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Por trás do cânone e/ou dentro do armário?

4 FIGURATIZAÇÃO TRIANGULAR: RELAÇÕES AFETIVAS E

4.1 Por trás do cânone e/ou dentro do armário?

Faz décadas que discussões em torno da construção do chamado cânone literário brasileiro tem ganhado espaço. Vários são os estudos que se propõem a questionar a formação do mesmo, tendo em vista que a estruturação desse cânone obedeceu a parâmetros de ordem social, cultural e econômica, elegendo critérios que no decorrer do tempo se mostraram questionáveis. No entanto, não podemos negar que, historicamente, há uma mudança no olhar lançado às obras que estão inseridas no cânone literário. Há um movimento crítico que problematiza as presenças e as ausência de textos, autores, temáticas. Essa discussão acerca dos textos inclusos, ou não, no cânone será ampliada no capítulo seguinte, no qual nos debruçaremos em observar justamente o que está fora do contexto canônico.

É preciso deixar claro que, durante muito tempo, a escolha desses textos para compor o cânone era única e exclusivamente da crítica, que autorizava, através de critérios particulares, quais os textos que poderiam ou não entrar no rol sagrado. Pensar a crítica, nesse sentido, é muito pertinente para compreender os limites entre o que é aceito/válido e o que não pode pertencer a esse espaço. Um posicionamento importante, sobre esse tema, é o de Perrone- Moisés (2000), ao apresentar que:

A crítica, como seu próprio nome indica, supõe julgamento (krínein). Claro está, desde Kant, que se trata aí de juízo reflexivo e não de juízo determinante. O julgamento estético supõe valores consensuais, mesmo que esses sejam provisórios. O mesmo Kant dizia que, se não se pode provar o bom fundamento dos julgamentos estéticos, há, no entanto, pessoas capazes de fornecer argumentos, e comprovar assim certa autoridade nesse terreno. Os críticos são aqueles que fornecem argumentos em apoio a seus julgamentos. Ora, inexistindo na pós modernidade critérios de julgamento e hierarquia de valores consensuais, a atividade crítica torna-se extremamente problemática. A desconfiança na estética como disciplina idealista e elitista, a proliferação de critérios particulares e o questionamento do “grande relato” solapam as bases de qualquer crítica (PERRONE-MOISÉS, 2000, p. 340).

Nesse cenário, consideremos que a responsabilidade atribuída à crítica é muito grande, uma vez que ela é a encarregada por validar, através de um juízo de valor, o que deve ou não

ser lido pelo público, rotulando e categorizando textos por intermédio de critérios que não são consensuais, tendo em vista que uma obra literária pode afetar os sujeitos de modos distintos. Com isso, não estamos desconsiderando o valor da crítica, tampouco a construção de um cânone literário, entretanto estamos tensionando a construção desse arcabouço, problematizando os utilizados e, sobretudo, empenhando-nos em compreender até que ponto a crítica precisa contrapor, em um grau de superioridade, as obras eleitas em relação às negadas ou tornadas invisíveis.

Ainda para pensar o papel da crítica, faz-se salutar trazer à baila o posicionamento de Compagnon (2003), ao manifestar questionamentos acerca dessa função destinada aos críticos: O público espera dos profissionais da literatura que lhe digam quais são os bons livros e quais são os maus: que os julguem, separem o trigo do joio, fixem o cânone. A função do crítico literário é, conforme a etimologia, declarar: “Acho que este livro é bom ou mau”. Mas os leitores, por exemplo, os de crônica literária da imprensa cotidiana ou semanal, mesmo que não detestem o acerto de contas, se cansam dos julgamentos de valor que mais parecem caprichos e, gostariam que, além disso, os críticos justificassem suas preferências, afirmando, por exemplo: “Estas são as minhas razões e são boas razões”. A crítica deveria ser uma avaliação argumentada. Mas as avaliações literárias, tanto a dos especialistas quanto a dos amadores, têm, ou poderiam ter, um fundamento objetivo? Ou mesmo sensato? Ou elas nunca são senão julgamentos subjetivos e arbitrários, do tipo “eu gosto, eu não gosto?”, aliás, admitir que a apreciação crítica é inexoravelmente subjetiva nos condena fatalmente a um ceticismo total e a um solipsismo trágico? (COMPAGNON, 2003, p. 224).

