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Problemas causados na cidade: (v 10b – 20a)

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B. Problemas causados na cidade: (v 10b – 20a)

Esta segunda rodada de lamentação mantém os dois gêneros da lamentação: a queixa (v.10b-12) e a maldição (v.16). Porém, o salmista, nos versos 13-15, lamenta de forma contestatória, para depois declarar sua afirmação de fé (v. 17-20a).

1. Queixa (v. 10b-12) 10b

eis que! vejo violência e contenda na cidade 11

De dia e de noite rodeiam sobre os seus muros e maldade e fadiga em seu interior

12

Ruínas em seu interior e

opressão e engano não aparta de suas praças

A forte sequência de paralelismos indica a intenção do salmista em deixar bem evidente as ações de seu agressor. O recurso poético dominante nesta secção personifica as várias situações que cooperam para a sua aflição.

Esta segunda queixa inicia sugestivamente com a partícula

yKi(

, eis que! O salmista destaca a opressão que ele sofreu e, ao mesmo tempo, denuncia os sérios problemas que a sua cidade estava enfrentando. Enquanto no primeiro círculo o salmista lamenta de seus problemas particulares, aqui, ele menciona os conflitos vividos pela comunidade. O salmista se coloca como uma testemunha ocular. Ele inicia sua acusação com a expressão

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, eu vejo. Para ele, a sua cidade está inundada de violência,

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, e contenda jurídica,

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(v.10b), maldade,

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, e fadiga,

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(v.11b), ruína,

hW"h;

, opressão,

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, e fraude,engano,

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(v.12). Este elenco de adjetivos para a cidade, onde a opressão é mais uma vez descrita em forma de lamento, reforçam de forma incisiva a depravação do lugar. A observação do salmista começa pelas muralhas, segue para o interior e passa por suas praças. Para ser mais explícito, a cidade encontrava-se sob o comando de pessoas perversas e violentas, ao todo, sete personificações que

86 exercem o comando político da cidade podem caracterizar melhor o lamento do salmista. É interessante que essa violência estava instalada em todos os lugares públicos. A história bíblica registra que no século V a.C., Jerusalém foi palco de tristes acontecimentos. Certamente, o salmista foi testemunha desses fatos quando os judeus eram vassalos da Pérsia.

2. Queixa contestatória (v. 13-15)

13

Eis que! não é o inimigo que me escarnece Então (eu o) suportaria não é o que me odeia (que) me sobrepõe e se engrandece

então (me) esconderia dele. 14

Mas tu ó homem conforme minha ordem,

meu amigo e meu conhecido (íntimo), 15

o qual juntos na nossa doçura em aconselhamento, na casa de ’elohim

nós andávamos na multidão.

Neste ambiente ameaçador, o salmista deixa de generalizar sobre a violência e alude à particular e dolorosa traição do amigo

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íntimo

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. Em tom contestatório ele abre sua queixa, reforçando sua intensidade novamente com a partícula

yKi(

, eis que! Em tom metafórico, a linguagem torna-se direta e valorizada pelo contraste amigo / inimigo, antes / agora e pela interpelação do traidor

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na segunda pessoa, masculino, singular. Esta intimidade mencionada na confidência da casa de ’elohim, reforçada por

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“homem conforme minha ordem, igual a mim, da minha mesma condição” juntamente com amigo

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e íntimo

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, reforçam o trato prolongado e familiar. Nos textos da torah

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é usado como referência aos chefes tribais ou guias do povo (cf. Gn 36; Ex 15.15; Prov. 2.17 e outros). No Salmo 55 o

87 termo se refere provavelmente a um amigo e parente, companheiro de caminhada à Casa de ’elohim. Esta referência “Casa de ’elohim”, faz pensar que a cidade é Jerusalém, mesmo que também se possa referir à peregrinações rituais em comum.

Em qualquer caso, o “lugar sagrado”, intensifica o contraste da cidade entregue à violência e ao crime.

3. Maldição (v. 16) 16

A devastação seja sobre eles e

caiam no xeol os (que estão) vivos, pois há perversidades em suas moradas, em seu interior.

