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Primeiras conquistas e a relação com o estado

Crédito para o Agronegócio

3.3. O sujeito político MST e a disputa de hegemonia

3.3.2. Primeiras conquistas e a relação com o estado

Após um processo de territorialização que podemos situar, conforme Fernandes (2000) entre 1985 e 1990, o MST já estava espalhado por 18 estados e, a despeito do fracasso do I PNRA e do recuo programático da Constituição de 1988 quanto à reforma agrária, o Movimento já vinha obtendo diversas conquistas e passara a ser também um movimento de assentados. Esse é um momento importante, porque gerou discussões internas sobre se deveria haver uma separação formal desses interesses, o que não ocorreu. O entendimento gerado a partir destes debates foi de que a dimensão da luta pela terra, em função dos novos desafios que o processo de modernização da agricultura havia gerado para o campesinato

17 Procuramos obter dados quantitativos mais recentes, já sistematizados pelo MST, mas a informação não chegou a tempo de compor a versão final deste trabalho.

como um todo, ultrapassava a conquista do território e deveria se estender também à garantia de outros direitos. Assim, o tema da produção adquiriu uma dimensão política e estratégica, porque o assentamento é tanto uma base territorial de resistência na terra, como uma unidade econômica, que precisa se viabilizar materialmente para concretizar a resistência. Junto com essa questão, a educação também se tornou uma prioridade nos assentamentos e acampamentos, o que resultou num processo de construção de um novo entendimento para a escola do campo em desenvolvimento até os dias de hoje.

No que refere à produção agrícola, o MST encontrou pela frente o desafio de promover uma modificação no modo tradicional de produção camponesa, baseado no trabalho individual e voltado à subsistência. Essa discussão parte da reflexão interna sobre as alterações na produção agrícola iniciadas na década de 1960, apresentadas no capítulo anterior, que evoluíram e chegaram naquilo que hoje conhecemos por agronegócio. O Brasil possui a característica de chegar ao século 21 como uma economia industrial, modernizada, mas que mantém como uma de suas principais atividades a exportação de matérias-primas, que hoje são produzidas de acordo com um novo paradigma produtivo (que acompanhou a evolução das relações capitalistas no meio rural e seus desdobramentos na divisão internacional do trabalho). Chega a esse estágio sem ter realizado uma reforma agrária massiva, que democratizasse a propriedade da terra e desse destino aos milhares de camponeses que produzem segundo relações não-capitalistas. Assim, não foi capaz de extinguir totalmente as formas tradicionais de ocupação do território, gerando assim sua própria contradição interna, que resultou em conflitos pela posse e uso do solo e recursos naturais. E, à medida que o capitalismo se expande no meio rural, há uma tendência que o choque se dê também quanto ao próprio modo de produção e os conflitos adquiram também um caráter de resistência ao modo de produção hegemônico.

Outra questão é a convivência, no meio rural brasileiro, de diversas formas de exploração da propriedade agrícola camponesa, com pequenos e médios, assalariados rurais, temporários, sem terra etc., disputando espaço, terras férteis e recursos públicos com a produção hegemônica em larga escala. Carvalho (2004) afirma que, em relação aos movimentos de luta pela terra, isso gera uma diversidade também nas formas reivindicatórias e de luta política, consistindo num desafio a ser superado pelos camponeses na unificação e fortalecimento de sua identidade de classe e luta social. Além disso, ele argumenta que o crescimento do MST e a conquista de áreas de reforma agrária geraram o

que chamaríamos de ‘parâmetro organizativo e reivindicatório’, com novas propostas de organização da pequena propriedade rural, e que consistiria numa certa inspiração para os demais movimentos de luta pela terra. De acordo com Carvalho (2004),

“as estratégias políticas do MST têm insistido nessa perspectiva ao defenderem o assentamento de reforma agrária como um território de afirmação de um novo rural onde possa florescer a utopia camponesa (...). Diversos modelos ou propostas de assentamentos de reforma agrária, inúmeras formas de cooperação para a produção, múltiplas combinações de uso cooperado de posse e uso da terra e maneiras distintas de gerenciamento dos assentamentos foram desenvolvidas e implantadas pelo MST no decorrer da sua história. Essas iniciativas respondiam à proposições estratégicas do MST de se constituir e operar assentamentos com caráter econômico e social mais igualitários e fraternos que pudessem apontar para as possibilidades de uma nova forma de se realizar o desenvolvimento rural. Diversas conquistas foram obtidas e inúmeros desafios superados” (Carvalho, 2004: 15).

