber que Oswald de Andrade, ao trazer para o centro do debate cultural os princípios e a importância da arte moderna busca, no que concerne à crítica de arte no Brasil (e, em especial à Academia Brasileira de Letras), justificar a afirmação da “nova arte”. No intuito de ganhar espaço na esfera teórica, o “inimigo” desta nova arte se traveste em academismo e é visto como paradigma de celebração da cópia, da imitação, em detrimento do original. O academismo é considerado, pelos modernistas, como o “inimigo” a ser derrotado.182

Um dia antes do início da Semana de Arte Moderna, Oswald de Andrade inicia