Capítulo 1. Mudar de casa: a institucionalização de crianças e jovens entre o
4. Pressupostos, objectivos e modelos da institucionalização
A colocação institucional da criança ou do jovem deve obedecer a determinados pressupostos legais que legitimam e justificam a adopção desta medida: ser considerada uma criança em perigo ou ter cometido um facto qualificado pela lei penal como crime.
Em termos gerais, existem um conjunto de iniciativas e medidas - que serão abordadas mais pormenorizadamente no segundo capítulo deste trabalho - que consagram uma separação jurídica entre as crianças e jovens que são vítimas de maus- tratos e as que cometeram crimes, sendo alvo da aplicação de Leis diferenciadas: a Lei de Protecção de crianças e Jovens em Perigo - Lei nº147/99 de 1 de Setembro e a Lei Tutelar Educativa - Lei nº166/99 de 14 de Setembro, respectivamente. Além disso, as
medidas a aplicar distinguem-se entre si, bem como as finalidades da intervenção (Peres & Gonçalves, 2006).
Assim, quando se considera que uma criança ou jovem foi vítima de maltrato, pode aplicar-se, entre outras, a medida de promoção e protecção designada por acolhimento em instituição, que consiste:
“na colocação da criança e/ou jovem aos cuidados de uma entidade que disponha de instalações e equipamento de acolhimento permanente e de uma equipa técnica que lhe garanta os cuidados adequados às suas necessidades e lhe proporcione condições que permitam a sua educação, bem - estar e desenvolvimento integral” (Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo, art. 49º)
Deste modo, a Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, considera que o acolhimento institucional inclui:
“A assunção das responsabilidades educativas (ao nível jurídico, moral, social e escolar) cometidas normativamente aos progenitores biológicos, por parte dos lares de crianças e/ou jovens que acolhem. Estas responsabilidades, implicando a substituição das famílias de origem, incluem o acompanhamento das crianças e dos jovens quer ao nível do seu desenvolvimento físico (alimentação, cuidados de saúde) quer ao nível psicológico (equilíbrio emocional, desenvolvimento cognitivo e afectivo), tendo em conta a adequação à sua idade, género de pertença, origens sociais, percursos de vida e características de personalidade” (CNPCJR, 2000, p.21).
Quando uma criança ou jovem cometeu um facto qualificado como crime, pode, entre outras, aplicar-se uma medida tutelar educativa designada de internamento, que tem como finalidade:
“proporcionar ao menor, por via do afastamento temporário do seu meio habitual e da utilização de programas e métodos pedagógicos, a interiorização de valores conformes ao direito e a aquisição de recursos que lhe permitam, no futuro, conduzir a sua vida de modo social e juridicamente responsável” (art.º17, Lei nº 166/99), “sem no entanto lhe retirar a sua qualidade de titular de direitos e deveres” (art.2º, nº1, RGDCE).
Mosteirin (2000) considera que os objectivos de uma instituição são “mandatos” sociais (e.g., atender a infância em risco). Estes mandatos correspondem à antecipação de um estado futuro desejável, para a obtenção do qual se dirigem os meios e enunciam metas que a organização deve alcançar mediante acções planificadas dirigidas ao objectivo. Acrescenta ainda que a diferença entre os agregados sociais tradicionais
conhecidos como sociedade, comunidade ou família é que estes são, enquanto que as organizações fazem. Ou seja, ao contrário de uma família, uma organização é feita para cumprir um propósito, é especializada numa tarefa e define-se pela sua especialidade.
A função e razão de existência das organizações e dos especialistas é que “os especialistas sejam eficazes e as organizações sejam eficientes” (idem, 2000, p.73). Para tal, a organização institucional deve ter uma missão clara e um propósito único, caso contrário os seus membros confundem-se e dedicam-se à sua especialidade, impondo os seus próprios valores à tarefa comum, medindo os resultados apenas pela sua área de intervenção.
