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Segunda formulação do imperativo categórico

CAPÍTULO 1 NOÇÕES PROPEDÊUTICAS À DOUTRINA

1.2 Os imperativos da vontade

1.2.2 O imperativo categórico e a obrigação moral

1.2.2.2 Segunda formulação do imperativo categórico

Da primeira formulação do imperativo categórico é possível an- tever a existência de um fim em si mesmo, em distinção do imperativo

53 BEETHOVEN, Ludwig van. O testamento de Heiligenstadt. 1802. In: GRANDES COM- POSITORES DA MÚSICA CLÁSSICA: Beethoven. São Paulo: Abril Coleções, 2009, p. 19. 54 “mag doch ein jeder so glücklich sein, als es der Himmel will oder er sich selbst machen

kann, ich werde ihm nichts entziehen, ja nicht einmal beneiden ; nur zu seinem Wohlbefinden oder seinem Beistande in der Noth habe ich nicht Lust etwas beizutragen!” KANT, I. GzMS, 1968, p. 423, 19-22. Tradução de Leopoldo Holzbach: KANT, I. Fundamentação da metafísica

dos costumes e outros escritos, 2003.

hipotético que prevê um meio para um fim. A segundo formulação es- clarece o fundamento para se pensar um fim em si mesmo.

Um ser racional, em relação a si mesmo como em relação a todo outro ser racional, deve ser considerado sempre como fim em si mesmo, jamais como simples meio para se atingir outra finalidade. A expressão “fim em si mesmo” (Zweck an sich selbst) significa que o sujeitoracional coloca a si mesmo uma lei derivada da razão e, ao mesmo tempo, faz desta lei fim da ação. Em outras palavras, significa que a natureza racional, por si só, representa um fim em si mesmo, e sendo os seres humanos racionais, devem sempre ser respeitados como fins em si mesmos.

Se a natureza racional fosse um meio, então, seria justificável moralmente a submissão da pessoa aos apetites e paixões, largadas suas ações à deriva do que apraz à sensibilidade; além disso, seria possível que um sujeito racional utilizasse outro sujeito racional como mero meio para realização dos seus fins subjetivos, o que justificaria, por exemplo, a escravidão, ou mesmo a mentira, a fraude, o furto, etc. Então, toda vontade está limitada à concordância da autonomia de todo sujeito racional, isto é, a vontade não pode se submeter a nada que represente transgressão à lei que surge desta mesma vontade – entendida como auto-legisladora.

Contrariamente, as inclinações são fontes de necessidades e, por isso, incitam na perquirição dos meios para satisfação da inclinação, de sorte que sempre se terá no outro - seja uma coisa ou um ser racional- um mero meio para a satisfação própria - enquadrando-se na formulação do imperativo hipotético. Em outros termos, pelas inclinações os objetos de nossas ações jamais possuem valor em si mesmos, apenas condicio- nalmente, como medida de satisfação das inclinações.

No ponto, importante notar a distinção que Kant faz entre seres irracionais (vernunftlose Wesen), cujo valor é sempre relativo, denomi- nando-os de coisas (Sachen), dos seres racionais (vernünftige Wesen), denominados de pessoas (Personen). As coisas sempre são meros meios, objetos passíveis de serem adquiridos pelas ações, pois não são sujeitos da lei moral. Contrariamente, as pessoas possuem natureza racional,não podendo, por isso, ser um simples meio, devendo sempre ser tratadas como fins em si mesmas, como justifica Kant:

[...] porque a sua natureza os distingue já como fins em si mesmos, ou seja, como algo que não pode ser empregado como simples meio e que,

portanto, nessa medida, limita todo o arbítrio (e é um objeto de respeito).56

A natureza da pessoa, que a distingue como fim em si mesma, é justamente a natureza racional, responsável por fazer com que sejam renunciadas todas as finalidades da inclinação – finalidades estas que variam de homem para homem no tempo e espaço-, exaltando um fim objetivo derivado da razão pura, que não depende de nenhum impulso (Triebfeder), mas apenas do motivo (Bewegungsgrund), isto é, da sua validade para todo o ser racional. Por isso, as pessoas possuem valor absoluto, do que se segue um princípio prático supremo - a lei prática universal -, cujo fundamento é textualmente expresso por Kant: “a natu- reza racional existe como fim em si.”57

Esta idéia se torna mais clara considerando, em termos globais, que a existência da humanidade não é um meio para nada mais do que a própria humanidade e, em termos individuais, que cada ser humano individual carrega dentro de si toda a humanidade, a qual representa o limite para o exercício do seu arbítrio, ou, como afirma Kant: “O ho- mem é deveras bastante ímpio, mas a humanidade em sua pessoa tem que ser santa.”58 Deste modo, Kant descobre no próprio homem o crité- rio da sua vida, um critério humanista, universal e necessário, revelando um pensamento antropocêntrico. Daí a formulação do imperativo cate- górico enquanto princípio da humanidade e de toda a natureza em geral como fim em si mesma: “age de tal maneira que possas usar a humani- dade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio.”59 Signi-

fica que cada ser humano deve reconhecer no outro homem não os ví- cios, as imperfeições ou o opróbio, mas a humanidade que radica no seu interior, e isto em uma perspectiva generalizante e integral.