Persiste aqui o papel educativo e de certo modo hegemônico do MST enquanto sujeito político de luta pela terra no Brasil. Do ponto de vista da luta política, porém, a sustentação desse modelo tem sido constantemente desafiada, na medida em que sobrevive principalmente de incentivos estatais e, no âmbito das políticas de estado, compete por terras, recursos naturais e financeiros com um complexo empresarial organizado em torno da produção agrícola de larga escala, pautado pelo uso da tecnologia na exploração do solo, no beneficiamento, na pesquisa, ou pelas cadeias de distribuição e comercialização. Neuri Rossetto e João Paulo Rodrigues, nas suas entrevistas, reafirmam o caráter dessa disputa e as dificuldades nessa ‘competição’ profundamente desigual, o que reforça a necessidade de construir uma identidade de classe efetiva entre os camponeses, segundo objetivos estratégicos e não apenas táticos.

Nessa dimensão mais atual, portanto, a relação com o estado possui um caráter reivindicatório no campo das conquistas econômicas, mas é ampliada sob a forma de luta pela reorientação do modelo hegemônico, o qual exclui a maior parte da população. Falaremos mais adiante sobre isso, e sobre o desafio de sustentar essa estratégia, que depende ainda da assimilação, pela base, como sendo fundamental para o avanço da produção e da melhoria de suas condições de vida. De toda forma, o questionamento desse

modelo parte, como dissemos no início, do suposto que existe uma contradição fundamental entre a forma de produzir do camponês e o modelo do agronegócio, dando à perspectiva de classe um caráter central nesse enfrentamento.

Mas a concretização de uma verdadeira consciência de classe não se atinge apenas com a formação política ou o enfrentamento direto com o adversário. Diversos autores pesquisados apontam para a necessidade de propor o modelo alternativo ao atualmente hegemônico, a partir da própria práxis camponesa. Já falamos dessa prática do ponto de vista organizativo, mas é necessário analisar como isso se exprime em propostas concretas para o desenvolvimento do meio rural sob parâmetros mais igualitários. Como era de esperar, a questão da produção foi a primeira a evoluir nessa perspectiva, tendo em vista a luta pela terra como um objetivo imediato da luta, que se expandiu posteriormente para outras áreas. Para este trabalho, nos deteremos apenas nas perspectivas da produção e da educação.

Por volta de 1986, foi formada a Comissão Nacional de Assentados (mais tarde convertida em setor),

“que começou uma série de trabalhos para reunir e discutir as dificuldades enfrentadas pelas famílias. Fizeram várias reuniões no então Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário, em Brasília, para reivindicar crédito custeio e começaram a formular um programa de crédito para os assentados. Na época com o apoio de um membro da diretoria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDS), iniciaram as discussões a respeito de propostas para a criação do programa. No final desse ano, haviam elaborado o Programa Especial de Crédito para a Reforma Agrária (Procera), que veio a ser a principal linha de crédito dos assentados” (Fernandes, 2000: 179).

Além disso, embora não exatamente sob a forma dessa Comissão, Neuri Rossetto relata na entrevista que o Movimento participou da campanha pela reforma agrária de 1983 e também atuou firmemente durante os trabalhos da Constituinte, apresentando propostas do que entendia por uma reforma agrária que solucionasse os problemas no campo e democratizasse o acesso à terra. Em 1984 o MST formulou seu primeiro programa de reforma agrária, ao qual se seguiriam outros, como veremos. Tratava-se de propostas gerais,

partindo da definição do sujeito sem terra (que englobava as categorias camponesas que mencionamos na primeira parte deste capítulo) e levantava alguns princípios (a luta imediata pela reforma, tendo como objetivo estratégico o fim do capitalismo e a autonomia política do Movimento), além das terras que deviam ser objeto da reforma agrária:

“4º Terras que reivindicamos e devemos conquistar 1 – Terras das multinacionais

2 – Terras dos latifúndios extensivos 3 – Terras do Estado

4 – As terras mal aproveitadas

5 – As terras que estão nas mãos de quem não precisa delas e que não são agricultores” (Programa de reforma agrária do MST – 1984, in Stédile, 2005, vol. 03: 179). Desse modo, podemos concluir que a luta do MST já sinalizava, desde o início, tanto o combate à especulação de terras como à invasão estrangeira sobre o território nacional e pautava ainda a destinação das terras públicas, para as quais seria necessário um efetivo combate à grilagem. O programa seguinte data de 1995 e já faz uma análise mais ampla do problema agrário, associando-o não somente à pobreza rural, mas também aos problemas das cidades, porque vinculado “a um novo modelo de desenvolvimento nacional”.

Aqui, o MST começa a centrar suas forças também no combate ao neoliberalismo e à política econômica, que estava sob a égide do governo FHC. Assim, a reforma agrária foi levantada como uma bandeira de toda a sociedade, porque os conflitos agrários também interferiam nas condições de vida nas cidades. Desse modo, ela estaria inserida numa estratégia de democratização da propriedade e da renda, gerando trabalho, alimentos e bem- estar social (o que se aproxima da bandeira da reforma agrária clássica do capitalismo, que não foi realizada no Brasil quando o País passou pelo processo de industrialização), considerando a nova etapa que o capitalismo atravessava no meio rural brasileiro.

Além disso, o MST aprofundou suas concepções acerca da construção de “novos valores humanistas”, como parte de uma proposta camponesa anticapitalista, estimulando valores como a cooperação, a identidade coletiva, a solidariedade, a igualdade de gênero etc. Avançou também com relação à reorganização da estrutura produtiva do campesinato, que

deveria acompanhar o ritmo da evolução capitalista no campo e agregar à estrutura tradicional a criação de pequenas agroindústrias e o escoamento da produção para os centros urbanos. Além disso, defendia a mudança no regime de propriedade da terra para as áreas de reforma agrária, baseado na concessão de uso (ao invés da compra e venda ou arrendamento, proposta nos planos de reforma agrária anteriormente apresentados no País), o que seria uma mudança bastante significativa em relação à propriedade camponesa tradicional.

Esse programa, de certa forma, já exibia os resultados da aposta feita na sua estrutura organizativa interna, através da divisão de setores, pois o MST apresentava ainda propostas para outras áreas que não apenas a produção agrícola, redimensionando o sentido de bem-estar social no campo e da luta pela reforma agrária. Além disso, o estado era pautado como o sujeito principal na execução dessas propostas. Nas entrevistas com os dirigentes são explicitados os resultados atingidos com essa luta.

Por outro lado, o estado, no mesmo período, por meio do governo FHC, também apresentou uma ‘nova proposta’ para o meio rural, fundada não no assentamento de reforma agrária ou o combate ao latifúndio, mas na criação de um novo ‘sujeito’ para o meio rural: o agricultor familiar. Se de um lado incorporava o conceito de família, introduzido pelo MST como o que melhor expressava a realidade camponesa, ainda nos anos 1980, essa figura foi utilizada como o tipo ideal de trabalhador para uma economia que buscava ser cada vez mais descentralizada, regida pelas regras de mercado e pautada na relação entre contratantes ‘livres’. João Paulo Rodrigues reconhece que nesse aspecto o governo teve grande capacidade de formulação (Medeiros afirma que houve a participação direta da intelectualidade ligada ao tema, mostrando o empenho na construção de uma proposta ‘sólida’) e conseguiu, politicamente, impor seu modelo junto ao estado, com o qual o governo Lula não rompeu. Para ficar num exemplo, o antigo Procera foi transformado em 1998 em Pronaf e adquiriu, aí já no governo Lula, diversas faixas de financiamento, conforme a capacidade produtiva do beneficiário, levando em conta também outros segmentos sociais, como mulheres e jovens, por exemplo, mas sem abandonar o conceito inicial, de empréstimos individuais.

