Festivais, diversificação temática e trabalho coletivo: a formação do campo
3.5 Primeiros atritos e esgotamento do uso do suporte super-8 mm
Todo o reconhecimento e boa vontade que cercavam os filmes gaúchos no início dos anos 80 não impediam a existência conflitos entre os cineastas. No amor, o outro filme gaúcho exibido em Gramado em 1982, um curta-metragem rodado em bitola profissional 35mm por um dos diretores do consagrado Deu pra ti, anos 70, Nelson Nadotti, foi pivô de uma polêmica sobre a lisura do concurso de filmes gaúchos, que eram premiados em dinheiro pela Assembleia Legislativa estadual.
No dia 29 de abril de 1982, os cineastas David Quintans e Antônio Oliveira compareceram à redação do jornal Correio do Povo e informaram que o filme de Nadotti havia ganhado o prêmio mais de quinze dias antes do festival. Isso porque Nadotti, conforme os diretores, teria solicitado a Tuio Becker, crítico dos jornais da própria Cia. Caldas Júnior, que editava o Correio do Povo, que inscrevesse o filme Mágico mistério Malagoli, rodado em 1977 pelo grupo Câmera 8, do qual o crítico fazia parte. Essa operação garantiria o quórum mínimo de inscrições para que a premiação de cento e cinquenta mil cruzeiros fosse distribuída. Receber o prêmio permitiria que Nadotti honrasse as dívidas da produção, em especial a dublagem realizada em estúdios cariocas (CP, 30/3/1982, p.14).
Uma semana depois, a resposta de Nelson Nadotti era apresentada pelo jornal, com um destaque maior do que a denúncia, que fora publicada no rodapé da página do jornal que então tinha formato standard. Principal nota sobre cinema daquele dia, a posição de Nadotti iniciava com um lembrete sobre a situação econômica de penúria vivenciada pelos técnicos cinematográficos brasileiros, em sua imensa maioria desempregados, o que dava margem a disputas pelas oportunidades. Situação que, segundo o diretor, não deveria implicar em brigas entre a “classe cinematográfica”, e sim em colaboração entre seus membros.
Após elogiar Tuio Becker, Nadotti procurou resguardar a comissão julgadora do prêmio, que segundo ele não assistira o filme dias antes porque não havia cópia pronta. Defesa que foi estendida sobre a seriedade de seu trabalho e do grupo com o qual mantinha relação, formado pelos “companheiros” da Aprocinergs (primeira entidade pensada para defender os produtores de cinema) e, mais pessoalmente, pelos veteranos Antônio Carlos Textor, Noberto Lubisco, Alpheu Godinho, Antônio Oliveira e Antônio Jesus Pfeil (CP, 7/4/1982, p.14).
Fato é que Quintans e Oliveira – citado por Nadotti como alguém com quem mantinha boa relação – concorreram com o filme Meu nome é..., feito em quinze dias, com a ajuda de um grupo de amigos, e que retratava a dificuldade de conseguir emprego que acompanha os idosos. O júri era composto por Régis Ferreti, representando a Assembleia Legislativa, Ivo Stigger, crítico que representava a Prefeitura de Gramado, e P.F. Gastal, crítico do Correio do
Povo, jornal que abria espaço para a denúncia dos cineastas (ZH/SC, 19/3/1982, p.2).
Além de eventuais acusações, polêmicas suscitadas nos acalorados debates dos festivais de Gramado do início dos oitenta poderiam gerar mal-entendidos. Em abril de 1982, Giba Assis Brasil enviou carta ao jornal Zero Hora, publicada no rodapé da coluna do crítico Goida, onde defendia a sua posição quanto ao filme Pra frente, Brasil!, que por si só causara polêmica ao ser produzido com recursos da Embrafilme e retratar as arbitrariedades de um regime de governo ainda em vigor. Em sua mensagem, o cineasta recordava ter sido uma das poucas pessoas que nas discussões de Gramado apontara os aspectos negativos de filme de Roberto Farias, antes mesmo que o resultado da premiação que consagraria o filme como o grande vencedor da mostra tivesse sido divulgado. Procurava deixar claro, porém, que a sua posição não implicava em concordar com a censura que ameaçava a liberação do filme para o circuito exibidor comercial brasileiro (ZH/SC, 19/4/1982, p.4).
Polêmicas a parte, após 1984 teria sido verificado um decréscimo qualitativo dos filmes em Super-8mm exibidos em Gramado porque em boa medida os cineastas “da geração que fez acontecer a mostra de super-8” haviam migrado para o 35mm. Para complicar ainda mais a situação, em 1988, a Kodak e Fuji finalizaram o processamento de filmes Super-8 no Brasil, o que aumentou os custos e dilatou o prazo de retorno do material enviado agora para os EUA ou o Japão. Mesmo o laboratório amador montado pelo realizador Sérgio Concílio em São Paulo não deu conta do problema (Gerbase, 2002).
Esperava-se, como opção, a ascensão do vídeo. O alto custo e o difícil acesso às câmeras e à edição, bem como a manutenção das dificuldades de distribuição, não permitiam falar em substituição imediata. Gerbase sugeria, em 1987, a partir dessa constatação, uma transição sem “medo do novo” e sem sepultar o passado:
As tecnologias convivendo lado a lado, como deve ser, sem preconceitos bizantinos, sem medo do novo, sem pressa em enterrar um corpo que ainda está vivo. Para aqueles que dizem que “vídeo não é cinema” resta a possibilidade de abrir os olhos e descobrir que o mundo se transforma, dá voltas, e quem fica parado está perdido. Há oito ou nove anos atrás, as sessões de Super-8 não eram “de cinema”, eram “de tortura”. Talvez o mesmo processo aconteça com o Home-Video, para a alegria daqueles que ainda pensam em cinema desvinculado das grandes capitais, das pressões do mercado, livre para o cineasta dizer o que quiser (Gerbase, 1987, p.548).
Recomendava que o Festival de Gramado unisse o Super-8 e o vídeo VHS e Beta e permitisse um ideal de “liberdade de expressão do cineasta” (Gerbase, 1987, p.548). Esse libelo pela autonomia criadora exercida a partir da junção dos suportes materializaria suas possibilidades no momento em que a televisão, ainda que em seus canais mais “alternativos”, disponibilizasse espaços. O que somente começaria a ganhar corpo mais de uma década depois.