No que respeita às crianças e jovens, compete às instituições:
A prestação de cuidados. Parker (1988) considera que a convicção de que o contexto próprio para estes tipo de cuidados é a família, pois, para além da associação entre institucionalização e definição de objectivos instrumentais (escolarização, disciplina, etc.), as próprias dinâmicas institucionais, caracterizadas por várias crianças, cuidadas por vários adultos, não facilitam o estabelecimento de relações de proximidade afectiva. Há, contudo, investigadores que consideram que a assunção das tarefas usualmente cometidas à responsabilidade parental é uma característica essencial destes serviços, designadamente, cuidar, confortar e conter, desenvolver competências físicas, sociais e culturais e encorajar e preservar a integridade dos menores (idem, 1988);
A reabilitação, que inclui: a contenção e controlo dos comportamentos perturbadores (Department of Health, 1998), o tratamento de menores com problemas de adaptação social, emocionais e de comportamento (Zurita & Fernández del Valle, 1996) e, também, a manutenção e aprofundamento do contacto com os pais, com a família alargada e outras pessoas significativas (Department of Health, 1998);
A educação (Department of Health, 1998), no sentido em que as crianças e jovens institucionalizados tendem a manifestar dificuldades ao nível do desempenho escolar, explicadas pelo meio de origem, pelas rupturas, mudanças sucessivas (Raymond, 1996, 1988) e traumas emocionais vividos, entre outros factores;
A preservação da integridade e o desenvolvimento da identidade cultural, étnica, linguística e do património simbólico da criança (Department of Health, 1998), promovendo a reconstrução das suas percepções relativamente ao seu passado, à sua família, à sua personalidade e ao seu futuro, criando, deste modo, expectativas positivas em relação a si, aos outros e à vida. As memórias e as pessoas significativas são essenciais neste processo (Raymond, 1996, 1998);
A preparação para a independência dos jovens, na qual o trabalho de apoio ao processo de saída e eventual retorno a casa da criança/adolescente se reveste de extrema importância (Casas, 1993);
A reinserção social, em que, após um trabalho de (re)construção da personalidade, é suposto que as manifestações sintomáticas que impediram a adaptação social se apaziguem e o jovem seja capaz de se adaptar na vida social e profissional. A reinserção social dos adolescentes é resultado do trabalho institucional, apesar de não o ser unicamente, pois, sendo a inadaptação o resultado da convergência de vários factores, a readaptação na sociedade também dependerá de numerosos factores, exigindo a colaboração de todos os que trabalham para a educação do jovem (Raymond, 1996b).
Estes objectivos enunciados integram claramente uma dimensão de acção psicoterapêutica junto das crianças/jovens. Esta é, contudo, uma questão controversa. A crescente complexidade do perfil dos beneficiários destes serviços conduziu – sobretudo em países como o Reino Unido, a Dinamarca, a Alemanha, a Irlanda e Itália - à criação de unidades especializadas para crianças e jovens com perturbações mentais – as instituições terapêuticas ou de tratamento. Contudo, a maior parte destas instituições, apesar de integrar equipas profissionais especializadas para o efeito, não oferece respostas terapêuticas definidas e sistematicamente aplicadas, sendo a modificação do comportamento – objectivo mais ou menos explícito de grande parte das instituições que acolhem crianças – confinada às interacções sociais ocorridas nos centros e à qualidade dos cuidados diários dispensados (Parker, 1988). Estes centros têm sido objecto de extensas críticas, que questionam a validade das intervenções desenvolvidas em contexto artificial, argumentando a favor da intervenção no âmbito da família.
caracterizadas por sistemas complexos de comunicação e pela rotatividade dos responsáveis pela prestação dos cuidados às crianças. A questão da terapêutica a aplicar e da sua adequação é também extremamente controversa (Martins, 2004).
Apesar destas dificuldades, no entender de Calheiros, Fornelos e Dinis (1993), a colocação institucional tem uma dimensão educacional e terapêutica inerente. A orientação terapêutica é importante para a compreensão da experiência subjectiva das crianças face à separação, à ruptura, à perda e à distorção que marcam as suas trajectórias de vida, condicionando o sucesso da sua adaptação ao contexto residencial. Compete a estes estabelecimentos potenciar a experiência de acolhimento residencial como uma oportunidade positiva de desenvolvimento.