Em 1999 foi criado o Banco da Terra, que financiava empréstimos para aquisição de terras ociosas por pequenos agricultores, o que fez crescer a oferta de terra, desestimulando, ainda que veladamente, as ações de desapropriação como instrumento

prioritário para a reforma agrária. Estabelece-se um mercado de terras e a reforma agrária foi deixada definitivamente de lado, sendo usada apenas como um recurso pontual para a contenção de conflitos pela terra. Segundo Medeiros (2003) a reação não apenas do MST, mas de outros movimentos de luta pela terra (excetuando-se a CONTAG, que assumiu uma postura mais branda em relação ao programa), foi de reafirmar a desapropriação como instrumento de obtenção de terras e estimular novas ocupações. Fizeram isso por meio de articulações mais amplas como o Fórum Nacional de Reforma Agrária e a Via Campesina (aproveitando-se do fato que era um programa financiado pelo Banco Mundial e que as mobilizações poderiam ter uma repercussão internacional).

O período também foi marcado por diversos conflitos que resultaram em mortes, e alguns autores assinalam esse como um dos fatores que motivou uma retomada da questão agrária pelo governo FHC, sob os parâmetros descritos. Entre os mais expressivos, citamos o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido no Pará, em abril de 1996, quando 19 trabalhadores rurais foram assassinados em um confronto com a polícia militar paraense e os culpados até hoje não foram julgados. Carajás adquiriu especial importância em função da repercussão internacional que gerou, e acabou se tornando uma questão política para o governo resolver, resultando ainda na Marcha Nacional até Brasilia, ocorrida em 1997 e que chegou à capital federal exatamente 1 ano após o confronto, reunindo 100 mil pessoas e dando uma demonstração de força política e apoio social do MST. Um dado no mínimo curioso foi o reconhecimento do dia 17 de abril pelo próprio FHC, através de lei, como o Dia Nacional de Luta Pela Reforma Agrária (Lei 10.469/2002).

Até aqui, o que é podemos constatar é que a relação do MST com o estado não é nova, sendo este considerado como o sujeito prioritário de execução da reforma agrária em todos os seus aspectos. Ainda que a postura do Movimento em relação ao estado varie de governo para governo, a leitura a respeito dele é uma constante: o estado brasileiro é o estado das classes dominantes e serve ao desenvolvimento das forças produtivas hegemônicas sob o capitalismo, utilizando-se dos mecanismos que dispõe para tanto. Isso significa dizer que as classes dominadas devem estar organizadas para reivindicar e para resistir. Com a chegada de Lula à Presidência, após as expectativas iniciais quanto à realização da reforma agrária terem sido frustradas, ficou claro para o MST que a existência de forças progressistas no governo federal não tornava o estado brasileiro um estado

progressista, já que seus adversários estão presentes na maioria das estruturas estatais, conservando e procurando reforçar sua hegemonia.

Assim, dentro da estratégia do Movimento, a relação com o estado foi estabelecida, desde os primeiros anos, segundo este entendimento de classe e vem sendo pautada segundo dois eixos: o enfrentamento e a negociação, fomentando a identificação da base social com esses objetivos para planejar seus passos. Evidente que não se pode romantizar a visão sobre a estrutura interna do Movimento e a relação com a ação política junto o estado. O caráter de organização de quadros e de massa do MST é fundamental para estimular e coordenar as ações e a iniciativa dirigente é indispensável. As experiências de cooperação agrícola e mesmo das diretrizes políticas, por outro lado, também não são uniformemente assimiladas pela base social, pela sua própria característica histórica e tampouco a organicidade é implementada de maneira mecânica em todas as regiões do País. Mas quando a distância entre os entendimentos da base social e do núcleo dirigente é muito grande, fica difícil avançar. Para Neuri Rossetto, a complexidade desses tempos, e o ajuste disso com a conjuntura política são como “um tabuleiro de xadrez”.

