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Prioridades políticas para os países em desenvolvimento

Ao longo dos próximos anos, são quatro as prioridades políticas que assumem relevo para os países em desenvolvimento, a fim de que estes possam manter os ganhos obtidos nas últimas dé- cadas e esses benefícios possam estender-se a países que ainda se encontram numa situação de atraso:

• Reforçar a equidade. A equidade e a justiça

social, tendo, como têm, um valor próprio, são importantes para alargar as capacidades.1 É

difícil sustentar o progresso em termos de de- senvolvimento humano face a uma iniquidade crescente ou persistente.2 A iniquidade ex-

istente em capacidades específicas – por exemp- lo, aproximada e medida como disparidades nos resultados no domínio da saúde e da educação, bem como do rendimento – também impede o progresso no desenvolvimento humano, embora os efeitos possam ser menos pronun- ciados. A desigualdade de género está no cerne destas relações negativas: a saúde e educação das mulheres são cruciais para responder aos desafios demográficos e a outros desafios que se colocam ao desenvolvimento humano. Embora alguns países da América Latina e de outras regiões tenham reduzido acentuadamente a desigualdade de rendimento, nem todos os países reconhecem a importância de abordar

a questão das desigualdades nos domínios da saúde, educação e rendimento.3

• Permitir a representação e a participação. À

medida que os níveis de instrução se elevam e aumenta o acesso às tecnologias da informação e da comunicação, os indivíduos exigem ter maior participação nos processos políticos, desafiam os decisores a ser mais responsáveis e a alargar as oportunidades para um discurso público aberto. A limitação das oportunidades de participação política, numa altura em que o desemprego aumenta e o ambiente económico se deteriora, pode fomentar a agitação civil. O alargamento das oportunidades de participação política, juntamente com uma maior responsabi- lização do governo na garantia da satisfação das necessidades humanas básicas, podem fomentar as liberdades humanas e sustentar o desenvolvi- mento humano. Uma forte participação política por parte dos que são relativamente carenciados fornece uma importante fonte de apoio para a al- teração das políticas em prol do desenvolvimento humano.

• Fazer face aos desafios ambientais. As alterações

climáticas e as pressões locais exercidas sobre os recursos naturais e os ecossistemas aumentam a pressão sobre o ambiente em quase todos os países, independentemente da sua fase de desenvolvimento. Se não se tomarem medidas urgentes, o progresso futuro do desenvolvi- mento humano ficará ameaçado. Com base nos cenários desenvolvidos para o Relatório do Desenvolvimento Humano 2011, o presente Relatório defende medidas agressivas a nível nacional e internacional com vista a enfrentar estes desafios.

• Gerir as alterações demográficas. Em alguns

países em desenvolvimento, sobretudo na África Subsariana, entram na força de trabalho grandes coortes de jovens. Noutros países,

designadamente na Ásia Oriental, a parcela da população em idade ativa está a diminuir, ao mesmo tempo que aumenta a parcela dos ido- sos. São necessárias intervenções políticas novas que gerem emprego produtivo em quantidade suficiente, respondendo simultaneamente à procura crescente de proteção social.

Haverá outros desafios ao desenvolvimento humano, incluindo a volatilidade dos preços das mercadorias, em especial para produtos alimen- tares e combustível. Num mundo cada vez mais globalizado, estas e outras preocupações irão gerar um ambiente complexo que traz consigo riscos, como sejam inversões do progresso, insegurança crescente e maior desigualdade. Num ambiente tão

complexo é difícil fazer previsões, porque a mod- elização pode não ter em conta variáveis-chave, como seja o progresso tecnológico, que podem alterar drasticamente tanto as possibilidades de produção como as possibilidades pessoais. Ainda assim, os cenários de modelização são úteis para ilustrar opções políticas e respetivas implicações.

