Ao especificar em seu artigo 229 que “os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores [...]” 84, a Constituição Federal de 1988, de certa forma, invoca a responsabilidade de ambos os pais no que concerne a tudo que envolve os filhos até completarem maioridade, vez que, nesse caso, descaracteriza-se (extingue-se) o exercício do poder familiar.
O Estatuto da Criança e do Adolescente em seu artigo 21 atribui que “o poder familiar será exercido, em igualdade de condições, pelo pai e pela mãe, na forma do que dispuser a legislação civil, assegurado a qualquer deles o direito de, em caso de discordância, recorrer à autoridade judiciária competente para a solução da divergência.” 85 (grifado)
Caso os pais não mais convivam juntos, e ainda, havendo discordância entre ambos, cabe a justiça, quando invocada, apreciar tais questionamentos, porém, os direitos e deveres concernentes ao poder familiar prosperam para ambos, tal como o direito á convivência. Nesse caso “é oportuno ressaltar que o genitor não convivente e seu (s) filhos (s), são considerados família pela Constituição Federal.” 86
Mister lembrar que na esfera internacional o direito à convivência entre pais e filhos também é direito conferido, conforme o que aduz um trecho do acórdão do relator André Luiz Panella Villarinho, proferido em 15 de abril de 2009,
A Convenção das nações Unidas sobre os Direitos da Criança, da qual o Brasil é firmatário, assegura à criança o direito de manter regularmente relações pes-
83 DUARTE, loc. cit. 84
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao_Compilado.htm>. Acesso em: 30 abr. 2010.
85 Id., Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, e dá outras
providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8069.htm>. Acesso em: 24 mar. 2010.
soais e contato direto com ambos os pais, caso seja separada de um ou de ambos
(art. 9º, n. 187) [...].88 (grifado)
Insurgindo como uma forma de violência, a síndrome da alienação parental surte na criança, um efeito de perda similar ao da morte de pais, familiares, amigos etc. Convivendo com este sofrimento, a criança “passa a revelar sintomas diversos: ora apresenta-se como portadora de doenças psicossomáticas, ora se mostra ansiosa, deprimida, nervosa e, principalmente, agressiva [...] abrangem ainda depressão crônica, transtornos de identidade [...] e, às vezes, o suicídio.” 89
Proveniente do abuso da autoridade parental de um dos genitores em desfavor de seus filhos, como já delineado no segundo capítulo do presente trabalho, dá-se a suspensão do poder familiar, dispostos nos artigos 1.637 do Código Civil de 2002 e 15, 17 e 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente.
O abuso da autoridade parental se dá, contudo, quando o genitor coloca em risco a segurança da prole, pelo descumprimento dos deveres parentais. Fere diretamente o direito ao respeito e à dignidade, a integridade física, psíquica e moral, ou seja, qualquer tratamento desumano. Cabe lembrar que tais implicações são fatores primordiais para o pleno desenvolvimento da criança e do adolescente.
Para tanto, a qualquer ato acima mencionado cabe, a princípio, a suspensão do poder familiar até que o fator que levou o genitor a sofrer tal reprimenda, desapareça. Nesse caso, há de se considerar que, a alienação parental e suas conseqüências, também é fator preponderante para que o judiciário suspenda o poder familiar do genitor alienador, não tão somente, modifique a guarda como bem vem sendo configurado e discutido nas jurisprudências expostas no subitem 5.6.1 do presente capítulo.
87
“Artigo 9º - 1. Os Estados Partes deverão zelar para que a criança não seja separada dos pais contra vontade dos mesmos, exceto quando, sujeita à revisão judicial, as autoridades competentes determinarem, em conformidade com a lei e os procedimentos legais cabíveis, que tal separação é necessária ao interesse maior da criança. Tal determinação pode ser necessária em casos específicos, por exemplo, nos casos em que a criança sofre maus tratos ou descuido por parte de seus pais ou quando estes vivem separados e uma decisão deve ser tomada a respeito do local da residência da criança”. Cf. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção sobre os direitos da criança. Disponível em: <http://www.onu-
brasil.org.br/doc_crianca.php>. Acesso em: 31 maio 2010.
