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Um compromisso a longo prazo com o desenvolvimento e o processo de reformas

A consecução de uma transformação dura- doura é um processo de longo prazo que exige que os países definam uma abordagem coerente e equilibrada em relação ao desenvolvimento. Algumas estratégias técnicas ou de gestão poderão parecer atraentes soluções rápidas mas, regra geral, elas são inadequadas.

• China. Desde as reformas orientadas para o

mercado empreendidas em finais da década de 1970, a China passou por uma “série de mudanças complexas e interligadas: de uma economia planificada para uma economia de mercado; do rural para o urbano; da agricultura para a indústria transformadora e os serviços; de atividades económicas informais para atividades económicas formais; de um conjunto fragmen- tado de economias de província bastante autos- suficientes para uma economia mais integrada; e de uma economia bastante fechada ao mundo exterior para uma superpotência do comércio internacional”.45 A dimensão destas mudanças

exigiu um Estado comprometido com a estraté- gia que traçou a longo prazo de desenvolvimento das necessárias capacidades e instituições. Os dirigentes substituíram deliberadamente a velha guarda, que se poderia esperar que resistisse à mudança, com uma administração pública mais

jovem, mais aberta e com um nível superior de educação. Em 1988, já era de 90% a proporção de funcionários acima do nível municipal que tinham sido nomeados desde 1982.46 A melhoria

das capacidades continua a ser uma prioridade, e o nível de educação dos funcionários tem vindo a aumentar continuamente. A adminis- tração pública chinesa foi concebida com uma forte orientação para os resultados, ligando o desenvolvimento da carreira à realização de objetivos centrais de modernização e progresso económico.47

Os Estados orientados para o desenvolvimento e amigos das populações necessitam de uma lider- ança política forte comprometida com a equidade e a sustentabilidade. Uma liderança eficaz assegura uma boa coordenação entre os objetivos a longo prazo dos decisores políticos e permite ao eleitora- do reconhecer o trabalho do Estado na promoção das capacidades individuais e na integração social em prol do desenvolvimento humano. Isto requer uma abordagem equilibrada em relação ao desen- volvimento, bem como a capacidade de converter as crises em oportunidades para introduzir amplas reformas económicas.

• Brasil. Quando começou a transformação do

Brasil num Estado orientado para o desenvolvi- mento (cerca de 1994), já o Governo havia implementado reformas macroeconómicas para controlar a hiperinflação através do Plano Real e concluído a liberalização do comércio, que iniciara em 1988, com reduções pautais e a eliminação de outras restrições.48 Seguiu se a

abertura comercial e a adoção de uma política monetária e orçamental prudente, bem como a introdução de programas sociais inovadores que permitiram reduzir a pobreza e as desigualdades de rendimento.

Em sociedades de grande dimensão e complexi- dade, o resultado de qualquer política em particular é inevitavelmente incerto. Os Estados orientados para o desenvolvimento têm de ser pragmáticos e testar uma série de abordagens diferentes.

• China. O processo de reforma e abertura da

China resultou de uma opção explícita assu- mida em finais da década de 1970 no sentido de diminuir as restrições à participação das pessoas nas decisões económicas. No entanto, as inovações institucionais que se seguiram para consolidar a transformação da China foram de- calcadas, dir se ia, na abordagem defendida por Deng Xiaoping de “atravessar o rio sentindo as 74 | RELATóRIO DO DESENvOLvIMENTO HUMANO 2013

Vários países criaram, em períodos de substituição de importações, competências industriais que posteriormente capitalizaram nos fornecimentos aos mercados internacionais

pedras”49 . Entre 1979 e 1989, nada menos que

40% dos regulamentos nacionais da China foram considerados como sendo de caráter experimental. O primeiro conjunto de refor- mas agrárias permitia aos agricultores arrendar terras, entregar uma parte da sua produção ao Estado a preços fixos, e vender o remanescente. Seguiu se a expansão das empresas municipais e de aldeia.50 Esta abordagem gradual reflete o

pragmatismo dos dirigentes chineses. Outra razão para esse pragmatismo foi a perceção, agravada por um sentimento de desilusão em relação a todo o sistema de planificação, de que a transição era impossível de programar.

