CAPÍTULO 3 – OS CRITÉRIOS DA JUSTIÇA NO
3.3 O conceito de direito
3.3.1 O conceito de direito em geral
3.3.1.1 Princípio universal do direito
O princípio formal da liberdade externa estabelece racionalmente a fórmula para a máxima de ação dos sujeitos compatibilizarem o uso dos seus arbítrios com a liberdade externa. Trata-se de um princípio objetivo a todas as máximas de ação, por Kant denominado de princípio universal do direito. O princípio universal do direito fornece a fórmula para definir a ação que é conforme ao direito, respondendo à pergunta: como devo agir para que minha ação seja conforme ao conceito de direi- to? A resposta é encontrada na lei universal do direito, que informa sob quais modos (ético e jurídico) pode resultar uma ação exterior conforme ao direito, prescrevendo a seguinte obrigação racional do direito: “age exteriormente de tal modo que o uso livre do teu arbítrio possa coexistir com a liberdade de cada um segundo uma lei universal [...].”295 Esta
obrigação racional volta-se ao modo como cada um usa o próprio arbí- trio para que a coexistência da liberdade de cada um obedeça a uma lei universal. Ademais, estabelece uma obrigação elaborada de modo in- condicional que vincula o agir externo.
Para uma correta interpretação deste princípio é preciso conside- rar que no direito não são os elementos internos que serão levados em consideração para determinar o que é ou não conforme ao direito, mas sim o que é exterior na ação, como expõe Kant: “[...] o Direito em geral só tem por objecto o que é exterior nas acções [...]”296. O objeto do direi- to, então, não é o modo interior da vontade, mas a ação externa que resulta do uso do arbítrio. Neste sentido, alerta Kersting:
294 KANT, I. ZeF, 1968, p. 366. KANT, I. À paz perpétua. Tradução de Marco A. Zingano,
1989, p. 53.
295 “[...] handle äußerlich so, daß der freie Gebrauch deiner Willkür mit der Freiheit von jeder-
mann nach einem allgemeinen Gesetze zusammen bestehen könne [...].” KANT, I. DMS, 1968, p. 231, 10-12. Tradução de José Lamego: KANT, I. A Metafísica dos Costumes, 2004, p. 44. (Grifo nosso).
296 “So wie nämlich das Recht überhaupt nur das zum Objecte hat, was in Handlungen äußer-
lich ist [...]” KANT, I. DMS, 1968, p. 232, 12-13. Tradução de José Lamego: KANT, I. A
O conceito de direito de Kant concerne somente à esfera externa da liberdade de ação. Somente são de interesse do direito os efeitos das ações na li- berdade de ação dos outros. Intenções internas ou convicções estão excluídas da esfera da justiça as- sim como interesses ou carências. Isto significa que nenhum clamor jurídico pode ser erigido a partir das carências de um único indivíduo. [...] Para Kant uma comunidade de direito não é uma comunidade de solidariedade em torno de carên- cias, mas uma comunidade para auto-proteção en- tre aqueles que têm o poder de agir.297
Apesar do conceito de direito voltar-se ao que é exterior na ação, a conformidade ao direito pode ocorrer pela via da moralidade ou da legalidade. A ação moral é garantia de conformidade ao direito, já que é impossível pensar-se em uma ação moral que externamente contrarie a lei universal da liberdade externa; também a ação que é apenas legal é conforme ao direito, uma vez que externamente se conforma à lei uni- versal da liberdade externa.
Na análise do tema, impende esclarecer quando uma ação é conforme ao direito, nas palavras de Kant:
Uma ação é conforme ao direito quando permite ou quando a sua máxima permite fazer coexistir a liberdade do arbítrio de cada um com a liberdade de todos segundo uma lei universal.298
Então, o direito é específico e distinto da ética, já que a ação exte- rior das pessoas pode atender à obrigação racional sob um fundamento moral ou não. Com efeito, a ação conforme ao direito pode ocorrer me- diante elementos externo (jurídico) e interno (ético), a seguir elencados: a) Elemento externo: a própria ação externa do sujeito e sua com- patibilidade à liberdade exterior, por exemplo, um devedor que paga seu credor pontualmente, ou seja, sua ação exterior (o uso externo do arbí- trio) não lesa o direito do credor, por isso, é conforme ao direito;
297 “Kant`s concept of right concerns only the external sphere of the freedom of action. Only
the effects of actinos on the freedom of action of others are of interest to it. Inner intentions and convictions are excluded from de sphere of justice just like interests and needs. That means that no claims of right can arise from one`s neediness. [...] For Kant a community oh right is not a community of solidarity among the needy, but a community for self-protection among those Who have the power to act.” KERSTING, W. Politics, freedom, and order: Kant`s political
philosophy, 1996, p. 345, tradução nossa.