É a insistência, portanto, em sedimentar esses entendimentos de baixo para cima que possibilita o Movimento crescer sem se fragmentar, e sua expansão territorial tem sido um dos trunfos da sua legitimidade tanto para enfrentar, quanto para negociar com o estado. Essa relação viveu avanços e recuos ao longo da existência do MST e, após 2003, parece haver um entendimento consolidado de ambas as partes de que o Movimento é um interlocutor legítimo nas demandas da luta pela terra, tanto na negociação de áreas, como na proposição de políticas específicas para o meio rural.

Em relação ao aspecto da produção agrícola, João Paulo Rodrigues afirmou na entrevista que o Movimento adquiriu “controle 100%”. Ele se refere ao processo de negociação dos convênios e escolha dos técnicos, para que a matriz agrícola implementada se adeque o máximo possível à produção com baixo uso de agrotóxico e sem o recurso de sementes transgênicas. Argumenta que a matriz tecnológica do agronegócio é hegemônica em boa parte das universidades brasileiras e os estudantes são forjados nessa tradição, tendo dificuldade de compreender formas diferenciadas de cultivo. Assim, justifica-se a preocupação com a escolha de técnicos que possam contribuir para qualificar, na prática produtiva, aquilo que faz parte do próprio discurso de enfrentamento ao agronegócio e é visto como prejudicial à natureza e à própria produção camponesa (porque, entre outras

coisas, acabam causando a dependência do camponês junto às transnacionais que produzem insumos e máquinas). Neuri reconhece que conquistas como essa são fruto do acúmulo organizativo do Movimento ao longo dos anos e do aprofundamento dos debates sobre um modelo de desenvolvimento para o meio rural, desenvolvido a partir de experiências concretas nos assentamentos.

A organização da produção se deu também em termos jurídicos, para possibilitar a captação dos créditos de forma coletiva, bem como o reconhecimento dos assentamentos rurais. Assim, foi sendo desenvolvido, a partir da década de 1990, um sistema nacional de cooperação agrícola, composto por cooperativas e associações fundadas em todos os assentamentos do MST com o objetivo de receber os recursos públicos advindos dessas negociações, que adquirem aqui uma dimensão política e também técnica. Stédile afirma que o processo de concepção desse sistema remete, inicialmente, a uma reflexão sobre a melhor forma de fazer uso da terra para garantir que os assentamentos sobrevivessem e, posteriormente, à possibilidade de estabelecer uma relação institucional sem apelar para entidades externas ao Movimento.

Além disso, ele assinala que durante o governo Collor o modelo dos assentamentos passou por uma profunda crise, porque a maioria das políticas públicas, inclusive de crédito, foram suspensas, o que, nas suas palavras, obrigou o Movimento

“a fazer uma reflexão ainda mais aprofundada sobre as formas de cooperação. Percebíamos que o desenvolvimento já conquistado pelo MST era insuficiente para fazer frente à ofensiva do governo Collor. Passamos dois anos – 1990 e 1991 – discutindo isso. Analisamos uma primeira idéia, a de criarmos uma central cooperativa de crédito rural, porque havia legislação para isso e também porque sabíamos que poderia permitir uma resistência maior. Diante daquela falta de política agrícola ou da crise generalizada da agricultura, era necessário garantir para os assentados recursos de crédito de forma permanente” (Stédile, Fernandes, 2005: 103-4).

A criação desse sistema, que mais tarde foi se consolidando dentro do Movimento, foi, inicialmente, uma estratégia política de sobrevivência. Stédile classifica esse período como o “batismo de fogo” do MST, porque havia um risco muito grande do movimento terminar ali, por não conseguir viabilizar as condições mínimas de sobrevivência para sua

base social. Posteriormente, já no governo FHC, os convênios por meio das estruturas jurídicas criadas para tanto se multiplicaram também para outras áreas, como resultado da própria política de descentralização das atribuições do estado naquele período, como assinalamos no capítulo anterior.

Outro tema que merece menção aqui é a questão da educação. A escola, desde a