Pela segunda vez, o salmista pragueja os perversos habitantes de sua cidade. Esta maldição encerra a segunda rodada de lamento (v.10c-15). Certamente é uma comunidade localizada fora de Jerusalém. A ligação desta maldição com a expressão

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no verso 10a completam a intenção do salmista em ver exterminada as ações dos seus inimigos.

Esta maldição, caiam no xeol os vivos, lembra Nm 16,33, quando o ancestral da casa de Coré foi engolido pela terra, em razão da tentativa de desafiar Moisés. Este, também, é o que o samista deseja aos seus inimigos.

Em paralelo com

lAav.

xeol está

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ieximot. A intensidade com que o salmista profere sua maldição é violenta e se apoia em dois poderes equivalentes: devastação e abismo. Tanto o aparato crítico quanto a Massora parva da BHS indicam que

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é um ketiv, tendo como qerê205, a fórmula que une dois termos:

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morte e

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maltratar, atuar como um credor. A opção em traduzir

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por devastação e não

205

O texto da Bíblia Hebraica apresenta várias situações em que uma determinada palavra deve ser lida de forma diferente daquela que está escrita no próprio texto. Esta situação é reflexo da existência de variantes encontradas em antigos manuscritos. Em tais casos, a palavra ou expressão recebe a denominação de Ketiv (o que está escrito), enquanto a forma que deve ser lida é Qerê (o que é lido). FRANCISCO, Edson de Faria. Manual da Bíblia Hebraica, p. 178

88 por morte ou morte súbita, como na maioria das Bíblias em português, tem como pretensão destacar com maior intensidade a força empregada pelo salmista nesta palavra.

No contexto bíblico

lAav.

xeol é o lugar dos mortos (Sl 63,10) para onde descem os que morreram (Sl 89,49). O mundo dos mortos era imaginado pelos antigos como oculto nas profundesas subterrãneas, onde se sustenta e estende a compacta terra dos vivos206. A literatura bíblica menciona o xeol paralelo à fossa e à sepultura (Cf. Gn 37.35; 42.38; Nm 16.30; Jo 17.13 e outros)207. É um lugar de trevas e vermes. A descida para o xeol, conforme o salmista (55, 16) equivale à morte.

O orante deseja aos inimigos, que uma força devastadora, de fora e de cima, caia sobre eles e que abaixo, no abismo, o xeol os tranque sem escapatória.

4. Afirmação de fé em linguagem litúrgica (v. 17-20a) 17

Eu para ’elohim clamarei e YHVH me salvará. 18

Tarde e manhã

e ao meio dia lamentando gritarei e (ele) ouvirá minha voz.

19

Resgata em paz minha vida de quem me faz guerra, pois muitos são contra mim. 20

Ouvirá Deus e os humilhará

e permanecerá em frente Sela

O queixoso é um fiel javista que lamenta, mas crê e declara a sua fé. É a primeira afirmação de fé deste salmo de lamentação. O paralelo entre Javé e ’elohim reflete bem a dimensão da fé do salmista, enquanto ’elohim é usado de forma genérica, Javé é indicado como aquele que salva, pois, no saltério, Javé é claramente o guardião e promotor da vida.

206 PEDRO, Enilda de Paula e NAKANOSE, Shigeyuki. Como ler o livro de Oséias, reconstruir a casa.

São Paulo: Paulus, p. 30; SCHÖKEL, Luiz Alonso; CARNITI, Cecília. Salmos I: Salmos 1-72, p. 733

89 A extensão desta declaração de fé pode explicar a sua ausência na primeira rodada de queixa, a lógica da linguagem litúrgica de um lamentador segue correta. O queixoso clama,

arq

(v.17a), e medita lamentando,

xyf

e grita,

hmh

(v.18a) e ’elohim resgata,

hdp

em paz,

~Alåv'b.

(v.18b-20a ). Aqui é preciso frisar que o tempo verbal de

hdp

208, remete ao paradoxo da paz em meio à agitação e sofrimento do salmista, “eu estou em paz pela esperança segura”.

O salmista conclui afirmando que a ação salvífica de Deus não é temporária ou passageira, mas seu governo,

bvy

, permanece, desde a antiguidade, salvador. Apesar do Salmo 55 não estar creditado aos "filhos de Coré" (Sl 42; 44-49; 84-85; 87-88), ele traz marcas teológicas da coleção coreíta209.

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