Observemos que o autor problematiza o lugar ocupado pela crítica, bem como o lugar do leitor que, em muitos casos, espera um parecer que direcione a sua leitura. É claro que essa questão é muito particular, tendo em vista que, ao observarmos as listas dos livros mais lidos ou vendidos anualmente, muitas vezes, são textos que não estão sendo indicados pelo grupo seleto de pessoas que apontam o que devemos ler. Esse duplo movimento está relacionado com a subjetividade característica do texto literário que possibilita que uma mesma produção ganhe adesão ou não do público e/ou da crítica.

Podemos inferir através dos questionamentos desse autor o quanto é delicada a função do crítico diante de uma demanda social, econômica, como também da expectativa dos leitores, que já colocaram o “profissional da literatura” em um lugar da alta estirpe, de igual modo as obras avaliadas como sendo positivas, identificando-se ou não com aquela produção.

Assim, destacamos a questão do subjetivismo que atravessa o sujeito para que se façam apontamentos positivos ou negativos em relação às produções literárias. Não estamos afirmando que as escolhas das obras para compor determinado cânone, ou indicação para o grande público, deva levar em consideração apenas aspectos subjetivos, mas que é

imprescindível mensurar esse fator para que uma obra faça ou não parte do cânone de seu tempo e que continue sendo lida e indicada em outros tempos.

É necessário atentarmos para o critério que muitas vezes é utilizado para justificar o valor da obra literária, o qual, muitas vezes, está mais relacionado às questões políticas e sociais, do que à chamada “literariedade imanente aos textos”, que durante muito tempo foi observada como um aspecto com valoração positiva, mas que hoje é vista pela crítica de modo negativo, diante da subjetividade que também está posta para considerar os elementos que fazem de uma obra ser reconhecida como literatura (JAKOBSON, 2002). Segundo Abreu (2006), ao retomar a justificativa dos críticos para a avaliação do texto, trata que:

Os elementos que fazem de um texto qualquer uma obra literária são internos a ele e dele inseparáveis, não tendo qualquer relação com questões externas à obra escrita, tais como o prestígio do autor ou da editora que o publicou, por exemplo. Entretanto, na maior parte das vezes, não são critérios linguísticos, textuais ou estéticos que norteiam essa seleção de escritos e autores. [...] (ABREU, 2006, p. 39).

Desse modo, é perceptível na análise de Abreu (2006) que o estatuto de literário em alguns textos não estão, de fato, relacionados aos critérios literários, tendo em vista que estes não existem por si, mas são construções culturais para reproduzir um modelo ideológico hegemônico do cânone literário, configurando assim um projeto de imposição cultural, como acontece em outras áreas sociais.

Corroborando o que afirma Abreu (2006), Kothe (1997), através de um trabalho cuidadoso, examina a construção do chamado cânone literário brasileiro, questionando a literatura colonial, imperial e republicana. Neste trabalho, o autor discute a construção do cânone, apontando aspectos relativos ao que faz um texto ser visto como literário ou não, apresentando de modo bastante enfático um modelo de literatura quase inatingível, resultando em trabalho de escritores e obras estrangeiras, alemãs, inglesas.

No que se refere às definições do cânone, bem como os critérios que são utilizados para constituí-lo, o autor aponta:

O cânone é formado por textos elevados à categoria de discurso, no sentido que nele se tem a palavra institucionalizada pelo poder. O cânone não pretende ter estrutura, mas ser simplesmente a condensação dos textos selecionados da tradição e pela tradição, por causa de sua qualidade artística superior: o fundamento de sua poética é, no entanto, política (KOTHE, 1997, p. 87).