88
RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça. Agravo de instrumento n. 70028169118. Relator: André Luiz Panella Villarinho. Porto Alegre, 15 de abril de 2009. Disponível em:
<http://www1.tjrs.jus.br/busca/?tb=juris>. Acesso em: 31 maio 2010.
89 TOALDO, Adriane Medianeira; TORRES, Maria Ester Zuanazzi. O direito de família e a questão da alienação
parental. Âmbito Jurídico. Disponível em: <http://www.ambito-
Quando o Código Civil de 2002 dispõe de forma clara “se o pai ou a mãe, abusar de sua autoridade, faltando aos deveres a eles inerentes” 90 e sendo a alienação parental uma forma de violência psicológica, há de se considerar de forma análoga que cabe ao magistrado suspender o poder familiar do genitor que frui da alienação parental.
Nesse compasso, vale ressaltar os dispositivos do Estatuto da Criança e adolescente que aludem seus direitos de forma taxativa, in verbis,
Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e á dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.
Art. 17. O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.
Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.91
Em consideração às peculiaridades mencionadas no item 5.3 do presente capítulo acerca das implicações provenientes da alienação parental, constata-se que violar a integridade psíquica e moral da criança e do adolescente é ato passível de suspensão do poder familiar.
Por este prisma, diante do forte indício de prejuízo emocional causado a criança e ao adolescente em função da alienação parental, há de se constatar, sobretudo, a possibilidade de uma sanção, por consequência mais grave prevista em lei, qual seja, a perda do poder familiar em decorrência deste fenômeno, tema oriundo do presente trabalho, vez que, a hipótese de reincidência de violência contra o próprio filho incide nesta possibilidade.
Ao não cumprir os deveres com o filho e, ainda, de forma reiterada, ou seja, caso o genitor insista em continuar abusando de sua autoridade parental, há a possibilidade do genitor, por ato judicial, perder o poder familiar em função da alienação parental.
Nesse contexto, cabe ainda ressaltar o que dispõe o artigo 1.638 do Código Civil de 2002, in verbis,
Art. 1.638. Perderá por ato judicial o poder familiar o pai ou a mãe que: I- Castigar imoderadamente o filho;
II- Deixar o filho em abandono;
III- Praticar atos contrários à moral e aos bons costumes;
IV- Incidir, reiteradamente, nas faltas previstas no artigo antecedente. 92
Num caso concreto vislumbra-se que, após várias tentativas de reverter a situação (caso de suspensões) em que o genitor ou genitora enquadrados na situação da alienação
90 Art. 1637. Cf. BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10406.htm>. Acesso em: 30 maio 2010.
91
BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990, loc. cit.
parental, não prosperem, ou seja, não se coadunem com o bem estar e o melhor interesse da criança e ou adolescente, a convivência familiar sadia com ambos os pais (longe de qualquer forma de violência), há de se considerar a possibilidade de perda do poder familiar.
Primando pela proteção integral da criança e do adolescente, mencionada em todos os capítulos do presente trabalho, “o afastamento só se justifica quando visa proteger a criança naquelas hipóteses em que os prejuízos superam os benefícios”. 93
Nesse diapasão, o Projeto de Lei n. 5.197 de 2009, ao prever que a alienação parental é fator preponderante a fim de que o genitor alienador seja destituído do poder familiar, in verbis,
Art. 1º Esta Lei acresce inciso ao art. 1.638 da Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que institui o Código Civil, para ampliar as causas de perda do poder familiar. Art. 2º O art. 1.638 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002, passa a vigorar acrescido do seguinte inciso V:
"Art. 1.638. ...
V – caluniar, difamar ou injuriar o outro genitor com o intuito de desmoralizá- lo perante o filho. (NR) "94 (grifado)
Situação a ser muito bem analisada por solicitação do magistrado em ação autônoma ou incidentalmente, no caso concreto, conforme o que vislumbra o artigo 4º do Projeto de Lei n. 4053 de 2008, quanto ao estudo psicossocial e atendimento psicológico a fim de se constatar a presença deste fenômeno e ainda reestruturar o vínculo afetivo perdido entre a criança e ou adolescente alienado e pai alienante.
Assim, dispõe o supracitado artigo,
Art. 4º Havendo indício da prática de ato de alienação parental, em ação autônoma ou incidentalmente, o juiz, se necessário, determinará perícia psicológica ou biopsicossocial.