56 “weil ihre Natur sie schon als Zwecke an sich selbst, d. i. als etwas, das nicht bloß als Mittel

gebraucht werden darf, auszeichnet, mithin so fern alle Willkür einschränkt (und ein Gegenstand der Achtung ist).”KANT, I. GzMS, 1968, p. 428, 22-25. Tradução de Leopoldo Holzbach: KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos, 2003.

57 “die vernünftige Natur existirt als Zweck an sich selbst.” KANT, I. GzMS, 1968, p. 429, 2-3.

Tradução de Leopoldo Holzbach: KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes e

outros escritos, 2003.

58 “Der Mensch ist zwar unheilig genug, aber die Menschheit in seiner Person muß ihm heilig

sein.” KANT, I. KpV, 1968, p. 87, 15-16. Tradução de Valério Rohden: KANT, I. Crítica da

razão prática, 2002, p. 141.

59 “handle so, daß du die Menschheit sowohl in deiner Person, als in der Person eines jeden

andern jederzeit zugleich als Zweck, niemals bloß als Mittel brauchst. ” KANT, I. GzMS, 1968, p. 429, 10-13. Tradução de Leopoldo Holzbach: KANT, I. Fundamentação da metafísica dos

Aplicando-se a segunda formulação do imperativo categórico aos quatro exemplos anteriormente transcritos (item 1.2.2.1), tem-se:

1- Um homem que dispõe do próprio corpo como meio para aliviar um sofrimento (suicídio) está utilizando a si mesmo como um meio para ser alcançada uma finalidade da inclinação, extinguin- do a própria vida e, consequentemente, a natureza racional de que é dotado, contrariando assim a idéia da humanidade como fim em si mesma.

2- A promessa falaciosa cometida dolosamente tendo em vista van- tagens pessoais denuncia uma contrariedade ao imperativo cate- górico, pois é uma situação em que um homem está reduzindo outro a mero meio para alcançar um fim subjetivo. Apenas se na hipótese houvesse a concordância da outra pessoa, sem vícios do consentimento, a promessa teria validade moral, visto que, neste caso, os contratantes estariam cada um tratando o outro como fim em si mesmo. Kant também fornece como exemplo as violações da liberdade ou da propriedade alheias, casos estes em que se tor- na evidente a hipótese de uma pessoa que desrespeita os direitos dos homens, tratando a outra pessoa como mero meio.

3- Os dotes naturais dos seres humanos devem ser cultivados, tal é uma afirmação e promoção da natureza racional como fim em si mesma. Por isso, uma pessoa que negligencia os próprios talentos não concorda com a humanidade que lhe é ínsita, não estará con- vergindo esforços para recrudescer a humanidade como um todo enquanto fim em si mesma. Um Beethoven que não tivesse com- posto suas Sinfonias prejudicaria não apenas a si mesmo, mas to- da a humanidade, que não teria a ocasião de viver o élan vital do gênio criador. Aliás, um exemplo mais cotidiano, tal dever é mui- to freqüentemente desrespeitado por jovens que perdem horas no celular por causa de um afeto, ou se consomem em bate-bapo na internet, ou em jogos de computador, ao invés de aproveitar a be- la fase da juventude para investir em seu próprio potencial de vi- da.

4- Em uma sociedade de seres racionais, o fim de uma pessoa deve ser o fim da outra, de modo que uma pessoa que se recusa a con- tribuir para a felicidade dos demais, por sua omissão, está dei- xando de concordar positivamente com o imperativo categórico. Tal é um pressuposto moral para a vida em sociedade, onde quem tem mais deve ajudar quem tem menos, a exemplo do pai que de- ve ajudar o filho no início de sua vida para que o mesmo possa sobreviver e no futuro ganhar sua autonomia.

Do que foi dito, segue-se que o princípio em questão contém uma parte objetiva, retratada na lei e sua universalidade; e uma subjetiva, que é o fim, ou seja, ser racional como fim em si mesmo. Este fim consiste na matéria da boa vontade, não se trata de algo a ser alcançado - como alude o imperativo hipotético-, mas um fim entendido de maneira nega- tiva e positiva: de maneira negativa, que não pode ser calculado como simples meio sob pena de cometer-se uma transgressão à moral; de ma- neira positiva, como algo que deve servir como condição restritiva no uso dos meios, rechaçando fins arbitrários, ou seja, como “condição suprema restritiva da liberdade das ações de cada homem.”60