298 “‘Eine jede Handlung ist Recht, die oder nach deren Maxime die Freiheit der Willkür eines
jeden mit jedermanns Freiheit nach einem allgemeinen Gesetze zusammen bestehen kann.’” KANT, I. DMS, 1968, p. 230, 29-31. Tradução de José Lamego: KANT, I. A Metafísica dos
b) Elemento interno: o fundamento da máxima de ação do sujei- to, onde duas situações podem ocorrer:
i) o indivíduo apresenta uma máxima de ação que se con- forma ao princípio do direito por um móbil interno racional, por dever, ou seja, por respeito ao direito a ação exterior conforma-se à liberdade exterior segundo uma lei universal, fazendo do princípio universal do direito um autêntico impe- rativo categórico. Analisando sob o prisma jurídico, há con- formidade ao direito não porque houve um fundamento ra- cional determinando a máxima de ação, mas porque desta determinação resultou uma ação exterior conforme ao direi- to; sob o prisma ético (das virtudes), há conformidade ao di- reito devido o fundamento determinante da ação ser a razão prática;
ii) o indivíduo apresenta um fundamento patológico para a ação, com uma máxima de ação traduzível em um imperati- vo hipotético, por exemplo: “Devo pagar meus credores
porque existe uma sanção jurídica punindo o inadimplemen- to!”. A ação exterior baseada nesta máxima apresenta con- formidade ao princípio universal do direito - ainda que o móbil interno seja o temor de uma punição -, restando cum- prida juridicamente a obrigação racional estampada na lei universal do direito. Esta hipótese, porém, é rejeitada pela ética.
O direito e a ética, voltando-se à conduta humana, têm a preten- são de determiná-la seja destinando leis para a ação (direito) ou para a máxima de ação (ética), pois é deste modo que na externalidade se pro- vará o cumprimento da obrigação racional. Antes do sujeito ter pratica- do a ação, o direito prescreve como a ação deve ser praticada para haver conformidade ao direito, ou seja, o conceito de direito se fundamenta na consciência da obrigação racional de cada um segundo a lei universal do direito: “O direito é a limitação da liberdade de cada um à condição da sua consonância com a liberdade de todos, enquanto esta é possível segundo uma lei universal.”299
Porém, o direito não propõe que a obrigação racional por ele pre- vista seja o fundamento determinante do arbítrio, nem que as pessoas
299“Recht ist die Einschränkung der Freiheit eines jeden auf die Bedingung ihrer
Zusammenstimmung mit der Freiheit von jedermann, in so fern diese nach einem allgemeinen Gesetze möglich ist;” KANT, I. DmTP, 1968, p. 289, 35; p. 290, 1-2. KANT, I. Sobre a ex-
pressão corrente: isto pode ser correcto na teoria, mas nada vale na prática. Tradução de Artur Morão, 1988, p. 74.
estejam obrigadas a proporem a si mesmas fins que se situam nos conceitos da razão prática, até mesmo porque, o direito, por definição, desconsidera a matéria do arbítrio, vale dizer, o direito não se importa com os interesses particulares de cada parte ao realizar uma ação, o direito não prevê as finalidades que cada um deve estabelecer para si, não cogita se há ou não um objeto servindo como fundamento da facul- dade de desejar. Diferente do direito é a ética, que impõe a própria lei universal do direito como matéria do arbítrio, porém, ao fazê-lo,a ética não se contradiz com as pretensões do direito, mas as afirma.
Neste sentido, apesar de ser o arbítrio livre a determinar seu fim, o elemento ético propõe uma liberdade interna mediante o fundamento a
priori de determinação da máxima de ação; enquanto o elemento jurídico expõe que tal liberdade é apenas externa. Em síntese, o princí- pio universal do direito expõe um limite racional à liberdade na forma de postulado, sem impedir o binômio ético e jurídico: no caso da ética, que a liberdade tenha um limite racional interno que conduz à liberdade externa; no caso jurídico, que a liberdade encontre no plano dos fatos limites externos (direito estrito), conduzindo à liberdade externa.