§ 1º O laudo pericial terá base em ampla avaliação psicológica ou biopsicossocial, conforme o caso, compreendendo, inclusive, entrevista pessoal com as partes, exame de documentos nos autos, histórico do relacionamento do casal e da separação, cronologia de incidentes, avaliação da personalidade dos envolvidos e exame da forma como fala da criança ou adolescente se apresenta acerca de eventual acusação contra o genitor.
§ 2º A perícia será realizada por profissional ou equipe multidisciplinar habilitados, exigida, em qualquer caso, aptidão comprovada por histórico profissional ou acadêmico para diagnosticar atos de alienação parental.
§ 3º O perito ou equipe multidisciplinar designada para verificar a ocorrência de alienação parental terá prazo de 90 (noventa) dias para apresentação do laudo prorrogável exclusivamente por autorização judicial baseada em justificativa circunstanciada. 95
Enfim, ao tentar postergar cada vez mais o convívio de seu filho com o outro genitor, ainda fazendo com que este filho desacredite do amor que este genitor possui por ele, minando seus pensamentos, estará, acima de tudo, prejudicando um ser humano em
93 RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça. Agravo de instrumento n. 70028169118, loc. cit. 94
BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei n. 5.197 de 2009, loc. cit.
desenvolvimento que, por sua vez, necessitará da tutela jurisdicional a fim de que tal situação se obste. Considerando o que vislumbra Gardner, quanto aos três estágios de evolução da alienação parental (leve, médio e grave), é possível que a situação, contudo, não progrida.
Perante as disputas judiciais concernentes das separações conjugais “as crianças não podem ser moedas de troca de cônjuges vingativos e infelizes. Dissolver a relação conjugal não implica em desfazer a relação parental.” 96
Nesse compasso, considera-se ato contrário a lei, conforme artigos das leis acima expostos, quando um dos genitores em função da alienação parental afasta ou tenta afastar seu filho do outro genitor. Não há justificativa para tal situação, salvo, os casos previstos em lei de suspensão e ou destituição do poder familiar, mencionados no segundo capítulo do presente trabalho.
Sobretudo, a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 226, §8º97, prevê a prerrogativa do Estado assegurar à pessoa, mecanismos que coíbam a violência no âmbito familiar. Nesse contexto, constata-se que cabe ao Estado, em virtude da alienação parental coibir e punir tal condição, até mesmo com a perda do poder familiar.
Para tanto, “cabe a toda sociedade desenvolver uma consciência sobre o papel da família na atualidade, entender a dinâmica das relações entre seus membros e mormente ao judiciário,[...] transformar uma realidade que muitas vezes não se quer enxergar.” 98
96 SÍNDROME da Alienação Parental. Pais e Grilos. Disponível em:
<http://paisegrilos.blogspot.com/2010/03/transferencias-de-escolas-que-se-dao.html>. Acesso em: 30 maio 2010.
97 “Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. [...] §8º - O Estado assegurará a
assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações”. Cf. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do
Brasil, loc. cit.
6 CONCLUSÃO
Em virtude das questões levantadas no capítulo concernente ao instituto do poder familiar, constatou-se que, perante sua abordagem histórica, sofrera diversas transformações; de poder absoluto e tirano ao poder relativo dos pais e ainda protetivo do Estado. Lentamente se construiu medidas de proteção à criança e ao adolescente que, de “coisas” passaram ao patamar de sujeitos de direito, gozando de todos os direitos fundamentais e sociais, inclusive, com a prerrogativa da prioridade absoluta e proteção integral em função de serem consideradas pessoas em desenvolvimento. A família, de conservadora patriarcal, passou a valorizar por lei, a igualdade dos cônjuges, partindo, contudo, da igualdade conquistada pela mulher e, nesse contexto, a Constituição Federal de 1988 foi preponderante. O poder familiar foi equiparado, surge o instituto da guarda unilateral e ou compartilhada. Nas rupturas conjugais, os filhos passam a ser sujeitos passíveis de disputas em processos judiciais. Medidas protetivas decorrentes do abuso do poder familiar dos genitores tornam-se necessárias, vez que, o Estado através do Código Civil de 2002 e Estatuto da Criança e Adolescente prevêem a suspensão e a destituição do poder familiar em função dos descumprimentos dos deveres parentais.
