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4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.4 Principais dificuldades

As dificuldades foram colhidas nas falas dos entrevistados no que concerne ao trabalho conduzido pela AMANE, item III da entrevista.

“A AMANE sempre teve uma proposta muito arrojada de intervenção e tinha um limite de atuação...” (BC, 2016, p. 263). Para o antropólogo, professor da UFAL, essa limitação se deve ao seu foco de atuação na sustentabilidade e, portanto, na necessidade de partilhar suas ações com agentes locais, regionais, nacionais e até internacionais, não conseguindo executar todas as etapas do trabalho. O INCRA, por exemplo, não abraçava essa ideia de sustentabilidade,

que, no entanto, era um grande potencial de geração de renda e pouco usual nas políticas agrárias de assentamento. Esses agentes locais que geram políticas de assentamentos parecem insensíveis a uma proposta como a que a organização trazia: um bioma ameaçado, sensível como a Mata Atlântica, mas, com uma grande capacidade de estabelecer modelos para o Brasil (BC, 2016).

a ideia de que você podia, a partir do manejo sustentável de um pedaço de floresta, (...) ter populações que garantissem aquele modo de vida em equilíbrio com aquelas áreas de reserva, você poderia chegar, por exemplo, a assentamentos diferenciados que servissem de modelo para outras regiões do Brasil que são sensíveis também, sobretudo na costa atlântica brasileira (BC, 2016, p.264).

Nesse sentido a professora e filósofa, membro da equipe da AMANE, considera que a ONG enfrentou um grande desafio no seu trabalho, pela falta de uma conjuntura de colaboração: “Uma ONG que atua com direitos fundamentais como o meio ambiente, com empoderamento social, ela enfrenta muitos desafios, porque o ecofator não é positivo lá fora, né?” (CC, 2016, p.291).

As maiores dificuldades objetivadas pelos gestores foram cinco: 1. A falta de recursos de maneira geral para a gestão de projetos e custeio da organização (FP, 2016; IR, 2016; BC, 2016; VS, 2016; RR, 2016; CFL, 2016); 2. A descontinuidade das ações da organização (FP, 2016; AN, 2016); 3. A falta de parceiros permanentes (IR, 2016; BC, 2016); 4. A dificuldade de parceria com órgãos de governo estadual, federal; prefeituras municipais e setor privado (FP, 2016; BC, 2016; BC, 2016) e 5. A insegurança na estratégia de captação de recursos em aplicação de projetos em editais (BP, 2017; MP, 2016; BP, 2017; RR, 2016).

Sobre a falta de recursos financeiros, a questão destacada pela grande maioria dos gestores consultados, é uma situação recorrente nas ONGs, a sobrevivência, o seu custeio, que não é previsto na grande maioria das fontes financiadoras, principalmente, às governamentais, onde o aporte de recurso pode ser maior (no caso da AMANE foi assim). Apesar de ser uma Organização Social de Interesse Público – OSCIP, os encargos não são aliviados para essas organizações que estão sujeitas a Auditorias regulares do Ministério Público, Controladoria Geral da União – CGU e outros financiadores, dependendo da fonte do recurso recebido. O nível de burocracia exigido para esses financiamentos ocupavam muito tempo em ações de controle e gestão, o que significava recursos humanos e financeiros gastos. A manutenção da equipe técnica capacitada pela organização também foi difícil considerando os baixos salários e a grande disponibilidade de tempo, inclusive para viagens por longos períodos. O que

manteve essa equipe por alguns períodos mais longos foi, principalmente, a motivação pela missão da organização e a grande potencialidade em capacitação.

Apesar de que, nesse período em que a AMANE esteve ativa, houve oportunidades significativas de captação de recursos por meio de editais públicos e privados, interesse do setor empresarial em se articular com organizações idôneas e assim, melhorar sua imagem pública. A organização teve que ajustar seu programa inicial, o PICUS, às oportunidades de recursos que surgiam. Apesar de ser um programa amplo, a seleção das ações se deu a partir da demanda dos editais e suas fontes financiadoras, de maneira geral. Nesse sentido, é importante ainda destacar as redes nacionais como a RBMA, a RMA e o Pacto pela restauração da Mata Atlântica, que atuavam em nível nacional e internacional, contribuindo para alavancagem de recursos em temas pertinentes ao projeto do Pacto Murici. Considerando também que, grande parte das ONGs que atuavam nessas redes também atuavam no Pacto, inclusive a própria AMANE, que participava de todas essas redes de articulação.

Considerando a forte parceria da AMANE com o ICMBio, para o gerente da ESEC e equipe da AMANE, a grande dificuldade foi a descontinuidade das ações da organização na região do Complexo Florestal de Murici (JF, 2016; FP, 2016).

Quando a gente voltava tinha um tempo para se restabelecer a confiança das pessoas, se reiniciar processos, principalmente na agricultura porque eles não param de fazer agricultura, mas, no processo que a gente tava da transição para a agroecologia né? (...) a resistência a agroecologia ainda era muito grande... (FP, 2016, p.221).

Para o cientista ambiental, gestor, da equipe técnica da AMANE, a estratégia adotada pela organização na captação de recursos, aplicando projetos em editais públicos, não foi o melhor caminho, considerando que era necessário um esforço e gasto de energia e recursos materiais muito grandes para todas as fases, desde a elaboração de projetos até a sua implementação, em formatos extremamente burocráticos, com auditorias externas ou internas e atrasos na liberação dos recursos financeiros (BP, 2017, p.340).

O sentimento de perda da equipe da AMANE é sintetizado pela fala do jovem cientista ambiental, na frustração do sonho e da perspectiva de ver mudanças contínuas e progressivas tanto na conservação da biodiversidade quanto na repartição dos seus benefícios:

... a maior dificuldade que eu acho é a questão de você acreditar muito num projeto, de você saber que aquele projeto pode contribuir de fato para aquela missão que está se propondo e da missão geral da instituição mas, que ele não tem, um aporte, um apoio financeiro no sentido de sustentação financeira da instituição (RR, 2016, p.331).

O antropólogo e professor da UFAL destaca que houve uma coincidência da AMANE ter iniciado seus trabalhos em um período de crise da indústria sucroalcooleira na região, com o fechamento de usinas, o que poderia ter sido uma motivação para uma ocupação inteligente voltada para uma mudança no padrão de ocupação e desenvolvimento (BC, 206, p. 264).

Isso foi uma pena porque é o Corredorda Mata Atlântica, da ESEC Murici, tem um entorno de área de cana de açúcar que é explorada há quase 500 anos, o milagre da gente ter esses pequenos nichos de floresta deveria ser levada a sério, (...) como uma possibilidade de reorganizar o uso desse território (BC, 206, p.264).

Quando perguntado em que a AMANE deveria ter investido mais, o presidente do CNRBMA destaca a necessidade de criar novas ONGs, filhotes que poderiam ter sido herdeiros desse esforço. Nesse sentido, a AMANE desenvolveu um projeto denominado Capacitando lideranças para a conservação da Mata Atlântica do nordeste, com apoio do Funbio, entre 2012 e 2015, cujo esforço realizou 10 cursos de capacitação em cada um dos complexos florestais de Murici e Urubu, um seminário integrador e publicou dois editais para que essas organizações embrionárias aplicassem propostas. Apesar da sua plena realização, foi um esforço que exigia continuidade, considerando a fragilidade da cultura de organizações dessas lideranças e suas estruturas deficitárias.

5 O PLANO DE AÇÃO PARA O CBMANE – COMPONENTES E PARCERIAS