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Problemas encontrados

No documento SIEGHELEN TALITA BEULKE (páginas 55-60)

4.3 Processamento de materiais médicos

4.3.9 Problemas encontrados

Diversos fatores podem comprometer a eficácia do processo ou colocar em risco os profissionais que ali trabalham. Deste o procedimento ser realizado de forma incorreta, até a existência de microrganismos resistentes aos métodos comuns (RUTALA; WEBER, 2004). Nos seguintes tópicos, será discutido alguns destes pro-blemas comumente encontrados nas Centrais de Esterilização.

4.3.9.1 Riscos físicos e humanos

O ambiente das Centrais de Esterilização é uma fonte de risco constante para os profissionais que ali trabalham. Seus riscos envolvem fatores físicos, químicos, bi-ológicos, psicológicos e ergonômicos.

Riscos físicos são calor, frio, radiação ionizante e não ionizante, ruídos, vibra-ções, alta pressão e umidade. Riscos químicos consistem em substâncias ou produtos prejudiciais à saúde nos quais podem ser inalados, ingeridos ou entrar em contato com a pele. Riscos biológicos estão ligados à exposição a microrganismos como bac-térias, vírus, protozoários, entre outros.

Por fim, riscos psicológicos e ergonômicos são fatores que podem afetar no conforto e saúde mental dos profissionais.

Há, ainda, o risco associado à manutenção, seja elétrica, eletromédica, de ar-ranjo físico inadequado, de incêndio, entre outros.

Em pesquisa a dois estabelecimentos de assistência à saúde (EAS) no estado do Maranhão, mostrou-se diversas fontes de riscos físicos, como ausência de exaus-tor e de janelas, esterilização em área compartilhada à de preparo, dimensionamento incorreto, pisos danificados, tetos removíveis e ausência de ar condicionado.

Em adição, uma das EAS analisadas possuía duas autoclaves à uma pequena distância entre si; além de a área para climatização dos pacotes e, portanto, evitar condensação após a esterilização estava incorretamente ventilada. A mesma EAS possuía exaustores, porém os mesmos estavam danificados e não funcionais.

40 Em outra pesquisa, ao analisar 44 hospitais do estado de Goiás, notou-se que apenas 10 possuíam CME centralizada, fator que aumenta o risco de infecção cru-zada.

O não respeito à normas trazem riscos nos quais comprometem não somente a saúde dos profissionais do local, que comumente se queixam de doenças, principal-mente aquelas que atingem o trato respiratório, mas também a qualidade e eficácia do processamento dos itens. O desconforto no qual altas temperaturas e falta de ven-tilação podem gerar pode, inclusive, diminuir o desempenho destes profissionais (ARARUNA; POSSO, 2014).

4.3.9.2 Reprocessamento de endoscópios

Apesar de a taxa de infecção associada com endoscópio ser baixa, de 1 a cada 1,8 milhões de procedimentos, seus números são maiores do que qualquer outro equi-pamento médico.

Endoscópios devem ser esterilizados sempre que possível e, aqueles que são termos sensíveis devem passar por desinfecção de alto-nível. Entretanto, pesquisas mostram que profissionais das CME não seguem corretamente as diretrizes para tal.

Em adição, as recomendações do fabricante e a literatura, em alguns casos, podem discordar sobre o uso de desinfetantes e esterilizantes (RUTALA; WEBER, 2004).

4.3.9.3 Agente Creutzfeldt-Jakob (CJD)

A doença de Creutzfeldt-Jakob é uma desordem neurológica invariavelmente fatal na qual acredita-se ser causada por um agente infeccioso proteico. Este apre-senta uma resistência anormal a métodos de desinfecção comuns.

Recomenda-se ter cuidado especial apenas com itens críticos e semi críticos nos quais entraram em contato com tecidos de alto risco, como cérebro, medula espi-nhal e olhos, e de pacientes com infecção conhecida ou suspeita.

Para inativá-lo, é necessário limpar o artigo, mergulhando-o em hidróxido de sódio de concentração 1M por uma hora. Em seguida, deve-se enxaguá-lo em água

41 e esterilizar com o uso de autoclave pré-vácuo à 134 ºC durante uma hora. Caso o equipamento seja de difícil limpeza, deve ser descartado.

Para evitar a contaminação do ambiente, é preciso forrar a superfície com um papel encapado, no qual deve ser descartado posteriormente. Caso haja contamina-ção, o local deve ser limpo e descontaminado com o uso de uma solução diluída de hipoclorito (RUTALA; WEBER, 2004).

4.3.9.4 Superbactérias e patógenos emergentes

A existência de microrganismos resistentes aos tratamentos comuns sempre foram motivo de preocupação, em conjunto com patógenos emergentes (RUTALA; WEBER, 2004). Com a globalização e urbanização ocorrendo no último século, o au-mento populacional e a mudança climática, tornou-se evidente a possibilidade de no-vas pandemias ocorrerem (JEDYNAK; BĄK, 2020).

