Cristiane Barros Marcos1
Bruna Abbud Silva2
Egeu Gomez Esteves3
Daiane Porto Gautério4
RESUMO
A Estratégia de Saúde da Família propõe a atuação de uma equipe multiprofissional em território adstrito, focado principalmente na promoção da saúde e prevenção de doenças (PREVIATTI; LOBO; PEREIRA, 2013). A fim de exercer os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) as equipes se deparam com o desafio do trabalho interdisciplinar. O teste rápido é um procedimento para o diagnóstico célere de infecções sexualmente transmissíveis (IST), surgiu na década de 80, mas foi implantado no Brasil em 2005, pelo Ministério da Saúde. Qualquer profissional da saúde, devidamente capacitado, pode realizá-lo – o que inclui os psicólogos como trabalhadores aptos a esta ação. No SUS são ofertados testes para detecção do vírus da imunodeficiência humana (HIV), sífilis, hepatite B (HsBag) e hepatite C (HCV). O aconselhamento, como prática no SUS, surge como estratégia de prevenção e promoção de saúde para o enfrentamento ao risco das IST e é importante para que o usuário, ao ser informado, seja o próprio ator do seu cuidado na prevenção das IST (PEQUENO; MACEDO; MIRANDA, 2013). O objetivo dessa pesquisa foi conhecer a percepção de usuários dos serviços de uma unidade de saúde da família (USF), que buscaram o procedimento de teste rápido, em relação ao aconselhamento pré e pós teste realizado por equipe multiprofissional. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa em saúde (MINAYO, 2008), transversal e descritiva, realizada como trabalho de conclusão de residência multiprofissional em saúde da família. Este estudo seguiu os rigores éticos da Resolução n. 466/12, foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa da universidade na qual o projeto foi desenvolvido e pelo comitê do núcleo municipal de educação e saúde coletiva do município onde a pesquisa ocorreu. Foi realizado em uma USF de um município do litoral sul do Rio Grande do Sul. Os participantes foram 6 mulheres e 1 homem, moradores da área de atuação da USF, a maioria com idade entre 26 a 45 anos, 1 maior de 60 anos e 1 com idade entre 18 a 25 anos. Os instrumentos utilizados foram questionário sociodemográfico e entrevista semiestruturada. Primeiramente observou-se o procedimento de teste rápido realizado pela equipe na USF, verificando-se a quem era oferecido e quando poderia ser feito. A seguir ocorreu a sensibilização dos trabalhadores na busca de colaboradores para formar equipe multiprofissional e realizar o procedimento. E então foi realizado o aconselhamento pré e pós-teste nos usuários. Os usuários que tiveram abordagem multiprofissional neste procedimento foram convidados a participar da pesquisa, exceto gestantes ou parceiros de gestante, pessoas com transtorno mental e aqueles que obtiveram resultado positivo no teste. Logo após o teste ocorreu a entrevista semiestruturada, cujos áudios foram gravados e transcritos. O método de análise das informações produzidas foi Análise Temática, considerada apropriada para as investigações qualitativas em saúde (MINAYO, 2008). Utilizou-se regras preestabelecidas e diretrizes sistemáticas, o conteúdo das entrevistas foi ordenado e integrado em categorias conforme os objetivos. Na pré- análise trabalhou-se com todas as transcrições pois todos participantes responderam as questões
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elencadas. Na exploração do material estas foram lidas e, em seguida, destacadas as palavras e frases mais mencionadas de acordo com a temática da pesquisa. Após análise, foram separadas em quatro categorias: Acolhimento; Aconselhamento (Orientação sobre procedimento/ IST/ Prevenção); Procedimento técnico; e Equipe Multiprofissional. O acolhimento realizado no momento pré-teste consiste num diálogo para conhecer a história, contexto e motivação do usuário na busca pelo procedimento e orientá-lo. Verificou-se nos relatos dos participantes que a intervenção possibilitou sentirem-se mais seguros e tranquilos a partir dessa conversa com os profissionais, como evidenciado em “me tranquilizou” e “me senti bem”. O aconselhamento é constituído por diálogo baseado em uma relação de confiança, para propiciar ao usuário condições de avaliar seus riscos, tomar decisões e descobrir formas de combater seus problemas em relação às IST (BRASIL, 2006). Os resultados encontrados, como na fala “me explicaram como funciona o teste/IST/prevenção”, apontam o reconhecimento da importância das explicações e esclarecimentos para cada caso. Logo, estão de acordo com as diretrizes de acolhimento de pessoas com suspeita ou diagnóstico de IST na Atenção Básica, que preconiza a prevenção de doenças ou agravos e a promoção da saúde. A respeito da percepção sobre o procedimento de realização do teste rápido, os relatos destacam sua agilidade, a diferenciação de orientações e encaminhamentos para cada caso e a possibilidade de compreensão sobre a técnica utilizada, como, por exemplo: “Eu acho que um resultado