O reforço da equidade

Maior equidade, incluindo entre homens e mulheres e entre outros grupos (religiosos, raciais e outros), além de ser essencial, é também impor- tante para a promoção do desenvolvimento hu- mano. Um dos instrumentos mais poderosos de

CAIxA 4.1

Razões das prováveis diferenças nas perspetivas da população da República da Coreia e da Índia

O sucesso escolar aumentou rapidamente na República da Coreia. Na década de 1950 uma grande percentagem de crianças em idade escolar não recebia educação formal. Hoje em dia, as jovens coreanas estão entre as mulheres com melhor nível de instrução do mundo; mais de metade concluiu um curso superior. Por consequência, os coreanos idosos do futuro terão um nível de instrução superior ao dos coreanos idosos de hoje (consultar a figura) e, devido à correlação positiva existente entre a educação e a saúde, também é provável que sejam mais saudáveis.

Partindo do princípio de que as taxas de matrícula (que são elevadas) se mantêm, a percentagem da população com idade inferior a 14 anos descerá de 16% em 2010 para 13% em 2050. Haverá também uma acentuada modifica- ção na composição da população em termos de escolaridade: prevê-se que a percentagem dos que frequentam o ensino superior subirá de 26% para 47%.

Para a Índia, o cenário é muito diferente. Antes do ano 2000, mais de metade da população adulta não tinha recebido educação formal. Apesar do recente aumento da escolaridade básica e do crescimento impressionante do número de indianos mais instruídos (indubitavelmente um fator fundamental do recente crescimento económico da Índia), a percentagem da população adulta sem qualquer instrução só lentamente registará um declínio. Em parte devido a este nível mais baixo de instrução, principalmente entre as mulheres, prevê-se que a população da Índia cresça rapidamente, ultrapassando a China como país mais populoso do mundo. Mesmo com um cenário acelerado otimista, que parta do princípio de que haverá uma expansão da educação semelhante à da Coreia, a distribuição da educação na Índia em 2050 continuará a ser muito desigual, havendo um número considerável de adultos (sobretudo idosos) sem instrução. Neste cenário, porém, a rápida expansão do ensino superior criará uma força de trabalho constituída por jovens adultos com um elevado nível de instrução. Futuro da população e da educação na República da Coreia e na Índia em termos comparativos

0 10 20 30 40 50 0 500 1.000 1.500 2.000 TERCIÁRIO SECUNDÁRIO PRIMÁRIO SEM INSTRUÇÃO 2040 2050 2020 2030 2010 2000 1990 1980 1970 TERTIARY SECONDARY PRIMARY 2040 2050 2020 2030 2010 2000 1990 1980 1970 TERCIÁRIO SECUNDÁRIO PRIMÁRIO IDADES 0-14 IDADES 0-14 SEM INSTRUÇÃO

População (em milhões) População (em milhões)

República da Coreia, taxas de matrícula constantes Índia, cenário de progresso acelerado

Fonte: Lutz e K.C.2013.

O nível de instrução da mãe é mais importante para a sobrevivência dos filhos do que o rendimento familiar ou a riqueza

promoção da equidade e do desenvolvimento hu- mano é a educação, que desenvolve as capacidades das pessoas e alarga a sua liberdade de escolha. A educação aumenta a autoconfiança das pessoas e permite aceder com maior facilidade a melhores empregos, participar em debates públicos e exigir do governo cuidados de saúde, segurança social e outros direitos.

A educação também traz benefícios surpreen- dentes em termos de saúde e de mortalidade (ver caixa 4.1 sobre diferenças no futuro da educação na República da Coreia e na Índia). De acordo com dados provenientes de todo o mundo, um melhor nível de instrução dos pais, em especial das mães, melhora a possibilidade de sobrevivência dos filhos. Além disso, as mulheres que trabalham e as que têm um nível de instrução mais elevado (que tendem a concluir a escolaridade antes de terem filhos) têm provavelmente menos filhos4.

