4 DA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA E A MULTIPROPRIEDADE
4.1 CONCEITO DE TRIBUTO
4.1.1 Princípios do direito tributário
Existem diversos princípios a serem observados quando se estuda a matéria tributária, sendo pertinente elencar os mais importantes conforme trataremos a seguir.
Trata Schoueri que:
No Direito e, especialmente, no Direito Tributário, os princípios surgem ainda com mais vigor, já que não são apenas fruto de pesquisa do cientista, mas objeto da atividade do legislador. Do emaranhado de normas editadas pelos mais diversos escalões, extraem-se normas que se prestam para indicar valores do ordenamento, positivados e que servem de vetores para o conhecimento do Direito Tributário. (2018, p. 273).
Assim como em diversas matérias do direito, princípios norteiam todo o estudo e até mesmo a forma como será legislado sobre aquela matéria.
O primeiro deles que podemos destacar é o da legalidade, como afirma Novais (2018, p. 112) “A criação ou majoração da carga tributária necessita, como regra, da edição de lei e, valendo-se da máxima do paralelismo das formas, os casos de extinção e redução também estariam sob o manto da reserva legal”. Assim, para a criação ou modificação de matéria concernente a tributos, é necessário na maioria dos casos, a instituição de lei.
Seguindo, outro princípio importantíssimo para o direito tributário é o da irretroatividade, como trata o artigo 150, III, “a” da Constituição Federal:
Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
a) em relação a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da lei que os houver instituído ou aumentado (BRASIL, CRFB, 2019).
Analisando o referido artigo, afirma Alexandre:
Os objetivos do legislador são bastante claros, quais sejam: a) impedir a tributação de fatos que, no momento da sua ocorrência, não estavam sujeitos à incidência tributária; e b) garantir que a tributação já verificada é definitiva, não podendo ser objeto de majoração por legislação posterior (2016, p. 131).
A exigência de pagamento de algum tributo está, desta forma, atrelada a lei vigente à época da ocorrência do fato gerador, dando assim segurança jurídica para o contribuinte que saberá exatamente o que terá de pagar.
Partindo para o princípio da isonomia, este tratado no artigo 150, II da Constituição Federal:
Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
II - instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente, proibida qualquer distinção em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida, independentemente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos (BRASIL, CRFB, 2019).
Isto é, todo contribuinte deve ter tratamento equivalente se comparado a outro contribuinte em situação similar, sendo vedado ao poder público tratar de forma desigual aqueles semelhantes.
Outro princípio que trata também da segurança jurídica é o da anterioridade, que possui duas características principais, a primeira é descrita no artigo 150, III, “b” da Constituição Federal:
Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
III - cobrar tributos:
b) no mesmo exercício financeiro em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou (BRASIL, CRFB, 2019).
Explica Novais que:
Exercício financeiro coincidirá com o ano civil (art. 34 da Lei 4.320/1964), correspondendo ao comum calendário adotado, iniciando-se em 1º de janeiro e findando em 31 de dezembro. Nesses termos, a vedação visa impedir que União, Estados, Distrito federal e Municípios realizem a criação ou majoração de tributo e passem a lhes exigir dentro do mesmo ano de publicação da respectiva lei. (2018, p. 130).
Na segunda característica importante do referido princípio é trazida pelo artigo 150, III, “c” da Constituição Federal:
Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
III - cobrar tributos:
c) antes de decorridos noventa dias da data em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou, observado o disposto na alínea b (BRASIL, CRFB, 2019).
Esta segunda parte do princípio da anterioridade veio para resguardar a segurança jurídica na matéria tributária, haja vista que apenas os da irretroatividade e da anterioridade anual não conseguiam por si só proteger completamente os direitos do contribuinte (NOVAIS, 2018, p. 133).
Assim, uma lei que, por exemplo, majorasse um tributo no fim de dezembro, já poderia ser exigida no dia 1º de janeiro, não estaria desrespeitando os princípios da anterioridade anual tampouco da irretroatividade e colocaria o contribuinte em uma situação de surpresa. Com o prazo de 90 dias para efetivamente ser possível exercer a cobrança, na maioria dos casos, fica o contribuinte protegido de surpresas e gastos que não estavam planejados em relação ao pagamento de tributos.
Ainda há o princípio da capacidade contributiva, este encontrado no artigo 145, §1º da Constituição Federal:
Art. 145. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão instituir os seguintes tributos:
§ 1º Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte, facultado à administração tributária, especialmente para conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte (BRASIL, CRFB. 2019).
Trata este princípio da forma que os tributos devem ser cobrados dos contribuintes, devendo sempre que possível respeitar as condições financeiras do individuo, podendo os mais ricos ter de contribuir de forma majorada e progressiva enquanto os mais pobres terem de pagar menos tributos (PAULSEN, 2017, p. 70).
Por fim, deve ser destacado o princípio da vedação ao confisco, conforme trata o artigo 150, IV da Constituição Federal “Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: IV- utilizar tributo com efeito de confisco” (BRASIL, CRFB, 2019).
[...] o Princípio ora estudado relaciona-se com a ideia de proibição de exagero, impondo que se indague não apenas se um contribuinte está sendo mais gravado que o outro (o que seria a igualdade), mas, ao mesmo tempo, se o tributo não ultrapassou o necessário para atingir sua finalidade (2018, p. 336).
Deve o poder público, portanto, instituir tributos que respeitem o equilíbrio financeiro do contribuinte, não podendo valer-se de sua cobrança para arrecadar valores maiores que o necessário para o financiamento da máquina estatal.