LEGITIMADO ATIVO
AÇÃO CIVIL PÚBLICA COM PEDIDO DE LIMINAR
5.1 Recurso extraordinário 1 (RE)
5.1.2 Pressupostos Específicos de Admissibilidade
Diante dos inúmeros processos que passaram a chegar ao Pretório Excelso5, 5 JUNIOR, Luiz Manoel Gomes. A repercussão geral da questão constitucional no recurso extraordinário. Revista
de Processo, São Paulo, ano 30, nº 119, p. 91-116, jan. 2005. Atualmente, várias são as causas que congestionam os tribunais, que vão desde o aumento da procura pelos serviços prestados pelo Poder Judiciário (1. A constituição Federal estimulou um maior exercício da cidadania, com aumento da procura da tutela jurisdicional, mas sem que o Poder Judiciário estivesse preparado para absorver esta “litigiosidade contida”), até a irresignação exacerbada do Poder Público em suas várias esferas (União, Estados, Municípios etc.) (2. Em alerta do STF: “Antes de mais nada, cumpre identificar os fatores reais de congestionamento que atingem o Poder Judiciário. E o principal deles reside, inquestionavelmente, na oposição (muitas vezes infundada) e na resistência estatal (nem sempre justificável) a pretensões legítimas manifestadas por cidadãos de boa-fé que se veem constrangidos, em face desse inaceitável comportamento governamental, a ingressar em juízo, gerando, desse modo, uma desnecessária multiplicação de demandas contra o Poder Público. (...) É preciso reconhecer — e lamentar — que o Poder Público, muitas vezes, tem assumido, em alguns casos, a inaceitável posição de improbus litigator, incidindo, com essa inadequada conduta processual, em atitudes caracterizadoras de litigância temerária, intensificando, de maneira verdadeiramente
o ordenamento jurídico brasileiro viu-se obrigado a buscar uma limitação de acesso ao STF, que, como se sabe, tem como função precípua ser o guardião da Constituição.
Para ser admitido, é necessário que o RE acolha uma das seguintes questões a) contrariar dispositivo da Constituição do Brasil; b) declarar a inconstitucio- nalidade de tratado ou lei federal; c) julgar válida lei ou ato de governo local contestado em face da Constituição. d) julgar válida lei local contestada em face de lei federal. Também são requisitos de admissibilidade do RE a demonstra- ção de repercussão geral e, ainda, o prequestionamento.
5.1.2.1 Repercussão Geral
Considerando a especialidade do RE, surgiram duas emendas constitucionais, alterando significativamente as disposições concernentes ao STF. A Emenda Constitucional 03/1993 alterou a alínea “a” do inciso I, do artigo 102, da Cons- tituição da República, transformando o parágrafo único em primeiro e incluin- do o segundo; já a Emenda Constitucional 45/2004 instituiu o § 3º ao artigo 102 da CRFB/88, trazendo um limitador recursal, ou seja, o requisito da “reper- cussão geral das questões constitucionais” para a admissibilidade do recurso extraordinário.
A repercussão geral6 passou, então, a ser requisito de admissibilidade de
recurso, considerando que a importância e relevância da matéria recursal
No âmbito do STF não é ocioso afirmar que a situação mostra-se caótica se considerada a quantidade de recursos que são julgados pelo mais importante tribunal do país. O que deveria ser extraordinário — manifestação da Suprema Corte — tornou-se ordinaríssimo. Todos recorrem para o STF, que passou a ser um “terceiro ou quarto grau de jurisdição” (3. Muitas vezes o cliente já chega no escritório de advocacia querendo que no contrato seja previsto que o advogado irá recorrer “até o Supremo (...)” como se isso fosse sempre possível ou adequado).
Se a demanda pela tutela jurisdicional restou ampliada, é óbvio que isto se reflete nos tribunais respectivos, especialmente no STF, sendo certo que o volume incontrolável de processos torna impossível o oferecimento de uma justiça célere e efetiva.