Na perspectiva apresentada pelo autor, fica evidenciado que o discurso canônico pode ser um discurso de poder e não necessariamente de avaliação do texto, até porque criar

parâmetro para definir essa propriedade é um tanto quanto complexo. Desse modo, podemos afirmar que a crítica, assim como as obras literárias, evidencia um dado histórico-cultural sujeito às injunções ideológicas, mas esse não é essencialmente o problema. Consideramos problemático, na verdade, a manutenção de um único tipo de discurso como sendo adequado, invisibilizando as demais manifestações literárias que fogem ao que socialmente é aceitável.

Fernandes (2014, p. 202), ao problematizar a presença de narrativas homoeróticas no cânone e, consequentemente, pensar o modo de constituição do mesmo, afirma que as formas utilizadas pelos estudiosos para que o cânone seja “descrito, caracterizado, conceituado alicerçam-se em ideias que nos soam como se ele fosse invisível, impalpável. Essa discussão parece, muitas vezes, recair em uma manifestação do poder, embora detentora do controle sobre o corpus oficial da literatura brasileira”. Esse status atribuído a determinadas obras tem sido reiterado por autores que também são vistos como críticos canônicos, ou seja, há um ciclo que promove a manutenção de um tipo de literatura que deve ser lida e um tipo de crítica que também é autorizada.

Para problematizar o estabelecimento dessa instituição crítica, é preciso reconhecer que a literatura importou o modelo teleológico de cânone, a partir do século XIX, época da ascensão dos nacionalismos, quando os “grandes escritores” se tornaram os heróis dos espíritos das nações e as indicações dessas obras eram feitas por sujeitos que não tinham conhecimento na área, pois eram jornalistas, mas que detinham o discurso dominante, validados pelas relações de poder fundamentadas em práticas burguesas.

Outrossim, ressaltamos que a seleção das obras que são consideradas autorizadas pelo sistema perpassam por parâmetros alicerçados em fatores externos a elas, ou seja, não se restringem às questões estéticas e internas ao texto, e sim, a fatores sociais e morais do universo do crítico. Nesse sentido, a crítica deveria ser uma avaliação argumentada, mas, ainda assim, esse processo de seleção nunca será objetivo.

Com isso, almejamos afirmar que o problema do cânone não está, ao nosso ver, em sua existência, necessariamente, mas nos critérios excludentes que são utilizados pelos críticos literários desde as primeiras manifestações escritas. Estes critérios são problemáticos por impedirem o acesso dos leitores às obras, negligenciando a prática leitora, invisibilizando autores e textos, bem como mantendo uma restrição à divulgação de obras e temas que preenchem os preceitos ideológicos estabelecidos pela crítica tradicional. Nesse sentido, para Perrone-Moisés (1998, p. 196), “o cânone ocidental, constituído de ‘homens brancos mortos’, foi posto sob suspeita; a formação desse cânone foi examinada do ângulo ideológico, como uma série de manobras mais ou menos claras das elites no poder, e o resultado foi a condenação”.

Nesse sentido, é possível inferir que em toda a tradição da literatura brasileira, indígenas, mulheres, negros, ex-colonizados, LGBTI+ e tantas outras minorias foram, durante muito tempo, esquecidos da seleção canônica. Essas minorias têm lutado, em todos os segmentos sociais em que estão inseridas, apropriando-se dos lugares que não lhes deveriam ter sido ocultados. No que se refere especificamente ao cânone literário, é possível afirmar que este se estabelece como uma forma da crítica demonstrar seu poder e experimentar seu imperialismo sobre as minorias.

Ao pensarmos em relações desautorizadas, identificamos dois eixos que podem sinalizar a exclusão do cânone: a autoria e a temática. Sabe-se que há um discurso normatizador que identifica a autoria masculina, branca e heterossexual como sendo a permitida para a divulgação e reprodução. Então, os marcadores opostos a esses mencionados já são colocados à margem da produção literária autorizada, canonizada, permitida para ser lida.