As mulheres instruídas têm, também, filhos mais saudáveis, com mais probabilidades de sobrevivên- cia (tabela 4.1), o que reduz o incentivo a uma família mais numerosa.5 As mulheres instruídas

possuem também melhor acesso à contraceção e utilizam-na de forma mais eficaz.6

Com base em Inquéritos sobre Demografia e Saúde e inquéritos ao nível micro, a investigação realizada para o presente Relatório reforça estes argumentos, concluindo que o nível de instrução da mãe é mais importante para a sobrevivência dos filhos do que o rendimento familiar ou a riqueza. Isso tem profundas implicações políticas, trans- ferindo potencialmente a ênfase dos esforços de- senvolvidos no sentido de aumentar o rendimento familiar para medidas que melhorem o nível de instrução das raparigas.

Esta relação pode ser ilustrada por dados rela- tivos à mortalidade infantil (tabela 4.1). Muitos países africanos, nomeadamente o Mali e o Níger, possuem uma elevada taxa de mortalidade entre crianças com idade inferior a cinco anos. Contudo, em todos os países, a taxa de mortali- dade é mais baixa entre mães com um nível de in- strução mais elevado. Em alguns países, como é o caso da Nigéria, está associada ao ensino primário uma taxa de mortalidade infantil muito mais baixa; noutros, como na Libéria e no Uganda,

TABELA 4.1

Taxa de mortalidade em crianças com idade inferior a cinco anos e taxa total de fertilidade segundo o nível de instrução das mães

Em países selecionados, no ano mais recente disponível desde 2005

País inquéritoAno do

Taxa de mortalidade abaixo dos cinco anos de idade

(por 1 000 nados vivos) (nascimentos por mulher)Taxa de fertilidade total

Sem

instrução primárioEnsino

Ensino secundário

ou superior Global instruçãoSem primárioEnsino

Ensino secundário ou superior Global Bangladeche 2007 93 73 52 74 3,0 2,9 2,5 2,7 Egito 2008 44 38 26 33 3,4 3,2 3,0 3,0 Etiópia 2005 139 111 54 132 6,1 5,1 2,0 5,4 Gana 2008 103 88 67 85 6,0 4,9 3,0 4,0 Índia 2005/2006 106 78 49 85 3,6 2,6 2,1 2,7 Indonésia 2007 94 60 38 51 2,4 2,8 2,6 2,6 Libéria 2009 164 162 131 158 7,1 6,2 3,9 5,9 Mali 2006 223 176 102 215 7,0 6,3 3,8 6,6 Níger 2006 222 209 92 218 7,2 7,0 4,8 7,0 Nigéria 2008 210 159 107 171 7,3 6,5 4,2 5,7 Ruanda 2007/2008 174 127 43 135 6,1 5,7 3,8 5,5 Uganda 2006 164 145 91 144 7,7 7,2 4,4 6,7 Zâmbia 2007 144 146 105 137 8,2 7,1 3,9 6,2

Nota: Dados referentes ao período de 10 anos antes do inquérito. Fonte: Lutz e K.C. 2013.

Uma maior ênfase na educação pode reduzir a mortalidade infantil em todos os países e regiões

a diferença decisiva está associada ao ensino secundário.

Um exercício de modelação conduzido para o presente Relatório projeta o impacto das dife- renças dos níveis de instrução na mortalidade infantil, no período de 2010-2050, tendo por base dois cenários. O cenário de “caso básico” pressupõe que as tendências atuais no que res- peita ao nível de escolaridade à escala nacional se mantenham sem novos compromissos de finan- ciamento ou iniciativas políticas significativos. Com este pressuposto, a proporção de cada grupo de crianças – classificado por idade e por género – que passa para o nível de instrução seguinte mantém-se constante (ver Anexo técnico).