6 Descrição do Verbete: A Repercussão Geral é um instrumento processual inserido na Constituição Federal de 1988, por meio da Emenda Constitucional 45, conhecida como a “Reforma do Judiciário”. O objetivo desta ferramenta é possibilitar que o Supremo Tribunal Federal selecione os Recursos Extraordinários que irá analisar, de acordo com critérios de relevância jurídica, política, social ou econômica. O uso desse filtro recursal resulta numa diminuição do número de processos encaminhados à Suprema Corte. Uma vez constatada a existência de repercussão geral, o STF analisa o mérito da questão e a decisão proveniente dessa análise será aplicada posteriormente pelas instâncias inferiores, em casos idênticos. A preliminar de Repercussão Geral é analisada pelo Plenário do STF, através de um sistema informatizado, com votação eletrônica, ou seja, sem necessidade de reunião física dos membros do Tribunal. Para recusar a análise de um RE são necessários pelo menos 8 votos, caso contrário, o tema deverá ser julgado pela Corte. Após o relator do recurso lançar no sistema sua manifestação sobre a relevância do tema, os demais ministros têm 20 dias para votar. As abstenções nessa votação são consideradas como favoráveis à ocorrência de repercussão geral na matéria. BRASIL. Disponível em: http://www.stf.jus.br/portal/glossario/verVerbete.asp?letra=R&id=451. Acesso em 13 de maio de 2015.
constitucional discutida ultrapassa a normalidade e produz reflexos externos, alcançando o âmbito nacional7, não se limitando ao simples interesse das par-
tes (limites subjetivos) que litigam no processo.
A repercussão geral tem por finalidade delimitar a competência do STF no julgamento de recursos extraordinários às questões constitucionais com rele- vância social, política, econômica ou jurídica, tratando-se de um “filtro recur- sal”, e uniformizar a interpretação constitucional, sem exigir que o STF decida múltiplos casos idênticos versando sobre a mesma questão constitucional.
Exige-se preliminar formal de repercussão geral, sob pena de não ser admi- tido o recurso extraordinário; e, no que tange à análise sobre a existência ou não da repercussão geral e o reconhecimento de presunção legal de repercussão ge- ral, a competência é exclusiva do STF.
Nesta linha de raciocínio, citamos o artigo 1.035 e seus parágrafos, da Lei nº 13.105/2015 (novo CPC):
Art. 1.035. O Supremo Tribunal Federal, em decisão irrecorrível, não conhe- cerá do recurso extraordinário quando a questão constitucional nele versada não tiver repercussão geral, nos termos deste artigo.
§ 1o Para efeito de repercussão geral, será considerada a existência ou não
de questões relevantes do ponto de vista econômico, político, social ou jurídi- co que ultrapassem os interesses subjetivos do processo.
§ 2o O recorrente deverá demonstrar a existência de repercussão geral para
apreciação exclusiva pelo Supremo Tribunal Federal.
§ 3o Haverá repercussão geral sempre que o recurso impugnar acórdão que:
I – contrarie súmula ou jurisprudência dominante do Supremo Tribunal Fe- deral;
II – tenha sido proferido em julgamento de casos repetitivos;
III – tenha reconhecido a inconstitucionalidade de tratado ou de lei federal, nos termos do art. 97 da Constituição Federal.
Portanto, o objetivo desta ferramenta é possibilitar que o Supremo Tribunal Federal selecione os Recursos Extraordinários que irá analisar, de acordo com critérios de relevância jurídica, política, social ou econômica.
7 JUNIOR, Luiz Manoel Gomes. Op. cit. p. 91-116, jan. 2005. “A nosso ver, haverá repercussão em determinada causa/questão quando os reflexos da decisão a ser prolatada não se limitarem apenas aos litigantes, mas, também, a toda uma coletividade. Não necessariamente a toda coletividade (país), mas de uma forma não individual.”