Fator impulsionador 2: integração

nos mercados mundiais

Um elemento comum aos países em rápido desenvolvimento do Sul tem sido o reforço das capacidades das pessoas e das competências das empresas, a par da abertura aos mercados mundiais. Têm, desta forma, conseguido obter fatores de produção intermédios e bens de capital a preços mundiais competitivos, adotar know-how e tecno-

logia estrangeiros, e tirar partido dos mesmos nas vendas nos mercados mundiais.51 Todos os países

recém industrializados têm adotado a estratégia de “importar o que o resto do mundo conhece e exportar o que ele quer”.52 De facto, poucos países

se conseguiram desenvolver com êxito rejeitando o comércio internacional ou fluxos de capital de longo prazo; muito poucos conseguiram um cresci- mento sustentável sem aumentarem também o seu rácio entre as trocas comerciais e o produto, e não há provas de que, no período pós guerra, as econo- mias introspetivas tenham sistematicamente regis- tado um desenvolvimento mais rápido do que as que optaram por uma maior abertura ao exterior.53

Esta experiência não significa, porém, que os países possam fomentar o crescimento através da simples eliminação dos obstáculos ao comércio e ao investimento. Alguns estudos transnacionais in- fluentes datados dos anos 90 pareciam indicar que uma abertura rápida dos mercados conduziria auto- maticamente a um elevado crescimento económi- co. Mais tarde, porém, chegou se à conclusão de que esses estudos continham limitações metodológicas significativas.54 Em particular, o crescimento não

pode ser suficientemente explicado com base ap- enas nas barreiras pautais e não pautais médias.55

As experiências de desenvolvimento reais do Sul têm demonstrado um consenso mais matizado.56

Nesta perspetiva, os avanços bem-sucedidos e sustentados tendem antes a ser o resultado de uma integração gradual e faseada na economia mundial, em função das circunstâncias nacionais, e acompanhada por investimentos em pessoas, instituições, e infraestruturas.57 Estudos sobre

vários países confirmam que o que é necessário é um “pacote” que envolva a interação de reformas nas políticas em matéria de comércio, taxas de câmbio, orçamental, monetária e institucional.58

Um estudo recente conclui que os benefícios mais decisivos advêm da liberalização do comércio integrada em reformas mais amplas: no período pós liberalização, entre 1950 e 1998, os países considerados como tendo seguido essa estratégia registaram taxas de crescimento 1,5 pontos per- centuais mais elevadas, taxas de investimento 1,5 2 pontos percentuais mais elevadas e um rácio entre as trocas comerciais e o produto 5 pontos percentuais mais elevado.59

À medida que os países se desenvolvem, ten- dem a desmantelar as barreiras comerciais e a ser mais abertos.60 A análise efetuada pelo GRDH

sobre a associação entre as mudanças na abertura comercial e a melhoria relativa no valor do IDH entre 1990 e 2010 corrobora esta conclusão (ver

TABELA 3.2

Quota-parte das exportações mundiais de bens e serviços dos países com um desempenho elevado no domínio do desenvolvimento humano, 1990 e 2010 (%)

País 1985–1990 2000–2010 Bangladeche 0,042 0,089 Brasil 0,946 1,123 Chile 0,232 0,420 China 1,267 8,132 Gana 0,029 0,041 Índia 0,519 1,609 Indonésia 0,624 0,803 Malásia 0,685 1,197 Maurícia 0,038 0,027 Tailândia 0,565 1,095 Tunísia 0,116 0,118 Turquia 0,449 0,852

Nota: valores médios relativos a 1985 1990 e 2005 2010. Fonte: Banco Mundial 2012a.

Tendo resistido à crise financeira asiática de 1997, a Indonésia destaca-se hoje pela gestão eficaz das suas exportações de produtos de base

caixa 2.1 no capítulo 2). Nem todos os países que reforçaram a abertura comercial alcançaram grandes melhorias no valor do IDH relativamente aos seus pares. Mas os que efetivamente registaram grandes melhorias no valor do IDH, regra geral, aumentaram o seu rácio comércio/produto, ou es- tabeleceram uma rede mundial de relações comer- ciais de valor bilateral substancial. Numa amostra de 95 países em desenvolvimento e economias em transição, o aumento médio do rácio entre trocas comerciais e produto dos países consider- ados como tendo melhorado rapidamente o seu IDH entre 1990 e 2012 foi cerca de 13 pontos percentuais acima do dos países que registaram melhorias mais modestas.

Como se refere na caixa 2.1, quase todos os países que registaram uma melhoria substancial no valor do IDH nas últimas duas décadas também se tornaram mais integrados na econo- mia mundial. A tabela 3.2 confirma esse facto relativamente a um grupo selecionado de países de elevado desempenho no domínio do desen- volvimento humano, analisados no presente capítulo, os quais tiraram vigorosamente partido de oportunidades oferecidas pela globalização, aumentando a sua quota-parte das exportações para os mercados mundiais entre 1990 e 2010. A única exceção neste grupo é a Maurícia, um dos primeiros países do Sul a seguir uma estratégia de desenvolvimento orientada para a exportação, cuja quota-parte nas exportações mundiais atin- giu o valor máximo em 2001.61 À medida que os

países mais populosos têm vindo a aprofundar a sua integração na economia mundial, têm acelera- do a sua diversificação estrutural na indústria e nos serviços e impulsionado a produtividade agrícola, ajudando a tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza em poucas décadas.

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