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A. Problemas causados na vida do salmista: v 3b-10a
1. Queixa (v. 3b-6) 3b
vagueio em lamento e agitação. 4
Por causa da voz (do) inimigo em face da pressão do malfeitor,
pois me fazem cambalear
sobre (a) maldade
e na ira guardam rancor. O salmista sente-se pressionado, agita-se
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em sua ansiedade. O verbo~wh
alvoroçar, lançar em confusão, lembra o barulho confuso de uma multidão, como por exemplo, de uma cidade em 1Rs 1.55; do povo em Rt 1.19. Parece-nos que o orante se contagia pelos “gritos e apertões” (voz do inimigo e pressão do malfeitor) que associado atq:å['
pressionar, apertar, esmagar (v.4), faz com que ambos os significados se encaixem no contexto.
81 Na maioria das passagens poéticas, o termo
lAq
voz, abrange muitos tipos de sons e pode até indicar uma situação de catástrofe192. Sua angústia e medo antecedem as reclamações que demonstram múltiplos aspectos de sua aflição. Um rápido olhar para as atividades do inimigobyE©Aa
e do malfeitor[v'_r"
(v4) é seguido pelo sentimento de angústia que se apodera do suplicante.Geralmente, o significado, tanto de inimigo como do malfeitor devem ser determinados pelos verbos que descrevem suas ações. Assim, somente a partir do verso 4b, é que se pode melhor conhecer os feitos desses dois inimigos do salmista. Eles fizeram cair
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“tropeçar, fazer cambalear” sobre o salmista a desgraça,!w<a
(v.4c) e com ira se alimentam de rancor,~jf
193 (v.4d). Com isso, as reações psicológicas, sobre o salmista, causaram-lhe uma paralisia.5
Meu coração estremece em meu interior e terrores de morte caem sobre mim 6
Medo e tremor entra em mim e cobre-me um estremecimento
Nestes versos, o salmista utiliza-se de termos e expressões que comunicam sua profunda angústia, causada pela ação de seus inimigos que trouxe desdobramentos em seus sentimentos e sensações. A reação do íntimo de seu corpo foi negativa: terrores de morte, medo e tremor, estremecimento. Schökel afirma que “esta é a única vez que o verbo
lyx
, tremer, contorcer-se, tem como sujeitoble
”194, deixando transparecer o descontrole emocional do salmista. Outras palavras importantes deste campo semântico192 HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de
Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova. 1998, p.1330-1331 e HOLLADAY, William L. Léxico Hebraico e Aramaico do Antigo Testamento. Trad. Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova.
2010, p. 448
193
O verbo ~jf hostilizar, ter sentimentos hostis, é pouco utilizado no AT (Gn 27,41; 49,23; 50,15; Jó 16,9; 30,21). Cf. WANKE, G. In: JENNI, Ernst e WESTERMANN, Claus (orgs.), Diccionario Teologico
Manual Del Antiguo Testamento, Volume II, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1985, p. 1032-1035.
82 como, terrores de morte
tw<m'÷ª tAmïyaew>
(v5); medoha'är>yI
(v6);d[;r;
, tremor (v6) e, por fim, estremecimento,tWc)L'P;
(v6), expressam bem o sentimento do salmista diante da voz do inimigo,byE©Aa
e da opressão do malfeitor,[v'_r'
(v. 4a).A identidade deste inimigo, segundo Kraus195, está presente nos Salmos de orações individuais, que descrevem suas ações como: malfeitores e perseguidores. Assim, não é difícil entender que o salmista fala do inimigo,
byE©Aa
e do malfeitor,[v'_r"
, como pessoas que mentem e torcem a verdade (Sl 5.10;19.7), são negadores de Deus (Sl 14.1) e se comportam com segurança e superioridade perante sua riqueza(Sl 4.5; 35.20; 12.5). A determinação exata do inimigo, nos Salmos de Lamentação, especialmente, é bastante problemática. O substantivobyE©Aa
é uma denominação geral para todos os que agem como adversários do povo de Israel. Em Salmos 45.6, encontramos a formulação%l,M,(h; ybeîy>Aa
“inimigos do rei”, que obviamente são inimigos de Israel ou judá. Os Salmos registram dois tipos de inimigos: inimigo pessoal (Sl 3.8; 6. 11;7.6; 4.7; 13.5 e outros) e nação inimiga (Sl 18.41; 21.9; 72.9; 110.1-2 e outros). Nos salmos onde a nação é o sujeito, é normal que se trate os inimigos como as nações que fazem guerra contra o povo de Deus (Sl 2.8; 18.48; 45.6; 72.11 e outros). Porém, nos salmos individuais, a identificação dos inimigos fica mais difícil. Inimigos, também, podem, até, ser os irmãos judeus que frequentam a mesma comunidade de culto. O Salmo 55 classifica estes inimigos como:[v'_r"
, malfeitor (v.4); a cidade,ry[i
(v.10); o que odeia,anEf'
(v.13); o que profana a aliança,At*yrIB. lLeîxI
(v. 21); homens sanguinários e fraudulentos,hm'r>miWâ ~ymiäd" yveÛn>a;
(v. 24). A identificação desse grupo de pessoas revela a ação do inimigo contra o salmista, contra a comunidade e Javé.a. Expectativas (v. 7-9) 7
E disse: quem dera para mim ter asa como a pomba,
195
KRAUS, Hans-Joachim. Theology of the Psalms. Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1986, p.129-131
83 voaria e pousaria
8
Eis! para longe fugiria ficaria no deserto (sela) 9
Me apressaria em escapar do vento da calúnia e da tempestade.