5.1.2.2 Prequestionamento
Embora a Constituição Federal de 1988 não tenha trazido de forma expressa o requisito prequestionamento, é pacífico o entendimento quanto à necessidade de esgotamento prévio das instâncias ordinárias; sendo assim, o RE e o REsp apenas são admitidos se as matérias discutidas nos recursos tiverem sido tra- tadas especificamente nas decisões recorridas. Em outras palavras, é impres- cindível o apontamento do artigo suspostamente violado, não sendo cabível a afirmativa genérica de que a decisão guerreada tenha violado a Constituição Federal, ou, no caso do REsp, questão infraconstitucional.
É certo que, ao interpor o recurso extraordinário, a parte deve demonstrar ao juízo de admissibilidade que a matéria de direito já foi discutida (questio- nada) previamente no juízo a quo, e focalizada pelo acórdão recorrido, consi- derando que a função precípua dos recursos excepcionais é a de resguardar a autoridade e a uniformidade de interpretação da Lei Maior.
Esclarece o Ministro Celso de Mello8:
[...] o recurso extraordinário — consideradas as exigências formais impostas pelo requisito constitucional do prequestionamento (RTJ 111/321 - RTJ 114/105) - cinge-se, estritamente aos limites materiais delineados pelo con- teúdo decisório veiculado no acórdão emanado do Tribunal a quo. Revela-se essencial, dentro dessa perspectiva, que haja plena correlação material entre o que se contém na petição inicial veiculadora do apelo extremo e o teor do que foi efetiva e explicitamente debatido na decisão impugnada. A natureza do recurso extraordinário não se mostra compatível com inovações de or- dem temática, que, introduzidas pela recorrente, apresentam-se divorciadas, ideologicamente, da matéria efetivamente versada no acórdão recorrido, que, ao decidir a controvérsia, respeitou os estritos limites emergentes do pedido originariamente deduzido quando do ajuizamento da ação.
O prequestionamento funciona como um limitador, o que vale dizer que, apenas a matéria efetivamente decidida pelas instâncias ordinárias será anali- sada pelo Tribunal Superior.
8 Ementa Oficial - RE n. 170.385-7 (AgRg), rel. Min. Celso de Mello. (Informativo STF n. 42, 26 a 30 de agosto de 1996, p. 3). BRASIL. Disponível em: http://www.stf.jus.br//arquivo/informativo/documento/informativo42.htm. Acesso em: 12 de maio de 2015.
EMENTA: CONSTITUCIONAL. PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMEN- TAL EM AGRAVO DE INSTRUMENTO. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONA- MENTO. SÚMULA 282. OFENSA REFLEXA. ALEGADA VIOLAÇÃO AO ART. 5º, LIV, LV, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. INOCORRÊNCIA. FUNDAMENTO INFRACONSTITUCIONAL SUFICIENTE. SÚMULA 283 DO STF. AGRAVO IMPROVIDO. I - Como tem consignado o Tribunal, por meio da Súmula 282, é inadmissível o recurso extraordinário se a questão constitucional suscitada não tiver sido apreciada no acórdão recorrido. II - A alegada violação ao art. 5º, LIV, LV, da Constituição, em regra, configura situação de ofensa meramente reflexa ao texto constitucional, o que inviabiliza o conhecimento do recurso extraordinário. III - O fundamento infraconstitucional do acórdão recorrido restou precluso em razão da negativa de seguimento do recurso especial. Incide, portanto, a Súmula 283 do STF. IV - Agravo regimental improvido. A Emenda Constitucional 45/2004, responsável pela reforma do Judi- ciário, trouxe importante inovação no que concerne ao recurso extraor- dinário, acrescentando ao art. 102 da Constituição da República o § 3º. Estabelece a nova norma que “no recurso extraordinário o recorrente deverá demonstrar a repercussão geral das questões constitucionais discutidas no caso, nos termos da lei, a fim de que o Tribunal examine a admissão do recurso, somente podendo recusá-lo pela manifestação de dois terços de seus membros”. (STF - AG. REG. NO RECURSO EXTRA- ORDINÁRIO RE 584198 RS (STF).9
Caso a decisão não tenha contemplado a matéria relativa ao prequestiona- mento, será cabível a interposição de embargos de declaração, com fito de es- gotamento de todas as vias ordinárias, para, assim, se tornar cabível a interpo- sição do recurso extraordinário.