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4. PANORAMA DOS MERCADOS MUNDIAL E BRASILEIRO DE GÁS

4.2. Principais Mercados do Gás Natural no Mundo

Segundo COURNOT-GANDOLPHE (2002) e TOSTE (2007), o mercado mundial de gás natural possui 03 mercados regionais mais representativos: América do Norte, Europa e Ásia-Pacífico (extremo oriente), com características bastante distintas e, principalmente, referências de preço próprias, conforme apresentado na Figura 4.3.

HH JCC f(Brent,FO,GO) NPB Zeebrugge f(cesta de óleo) HH JCC f(Brent,FO,GO) NPB Zeebrugge f(cesta de óleo)

Figura 4.3 - Referências de preços de gás nos principais mercados mundiais

No mercado norte-americano, temos os Estados Unidos como os maiores consumidores de gás do mundo, representando 22% do consumo mundial em 2006 (BP, 2007). Possuem um mercado altamente desenvolvido e liberalizado, que tem se mostrado bastante volátil nos últimos anos, tendo o Henry Hub22 (HH) como principal referência de preço. Face à limitação da produção local e das perspectivas de declínio das importações via gasoduto, do Canadá e México, o GNL se apresenta como a principal alternativa para atendimento do crescimento da demanda de gás norte-americana. Diversos projetos de terminais de regaseificação estão sendo conduzidos, havendo a expectativa da abertura de uma nova rota de comercialização de GNL na costa oeste americana e no México, interligando os dois lados do oceano Pacífico, tornando os Estados Unidos um dos grandes mercados de GNL. O acesso do GNL ao mercado é facilitado pela densa malha de gasodutos existente no mercado norte-americano (figura 4.4).

Figura 4.4 - Sistema de Gasodutos da América do Norte

Fonte: Intelligence Press Inc.

22 O Henry Hub (HH) é um ponto físico de convergência de grandes gasodutos no estado de Louisiana e de onde os preços de suprimento de gás natural nos Estados Unidos são referenciados, sendo ainda usado como a referência para entrega dos contratos futuros de gás natural na NYMEX (New York Mercantile Exchange) em Nova Iorque.

Do outro lado do Pacífico, o mercado asiático é altamente dependente do GNL, tendo países cujo consumo de gás é 100% importado, via GNL, com destaque para o Japão que é o maior país importador de GNL do mundo, seguido pela Coréia do Sul (BP 2007). Esse mercado sempre foi caracterizado por relações comerciais muito rígidas, marcadas por contratos de longo prazo e 100% de garantia de compra da capacidade contratual, com preços relacionados ao petróleo (JCC – Japan Crude Cocktail). Entretanto, com a liberalização que vem sendo implementada nos principais mercados visando a introdução de maior competição, novas condições de suprimento mais flexíveis têm sido utilizadas, especialmente no atendimento às variações sazonais de demanda da região. O crescimento do consumo de gás natural na China e Índia, puxado pelo forte crescimento de suas economias, é outro ponto de destaque no mercado asiático, sendo também o GNL responsável pela maior parte da oferta adicional.

No mercado europeu, o suprimento de gás é baseado em produções locais e numa extensa malha de gasodutos interligando os países e permeando o gás importado basicamente da Rússia, havendo um mercado de GNL mais concentrado no Mediterrâneo e que se encontra em expansão para as regiões do Mar do Norte, face ao declínio da produção de gás nessa região. Os problemas recentes com o fornecimento de gás natural da Rússia, via gasoduto, aumentaram as preocupações dos países do oeste europeu em relação à segurança do suprimento. Isto está impulsionando a construção de novos gasodutos interligando os campos de produção da Noruega ao oeste europeu, bem como a implantação de mais terminais de regaseificação de GNL na Europa, como forma de diversificação das fontes de suprimento. A Figura 4.5 mostra como está distribuída a malha de gasodutos que supre o mercado europeu. Existe ainda uma grande diferença no estágio de liberalização dos mercados de gás natural e eletricidade dos diferentes países europeus, havendo assim diferentes indexadores de preço para o gás natural. No Reino Unido, onde é maior o grau de liberalização dos mercados, existe uma referência de preço de gás chamada NBP23 (National

Balancing Point), enquanto nos demais países há predominância de contratos indexados ao

petróleo (Brent) e seus derivados (óleo combustível e diesel). Com as metas de liberalização dos mercados imposta pela União Européia e o aumento da inter-relação entre os países, outros hubs de referência de preços de gás natural têm ganhado relevância como Zeebrugge (Bélgica) e TTF (Holanda).