Em adição ao recente SARS-COV-2, no qual possui alta taxa de transmissão, diversos patógenos como HIV, hepatite C, tuberculose multirresistente, rotavírus, HPV e micobactéria não-tuberculosa são relevantes. No geral, com exceção do vírus do papiloma humano, a maior parte destes patógenos são suscetíveis aos métodos de desinfecção e esterilização comumente utilizados. Além disso, não há comprovação de que bactérias resistentes à antibióticos são menos sensíveis à bactericidas (RUTALA; WEBER, 2004).

4.3.9.5 Laringoscópios

Um laringoscópio consiste em uma lâmina conectada à uma alça. Como a alça não entra em contato com membranas da mucosa, algumas diretrizes recomendam esterilização de baixo-nível para esta parte do equipamento. No entanto, por haver a possibilidade de estar contaminado com sangue oculto e outros microrganismos pa-tológicos, há um grande potencial para provocar infecções hospitalares. Portanto, é necessário a desinfecção de alto-nível ou esterilização de ambas as partes por um método compatível com o material (RUTALA; WEBER, 2016).

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4.3.9.6 Excesso de peso e pacotes úmidos

O excesso de peso na hora da esterilização pode diminuir a eficácia da esteri-lização por vapor e também impedir a secagem correta dos pacotes, resultando em pacotes úmidos. Além disso, o trabalho repetitivo pode ocasionar problemas de saúde para os profissionais das CME.

Pacotes úmidos, por condensação ou não, devem ser considerados contami-nados e então descartados. Além do excesso de carga, a umidade também pode ser causada por uma grande massa de metal no qual prende a água ou por falta de ma-teriais absorventes como toalhas e panos.

Para evitar este problema, há a possibilidade de fechar a carga dentro da câ-mara por 10 a 15 minutos antes de iniciar o ciclo. Esta ação irá aquecer os itens e evitar a formação de umidade. Porém, é válido apenas para quando não é relacionada a excesso de carga ou má qualidade do vapor.

Assim como discutido previamente neste trabalho, é recomendado que, após a esterilização, as embalagens não sejam tocadas para evitar a condensação. Os pa-cotes podem permanecer na câmara entreaberta e então colocados em um carrinho, no qual deve permanecer longe de correntes de ar gelado e ar condicionados (SEAVEY, 2013).

4.3.9.7 Implantes

É indicado que sempre que um implante for esterilizado, seja incluído pelo me-nos um indicador biológico e um indicador químico de classe V. Estes itens devem ser mantidos em quarentena até o resultado ser negativo. (SEAVEY, 2013).

4.3.9.8 Qualidade da água

A qualidade da água é um fator muito importante a ser considerado no repro-cessamento de itens médicos. A qualidade do vapor pode ser afetada por resíduos e impurezas remanescentes.

43 O tratamento pode ser realizado por meio de um sistema de purificação de água ou por meio de agentes químicos nos quais reagem com as impurezas presentes du-rante um processo de descontaminação.

É recomendado que água altamente purificada seja utilizada para o enxágue de itens nos quais entram em contato com a corrente sanguínea ou tecidos estéreis. E, como já foi discutido anteriormente neste trabalho, pode aumentar a vida útil dos artigos visto que evita o depósito de minerais (SEAVEY, 2013).

4.3.9.9 Bactérias que se fixam ao álcool

Apesar de não ser recomendado, pode-se verificar que é comum o uso de ál-cool para a descontaminação de itens cirúrgicos previamente ao processamento. En-tretanto, o composto possui a capacidade de ligar sangue e proteínas ao aço inoxidá-vel, podendo dificultar o posterior processo de limpeza. Este fato pode ocorrer mesmo se o sangue presente não for visível.

O uso de álcool pode facilitar a contaminação por agentes resistentes como o agente CJD e também a formação de biofilmes (COSTA et al., 2017).

4.3.9.10 Biofilmes

Biofilmes consistem em comunidades de microrganismos presentes em uma superfície. Em itens médicos, são gerados a partir do depósito de fluídos corporais. No início de sua formação, ainda são facilmente removíveis pela limpeza. No entanto, se não forem removidos a tempo, podem atingir sua forma madura a depender de fatores como temperatura, disponibilidade de nutrientes, topografia e agitação.

Em um biofilme, microrganismos estão protegidos, sendo, portanto, mais resis-tentes à agentes químicos. Já foram reportadas formações em itens como válvulas cardíacas, cateteres venosos centrais e urinários, lente de contatos, entre outros, po-dendo causar infecções recorrentes. A contaminação de endoscópios por biofilmes pode ocorrer facilmente.

O tempo é um fator muito importante para a formação de biofilmes maduros. Logo, é imprescindível que itens médicos sejam processados rapidamente, logo após o uso (ROBERTS, 2013).

No documento SIEGHELEN TALITA BEULKE (páginas 55-60)

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