O cenário de “progresso acelerado” pressupõe metas muito mais ambiciosas em matéria de política de educação, semelhantes às atingidas nas últimas décadas pela República da Coreia, por exemplo, onde a percentagem de alunos que pas- sam para o nível de ensino seguinte aumenta con- tinuamente ao longo dos anos. Os resultados do

cenário de “progresso acelerado” demonstram um número claramente inferior de mortes de crianças à medida que aumenta o nível de escolaridade das mães. O modelo demonstra também que colo- cando maior ênfase no progresso em matéria de educação se reduziria substancial e continuamente a mortalidade infantil em todos os países e regiões, como resultado direto das melhorias introduzidas na educação das raparigas (tabela 4.2).

A Índia apresenta as previsões mais elevadas quanto ao número de mortes infantis para o período 2010-2015: quase 7,9 milhões, o que representa cerca de metade das mortes de crianças com menos de 5 anos na Ásia.7 No período de

projeção final, 2045–2050, prevê-se que morram quase 6,1 milhões de crianças no cenário de “caso básico”, mas apenas metade desse número (3,1 milhões) no cenário de “progresso acelerado”.

A população da China é mais numerosa do que a da Índia, contudo, prevê-se que venha a registar menos de um quarto (1,7 milhões) do número de mortes infantis no período 2010–2015. Devido

TABELA 4.2

2 Projeção do número de mortes de crianças com idade inferior a 5 anos, por cenário de educação, 2010- 2015, 2025-2030 e 2045-2050 (milhares)

País ou região

2010–2015 2025–2030 2045–2050

Caso básico Caso básico Progresso acelerado Caso básico Progresso acelerado País África do Sul 288 198 165 134 93 Brasil 328 224 177 161 102 China 1.716 897 871 625 526 Índia 7.872 6.707 4.806 6.096 3.064 Mali 488 519 318 541 150 Paquistão 1.927 1.641 1.225 1.676 773 Quénia 582 920 482 1.552 371 Rep. da Coreia 9 8 9 7 7 Região África 16.552 18.964 12.095 24.185 7.495 América do Norte 162 160 155 165 152

América Latina e Caraíbas 1.192 963 704 950 413

Ásia 15.029 11.715 8.924 10.561 5.681

Europa 276 209 204 196 187

Oceânia 11 11 11 12 10

Nota: ver Anexo técnico no final do presente Relatório para uma apresentação dos cenários de “caso básico” e “progresso acelerado”. Fonte: Lutz e K.C. 2013.

A insatisfação aumenta à medida que as pessoas exigem mais oportunidades de expressar as suas preocupações e

influenciar a política, em especial em matéria de proteção social de base

aos progressos verificados na China no domínio da educação, as projeções parecem ser otimistas em ambos os cenários. Se a China seguir o cenário de “progresso acelerado”, como parece provável que aconteça, as mortes infantis diminuirão para cerca de meio milhão até 2045–2050, menos de um terço do nível atual.

Para alguns outros países, as projeções são menos otimistas. No cenário de “caso básico”, as mortes infantis no Quénia, por exemplo, aumen- tarão de cerca de 582 000 em 2010–2015 para cerca de 1,6 milhões em 2045–2050. No cenário de “progresso acelerado”, o número de mortes no período 2045–2050 baixaria para 371 000, um resultado muito mais positivo, mas não muito inferior ao nível registado no período 2010–2015.

O decréscimo previsto no número de mortes infantis reflete os efeitos conjugados do facto de as mulheres mais instruídas terem menos filhos e de ser menor o número dos que morrerem. As pro- jeções demonstram também que as intervenções políticas exercem um maior impacto nos casos em que os resultados da educação são inicialmente mais fracos.

Estes resultados sublinham a importância da redução da desigualdade de género, em especial na educação e em países com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A desigual- dade de género é especialmente trágica não só por excluir as mulheres das oportunidades sociais mais fundamentais, mas também por ameaçar muito seriamente as perspetivas de vida das gerações futuras.

Permitir a participação e

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