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PARTE II – REVISÃO DA LITERATURA – CANTINHO DA LEITURA

Capítulo 3 – Aprendizagem Baseada em Problemas – Vamos resolver problemas para aprender . 105

3.1.3 ABP em Portugal

3.1.3 ABP em Portugal

A par com evolução da educação na europa, em Portugal vamos encontrando eco dos grandes movimentos educacionais da história quer nas orientações pedagógicas emanadas pela tutela quer nas práticas dos professores. No entanto, é com o incremento da publicação de trabalhos nas universidades portuguesas tem trazido um desenvolvimento considerável na investigação nas áreas da pedagogia e da didática que podemos dizer que começamos a ter um corpo de conhecimentos que nos permite caraterizar o ensino e a aprendizagem no nosso país (Dourado & Leite, 2010; Pereira, Carolino, & Lopes, 2007).

27 http://www.rp.edu.sg/PBLInstitute/Trainers/KarenGoh.aspx 28 http://www.bie.org/

Origem e expansão

Tal como sucedeu noutros países, a ABP surge, em Portugal, primeiramente no seio da comunidade médica e expande-se, posteriormente, para outras áreas do saber. O primeiro trabalho encontrado sobre a ABP em Portugal data de 1993 e remete-nos para o Curso da Medicina da Universidade Nova de Lisboa, entre 1987 e 1990, na disciplina de Fisiopatologia. Neste artigo é apresentado um projeto de integração de uma disciplina com a metodologia ABP num curso de medicina tradicional. Rendas (2010) refere que este primeiro projeto abriu caminho para a implementação da ABP em Portugal embora o tema seja, ainda hoje, bastante polémico.

Atualmente, as Universidades do Minho, Beira Interior, Algarve e Aveiro possuem currículos na área da Medicina e da Saúde orientados para a ABP e estão em curso outros projetos de implementação desta metodologia noutras escolas do país. É de realçar a realização, a 8 de fevereiro de 2012, na Universidade do Minho, da conferência com o título “A aprendizagem baseada em problemas: uma experiência no ensino da enfermagem” no âmbito da experiência realizada no ano letivo 2010/11 na UC Enfermagem de Saúde da Criança Adolescente.

Apesar de existirem projetos implementados com sucesso, estes trabalhos e relatórios estão dispersos e, deste modo, não contribuem para uma consolidação e implementação em maior escala da ABP em

Portugal. Desta forma, referimo-nos, em pormenor, a um estudo realizado por nós neste âmbito29, por

considerarmos importante traçar um quadro geral da ABP em Portugal (Fartura, Pessoa, & Barreira, 2012). Neste trabalho, procedeu-se a uma pesquisa com o objetivo de constituir um corpo documental que nos permitisse esboçar uma matriz sobre o que tem sido feito em Portugal sobre a ABP com o objetivo de: i) clarificar a eficácia desta no contexto português; ii) sintetizar informação dispersa sobre a metodologia; iii) orientar linhas futuras de pesquisa e investigação da ABP em Portugal. Neste âmbito, foram analisados sessenta e três trabalhos disponíveis nas bases de dados de instituições de ensino superior, Universidades e Institutos Politécnicos.

Da análise efetuada verificámos que, embora com algumas variações, houve um aumento constante na publicação de trabalhos sobre a ABP em Portugal desde as primeiras publicações, sendo que a partir do ano 2005 há uma tendência mais acentuada de crescimento. Apesar dos primeiros trabalhos encontrados se referirem à área da saúde, a área com maior número de publicações sobre a ABP é a educação. Surgem também alguns trabalhos na área da psicologia, da engenharia e da economia. A maioria dos trabalhos corresponde a comunicações em congressos internacionais mas surgem também

29 Estudo realizado no âmbito da conferência Competence and Problem Based Learning – Experience, Learning and

comunicações em congressos nacionais e artigos publicados em revistas nacionais e internacionais. A maioria dos trabalhos analisados apresenta projetos de implementação da ABP, desde o ensino básico ao ensino superior, e cinco são revisões da literatura. Os trabalhos analisados focavam a sua investigação em diversos pontos do processo da ABP: aprendizagem de conhecimentos; motivação; desenvolvimento das competências sociais; desenvolvimento da autonomia; desenvolvimento da responsabilidade; desenvolvimento de capacidades de questionamento; desenvolvimento de competências de comunicação; desenvolvimento de metaconhecimento; desenvolvimento do pensamento crítico; desenvolvimento profissional ou para a profissão; melhoria dos resultados. No âmbito dos objetivos dos trabalhos analisados podemos concluir que, a maioria, centra-se na descrição de experiências e na aprendizagem dos alunos. Existem também alguns estudos cujo objetivo é perceber a opinião dos alunos e professores sobre a ABP e a sua influência na motivação e atitudes para com o estudo. Os resultados mais vezes referidos nos trabalhos analisados prendem-se com o aumento da motivação, a aprendizagem de conhecimentos e o desenvolvimento das competências sociais (Fartura et al., 2012).

Em síntese, podemos concluir através deste estudo que a ABP tem sido implementada em Portugal embora com pequenos projetos localizados no tempo e no espaço (Fartura et al., 2012). No entanto, a dispersão dos projetos e a falta de uma iniciativa nacional coordenada pela tutela ou de projetos mais alargados, não conseguimos ter uma noção clara da dimensão que as metodologias ABP têm no nosso país.

A ABP no Sistema Educativo Português

Apesar de não haver uma explicitação clara da metodologia ABP nos documentos que gerem o ensino em Portugal, alguns dos princípios consagrados, quer na LBSE e nas metas curriculares ao nível do ensino básico, quer na declaração de Bolonha ao nível do ensino superior, apelam a metodologias ativas, que desenvolvam capacidades de pensamento crítico e de resolução de problemas e que preparem os alunos para uma aprendizagem ao longo da vida.

A LBSE (Lei n.º 46/86, de 14 de outubro) prevê no seu artigo 2º que o sistema educativo deverá promover o “desenvolvimento pleno e harmonioso dos indivíduos, incentivando a formação de cidadãos livres, responsáveis, autónomos e solidários”. Este documento refere ainda que a educação deverá promover o “diálogo aberto e a livre troca de opiniões, desenvolver o espírito crítico e criativo”. No artigo 7º é ainda referido que educação deve proporcionar o “desenvolvimento de métodos e instrumentos de trabalho pessoal e em grupo, valorizando a dimensão humana do trabalho”.

Em particular, no Ensino Básico, as Metas curriculares, definidas no Despacho n º 5306/2012 de 18 de abril, sugerem que a mobilização de conhecimentos deve ser feita de forma interrelacionada face a uma dada situação ou problema “tendo em conta a formação integral dos estudantes e a relevância do ensino para o mundo real, refletindo o conhecimento e as capacidades que os nossos jovens necessitam de adquirir e desenvolver para o seu sucesso no futuro”.

No ensino superior, a declaração de Bolonha prevê um ensino baseado no desenvolvimento de competências. Em concordância, o Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, refere que os licenciados devem demonstrar capacidades de resolução de problemas no âmbito da sua área de formação aproximando-se, assim, das metodologias ativas e centradas no aluno onde se inclui a ABP.