Estes três versos fogem da seqüência normal de uma lamentação. Surge uma imagem diferente no verso 7 que descreve o salmista em uma “síntese peculiar de inação física e fuga imaginária”196
, o medo que mobiliza a imaginação do salmista, o faz desejar um refúgio seguro para desfazer seus traumas e angústias.
A imagem é bem composta e evoca múltiplas referências e insinuações. A pomba
hn"Ay
, apesar ser a única espécie de ave escolhida para o sacrifício, nos rituais de purificação, tem como única defesa um par de asas para voar. O desertorB'd>mi
, lugar de tensões e desolações, tem seus valores invertidos, transforma-se em local de refúgio piedoso de perseguidos (Cf. 1Rs 19). As figuras que o salmista usa de uma pomba que se apressa em escapar dos ventos da calúnia, são condizentes com a situação que ele vivencia.b. Maldição (v 10a)
10a
Confunde Senhor e divide a língua deles,
O salmista faz uso, pela primeira vez em sua queixa, do elemento mágico da maldição:
[lb
perturbar, confundir, destruir eglp
cortar, dividir, a!Avl'
língua deles (v.10a). Na ampla lista dos Salmos de Lamentação, Gerstemberger197 e Claus Westermann198, destacam três dimensões da maldição: (a) sobre o próprio sofrimento do queixoso; (b) sobre a ação dos inimigos contra o queixoso; (c) sobre a negligência divina. Evidentemente que o Salmo 55 refere-se ao segundo caso. Com dois verbos no imperativo, o salmista revela todo o seu sentimento para com os seus inimigos: primeiro, o verbo[lb
, com seus derivados, “usado para se referir a homens (Isaías 28.4), um peixe (Jn 2,1), serpentes (Ex 7,12) e animais (Gn 41.7, 24)”199.
196 SCHÖKEL, Luiz Alonso; CARNITI, Cecília. Salmos I: Salmos 1-72, p. 730 197 GERSTENBERGER, Erhard S. Psalms Part 1, p.11-13
198
WESTERMANN, Claus. The Role of the Lament in the Theology of the Old Testament. p. 27-28
84 O Aparato crítico da BHS sugere que o verbo
[lb
seja substantivado por~n"+ArG> [l;B,
, provávelmente uma alusão ao ato de engolir, devorar. Este substantivo ocorre apenas duas vezes no Antigo Testamento (Sl 52.6 e Jr 51.44)200. A Massora Parva da BHS descreve a expressãoyn"doa]â [L;äB
como única (hapax legomenon). No entanto, o verbo[lb
neste salmo, ganha mais sentido quando observado em paralelismo com palavra língua,!Avl'
, nesse caso, a tradução do verbo por confundir, ganha o sentido reminiscente dell;B'
(cf. Gn 11.7-9), na ocasião da Torre de Babel e também em outras passagens: Sl 107.27, Isaías 9.15; 193 e 28.7.201O segundo imperativo é o verbo
gL;äP;
, fender, dividir. Este é também um caso único (hapax legomenon)202 e ocorre somente no nifal e no piel203, o aparato crítico informa que o sentido do texto seja provávelmentegl,P,
, uma espécie de canal de águas construído artificialmente. O paralelismo dos verbos – confundir e dividir a língua – não encaixa bem na seqüência do pensamento, mas no contexto do salmo, o verso pode indicar o desejo do salmista em que os discursos que fluem ameaçando e destruindo, sejam confundidos. “Parece que o salmista recorre à uma inversão de funções: os canais que alegram e fecundam a cidade (cf. Sl 46.5), tornam-se perniciosos, e do mesmo modo, a língua, instrumento de convivência pacífica, converte-se em fator de divisão.”204Basicamente, o verso carrega o sentido de intervenção punitiva e julgamento de Javé, particularmente no período do exílio quando os babilônios devastaram a terra de Judá. Para Jeremias, essa destruição foi um ato punitivo de Javé sobre o povo de Judá. Se Deus puniu Judá, por que não punir os inimigos, confundindo e dividindo as difamadoras línguas dos malfeitores?
200 Idem
201 ALBRIGHT, W. F., The oracles of Balaam, JBL, 63:207-233 disponível em:
http://www.jstor.org/stable/3262320 e HENGSTENBERG, E. W., The History of Balaam and this
prophecies, in: Dissertations of the genuineness of Daniel and the integrity of Daniel. Edinburgh: Clark,
1847, p. 337-356.
202 Cf. Mp da BHS 203
DITAT, p.1214
85