Em decorrência de tantas transformações sociais, individuais e coletivas onde a família passou a ser palco de discussões judiciais em decorrência das rupturas conjugais, fenômeno como o da alienação parental se desdobra como consequência nas relações pessoais advindas dessas relações. Crianças e adolescentes passam a ser objetos de disputa, tão somente, para satisfazer os caprichos (o ódio, a vingança, as insatisfações pessoais) de seus genitores. Muitos ex-casais ainda não se conscientizaram que o poder familiar deve ser exercido de forma igualitária, vez que, em tais circunstâncias, os direitos e deveres concernentes a tal prerrogativa não se exaure, pelo menos até a maioridade dos filhos. Que o vínculo afetivo de seus filhos precisam ser mantidos com ambos os genitores em função do seu próprio bem estar, do seu pleno desenvolvimento, ou seja, em função de sua saúde mental, psicológica e até mesmo física. Precisam na realidade se conscientizarem que, na circunstância de ex-casal, não existe a situação de ex-pai ou ex-mãe.
Discutida pela mídia, operadores de direito, no Congresso Nacional através de projetos de lei e, ainda, reconhecida por jurisprudências como mais uma forma de violência contra a criança e o adolescente, constata-se que cabe ao Estado tomar medidas cabíveis aos pertinentes casos decorrentes da Alienação Parental.
Acredita-se, nesse sentido, que crianças e adolescentes não podem ficar à mercê de práticas danosas constatadas justamente no ambiente familiar. Para tanto, não resta dúvida de que a alienação parental, também reconhecida como implantação de falsas memórias, representa, sobretudo, abuso do exercício do poder familiar e desrespeito aos direitos de personalidade da criança e do adolescente.
Por conseguinte, sente-se a necessidade de conceituar, caracterizar, controlar, sancionar e sedimentar a situação da alienação parental no mundo jurídico, prerrogativas estas, vislumbradas pelos Projetos de Lei nº 4.053/2008 e nº 5.197/2009.
Pelo Princípio da Proteção Integral e Prioridade Absoluta, constatou-se que a criança e o adolescente são sujeitos resguardados de plena e prioritária proteção, no entanto, perante as práticas diárias concernentes ao direito de família, mais precisamente no âmbito familiar qual se instala a prática da alienação parental, acredita-se que nossas atuais intenções legais, apesar de vedar qualquer forma de violência contra a criança e adolescente precisam se adequar/moldar à realidade.
O tema ora proposto se perfaz em ação estatal extremamente difícil e delicada, haja vista a inserção do Estado no âmbito familiar nos casos de abuso parental. Linhas de mediação e campanhas de conscientização devem ser arguidas. Tais condições exigem do próprio Estado uma demanda de organização de profissionais capacitados a fim de que se estabeleça uma gama de efetividade nos casos concretos, para salvaguardar as vítimas da alienação parental. Assunto primordial a ser estudado e abordado em outros trabalhos acadêmicos.
Salienta-se ainda, em sede de conclusão que, diante de todos os fatos expostos no presente trabalho, a cada capítulo elaborado, indagou-se: não seria fato desproporcional um genitor perder o poder familiar em decorrência da alienação parental? Acredita-se na negativa, pois, acima de tudo, justifica-se afastar um filho de um genitor quando os prejuízos emocionais e psicológicos decorrentes da alienação parental superam os benefícios que este mesmo genitor possibilita ao seu filho. As conseqüências emocionais decorrentes do fenômeno da alienação parental devem ser veiculadas somente nas clínicas psicológicas? Ainda: Não estaria o Estado sendo omisso quando acionado ou não? Não e sim, pois, onde se instala qualquer forma de violência devem prevalecer medidas de proteção e, por conseqüência, sanção.
Para tanto, insurgindo confronto entre a realidade fática (caracterização da alienação parental no âmbito familiar) e ordenamento jurídico atual (Princípios da Proteção
Integral e Prioridade Absoluta, medidas de proteção à criança e adolescente), acredita-se na possibilidade de perda do poder familiar em decorrência da alienação parental.
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