No direito, o importante é que a ação exterior não prejudique a li- berdade externa de ninguém segundo uma lei universal, ou seja, é objeto do direito o uso exterior do arbítrio em desconsideração a qualquer mó- bil racional ou patológico que sirva de fundamento a tal arbítrio. No cômputo do direito, não interessa se a conformidade ocorreu pela via da moralidade ou da legalidade, será analisado apenas que tal conformidade foi externamente alcançada. Por exemplo, no caso da posse de um obje- to exterior do arbítrio, partindo da obrigação racional da lei universal do direito, é possível asseverar que cada pessoa deve respeitar a posse da outra, ou seja, eu posso ter a posse de um objeto como meu na medida em que eu próprio respeito a posse que os outros têm daquilo que é seu, o que se compatibiliza a uma lei universal. Não havendo o mútuo respei- to quanto a posse de cada um, instaurar-se-ia uma liberdade anárquica e retornar-se-ia ao estado de natureza. Não significa que, para existirem ações de respeito mútuo à posse de cada um, se deva considerar o móbil interno da ação; em realidade, basta a análise do modo do uso exterior do arbítrio, nas palavras de Kant:
Não estou, portanto, obrigado a respeitar o seu ex- terior de outrem se este não me garantir por seu lado que se comportará segundo o mesmo princí- pio em relação ao meu exterior; garantia essa que não carece de um acto jurídico especial, mas está já incluída no conceito de uma obrigação jurídica
externa em virtude da universalidade, mas tam- bém, consequentemente, da reciprocidade da vin- culação decorrente de uma regra universal.300
De todo o exposto, constata-se que o direito, cujo âmbito original de estudo encontra-se na doutrina do direito, pode ser objeto de interesse para uma doutrina da virtude, que baseia-se no conceito de direito para valorizar o cumprimento da obrigação racional em sociedade. Quando se afirma que o princípio universal do direito pode ser cumprido sob uma dimensão ética ou sob uma dimensão jurídica, depende da exigência ou não de que o digitado princípio objetivo seja convertido como máxima de ação. Neste âmbito, adentra-se na questão sobre os modos de cumprimento da ação em conformidade ao direito. Em outras palavras, a lei universal do direito é una, o que pode variar são os modos que conduzem a ação exterior a conformar-se à lei universal do direito – binômio ético e jurídico. Esta constatação esclarece o fato do conceito do direito possuir um sentido amplo, de modo que, por admitir tal binômio, é um conceito que pode ser considerado em uma doutrina da virtude.
E não há de se admirar que o princípio universal do direito tenha uma dimensão ética e jurídica, até mesmo porque não é apenas tal lei universal que apresenta estas duas dimensões. Para exemplificar, na obra A Paz Perpétua, Kant refere-se à fórmula transcendetal do direito público: “Todas as ações relativas ao direito de outros homens cuja má- xima não se conciliar com a publicidade são injustas.”301 E complemen- ta: “Este princípio não tem de ser considerado simplesmente como ético (pertencente à doutrina da virtude), mas também como jurídico (concer- nente ao direito dos homens).”302 Então, este princípio transcendental do direito público, à luz da doutrina da virtude, exige que a pessoa converta a máxima do princípio em máxima da ação sob fundamento determinan- te racional do arbítrio: “Devo agir em relação ao direito dos outros
300“Ich bin also nicht verbunden, das äußere Seine des Anderen unangetastet zu lassen, wenn
mich nicht jeder Andere dagegen auch sicher stellt, er werde in Ansehung des Meinigen sich nach ebendemselben Princip verhalten; welche Sicherstellung gar nicht eines besonderen rechtlichen Acts bedarf, sondern schon im Begriffe einer äußeren rechtlichen Verpflichtung wegen der Allgemeinheit, mithin auch der Reciprocität der Verbindlichkeit aus einer allgemeinen Regel enthalten ist.” KANT, I. DMS, 1968, p. 255, 33-35; p. 256, 1-5. Tradução de José Lamego: KANT, I. A Metafísica dos Costumes, 2004, p. 85.
301“Alle auf das Recht anderer Menschen bezogene Handlungen, deren Maxime sich nicht mit
der Publicität verträgt, sind unrecht.”KANT, I. ZeF, 1968, p. 381, 24-26. KANT, I. À paz
perpétua. Tradução de Marco A. Zingano, 1989, p. 73.
302“Dieses Princip ist nicht bloß als ethisch (zur Tugendlehre gehörig), sondern auch als juri- disch (das Recht der Menschen angehend) zu betrachten.”KANT, I. ZeF, 1968, p. 381, 26-28. KANT, I. À paz perpétua. Tradução de Marco A. Zingano, 1989, p. 73.
homens de modo que minha máxima se concilie com a publicidade, independentemente de quaisquer vantagens ou desvantagens que disto se possa esperar.” Já em relação à doutrina do direito, este princípio não exige sua obediência de acordo à moralidade, apenas que exteriormente a ação se concilie ao mesmo, porque deste modo a liberdade externa restará garantida. Então, por exemplo, se a máxima do indivíduo é: “De-
vo reagir com a rebelião diante do poder opressor de um soberano.” Esta máxima não passará como justa nem diante da doutrina da virtude nem diante da doutrina do direito, pois não se conforma nem interna- mente nem exteriormente com o princípio transcendental do direito público. Essa linha de argumentos conduz à necessidade de um trata- mento mais minucioso de como o direito é estudado na doutrina da vir- tude e na doutrina do direito, o que será realizado a seguir.