Neste sentido, Berger (1998) defende a intencionalização terapêutica da gestão do quotidiano da criança, numa intervenção concertada, coerente e contínua, das vertentes social, clínica, administrativa, educacional e pedagógica, que compreenda o acompanhamento da família no mesmo plano global de acção. Conceptualizar a prestação de cuidados extra-familiares a crianças e jovens - tenha como pressuposto a “protecção” ou a “educação para o direito” - implica reconhecer que as suas necessidades e problemas não se resolvem pela mera transferência e colocação num contexto sócio-relacional mais organizado.
No que respeita aos modelos que enquadram as instituições que acolhem estas crianças e jovens, tal como notam Bullock, Little e Millham (1993, cit. por Martins, 2004), os serviços residenciais não têm sido objecto de teorização explícita, sendo as concepções subjacentes inferidas a partir das práticas adoptadas. Também Leandro (2002) considera que os serviços residenciais não têm modelos de funcionamento definidos, pelo que devem organizar a prestação dos seus serviços no quadro das disposições legais relevantes e dos conhecimentos científicos actuais, nomeadamente na área das ciências humanas.
Hill (2000, cit. por Martins, 2004), em contraponto, enuncia três modelos fundamentais ou perspectivas do funcionamento dos serviços residenciais:
a) focados na instituição;
b) focados na perspectiva das crianças/jovens acolhidos;
c) sistémicos, que enquadram a instituição no âmbito mais geral do sistema de bem-estar e protecção de menores.
a) Os modelos focados na instituição
Estes modelos assentam no pressuposto de que a modificação do comportamento e reestruturação das crianças, necessárias ao seu funcionamento adaptativo, decorrem das suas experiências relacionais com a equipa de profissionais e com os pares da instituição. O contexto exterior é apenas integrado na dinâmica interna do centro, competindo à instituição capacitar a criança para lidar com as exigências colocadas pelo meio.
b) Os modelos focados na perspectiva das crianças/jovens acolhidos
Estes modelos podem conciliar-se com o modelo anterior, todavia, procuram situar a criança no seu contexto temporal e sócio-cultural mais vasto, analisando o seu funcionamento e desenvolvimento em vários domínios. A família é objecto de atenção, na medida em que contribui para a definição da criança ao longo do seu ciclo de vida. Entende-se que as decisões sobre a colocação da criança ou do jovem devem obedecer a uma perspectiva longitudinal, tendo em consideração o seu historial de perdas, mudanças e separações, os seus sucessos e dificuldades e as suas possibilidades futuras.
c) Os modelos sistémicos
Assentam no pressuposto de que os serviços residenciais constituem uma das respostas sociais do sistema de protecção infantil, que, em última análise, os delimita e configura. Deste modo, vários factores influenciam o funcionamento das instituições que acolhem crianças e jovens (Ainsworth & Fulcher, 1981, cit. por Martins, 2004):
as políticas sociais,
a localização e arquitectura do centro, clima social,
relações com a família, a escola e a comunidade, critérios de avaliação do desempenho,
determinações teóricas e ideológicas, custos do serviço prestado,
dinâmicas organizacionais exteriores ao centro.
Em suma, a eficiência da instituição é, assim, articulada e interdependente dos sistemas mais amplos na qual se integra e com os quais interage. Considera-se, assim, a história de vida da criança, integrada nos diversos sistemas, designadamente, o meio
familiar, social e cultural; a instituição que a acolhe, consubstanciada na diversidade de recursos de que dispõe e nos sistemas na qual se integra e a própria sociedade, tendo presente a complexa interacção de factores nos diferentes níveis de análise, numa determinada sociedade, num determinado tempo e numa determinada relação.
Após algumas considerações conceptuais, um breve olhar pela evolução histórica das instituições de Infância e Juventude e a enunciação de alguns objectivos, funções e modelos do acolhimento institucional, vejamos agora quais os riscos e fragilidades, bem como as potencialidades e oportunidades do acolhimento institucional, tendo em consideração os diversos sistemas que enquadram a instituição.