23 O NBP (National Balancing Point) é um ponto virtual na região do Mar do Norte de onde os preços de suprimento de gás natural no Reino Unido são referenciados, sendo ainda usado como a referência para entrega dos contratos futuros de gás natural na ICE (International Commodities Exchange) em Londres.

Figura 4.5 - Sistema de Gasodutos da Europa 2002

Fonte: Inogate (2002)

A Figura 4.6 mostra uma comparação da evolução das principais referências de preços nos mercados de gás natural, as quais têm sido utilizadas como base para formação dos preços de GNL.

Figura 4.6 - Preços do gás natural nos principais mercados (referência para os preços de GNL)

Fonte: BONINI (2007)

É importante destacar o grau de desenvolvimento desses mercados, bem como dos mecanismos de flexibilização da oferta e da demanda de gás natural, de acordo com as informações apresentadas por COURNOT-GANDOLPHE (2002). Esses mecanismos são essenciais para o atendimento da significativa parcela da demanda que é sensível às variações de temperatura, representada basicamente pelos segmentos residencial e comercial, os quais se caracterizam como uma demanda muito inelástica.

Tabela 4.3 - Flexibilidade do Mercado de Gás Natural em Países da IEA em 2000

IEA Am. Norte IEA Europa IEA Pacífico

Variação da Produção (swing) 105% 134% 116%

Variação da Importação (swing) 119% 118% 113%

Variação da Oferta (Prod. + Import.) 107% 125% 109%

Variação da Demanda (swing) 137% 152% 111%

Estocagem (gás de serviço como % do

consumo anual 17% 13% 1%

Tanques GNL (capacidade de tancagem

Troca de combustível como % do

consumo médio diário de gás 9% 12% 50%

Participação de consumidores sensíveis

à temperatura no consumo total 35% 40% 23%

Fonte: COURNOT-GANDOLPHE (2002)

Pela análise da Tabela 4.3, vemos que o mercado asiático tem pouca estocagem, a qual é formada basicamente por GNL, a demanda que responde às variações de temperatura e a variação da demanda não é tão significativa quanto nos outros mercados, mas possuem uma capacidade de troca de combustível muito relevante, o que explica a forte correlação com o preço do petróleo naquele mercado. Por sua vez, nos mercados norte-americano e europeu, a demanda que responde às variações de temperatura e a variação da demanda é bastante significativa, assim como a capacidade de estocagem de gás, permitindo uma grande flexibilidade nesses mercados e a formação dos preços mais atrelada aos próprios parâmetros do mercado de gás (gas-on-gas competition).

Considerando que o crescimento de oferta e demanda de gás natural passa pelo acesso das reservas aos principais mercados e que o transporte de gás natural sob a forma de GNL deverá desempenhar um papel cada vez mais importante nesse sentido, podemos esperar que o GNL permita um maior relacionamento entre os mercados regionais. Assim, poderá ter um compartilhamento da flexibilidade desses mercados entre si, bem como com outros mercados menores, permitindo a evolução da dinâmica do mercado de gás natural para condições similares às de uma commodity mundial.24

Feita essa contextualização do mercado mundial de gás natural, o trabalho inicia a apresentação do mercado brasileiro de gás natural até chegar à análise das condições de flexibilidade desse mercado e sua capacidade de atender às variações de demanda representadas pelo segmento de geração termelétrica.

24 Essa análise será retomada e aprofundada no Capítulo 6 ao discutir as questões de mercado relativas à estruturação de um arranjo de Suprimento de GNL Flexível.