só no papel, sem alguém te explicar é pior. Porque aqui elas aconselharam, deram bastante norma do procedimento, se quiser retornar, fazer de novo.” (informação verbal). A atuação multiprofissional pressupõe que cada um possui o seu conhecimento, mas que ao compartilha-lo se constrói um novo saber. Os diversos olhares e saberes dos profissionais auxiliam no cuidado e educação em saúde do usuário, além de proporcionar maior acolhimento na realização do teste rápido. Na percepção dos participantes sobre a equipe multiprofissional esta lógica é evidenciada, como no relato: “Eu acho bem importante ter duas pessoas, até para orientar porque o que uma não sabe a outra sabe, ou se esqueceu de alguma coisa a outra está para complementar.” (informação verbal). São preconizadas na Atenção Básica a garantia do acolhimento e atividades de informação e educação em saúde (BRASIL, 2015). Logo, para que o aconselhamento tenha caráter educativo, de avaliação de risco e de apoio emocional, é necessária orientação pré-teste e pós-teste. Os trabalhadores devem reconhecer seus limites e perceber as necessidades do usuário, adotando postura acolhedora e de escuta para criar vínculo entre o profissional de referência e o usuário que possui a demanda (BRASIL, 2015). Paiva et al. (2015) afirmam que muitas atividades educativas em saúde focam apenas em informar sobre contracepção e IST, mas outras abordagens são necessárias. Relatos como “Ela me aconselhou a ter relação com ele com preservativo. Eu acho que é importante a camisinha, com certeza, mas ele diz para mim que, ah, faz 14 anos somos casados e não tem porque ter essa de camisinha, eu confio em ti, tens que confiar em mim” (informação verbal) apontam dificuldades para a prevenção nas relações sexuais e indicam situações de desigualdade (ROCHA; VIEIRA; LYRA, 2013). Mais precisamente a expressão da desigualdade pautada pelo machismo, gerador de violência e, nesse caso, impedidor da autonomia da mulher sobre o próprio corpo. Destaca-se então a necessidade de desenvolver práticas em saúde que visem o empoderamento e a emancipação feminina para a promoção de saúde e em relação a prevenção de IST. Verificou-se também que para alguns participantes a busca pela informação e pelos cuidados de saúde são vistos como de responsabilidade exclusiva do usuário. A ausência de compreensão acerca do papel dos profissionais em ofertar o cuidado evidencia-se, por exemplo, em “Porque isso depende da tua parte, tu quer saber, tu vem e procura.” (informação verbal). Conclui- se que conhecer a percepção dos usuários dos serviços é relevante para aprimorar as práticas dos profissionais de saúde no SUS e o cuidado ofertado. Muitas das práticas existentes se baseiam no modelo exclusivamente biomédico, impedindo o propósito da educação em saúde que deve garantir a autonomia, emancipação e capacitação de todos as pessoas envolvidas para que possam escolher e decidir acerca da própria saúde (PAIVA et al., 2015). Por fim, sugere-se a realização de investigações
com o mesmo foco em outros locais, a fim de conhecer e aperfeiçoar os atendimentos.
Palavras-chave: Equipe multiprofissional. Infecções sexualmente transmissíveis. Estratégia de Saúde da Família. Teste rápido. Psicologia.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n. 154, de 24 de janeiro de 2008. Cria os Núcleos de Apoio à Saúde da Família – NASF. Brasília, DF: MS, 2008. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/ saudelegis/gm/2008/prt0154_24_01_2008.html. Acesso em: 15 ago. 2019.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica.
HIV/Aids, hepatites e outras DST. Brasília, DF: MS, 2006. 196 p.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica.
Política Nacional de Atenção Básica. 4. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2007. 68 p.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST. Aids e
hepatites virais. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para atenção integral às pessoas com infecções sexualmente transmissíveis. Brasília, DF: MS, 2015. 130 p.
MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento. Pesquisa qualitativa em saúde. 11. ed. São Paulo: Hucitec, 2008. 407 p.
PAIVA, C. C. N. et al. Educação em Saúde segundo os preceitos do Movimento Feminista: estratégias inovadoras para promoção da saúde sexual e reprodutiva. Escola Anna Nery, v. 19, n. 4, p. 685-691, 2015.
PEQUENO, C. S.; MACEDO, S. M.; MIRANDA, K. C. L. Aconselhamento em HIV/AIDS: pressupostos teóricos para uma prática clínica fundamentada. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, DF, v. 66, n. 3, p. 437-441, maio/jun. 2013.
PREVIATTI, D.; LOBO, E.; PEREIRA, J. Em busca da interdisciplinaridade: o trabalho multiprofissional na gestão pública em saúde para a construção do Sistema Único de Saúde (SUS). Florianópolis: Fundação Boiteux, 2013. p. 178-189.
ROCHA, S.; VIEIRA, A.; LYRA, J. Silenciosa conveniência: mulheres e aids. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 11, p. 119-141, 2013.