Apontamos essa retomada sobre a construção do cânone literário e iniciamos uma problematização sobre as minorias que tem estado fora do mesmo, tendo em vista que o objetivo deste capítulo é trazer à baila obras que apresentam relações invisibilizadas por fazer emergir personagens que estabelecem conexões com mais de um sujeito, ou seja, por extrapolar os limites do que se espera socialmente para um casal e, além disso, tratar de relações cujas bases de construção e/ou desconstrução girem em torno de personagens LGBTI+.

Nessa conjuntura, os autores que colocam em tela tais questões tiveram seus textos excluídos ao logo da história da literatura. Não podemos afirmar que tais autores foram excluídos do cânone, mas que algumas das textualidades produzidas pelos mesmos cumprem os critérios para fazer parte do cânone literário e outras textualidades não. Assim, entendemos que um ponto importante a se considerar é a abordagem destas temáticas para a compreensão do que se mostra/esconde na produção literária brasileira, o que está dentro e fora desta literatura e quem determina os espaços que essas podem ocupar.

Nesse jogo de ocultar e revelar produções, diante de fatores externos ao texto literário, encontramos a temática do triângulo amoroso, que tem sido ocultado do cânone. Como discutimos no primeiro capítulo desta tese, o triângulo amoroso é uma presença relacional dominante em toda a produção literária brasileira. Entretanto, algumas obras foram invisibilizadas por apresentarem relações que revelam em sua estrutura a presença de personagens LGBTI+, constituindo triangulações –, e demais tipos de relações – isto é, com uma base diferente das relações observadas nos textos canônicos, conforme analisados no primeiro capítulo.

Assim, é neste universo de triangulação que vamos adentrar neste capítulo. Para fins metodológicos, seguiremos a mesma sequência cronológica para a análise das obras, ou seja, revisitaremos os chamados movimentos artísticos-literários desde as primeiras produções consideradas brasileiras para analisar os textos literários que, em sua tessitura, identificam relação entre iguais como elemento (des)estruturante para a composição dos triângulos amorosos.

No que diz respeito ao recorte do gênero textual utilizado como corpus de análise, seguimos priorizando os textos narrativos, uma vez que houve uma recorrência da temática nessa forma de literatura. Do mesmo modo como foi evidenciado no capítulo anterior, a chave de leitura continua sendo o dominante do triângulo amoroso e a percepção de como este desenho é efetivado, metaforicamente, na literatura brasileira não canônica, desembocando em uma espiral dos desejos.

Salientamos que nesse processo investigativo, por mais que estejamos entendendo o grupo LGBTI+ como sendo uma minoria, não podemos desconsiderar que cada letra da sigla apresenta configurações de relacionamentos de modo particular e específico. Um primeiro dado que fica evidenciado é a evolução da abordagem do tema. Nas primeiras produções textuais que trazem a presença de iguais, vamos encontrar primordialmente relações nomeadas de amizade e, em sua grande maioria, amizades entre iguais, que deixam nas entrelinhas a dúvida da relação, se deve ser vista apenas como amizade ou se há algo mais.

Com o passar do tempo, os textos literários abrangem mais explicitamente a relação constituída entre dois sujeitos marcados por masculinidade. Em seguida, identificamos textos que abordam as relações lesbianas – em muitas situações, essa abordagem se dá através de um discurso discriminatório. As personagens travestis vão aparecer, inicialmente, com uma carga negativa, e só no século XX teremos uma mudança nessa perspectiva, como vamos discutir adiante. Com isso, destacamos que, mesmo tratando de um grupo minoritário, existem particularidades que precisam ser ponderadas, pois não podemos desconsiderar cada sujeito em sua subjetividade e sua singularidade, tampouco o período em que foi produzido e a abordagem que os autores e autoras utilizavam para falar desse grupo.